OS PENSAD Dol RI S
ÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
IV
HISTÓRIA DAS GRANDES IDEIAS
DO MUNDO OCIDENTAL
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“uis Henrique dos Santos — Russell
Moore
Schlick
Carnap
Popper
“arilena de Souza Chauí Berlinck — Husserl
Merleau -
Ponty
Sartre
Heidegger
Lévi-Strauss
rablo Ruben Mariconda — Willham
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| Dewey
*aulo Eduardo Arantes — Benjamin
Horkheimer
Adorno
Habermas
-*auio Israel Singer — Keynes
Kalecki
Sraffa
Robinson
- Solpho Azzi — Skinner
- «a Maria Stefanini Macedo — Piaget
SUMÁRIO
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é.
OS PENSADORES
s filósofos norte-americanos fize-
ram alguma contribuição origi-
nal para a história da filosofia?
Essa pergunta é feita por Paul Kurtz,
um dos mais categorizados historia-
dores das idéias na América do Norte,
como questão preliminar de toda a visão
geral do pensamento no Novo Mundo.
Desenvolvendo o tema, Kurtz afirma que
nenhuma generalização pode dar conta
do problema, pois o pensamento norte-
americano tem sido pluralístico, isto é,
receptivo a uma grande variedade de
temas e movimentos, desde o purita-
nismo e idealismo dos primeiros coloni-
zadores até o naturalismo e o positi-
vismo dos séculos XIX e XX. Qualquer
fórmula que pretendesse reduzir esses
diversos elementos a uma tradição uni-
forme correria o risco de envolver
simplificação extremada.
Herbert W. Schneider, outro especia-
lista em história da filosofia norte-ame-
ricana, afirma: “Nossas mais airosas
tradições recendem a inspiração estran-
geira”. Ainda segundo Schneider, “fran-
ciscanos espanhóis, jesuítas franceses,
puritanos ingleses, pietistas holandeses,
calvinistas escoceses, philosophes cos-
mopolitas, transcendentalistas alemães,
revolucionários russos e teósofos orien-
tais, de comum acordo, contribuiram
para dotar a filosofia norte-americana
de continuidade e também provocaram-
lhe algumas sacudidelas”.
Não obstante toda essa diversidade e
flutuações ao sabor das correntes do
pensamento estrangeiro, parece haver
uma tendência constante na tradição
norte-americana, constituída pelo fato
de que todas as idéias têm do avalia-
das pragmaticamente e sua importância
determinada pela referência a possíveis
aplicações práticas.
Esse traço característico veio a se
manifestar explicitamente como dou-
trina somente a partir das últimas déca-
das do século XIX, quando se configurou
a chamada idade de ouro da filosofia
norte-americana. O periodo, iniciado por
volta de 1880, viu nascer um profundo e
Na página anterior: retrato do
filósofo William James; óleo de
E. E. Rand. (Bettmann Archive, Inc.)
186
criativo interesse pela filosofia que con-
tinua ativo no século XX, acompanhando
a projeção internacional dos Estados
Unidos nos domínios econômico e politi-
co. Surgiram então os maiores represen-
tantes da filosofia norte-americana,
entre os quais as duas mais conhecidas
expressões da tendência pragmatista
foram William James e John Dewey.
Uma família de intelectuais
William James nasceu a 11 de janeiro
de 1842, em Nova York, filho de Ienry
James, sênior, e Mary Robertson Walsh.
A família era muito rica e vivia numa
atmosfera altamente intelectual. O pai
fazia parte do grupo dos transcendenta-
listas, formado por Ralph Waldo Emer-
son (1803-1889), Henry David Thoreau
(1817-1862), William Ellery Channing
(1780-1842) e Theodore Parker
(1810-1860). Os transcendentalistas
reagiram contra o pessimismo e morbi-
dez do calvinismo. Acreditavam na bon-
dade natural do homem e em suas possi-
bilidades de alcançar o conhecimento de
Deus e de praticar as virtudes morais,
independentemente da graça divina. Re-
Jeitavam, contudo, a possibilidade de
uma religião puramente racionalista, à
maneira dos deistas do século XVIII. Os
transcendentalistas eram poetas e misti-
cos que acreditavam na verdade atingida
ela intuição subjetiva. Esposando um
idealismo moral, desejavam libertar os
individuos da cega adesão às convenções
e normas sociais. Thoreau, por exemplo,
sustentava a liberdade individual de
consciência, a ponto de considerar a
desobediência civil como a mais alta
obrigação do indivíduo, se a sociedade
interferisse em suas profundas convic-
ções pessoais. Os transcendentalistas
foram ainda progressistas politica-
mente, defendendo os direitos naturais,
a igualdade social e a abolição da
escravatura.
A família de Henry James, sênior, foi
assim criada dentro de uma atmosfera
de idéias que propiciavam o floresci-
mento intelectual livre de preconceitos e
permitiam a expansão da criatividade
interior e da reflexão filosófica. A
criatividade interior manifestou-se com
toda força no filho mais novo, o famoso
capas,
JAMES
Ae EM drro
Para muitos historiadores, a filosofia pragmatista liga-se intimamente às
características da soctedade norte-americana. Segundo esses intérpretes, a
burguesia nos Estados Unidos sempre foi muito mais ativa e realista do que a
burguesia européia, eo pragmatismo expressaria esse traço no plano das
idéias. (Max Klepper: “Passeio de Carruagem pela Quinta Avenida”, 1900.)
novelista Henry James, júnior, que reno-
vou técnicas tradicionais de narrativa e
se tornou um dos maiores romancistas
dos fins do século XIX e começo do sécu-
lo XX. A reflexão filosófica, aliada ao
espírito cientifico, teve sua expressão no
filho mais velho, William James.
A educação de William James fez-se
de maneira irregular. Frequentou, dos
treze aos dezoito anos de idade, diversas
escolas na Inglaterra, Suiça, França e
Alemanha. Em 1861, ingressou na Uni-
versidade de Harvard: estudando ini-
cialmente quimica e depois anatomia e
fisiologia. Em 1864 começou a estudar
medicina e no ano seguinte, na quali-
dade de assistente do naturalista Louis
Agassiz (1807-1873), acompanhou-o
numa famosa expedição científica à flo-
resta amazônica (Brasil), onde contraiu
varíola e teve afetada sua sensibilidade
visual.
Uma nova psicologia
Em 1867, William James encontrava-
se na Alemanha, estudando fisiologia
experimental. Da Alemanha deslocou-se
para Cambridge, para graduar- se em
medicina, e em 1873 iniciou a carreira
de professor universitário, lecionando
anatomia e fisiologia em Harvard. A
partir dessa época deu inicio à linha de
desenvolvimento inovadora que o levaria
à formulação da filosofia pragmatista.
Sua primeira contribuição foi a cons-
tituição de uma nova corrente de psico-
logia que, ao lado de outras, marcaria o
nascimento da psicologia científica. Até
então, o estudo dos fenômenos psíquicos
constituia uma disciplina de caráter
metafísico, ocupada com a essência últi-
ma do homem, isto é, com a alma, enten-
dida como algo substancial. William
James foi o primeiro norte-americano a
organizar um laboratório de psicologia
experimental, muito embora ele mesmo
não se sentisse capacitado para o traba-
lho experimental. Apesar disso, defendia
o estudo dos fatos psíquicos como inti-
mamente relacionados “com os fatos
estabelecidos pela fisiologia nervosa”. A
estes dever-se-iam aliar a teoria da evo-
lução biológica e os dados fornecidos
7187
FABBRI
OS PENSADORES
O pai de William James foi um teólogo da corrente do místico sueco
Sweden perdi
ao mesmo tempo, esposava idéias políticas
liberais por considerar a democracia como um regime ita possibilita o
aperfeiçoamento moral do homem. (Fotografia do sécu
XIX mostra, à
esquerda, Henry James sênior e, à direita, William James aos 26 anos.)
pela arqueologia, para que se pudesse
alcançar “uma verdadeira ciência do
homem”. Ao mesmo tempo, William
James exigia que se aliasse ao espírito
cientifico-natural “uma familiaridade
concomitante com escritores de estilo
mais mtrospectivo”, a fim de preservar o
investigador de “certas cruezas de ra-
ciocínio, tão comuns no homem de labo-
ratório puro e simples”
Esse projeto metodológico de constru-
ção de uma nova psicologia levou Wil-
liam James a algumas contribuições
fundamentais no domínio dessa disci-
plina. Entre as principais, encontram-se
seu célebre conceito de “fluxo de cons-
ciência” e sua teoria das emoções.
James defendeu a idéia de que a cons-
ciência não constitui uma estrutura fixa,
possuidora de certas faculdades: seria,
ao contrário, um fluxo permanente, isto
é, um processo dinâmico que se organiza
em vista de um fim. Sua teoria das emo-
ções — formulada também, independen-
temente, pelo fisiologista dinamarquês
Carl Lange (1834-1900) — afirma que
188
as emoções não são mais que um produ-
to da reverberação de certas modifica-
ções fisiológicas. Assim, de acordo com
a teoria James-Lange, não teria sentido
dizer-se, por exemplo. “perdemos nossa
fortuna. ficamos tristes e choramos”:
não se chora porque se fica triste, pois
chorar e entristecer-se constituem uma
só coisa.
A verdade e a vida
O método cientifico de James não se
limitou ao estudo dos fatos fisiológicos e
psíquicos. Pouco depois de ter passado
para a cadeira de psicologia da Univer-
sidade de Harvard, James orientou seu
empirismo experimental. isto é, sua
combinação de evolução, psicologia e
introspecção, para as próprias crenças
filosóficas.
Essa nova orientação dos estudos de
James vinculava-se em parte, aos pro-
blemas filosóficos levantados pelos
membros da Sociedade Metafísica de
Cambridge, entre os quais figuravam o
BETTMANN ARCHIVE INC
JAMES
BETTMANN ARCHIVE INC
A família de William James sempre viveu numa atmosfera intelectual. O pai
escreveu vários ensaios filosóficos e religiosos e o irmão mais moço, Henry
James Jr., foi um dos maiores escritores da época. Seus romances e novelas
caracterizam-se por inovações na técnica narrativa, posteriormente
desenvolvidas pelos ficcionistas do século XX. (Retrato de Henry James Jr.)
7189
OS PENSADORES
Na passugem dos séculos XIX e XX, a sociedade norte-americana deixou de ser
predominantemente agrária para transformar-se numa sociedade tipicamente
urbana. Em 1910, quase 50% da população havia se transferido do campo para os
grandes centros urbanos, acompanhando o surto industrial. (Nova York, Quinta
Avenida, vista da Rua 43; fotografia de 1916 da New York Historical Society.)
190
FABBRI
JAMES
TqA
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0/5717 Les ec de Pros) O nan
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ba Zy WS a — Ba
Ao lado do interesse científico despertado muito cedo, William James
entusiasmou-se com as artes plásticas, na adplescência. Aos dezoito anos de
idade, deixou a casa paterna a fim de estudar pintura com William M. Hunt, em
Newport. À experiência não teve resultados positivos e um ano depois o futuro
filósofo voltou aos estudos científicos. (Carta de William James, de 1861.)
róprio James, Chaunce Wright
(1830-1875), John Fiske (1842-1901) e
Charles Sanders Peirce (1839-1914).
Tentando resolver complexas questões
de teoria do conhecimento, esse grupo
lançou as bases do que viria a ser a file
sofia pragmatista. Entre eles salientou-
se Peirce, em geral considerado o verda-
deiro criador do pragmatismo.
Para Peirce, o pragmatismo é funda-
mentalmente um método de esclareci-
mento de conceitos; em outras palavras,
trata-se de uma teoria da significação e
situa-se nos terrenos da lógica. Em
James, o pragmatismo é muito mais
amplo e transformou-se a tal ponto que
os dois filósofos romperiam relações e
Peirce passaria a designar suas teorias
pela expressão “pragmaticismo”.
Willam James entende o pragma-
tismo não apenas como um método de
determinação de significados, mas tam-
bém como uma nova teoria da verdade,
que supunha estivesse implícita nas
idéias de Peirce. O primeiro escrito no
qual William James sistematizou suas
idéias e introduziu o termo pragmatismo
para designar a doutrina foi o ensaio
Concepções Filosóficas e Resultados
Práticos (1898). Nesse trabalho declara
que o princípio do pragmatismo deveria
ser tomado em sentido muito mais
amplo do que o formulado por Peirce.
“A prova última do que significa uma
verdade”, .escreve, “é, sem dúvida, a
conduta que essa mesma verdade dita ou
inspira. Mas inspira semelhante conduta
porque, sobretudo, prediz uma certa
orientação particular de nossa experiên-
cia, que extrairá de nós tal conduta.”
191
FABBRI
OS PENSADORES
Quando William James faleceu, em 1910, seu irmão Henry James declarou:
“Sinto-me pesadamente ferido e no escuro, pois, de muito atrás, da mais
recôndita infância, ele havia sido meu ideal irmão mais velho (.. .) via nele
(...)omeu protetor, meu amparo, meu chefe e meu orgulho”. (Os dois James
em fotografia de 1900, o novelista à esquerda e o filósofo à direita.)
Essa idéia reafirma uma tese anterior de
James que se encontra no escrito A Von-
tade de Crer (1897), no qual defende
“métodos empíricos” para a filosofia,
contra os “métodos absolutistas e aprio-
ristas” cujo principal representante
seria o filósofo Hegel (1770-1831).
Segundo James, a filosofia deveria imi-
tar os procedimentos das ciências natu-
rais e ser indutiva e empírica como elas:
para atingir esse objetivo, o filósofo
deveria adotar hipóteses de trabalho e
substituí-las quando necessário. O crité-
rio de manutenção ou substituição das
hipóteses seria a capacidade das mes-
mas para satisfazer o filósofo na solução
do problema em questão. Em outros ter-
mos, James defende as hipóteses filosó-
ficas na medida em que possam “funcio-
nar” e não por serem “verdadeiras”. A
192
verdade, portanto, deixa de ser conce-
bida como adequação entre o pensa-
mento e o pensado, a mente e a realidade
exterior, ou então como coerência de
idéias entre si, para tornar-se funcional.
Nessa ordem de idéias, uma proposição
é considerada verdadeira na medida em
que possa orientar o homem na reali-
dade circundante e conduzi-lo de uma
experiência até outra. À verdade — para
James — não é algo meios e permanente:
pelo contrário, modifica-se e expande-
se sempre.
Nesse processo de modificações e
crescimento, a verdade deve satisfazer a
duas condições diferentes. Em primeiro
lugar, o pragmatismo de James salienta
a necessidade de as proposições exigi-
rem comprovação para serem admitidas
como verdadeiras. Nesse sentido, a ver-
JAMES
Apesar de não se ter tornado grande pintor como desejara, William James
aproveitou os estudos de pintura que fez na adolescência. Durante toda a sua
carreira científica e filosófica, sempre Pa capaz de ver o
aspecto estético das coisas e seus escritos revelam constante preocupação
estilística. (Auto-retrato a lápis, executado por William James em 1866.)
dade seria a verificabilidade:; caso em
que não se poderia identificar a verdade
pura e simplesmente com as conse-
quências benéficas de uma proposição.
Em outras palavras, essa primeira con-
dição da verdade, estabelecida pelo
pragmatismo, entende ““consequência
prática” como um modo de “conse-
úência teórica”. A segunda condição
estabelecida por James para a identifi-
cação de uma verdade consiste no seu
valor para a vida concreta. Esses dois
modos de conceber a verdade unem-se na
concepção da verdade como algo essen-
cialmente “aberto” e em constante movi-
mento. Em sintese, para William James,
a verdade não é algo feito ou dado; é
algo que “se faz” dentro de uma totali-
dade também em constante processo de
“fazer-se”
Essa concepção de verdade foi am-
pliada por William James, de modo a
abranger não apenas a esfera das ciên-
cias, mas também o terreno da moral e
da religião. Para James, a crença reli-
giosa pode ter tanto valor de verdade
quanto o conhecimento científico. Em
sintese, sua teoria afirma que uma cren-
ca deve ser considerada verdadeira,
desde que possa satisfazer o desejo de
compr censão global das coisas e consti-
tuir um bem vital para, determinado
individuo. A crença, porém, deve ser
viva, indispensável e inevitável.
O próprio William James sentiu-a
como indispensável em várias crises mo-
rais e físicas que experimentou durante
a vida, particularmente depois de 1870,
pouco antes de se tornar professor na
Universidade de Harvard. Ai, James
193
FABBRI
OS PENSADORES
permaneceria até 1907, ocupando suces-
sivamente as cadeiras de anatomia,
fisiologia, psicologia e filosofia. Além
do ensino, dedicou-se à redação de inú-
meras obras, até o fim da vida, em 1910.
Entre seus principais livros, encontram-
se: Princípios de Psicologia (1855), As
Variedades da Experiência Religiosa
(1902), Pragmatismo:" Um *Nome Novo
ara alguns Velhos Modos de Pensar
(1907), O Significado da Verdade: Uma
Continuação do Pragmatismo (1909),
Um Universo Pluralístico (1909), Al-
guns Problemas de Filosofia (1911) e
Ensaios sobre o Empirismo Radical
(1912).
18422 — 4 Il de janeiro,
nasce William James, na ci-
dade de Nova York.
1843 — Nasce o romancis-
ta Henry James.
1848 — Marx e Engels lan-
çam o Manifesto do Partido
Comunista.
1859 — Darwin publica 4
Origem das Espécies por
Meio da Seleção Natural.
1860 — Lincoln obtém
maioria nas eleições presi-
denciais. presidenciais.
1863 — É proclamada, por
Lincoln, a emancipação dos
escravos.
1865 — Lincoln é assassi-
nado em abril.
CRONOLOGIA
1873 — William James tor-
na-se professor da cadeira
de fisiologia de Harvard.
1875 — Henry James redi-
ge o romance O Americano.
1876 — Publicam-se As
Aventuras de Tom Sawyer,
de Mark Twain. Wilhelm
Wundt cria o primeiro labo-
ratório de psicologia experi-
mental em Leipzig, na Ale-
manha.
1878 — Peirce, figura cen-
tral do pragmatismo ameri-
cano, publica How to Make
our Ideas Clear na revista
Popular Science Monthly.
William James casa-se com
Alice H. Gibbens.
BIBLIOGRAFIA
1879 — James torna-se pro-
fessor de filosofia na Uni-
versidade de Harvard.
1890 — Publica Os Princi-
pios de Psicologia.
1897 — Publica A Vontade
de Crer.
1902 — Editam-se As Va-
riedades de Experiência Re-
ligiosa, de William James.
1907 — William James pu-
blica Pragmatismo: Um No-
vo Nome para Velhos Mo-
dos de Pensar.
1909 — Publica Um Uni-
verso Pluralístico.
1910 — Morre em Choco-
rua, New Hampshire, a 26
de agosto.
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794
OS PENSADORES
oucos filósofos terão sido tão
P influentes junto ao grande público
quanto John Dewey. Suas idéias
implantaram-se firmemente no solo da
pda norte-americana, estendendo-se
também para quase todo o mundo. A
chamada aa nova” de pedagogia
deve a John Dewey parte essencial de
seus fundamentos teóricos.
Dewey nasceu em Burlington, Ver-
mont, a 20 de outubro de 1859. Depois
de cursar as escolas primária e secun-
dária de sua cidade, ingressou na
Universidade de Vermont, onde se inte-
ressou, sobretudo, pela filosofia e pelo
pensamento social e graduou-se em
1879. Dois anos depois, ingressou na
Universidade John Hopkins, recém-
fundada e centro de grande efervescência
intelectual. Ali Dewey doutorou-se com
tese sobre a psicologia de Kant, em
1884. Em seguida passou a trabalhar na
Universidade de Michigan, onde perma-
neceria dez anos. Em Michigan, indis-
ôs-se cada vez mais com a pura especu-
ação e procurou novas vias que
situassem o pensamento filosófico mais
próximo dos problemas práticos.
Essa orientação de seu pensamento
tornou-se ainda mais sensível e produziu
os primeiros frutos na Universidade de
Chicago, para a qual se transferiu em
1894. Em Chicago, Dewey participou
ativamente dos trabalhos da Hull
House, onde teve oportunidade de co-
nhecer diretamente os problemas sociais
e econômicos causados pela urbaniza-
ção, pelo rápido progresso tecnológico e
pelo crescente afluxo de imigrantes;
assim teve amplo contato com operários,
sindicatos, Rolnieds de esquerda e radi-
cais de diferentes orientações. Por outro
lado, suas atividades na própria univer-
sidade levaram-no a reunir um grupo de
amigos preocupados com problemas
filosóficos; disso resultou a publicação,
em 1903, de uma obra coletiva, intitu-
lada Teoria Lógica, na qual se encon-
tram trabalhos de todos os membros do
grupo. Mas de maior ressonância foi a
criação da Escola Elementar da Univer-
Na página anterior: retrato do
flósari e educador John Dewey, tela
de E. B. Child (Bettmanh Archive)
796
sidade (também conhecida como Esco-
la-Laboratório), a primeira escola expe-
rimental da história da educação.
Dirigindo essa instituição e escrevendo
incessantemente sobre teoria educacio-
nal, Dewey tornou-se um dos maiores
nomes de toda a pedagogia.
Entre os principais escritos de Dewey,
datam dessa época 4 Escola e a Socie-
dade e A Criança e o Curriculum.
Em 1904, Dewey deixou Chicago,
transferindo-se para Colúmbia, em vir-
tude de conflitos com a direção da
universidade, relativos à escola experi-
mental. Já era, contudo, um educador
reputado em todo o país e o período
seguinte de sua vida seria marcado pela
difusão internacional de suas idéias
pedagógicas e filosóficas. Essa difusão
se fez, sobretudo, através dos alunos de
todos os paises do mundo que se diri-
giam ao Teachers College da Universi-
dade de Colúmbia, a fim de conhecer
seus métodos pedagógicos. Por outro
lado, Dewey também difundiu suas |
idéias, proferindo conferências e cursos
em Tóquio, Pequim, Nanquim, México,
Rússia e Turquia.
Em 1930, Dewey deixou a Universi-
dade de Colúmbia. Continuou, porém,
trabalhando intensamente, sobretudo na
redação de inúmeros escritos. Ao lado
da atividade teórica, manteve intensa
vida pública, sempre defendendo causas
progressistas. Em 1937, presidiu a
comissão pública que deveria investigar
a veracidade das acusações contra o
líder comunista Leon Trotsky, con-
cluindo por sua inocência. Em 1941, já
com 82 anos de idade, revoltou-se contra
a proibição de Bertrand Russell
(1872-1970) lecionar no City College de
Nova York.
Pensamento e ação
Ao falecer, em 1952, com 92 anos de
idade, Dewey deixou extensa obra na
qual se destacam: Psicologia (1887),
Meu Credo Pedagógico (1897), Como
Pensamos (1910), Democracia e Educa-
ção (1916), Reconstrução em Filosofia
(1920), Natureza Humana e Conduta
(1925), Experiência e Natureza (1925),
Arte enquanto Experiência (1937) e Teo-
ria da Investigação (1938).
DEWEY
O centro de todo o pensamento de
Dewey é a concepção que ele mesmo
chamou “instrumentalismo”, para dife-
renciar-se dos pragmatismos de Peirce €
William James, dos quais partira. Da
mesma forma que James, Dewey opôs-se
às tradicionais teorias sobre a verdade
que a consideram como correspondência
entre pensamento e pensado ou coerên-
cia das idéias entre si; afastou-se, contu-
do, de James, rejeitando sua visão subje-
tivista do problema da verdade e sua
justificação da crença religiosa. Com
relação a Peirce, Dewey achava seu
pragmatismo por demais restrito e pre-
tendia ampliar seu campo de ação. Ape-
sar dessa discordância, o ponto de parti-
da de Dewey foi também uma crítica das
filosofias especulativas. Os sistemas
idealistas e abstratos — pensava Dewey
— teriam buscado em vão encontrar a
unidade entre os fragmentos de um uni-
verso que o próprio pensamento especu-
lativo dividiu.
As dualidades matéria-espírito, exte-
rior-interior, pensado-pensamento cons-
tituem falsos problemas para Dewey.
Todos esses falsos problemas decorre-
riam de considerar-se a consciência
como contemplação. A tal modo de con-
ceber a consciência, Dewey opõe seu
“instrumentalismo” ou “funcionalismo”.
segundo o qual o conhecimento não é
mais do que atividade dirigida e parte
funcional da experiência. O pensamento
— diz Dewey — não tem fim em si
mesmo, é uma fase da vida, um aconteci-
mento que se produz num ser vivo, em
certas condições configuradoras de uma
situação de conflito para o homem. O
pensamento seria o esforço para recons-
truir a atividade do individuo e colocá-lo
-em condições de se adaptar à nova situa-
ção. Nesse sentido, as idéias funciona-
riam como hipóteses de ação referentes
exclusivamente ao futuro e verdadeiras
na medida em que pudessem funcionar
como guias para a ação. Assim, diz
Dewey que a racionalidade da natureza,
afirmada pelos cientistas naturais, não
constitui um postulado teórico, mas uma
FABBRI
Para Dewey, unir modéstia e coragem crença que propicia à atividade inteli-
na defesa das próprias idéias é o Ra a possibilidade de intervir nos
único caminho pelo qual “o filósofo enômenos, modificando-os na medida
pode encarar seus semelhantes, de do necessário. Assim, o instrumenta-
frente, com franqueza e humanidade”. lismo concebe a atividade inteligente
7197
OS PENSADORES
A modéstia, exaltada por Dewey como virtude filosófica, levou-o a afastar-se
das filosofias que pretendem a descoberta de verdades eternas e dedicar-se
à formulação de uma pedagogia que procura valorizar a liberdade e a
criatividade infantis. (Crianças trabalhando na Escola-Laboratório de Dewey;
foto do livro The History of the Laboratory Schools, de Ida B. de Pensier.)
não como algo que lhe vem de fora, mas
como produto da “natureza que realiza
suas próprias forças em busca de uma
produção mais plena e mais rica em
acontecimentos”.
Da mesma forma que a atividade inte-
ligente nas ciências naturais, a atividade
moral do homem não é concebida pelo
instrumentalismo como dirigida por
uma prévia “idéia do bem”. A ação
moral — afirma Dewey — é conduzida
por três princípios de origens distintas:
o bem, concebido como fim, a regra do
dever e a apreciação do outro. À necessi-
dade de conciliar esses três princípios
198
(que são fundamentalmente diferentes) é
que originaria os problemas morais.
Com o instrumentalismo, Dewey pre-
tendeu contribuir para o restabeleci-
mento de uma unidade espiritual que o
pensamento contemporâneo teria des-
truido. Para Dewey, o pensamento con-
temporâneo | estabeleceu dicotomias
entre o ideal e o real, entre o espirito e a
natureza, e essas dicotomias manifes-
tam-se claramente nas especializações
irredutíveis do matemático e do historia-
dor, dos humanistas e dos engenheiros.
A pedagogia tradicional teria mantido
essa oposição, formando, de um lado,
DEWEY
FABBRI
À coragem, outra virtude filosófica exaltada por John Dewey, levou-o a
ga as causas da liberdade universitária, do socialismo econômico, da
emocracia política e da integração racial. Em seu pensamento, tudo isso
depende da transformação do homem desde os seus primeiros anos. (Tela de P.
Evergood: “O Futuro Pertence a Eles”; Coleção W. van den Henvel, Nova York.)
499
OS PENSADORES
homens de ação, nos quais o pensamento
é sacrifidado, e de outro os contempla-
tivos, voltados exclusivamente para o
pensamento abstrato. Dewey não pre-
tende subordinar um pólo dessas oposi-
ções ao outro, o pensamento à ação: pelo
contrário, procura mostrar que o pensa-
mento é uma fase indispensável da ação,
quando esta é complexa e progressiva.
Desse modo, seu pragmatismo instru-
mentalista procura reabilitar a pensa-
mento e não sacrificá-lo, mas sua con-
cepção do pensamento leva-o a inverter
os graus de inteligibilidade: o mais alto
nível de inteligibilidade seria consti-
tuído pelas ciências humanas e não pelas
matemáticas. Para Dewey, a história e
as demais ciências humanas tratam com
objetos mais fáceis de serem compreen-
didos porque eles são criados pelo pró-
prio espírito em atividade incessante,
tanto na natureza quanto na sociedade.
18589 — Nasce John De-
wey, em Burlington, a 20 de
outubro.
1884 — Dewey leciona na
Universidade de Michigan,
onde permanece até 1894.
Nesse período edita um se-
manário socialista, Thought
News.
1894 — Dewey torna-se
chefe do departamento de
psicologia, pedagogia e filo-
sofia da Universidade de
Chicago.
1896 Cria a Escola-La-
boratório, primeira institui-
ção de pedagogia experi-
mental da história.
1899 — Publica A Escola e
a Sociedade.
CRONOLOGIA
1904 — Passa a trabalhar
na Universidade de Colúm-
bia, onde permanecerá até
1930. Em Colúmbia começa
a colaborar na revista The
Journal of Philosophy.
1914 — O assassínio do ar-
quiduque austríaco Francis-
co Ferdinando desencadeia
a Primeira Guerra Mundial.
1916 — Dewey publica De-
mocracia e Educação.
1918 — Fim da Primeira
Guerra Mundial.
1919 — Dewey pronuncia
conferências sobre educação
e filosofia em Pequim.
1920 — Edita-se a Recons-
trução em Filosofia, de John
Dewevy.
BIBLIOGRAFIA
1925 — Dewey publica Ex-
periência e Natureza.
1929 — A Bolsa de Nova
York registra violento decli-
nio nas cotações: é O início
da grande crise econômica
americana e mundial.
1937 — Dewey preside a
comissão de investigação
das acusações contra
Trotsky.
1940 — Publicam-se os
Problemas dos Homens e
Lógica, a Teoria da Investi-
gação, de Dewey.
1941 — Dewey defende a li-
berdade universitária, quan-
do Russell é impedido de le-
cionar em Nova York.
1952 — John Dewey falece.
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800
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OS PENSADORES
Thorstein Bunde Veblen nasceu no
Estado de Wisconsm em 1857.
Criança ainda, mudou-se com a família
para uma comunidade rural em Minne-
sota, onde predominavam a língua, a
religião e os costumes escandinavos.
Apesar de sua origem humilde, fre-
quentou algumas das melhores universi-
dades americanas. Esteve no Carleton
College e na Universidade John Hop-
kins, onde se graduou em filosofia. Em
Yale doutorou-se em filosofia e na
Universidade de Cornell estudou econo-
mia. Recém-formado, foi para a Univer-
sidade de Chicago, como instrutor na
cadeira de economia, passando a profes-
sor assistente em 1900. Pediu demissão
em 1906, depois de ter realizado as pes-
“quisas mais importantes de sua vida
acadêmica. Já nessa época era conside-
rado um pensador herético, visto com
desconfiança e suspeita por seus colegas
acadêmicos.
Ainda em 1906, foi, como professor
associado, para a Universidade de Stan-
ford, passando em 1911 para a Universi-
dade de Missouri, como professor titu-
lar. Em 1919, transferiu-se para a New
School for Social Research, onde perma-
neceu até 1927. Ao lado das atividades
como professor, Veblen escreveu inúme-
ras obras, a mais famosa das quais inti-
tula-se 4 Teoria da Classe Ociosa, publi-
cada em 1899. A esse livro seguiram-se,
entre os mais importantes: Teoria da
Empresa (1904), O Status Bárbaro da
Mulher (1914), A Alemanha Imperial e
a Revolução Industrial (1915), Uma
Investigação sobre a Natureza da Paz
(1917), O Ensino Superior na América
(1919) e O Lugar da Ciência na Civiliza-
ção Moderna (1919).
F lho de imigrantes noruegueses,
A crítica do capitalismo
A vocação de Veblen para a filosofia
definiu-se numa época profundamente
marcada pelos debates científicos e
teológicos, que cercaram o apareci-
mento das doutrinas evolucionistas, em
particular a de Herbert Spencer.
Na página anterior: retrato do
sociólogo e pensador Thorstein Bunde
Veblen. (Betim Archive Inc.)
802
Aluno do Carleton College, Veblen
dedicou-se ao estudo das idéias de Spen-
cer e, a seguir, dos filósofos do século
XVIII, sobretudo David Hume
(1711-1776) e Kant (1724-1804).
Da mesma maneira, sua formação em
economia sofreu o impacto das idéias de
seu tempo. Veblen fez-se economista
num período em que a ordem capitalista
era submetida à crítica radical pelas
tendências igualitárias e socialistas de
todos os matizes. A ênfase nos antago-
nismos de classe, a condenação do
monopólio e do poder econômico, os ata-
ques aos partidos e políticos corruptos,
a denúncia das universidades, igrejas e
jornais, considerados instrumentos de
interesses econômicos, esses eram os
andes temas que dividiam os meios
intelectuais na Europa e nos Estados
Unidos, nas três últimas décadas do sé-
culo XIX.
Nessas circunstâncias, a teoria econô-
mica clássica não exerceu atração espe-
cial sobre Veblen. Ele a considerava uma
pseudociência social, pouco mais do que
uma apologia da ordem dominante.
Tampouco o marxismo lhe parecia uma
alternativa teórica válida. Kantiano por
formação, a dialética hegeliana — em
sua forma original ou na versão materia-
lista de Marx — não o estusiasmava. Em
sua opinião, a antitese capitalista-prole-
tários, definida por Marx (segundo
Veblen) em termos puramente econômi-
cos, ignorando as dimensões socioló-
gicas e psicológicas das duas classes,
era excessivamente simplista e abstrata
ps ser de alguma utilidade. Assim Ve-
len terminou por definir um caminho
eminentemente pessoal de crítica à
ordem econômica dominante na época.
Em suas análises buscou reconstruir
uma sequência histórica evolutiva, que
iluminasse as principais características
do objeto de sua crítica: o sistema eco-
nômico moderno. A história da humani-
dade ter-se-ia caracterizado sempre pelo
conflito entre forças predatórias e cons-
trutivas, inerentes aos seres humanos.
Esse antagonismo, sempre presente, mu-
daria. apenas de forma em cada época
histórica, na medida em que a força
bruta e a fraude sem rebuços iam dando
ada a uma atitude predatória coberta
pelo manto da legitimidade ética e da
VEBLEN
Veblen foi um pensador extremamente independente, sempre em conflito com as
autoridades universitárias. Suas profundas análises do mundo contemporáneo
são, ao mesmo tempo, críticas impiedosas do sistema empresarial capitalista,
do nacionalismo e da religião. Na New School for Social Research, onde Veblen
lecionou, encontra-se o afresco de Th. Benton “Atividades Citadinas e Metrô”.
suposta representação dos interesses
gerais. A crescente sofisticação da ativi-
dade predatória dos homens seria o
resultado da capacidade acrescida do
sistema produtivo de gerar um exce-
dente de proporções consideráveis. A
magnitude do excedente, por sua vez,
dependeria do nível de desenvolvimento
das atividades industriais, resultado da
ação das tendências construtivas. Assim
o pirata do século XVI teria se transfor-
mado no homem de negócios do capita-
lismo moderno: o barão ladrão do
mundo medieval teria assumido as fei-
ções de um respeitável magnata finan-
ceiro. Desse modo, enquanto a economia
clássica considerava o lucro como a fun-
ção da organização eficiente dos fatores
produtivos e, para os marxistas, ele
nada mais era do que trabalho humano
não remunerado, Veblen via nele o fruto
de uma técnica industrial versátil, de-
senvolvida graças à ciência moderna. O
capitalismo competitivo — que Veblen
preferia chamar de sistema de preços ou
economia pecuniária — era um momento
desse processo movido pela contradição
entre tendências construtivas e predató-
rias. E, segundo Veblen, estava desti-
nado a desaparecer em alguns anos, cor-
roido pelas crises, que se repetiam com
intensidade crescente, revelando uma
falta de ajustamento inerente àquele sis-
tema. Entretanto, se o diagnóstico era
preciso, a previsão sobre a naturéza da
organização econômica que deveria Su-
ceder ao sistema de preços demorou a
ser explicitada por Veblen. Somente em
seus últimos escritos esboçou as linhas
gerais de um sistema no qual a produção
e distribuição estariam sob controle dos
engenheiros, categoria ocupacional onde
se incluiam todas as funções técnicas
vinculadas à produção.
Apesar de sua erudição prodigiosa e
da profusão de idéias originais contidas
em seus trabalhos, Veblen não obteve o
reconhecimento de seus contemporá-
803
FABBRI
OS PENSADORES
neos. Poucos foram seus leitores e anda
mais escassos os seguidores que teve em
vida. Suas idéias causavam perplexi-
dade entre seus colegas economistas e
não faziam parte dos temas de debate
correntes nos meios acadêmicos.
Falecido a 3 de agosto de 1929, não
presenciou a crise que havia previsto
com grande antecedência e que, aba-
lando profundamente o mundo capita-
lista, arrastaria a doutrina economista
clássica ao colapso e daria nova atuali-
dade a sua obra. De seus últimos traba-
lhos saíram as idéias mestras que ani-
maram a Tecnocracia, movimento
nascido sob o impacto da grande depres-
são, apoiado em núcleos organizados
nas universidades. Seu objetivo era
implementar um novo modelo de organi-
zação, econômica e social, baseada no
planejamento e dirigida pelos engenhei-
ros, em substituição aos falidos meca-
nismos de mercado da era do libera-
lismo. Da mesma forma, encontra-se a
marca de Veblen nos programas de
planificação e recuperação econômicas
que caracterizaram a política do New
Deal de Roosevelt.
1857 — Nasce Thorstein
Bunde Veblen, a 30 de ju-
lho, numa fazenda em Ma-
nitowoc County, Wisconsin.
1880 — Veblen forma-se
em Carleton College ,e
transfere-se para a Universi-
dade John Hopkins.
1881 — Veblen recebe o
título de Doutor em Filoso-
fia pela Universidade de Ya-
le. James Abraham Garfield
é eleito presidente dos Esta-
dos Unidos em março; em
Julho sofre um atentado e fa-
lece em setembro.
1892- Veblen leciona na
CRONOLOGIA
Universidade de Chicago,
onde permanece até 1906.
Thomas Edson inventa o
cinetoscópio.
1899 — Veblen publica
sua mais conhecida obra, A
Teoria da Classe Ociosa.
1906 — Veblen leciona na
Universidade de Stanford.
Upton Sinclair publica 4
Floresta.
1911 — Veblen transfere-
se para a Universidade de
Missouri.
1919 — Veblen publica O
Lugar da Ciência na Civili-
zação Moderna e passa a
BIBLIOGRAFIA
trabalhar na New School for
Social Research, onde per-
manece por sete anos.
1927 — Veblen deixa o
trabalho universitário e pas-
sa a viver solitariamente.
1929 — Veblen falece nas
proximidades de Menlo
Park, Califórnia, a 3 de
agosto. Herbert Hoover é
eleito presidente dos Esta-
dos Unidos. Começa uma
grande crise econômica
mundial com o “crack” da
Bolsa de Nova York. O líder
comunista Leon Trotsky é
exilado.
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804
MR ARLAI IRA LIDA NO TUR CLEL TAM IUGIULANNS
mam ga e oa a q
OS PENSADORES
dia a converter-se na chave de
explicação da teoria do conhecimento e
da lógica, retirando essas disciplinas do
campo da filosofia. Contra essa orienta-
ção opôs-se o pensador Edmund Husserl,
formulando o método fenomenológico e
dando origem a um movimento, em torno
do qual gravitaria considerável parcela
da filosofia do século XX, cujas influên-
cias se estenderam a todas as áreas das
ciências humanas.
Husserl nasceu a 8 de abril de 1859,
na cidade de Prossnitz, Morávia, então
pertencente ao Império Austro-Húngaro.
Depois de estudar nas universidades de
Leipzig, Berlim e Viena, iniciou sua car-
reira como professor na Universidade de
Berlim, em 1883, de onde se transferiria,
sucessivamente, para as universidades
de Viena (1884 a 1887), de Halle (1887
a' 1900), de Góttingen (1900 a 1916) e,
finalmente, de Freiburg-im-Breisgau,
onde permaneceria até 1928, ano em que
se retirou do magistério. No curso dessas
atividades docentes, Husserl escreveu
diversas obras, entre as quais se salien-
tam Filosofia da Aritmética (1891),
Investigações Lógicas (1901 e 1902),
Idéias Diretrizes para uma Fenomeno-
logia (1913), e Meditações Cartesianas
(1929). Em 1933, com a tomada do
poder pelo partido nazista, Husserl foi
proibido de sair da Alemanha; no ano de
sua morte (1938), seus amigos transfe-
riram para Louvain, na Bélgica, inúme-
ros escritos de sua autoria, que ficaram
conhecidos como Arquivos Husserl.
os fins do século XIX, a psicologia
Ng de grande prestígio e ten-
A crítica do psicologismo
Nos prolegômenos das Investigações
Lógicas, Husserl procurou mostrar que
há uma diferença de direito entre a
psicologia, ciência empírica dos fatos do
conhecimento, e as ciências normativas
uras, como a teoria do conhecimento e a
ógica. A grande importância das Inves-
tigações Lógicas consiste em mostrar
que é impossível alcançar a apoditici-
dade (necessidade e universalidade) da
verdade, sem a idealidade das significa-
Na página anterior: retrato do
filósofo Edmund Husserl (Foto Fabbri).
806
ções lógicas e das significações em
geral. Em outros termos, as leis lógicas,
sustentáculos da unidade de toda ciên-
cia, não podem, segundo Husserl, funda-
mentar-se na psicologia, ciência empi-
rica e, como tal, sem a precisão das
regras lógicas. O psicologismo, diz Hus-
serl, não consegue resolver o problema
fundamental da teoria do conhecimento,
ou seja, o problema de como é possivel
alcançar a objetividade; ou, em outros
termos, como é possível que o sujeito
cognoscente alcance, com certeza e evi-
dência, uma realidade que lhe é exterior
e cuja existência é heterogênea à sua.
A tendência do naturalismo, do qual o
psicologismo é um caso particular, con-
siste em resolver a questão anulando a
dualidade ou a diferença entre sujeito e
objeto, e afirmando que a única reali-
dade é a Natureza. Em linhas gerais, as
consequências do naturalismo podem ser
reduzidas às seguintes: tudo é objeto
natural ou físico; a consciência é uma
expressão vaga que se costuma atribuir
a eventos fisico-fisiológicos ocorridos no
cérebro e no sistema nervoso; o conheci-
mento é apenas o efeito da ação causal
exercida pelos objetos fisicos exteriores
sobre os mecanismos nervosos e cere-
brais; os conceitos e leis científicos são
generalizações abstratas que servem
para o homem pensar mais economica-
mente a multiplicidade dos objetos exte-
riores; os conceitos de sujeito, objeto,
consciência, coisa, princípio, causa, efei-
to, etc., só têm sentido quando reduzidos
a entidades empíricas observáveis; e,
finalmente, a teoria do conhecimento é
uma psicologia, isto é, uma descrição do
comportamento do sujeito na atividade
de conhecer.
Husserl procurou mostrar que tais
consequências redundam na impossibi-
lidade de conhecimento científico, en-
quanto conhecimento universal e neces-
sário, visto que a universalidade se
reduz à generalidade abstrata, e a neces-
sidade à frequência e repetição dos even-
tos observados. Essa impossibilidade
tem sua origem na confusão estabelecida
pelo naturalismo entre o físico e o psi-
quico. Este diz Husserl, não é o conjunto
dos mecanismos cerebrais e nervosos,
mas uma região que possui especifi-
cidade e peculiaridade; o psíquico é
| EIS Ã
HUSSERL
Quando contava dezenove anos de idade, Husserl ingressou na Universidade de
Berlim, onde estudou teoria dos números com Kronecker, f losofia com Paulsen
e análise matemática com Weierstrass. Posteriormente Weierstrass o convidou
para ser seu assistente, mas Husserl permaneceria pouco tempo exercendo essa
função. (Palácio do Parlamento de Berlim, na época em que Husserl ali viveu.)
fenômeno, não é coisa. Este é o físico, o
fato exterior, empírico, governado por
relações causais e mecânicas. O fenô-
meno é a consciência, enquanto fluxo
temporal de vivências e cuja peculiari-
dade é a imanência e a capacidade de
outorgar significado às coisas exterio-
res. À consciência pode ser dita um fenô-
meno empírico quando seu conhecimento
é feito por uma ciência empírica como a
psicologia, desde que esta não se curve à
redução naturalista do psíquico ao fisi-
co. Mas, e sobretudo, a consciência, ao
ser estudada em sua estrutura imanente
e especifica, revela-se como algo que
ultrapassa o nível empírico e surge como
a condição a priori de possibilidade do
conhecimento, portanto, como Cons-
ciência Transcendental. A fenomenologia
é uma descrição da estrutura específica
do fenômeno (fluxo imanente de vivên-
cias que constitui a consciência) e, como
RES sa
descrição de estrutura da consciência
enquanto constituinte, isto é, como con-
dição a priori de possibilidade do conhe-
cimento, o é na medida em que ela,
enquanto Consciência Transcendental,
constitui as significações e na medida em
que conhecer é pura e simplesmente
apreender (no nível empírico) ou consti-
tuir (no nível transcendental) os sigmfi-
cados dos acontecimentos naturais e psi-
quicos. A fenomenologia aparece, assim,
como filosofia transcendental.
Para demonstrar que a filosofia (en-
quanto fenomenologia transcendental) é
uma ciência rigorosa, Husserl apresenta
várias distinções. Em primeiro lugar
distingue entre ciências empíricas dás
fatos) e ciências puras (de idealidades a
priori), como, por exemplo, a física e a
matemática. Em seguida, distingue entre
ciências exatas e ciências rigorosas. As
primeiras vinculam-se ao caráter preciso
807
OS PENSADORES
Fabbri
Deixando Berkim em 1884, Husserl
tranferiu-se para Viena, onde se
ligou ao filósofo Franz Brentano
acima), que exerceu profunda
influência sobre seu pensamento.
de suas medições e experimentações; as
segundas, ao caráter necessário de seus
princípios básicos. Finalmente, Husserl
distingue entre ciências rigorosas e ciên-
cias absolutamente rigorosas. As primei-
ras possuem princípios fundamentados,
mas seus fundamentos não são forneci-
dos por elas próprias e sim por outras
ciências, as absolutamente rigorosas.
Estas são aquelas que se autofunda-
mentam. A filosofia é, em todos os senti-
dos e de pleno direito, a única ciência
absolutamente rigorosa porque fornece a
si própria os seus fundamentos e os de
todas as outras ciências, sejam elas
puras ou empíricas.
O psicologismo surge, assim, como
um engano teórico que pode compro-
meter a possibilidade do próprio conhe-
cimento cientifico, e o naturalismo, como
um erro que deve ser combatido através
da anádise fenomenológica da estrutura
imanente da consciência, enquanto Irre-
dutível a um fato natural e, mais do que
isto, enquanto fonte do significado dos
808
próprios fatos naturais. Por outro lado, a
lógica, enquanto disciplina filosófica,
apresenta um caráter normativo e a prio-
ri que impede sua confusão com a psico-
logia, ciência empírica dos atos empiri-
cos do conhecimento. A empiria não
pode fornecer as condições da apoditici-
dade. Estas devem ser encontradas numa
região a priori, numa esfera de ideali-
dades puras cujo caráter universal,
necessário e normativo possam oferecer
as leis do conhecimento verdadeiro.
Ciência e consciência
A compreensão do projeto fenomeno-
lógico de Husserl depende de que se
compreenda primeiro como o filósofo
apresenta a estrutura da consciência
enquanto intencionalidade. Este concel-
to, oriundo da filosofia medieval, signifi-
ca: dirigir-se para, visar alguma coisa.
“A consciência é intencionalidade”, sig-
nifica: toda consciência é “consciência
de”. Portanto, a consciência não é uma
substância (alma), mas uma atividade
constituida por atos (percepção, imagi-
nação, especulação, volição, paixão,
etc.), com os quais visa algo. À esses
atos Husserl chama noesis e aquilo que é
visado pelos mesmos são os noemas.
Esta distinção é fundamental para com-
preender-se a crítica do psicologismo,
pois este consiste em confundir noesis e
noema, isto é, os atos pelos quais a cons-
ciência visa um certo objeto de uma
certa maneira, e o conteúdo ou signifi-
cado desses objetos visados. Quando o
psicologista considera que a idéia de um
certo ic é formada pela associação
de sensações, percepções e outras idéias,
confunde os atos empíricos que o sujeito
realiza para alcançar tal idéia, com a
própria idéia, que, no entanto, é um con-
teúdo ou significado não dependente dos
atos empíricos do sujeito que procura
alcançá-la. Justamente por causa disso,
várias noesis diferentes podem estar
referidas a um só e mesmo noema. No
nível empírico as noesis são atos psicoló-
gicos e individuais para conhecer um
significado independente deles. No nível
transcendental as noesis são os atos do
sujeito constituinte que cria os noemas
enquanto puras idealidades ou significa-
ções. Nessa medida, as noesis empíricas
SS O AM == —
HUSSERL
Fabbn
Fabbri
O método fenomenológieo elaborado por Husserl constitui o centro de gravidade
de grande parcela do pensamento filosófico do século XX e suas influências
estendem-se a todas as ciências humanas. Entre seus mais conhecidos
seguidores, encontram-se Martin Heidegger, autor de Ser e
Tempo, e Nicolai Hartmann, que desenvolveu uma ontologia fenomenológica.
são passivas, pois visam uma significa-
ção preexistente; as noesis transcen-
dentais são ativas porque constituem as
próprias significações ideais.
Essas distinções permitem a Husserl
elaborar a noção de Ciência como cone-
xão objetiva e ideal de noesis e noemas
puros.
A ciência caracteriza-se, segundo
Husserl, por centralizar-se na noção de
unidade, pois é na medida em que existe
uma unidade entre o ato de conhecer e
seu correlato (aquilo que é conhecido)
que se pode falar de ciência. Esta última
seria, portanto, um conjunto de conexões
objetivas e ideais. Essas conexões se dão
em dois níveis: primeiro, o das coisas
que são visadas pelo pensamento, ou
ainda, pelos atos do pensamento; segun-
do, o das verdades. Isso, contudo, não
significa que exista umia distinção entre
as verdades que dizem respeito às coisas
e as verdades que se referem às próprias
verdades. Se se aceitasse essa distinção,
ficaria anulada a pretensão de estabe-
lecer a unidade da ciência. Portanto, a
ordem das verdades não é apenas a
ordem do próprio pensamento, porém, na
medida em que a ordem do pensamento é
conhecida, a ordem da verdade é a ordem
das próprias coisas. Isto significa que
toda ciência, além das verdades empiri-
cas que constata ou constrôi, e além das
leis ps gerais que governam todo
pensamento apolítico, pressupõe ainda a
esfera das condições a priori de possibi-
lidade de seus objetos e de seus métodos.
Toda ciência pressupõe, portanto, a ca-
mada noético-noemática transcendental,
que determina as significações ideais de
um certo campo de conhecimento e os
atos de conhecimento (método) capazes
de apreendê-las. Eis por que a diferença
entre ciências da natureza e ciências do
espírito é uma diferença absoluta, segun-
do Hussérl.
A unidade entre o ato de conhecer e o
objeto que é conhecido encontra na
fenomenologia, na ciência do fenômeno,
isto é, da consciência enquanto manifes-
809
OS PENSADORES
tação de si mesma e das significações
objetivas, a possibilidade de instauração
da “filosofia como uma ciência rigoro-
sa”. Assim, a descrição do vivido, dos
atos intencionais da consciência e das
essências que eles visam, isto é, dos cor-
relatos intencionais, — enfim, a disci-
plina que poderá fundamentar a lógica
—, é a fenomenologia. Esta não conside-
ra, de maneira inseparável, o ato e o ob-
jeto que ele visa, mas estabelece sua
união mediante a estrutura básica da
consciência, a intencionalidade, que re-
vela a impossibilidade de um ato da
consciência não ter um objeto, não visar
um objeto. Isto não sigmifica, contudo,
que a consciência vise seus objetos de
uma mesma maneira, nem também que
esses objetos se apresentem para a cons-
ciência de um mesmo modo. É nesse
ponto que o papel da femenologia se des-
taca: cabe a ela distinguir, revelar o que
há de essencial na percepção, na recor-
dação, na imaginação.
Ontologia regional
Se a consciência, diz Husserl, “é sem-
pre consciência de alguma coisa”, conse-
quentemente o objeto é apreendido em
sua relação com a consciência e, nesse
sentido, ele supera a si mesmo. Uma vez
que o traço essencial da consciência é a
intencionalidade, o objeto pode ser con-
siderado como escopo Fa mesma
intencionalidade e, assim, transcende a
si mesmo, pois, sendo um conteúdo da
intencionalidade, ele transcende sua pró-
pria existência real, enquanto existência
empírica imediata. Por outro lado, se se
considera que a intencionalidade pode
ser polarizada em múltiplas essências,
desde a percepção até a ideação, torna-
se possível distinguir diversas “regiões”
do ser.
As essências ou significações (noe-
mas) são objetos visados de uma certa
maneira pelos atos intencionais da cons-
ciência. Assim, por exemplo, um cubo
pode ser visado pela percepção e, en-
quanto essência perceptiva, é distinto do
cubo qo visado pela idéia geomêé-
trica de volume. Por outro lado, esse
mesmo cubo pode ser visado por um ato
de imaginação, encontrando-se, assim,
uma terceira essência, distinta das
810
anteriores. A fenomenologia procura
descrever a estrutura Pernas de cada
um desses atos e de cada um de seus cor-
relatos ou significações. Percepção-per-
cebido, imaginação-imaginado, recorda-
ção-recordado, ideação-ideado, etc.,
constituem o campo de trabalho das
descrições e análises fenomenológicas.
Cada um desses pares constitui uma
certa região do Ser, isto é, um certo
modo de um ente ser visado pela cons-
ciência. Cada região se define, assim,
pela estrutura do ato intencional e pela
estrutura do correlato intencional; os
pares formam uma estrutura unitária e é
a unidade imanente existente entre os
dois momentos (o ato de visar e a essên-
cia ou significação visada) que permite
falar na região da natureza fisica, na
região dos objetos matemáticos, na
ço dos valores morais, etc. A fenome-
nologia é uma ontologia regional na me-
dida em que se trata do Ser (do grego ón)
enquanto estruturado com sentido dife-
rente conforme seja visado pela cons-
ciência. Cada região, estabelecendo a
essência ou oniCadas do objeto pela
modalidade da relação ato-correlato in-
tencionais, é uma região eidética (do
grego eidos: idéia ou essência). As essên-
cias que regem conjuntos de fatos empi-
ricos são ditas materiais, seja qual br
sua região. As essências são materiais, e
não meramente formais, porque possuem
um conteúdo determinado pelo domínio
circunscrito de uma certa maneira pela
camada noético-noemática. Assim sendo,
as essências configuram campos de obje-
tividades que não podem ser extrapola-
dos, o que seria possível se fossem pura-
mente formais. Por isso a fenomenologia
implica uma ontologia regional.
Ciência das essências em geral, mas
remetida da consideração do objeto para
a da consciência, a fenomenologia estuda
as essências da região “consciência”,
suas estruturas e seus atos. Inicialmente,
Husserl distingue a região “mundo”
(exterior) e a região “consciência” (inte-
rior). Contudo, no nível transcendental,
na medida em que o sentido ou eidos da
região “mundo”, ou das várias regiões
dice da região “mundo”, é consti-
tuído pela região “consciência”, esta se
torna a região fundamental que produz o
significado das demais.
HUSSERL
No período em que permaneceu em Viena, entre 1884 e 1887, Husserl renegou sua
ascendência judaica, converteu-se ao luteranismo e casou-se com Malvine
Steinschneider. Do ponto de vista intelectual, os anos passados em Viena foram
extremamente fecundos:.as principais idéias que Husserl desenvolveu
posteriormente foram esboçadas nessa época. (Universidade de Viena.)
O mundo entre parênteses
Para se compreender a passagem das
várias regiões eidéticas, da região
“mundo” para a região “consciência”,
deve-se levar em conta uma operação
muito especial que Husserl denomina de
epoquê ou redução fenomenológica. A
redução ou epoguê é a operação pela
qual a existência efetiva do mundo exte-
rior é “posta entre parênteses”, para que
a investigação se ocupe apenas com as
operações realizadas pela consciência,
sem que se pergunte se as coisas visadas
por ela existem ou não realmente. A
redução, diz Husserl, suspende a “tese
natural do mundo” (do grego thésis:
posição, aceitação). A “atitude natural”
é a atitude cotidiana de “tese do
mundo”, ou seja: acredita-se esponta-
neamente que as coisas exteriores exis-
tem tais como se as vê; portanto, natural
e espontaneamente, “põe-se” o mundo.
Ora, quando se descobre que cada indivi-
duo pode ter uma “posição” (tese) dife-
rente da dos outros a “tese do mundo”
torna-se confusa e problemática. A feno-
menologia coloca a “tese natural” entre
parênteses para indagar, primeiro, como
a consciência funciona e como se estrutu-
ra, para, no final, justificar essa “tese
natural” exatamente enquanto atitude
irrefletida, ingênua e que precisa ser
fundamentada filosoficamente, já que é o
modo de viver cotidiano.
Husserl distingue dois níveis ou mo-
mentos da redução. No primeiro, a redu-
ção consiste em buscar o significado
ideal e não empírico dos elementos empi-
ricos. É uma redução eidética que procu-
ra essências ou significados. Segundo
Husserl, toda ciência (empírica ou pura)
deve ser antecedida por uma investiga-
ção eidética que defina a essência ou
811
Fabbri
OS PENSADORES
estrutura necessária do objeto a ser estu-
dado. Assim, antes da psicologia deve
vir uma psicologia eidética ou fenomeno-
lógica que apresente a essência do psi-
quico; antes da física, uma física eidética
que faça a mesma descrição da essência
do físico; e assim por diante. No segundo
momento, porém, a redução é transcen-
dental porque visa à essência da própria
consciência enquanto constituidora ou
produtora das essências ideais. É nesse
nível que noesis e noemas se revelam
como absolutamente a priori.
A redução, contudo, não pode ser
compreendida como uma negação ou
uma limitação. Ela não nega o mundo,
apenas o coloca entre parênteses. Torna-
se um desvelamento do objeto, pois,
enquanto procedimento de investigação,
a redução torna exequível o mundo da
experiência vivida. E, mediante sucessi-
vas reduções, manifesta-se a Intenciona-
lidade psicológica com seus objetos, a
intencionalida transcendental, que
pensa o mundo e o sentido do mundo, e,
por fim, a intencionalidade criadora
(idêntica ao movimento de redução), que
faz o mundo aparecer. Por essa análise
transcendental, os problemas da lógica
se encontrarão Se em um “con-
junto de atos de consciência, de atitudes
da consciência em face do objeto, de
modos sob os quais o objeto é dado à
consciência”
“Coisa”, “idéia”, “em”
As coisas, segundo Husserl, caracteri-
zam-se pelo seu perspectivismo, pelo seu
inacabamento, pela possibilidade de
sempre serem visadas por noesis novas
que as enriquecem e as modificam. As
idéias ou conceitos, ao contrário, carac-
terizam-se por seu aspecto globalizador,
total e acabado. Por exemplo: o cubo
percebido pode ser objeto de infinitas
percepções porque é apenas a multipli-
cidade de perspectivas que o apreendem.
O cubo pensado, por outro lado, é o obje-
to geometricamente, definido de uma vez
por todas. Basicamente, entre a percep-
ção e a ideação encontra-se a diferença
entre a transcendência da coisa, que a
torna inesgotável, e a imanência da
idéia, que a torna completamente defi-
nida pela e para a consciência. Essa dife-
812
rença abre o campo para uma atividade
fundamental da consciência, ampla-
mente empregada pela fenomenologia: a
imaginação transcendental, que procura,
através da variação eidética, captar na
multiplicidade infinita dos esboços e
perspectivas a unidade de sentido que
permite alcançar a idéia de uma coisa
que, em si mesma, ê mesgotável, mas
que pode ser “aprisionada” pelo seu con-
ceito uno e total. A possibilidade de
variação eidética (busca do núcleo essen-
cial) pela imaginação transcendental
decorre da natureza peculiar da cons-
ciência. Embora em cada noesis e em
cada noema a coisa transcendente pareça
parcial e suscetível de novos desenvolvi-
mentos e esboços, cada noesis e cada
noema enquanto tais, isto é, enquanto
atos e correlatos da consciência, são
absolutamente totais e presentes. Cada
um deles é completo em si mesmo e,
assim, a cada passo a consciência se ofe-
rece como integral e absoluta. A imanên-
cia significa que cada vivido, embora
forme um fluxo infinito com os demais, é
em si mesmo completo e acabado. A
imaginação transcendental consiste em
atribuir à multiplicidade transcendente
da coisa o caráter acabado que cada vi-
vido possui. A idéia ou conceito é à supe-
ração da infinidade das perspectivas
transcendentes da coisa, pela unidade
imanente do significado.
Por outro lado, o eu parece estar na
consciência constantemente, mas essa
permanência não ê a de um vivido que se
obstina estupidamente.
O eu pertence antes a todo vivido que
chega repentinamente e se escoa; seu
“olhar” irige-se para o objeto através
de todo o ER atual. Como diz o pró-
prio Husserl, “(...) o eu puro parece ser
um momento os a identidade
absoluta que ele conserva através de
todas às transformações reais e possíveis
não permite considerá-lo em nenhum
sentido como uma parte ou um momento
real dos próprios vividos”. Esse eu surge
como uma transcendência, contrapondo-
se à imanência dos vividos; é esse eu que
vive todos os modos do vido:
Pode-se dizer, portanto, que o eu “na-
tural” da psicologia se detém ante as
coisas, que ele julga reais e transcen-
dentes, no mundo; essa atitude, uma vez
HUSSERL
Desae
,
Rebrt Cud,
fes pots de une
anita rem |
Embora tivesse deixado a religião judaica em 1886, Husserl foi um dos
primeiros intelectuais alemães a sofrer com o anti-semitismo nazista. Em
1933, foi proibido de ausentar-se da Alemanha sem autorização e suas obras
foram impedidas de circular. (Em foto da Biblioteca Municipal de Milão,
o alerta aos arianos: “Alemães! Defendam-se! Não cooperem com os judeus!)
suspensa, aparece como tema ao eu
“transcendental”, que pensa o mundo
como transcendente ao eu empírico;
enfim, última modificação do “olhar”, a
redução transcendental completa-se ao
descobrir no eu puro a origem do senti-
do. Ao eu puro. que opera essa última
significação, e que fica como simples
espectador, aparece o eu que pensa o
mundo com o conjunto de seus atos.
Quando Husserl elogia Descartes e se
considera um neocartesiano, ele o faz
or duas razões: a primeira consiste no
ato de Descartes ter imposto à filosofia
algo que para Husserl é a pedra de toque
do filosofar, isto é, ter imposto a ne-
cessidade de um método que obrigue a
uma reflexão radical sobre os procedi-
mentos adequados para o pensamento
filosófico; a segunda consiste no fato de
Descartes ter encontrado o Cogito como
primeira verdade indubitável para come-
çar a pensar corretamente. O Cogito, isto
é, a subjetividade, torna-se com Descar-
tes o ponto de apoio necessário para o
Saber, e Husserl lamenta que o filósofo
francês, após ter demonstrado essa ne-
cessidade capital, ainda tivesse recor-
rido ao argumento teológico que coloca
o Cogito na dependência da Inteligência
e Vontade infinitas de Deus. O elogio do
Cogito cartesiano significa que, para
Husserl, o “Eu penso” apresenta aquele
caráter a priori necessário e absoluto
sem o qual a filosofia é impossível, pois
ver-se-ja lançada na contingência das
coisas empíricas e jamais poderia pen-
sá-las como apoditicas. O Cogito é Res:
luto na medida em que conserva aquilo
: bm E
que as coisas empíricas parecem não
poder possuir: a permanência, a identi-
dade consigo mesmo através de todos os
seus vividos. O Cogito é o que permanece
idêntico sob a multiplicidade das vivên-
813
cias. E é a identidade que lhe confere o
poder de alcançar a identidade das coi-
sas através do sentido que outorga a
elas. Essa identidade revela, tam ém,
que o Cog to não se confunde com o “eu
psicoló gico”, , que é empírico, múltiplo e
mutável. como toda empiria.
Afirma-se dessa forma, a tese capi-
tal do idealismo transcendental — feno-
menológico de Husserl: é unicamente a
subjetividade transcendental que possui
um sentido e, quanto a seu ser, um ser
absoluto; ao passo que o mundo real é
relativo a ela. O Cogito reabre, porém,
duas dificuldades peculiares a todo idea-
lismo transcendental: como demonstrar
que a relação entre a subjetividade soli-
tária e o mundo objetivo é a mesma para
todos os sujeitos? Como explicar que
haja uma transformação das significa-
ções ideais que, de direito, são intempo-
rais? A primeira dificuldade é resolvida
por Husserl, pela afirmação de que a
subjetividade transcendental é intersub-
Jetividade; a segunda, pela teoria da
sedimentação e retomada das significa-
ções pela Cultura. Esses dois problemas
serão retomados por um dos continua-
dores da fenomenologia, o filósofo fran-
cês Maurice Merleau-Ponty.
1859 — A 8 de abril, em
Prossnitz, Morávia, nasce
Edmund Husserl.
1874 — Franz Brentano
publica a Psicologia do Pon-
to de Vista Empírico.
1876-1878 — Husserl fre-
quenta a Universidade de
Leipzig.
1882 — Doutora-se pela
Universidade de Viena com a
tese Sobre o Cálculo das
Variações.
1883 — Torna-se assisten-
te, em Berlim, de Weiers-
trass, seu ex-professor.
1884 — Husserl retorna a
Viena, filiando-se à filosofia
CRONOLOGIA
de Brentano.
1886 — Renega sua ascen-
dência judaica e converte-se
ao luteranismo.
1887 — Casa-se com Mal-
vine Steinschneider. Torna-
se livre-docente na Universi-
dade de Halle.
1891 — Husserl publica o
primeiro volume da Filosofia
da Aritmética, inacabada.
1900-1901 — Publica as
Investigações Lógicas.
1906 — Husserl é nomea-
do professor ordinário na
Universidade de Gôóttingen.
1907 — Em seu curso so-
bre a Idéia da Fenomenolo-
BIBLIOGRAFIA
gia, surge a primeira idéia
explícita de redução.
1910 — Publica A Filoso-
fia como Ciência Rigorosa.
1913 — Publica Idéias pa-
ra uma Fenomenologia Pura
e para uma Filosofia Feno-
menológica.
1931 — Publicam-se, tra-
duzidas para o francês, suas
Meditações Cartesianas.
1933 — Ascensão do na-
cional-socialismo na Alema-
nha. Husserl fica proibido de
deixar o país sem autoriza-
ção.
1938 — Falece no dia 27
de abril.
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814
OS PENSADORES
aurice Merleau-Ponty nasceu a 4
Ms março de 1908 em Rochefort-
sur-Mer. Fez o curso secundário
nos liceus parisienses Janson-le-Sally e
Louis-le-Grand. De 1926 a 1930 foi
aluno da École Normale Supérieure, oca-
sião em que conheceu aqueles que com
ele formariam a “geração existencia-
lista” dos anos 40 e 50.
De 1930 a 1935, Merleau-Ponty
lecionou no curso secundário. Acabou
sua tese complementar, La Structure du
Comportement (A Estrutura do Compor-
tamento), em 1938. Entre 1939-1940 foi
mobilizado como oficial do 5.º Regi-
mento de Infantaria. De 1940 a 1945,
participando da Resistência, volta a
lecionar no secundário. Em 1945 obtém
o título de doutor em filosofia, após a de-
fesa de sua “tese de Estado”, Phénomé-
nologie de la Perception (Fenomenologia
da Percepção). Em 1948 torna-se profes-
sor da Universidade de Lyon. Nessa
época, divide com Sartre a direção da
revista Les Temps Modernes, criada logo
apôs a Libertação. De 1949 a 1952
ocupa o cargo de professor-titular da
cadeira de Psicologia Infantil, na Sor-
bonne. Em 1952 é eleito para a cátedra
de Filosofia do Collêge de France,
pronunciando como aula inaugural o en-
saio Eloge de la Philosophie (Elogio da
Filosofia). Nessa ocasião a amizade com
Sartre e com Simone de Beauvoir passa
por uma crise, ocasionada pela análise
da posição de Sartre como “ultrabolche-
vista” em Les Aventures de la Dialec-
Ed Aventuras da Dialética). A aná-
lise de Merleau-Ponty provocou uma
polêmica que não cessou até a morte do
filósofo, ocorrida subitamente a 3 de
maio de 1961, vitima de embolia.
As origens da reflexão
Ao mesmo tempo que se dedicava ao
ensino da filosofia, Merleau-Ponty pu-
blicava livros de ensaios. Humanisme et
Terreur (Humanismo e Terror) contém a
análise dos processos de Moscou, o con-
fronto entre stalinismo e trotskismo, a
critica da guerra-fria e de suas implica-
ções. Les Aventures de la Dialectique faz
Na página anterior, foto de
Merleau-Ponty. (Marcel Amson, Paris.)
816
o balanço crítico das diferentes linhas
teóricas e políticas assumidas pelo mar-
xismo após a revolução de 1917; con-
fronta Weber e Luckacs; analisa as posi-
ções de Moscou expressas através do
Pravda; critica o voluntarismo de Sar-
tre; problematiza a proposta de Trótski
da necessidade de uma revolução perma-
nente. O livro, em última instância, colo-
ca os problemas teóricos para a consti-
tuição de uma filosofia à luz dos
problemas práticos da política. Sens et
Non-Sens (Sentido e Não-Sentido) é uma
coletânea de ensaios sobre arte (roman-
ce, cinema, pintura e literatura); sobre
as ciências humanas (significado da
noção de estrutura como possibilidade
de uma revolução cientifica que destrua
o positivismo cientificista); sobre as
relações entre a filosofia existencialista,
o hegelianismo e o marxismo; e, por fim,
alguns ensaios políticos sobre o pós-
guerra, analisando a posição dos fascis-
tas franceses, da igreja e dos heróis de
guerra. Signes (Sinais) é a obra que
marca a passagem gradual do filósofo de
uma perspectiva fenomenológica para
uma investigação ontológica. É também
uma coletânea de ensaios sobre a arte, a
história da filosofia, a nova epistemo-
logia, que reflete sobre a contribuição do
estruturalismo nas ciências e sobre a
“crise da razão” decorrente da teoria da
relatividade. O livro contém ainda en-
saios monográficos sobre Husserl, Berg-
son e Maquiavel, e um conjunto de pro-
pos sobre a atualidade política européia.
O prefácio de Signes pode se lido
como uma autobiografia intelectual e
política, como verdadeiro balanço que o
filósofo apresenta de seu itinerário teó-
rico e prático. Aparece aí a afirmação de
que a filosofia precisa recuperar alguns
truísmos fundamentais, como: o olho
olha, a fala fala e o pensamento pensa.
Essa afirmação marca o início de nova
trajetória do pensamento de Merleau-
Ponty. Suas primeiras obras estavam
nitidamente vinculadas à fenomenologia
husserliana, embora procurasse a cada
passo minimizar o papel constituinte da
consciência e outorgar à relação corpo
sensivel-mundo sensivel o poder doador
de significados que Husserl atribuíra ao
Sujeito Transcendental. A partir de Sig-
nes, Merleau-Ponty encaminha-se para a
MERLEAU-PONTY
O RR
Eno Epa ie
Ao “pensamento de sobrevõo”,
típico da filosofia tradicional e da ciência,
Merleau-Ponty contrapõe o retorno da reflexão ao subsolo pré-reflexivo. A
visão do pintor — esse “nascimento continuado” — su gereo itinerário: como
em Cézanne, que procurou fixar * “instantes do mundo” que suas telas continuam
a nos doar. (Cézanne, A Montanha de Sainte-Victoire, coleção particular).
ontologia como região pré-reflexiva, sel-
vagem e bruta, de onde emergem as cate-
gorias reflexivas. A filosofia — reflexão
— deve voltar às origens da própria refle-
xão e descobrir seu solo anterior à ativi-
dade reflexiva e responsável por ela.
Essa região ê o “logos do mundo estéti-
co”, isto é, do mundo sensível, unidade
divisa do corpo e das coisas, unidade
que desconhece a ruptura reflexiva entre
sujeito e objeto. Por outro lado, as refle-
xões nascidas na região originária da
aesthesis possuem dinamismo e simbo-
lismo próprios, que se desenvolvem
historicamente, constituindo a região do
“logos do mundo cultural”, isto é, da
rática nter-humana mediada. pelo tra-
BalEo e, portanto, pelas relações sociais
e pelas coisas aí produzidas.
Sartre e Nizan
O prefácio de Signes segue também
outra vertente: a da posição política dos
filósofós. Merleau- -Ponty acusa a “mania
política dos filósofos”, uma certa manei-
ra de fazer filosofia e de pensar a poli-
tica que é má filosofia e má política.
817
OS PENSADORES
Essa “mania” é a expressão da cons-
ciência infeliz filosófica, que obriga o
filósofo a assumir o papel pica
de “político honorário” por honra da
firma e para o bem da causa humana. O
que acontece então é que a filosofia se
dogmatiza e a política se voluntariza:
consequências desastrosas para ambas,
acarretando a impossibilidade real de
uma filosofia da história e de uma prá-
tica política efetiva. No percurso auto-
biográfico Merleau-Ponty preocupa-se
com o problema da “Rebeldia”, atitude
Juvenil que pode ser um motor histórico,
mas frequentemente se transforma em
obstáculo político. Essa análise é feita
como pano de fundo de uma rememori-
zação cujo centro é a figura de Paul
Nizan, amigo comum de Sartre e de
Merleau-Ponty. A morte prematura de
Nizan uniu os dois sobreviventes numa
amizade fortificada pelos anos da Resis-
tência e dilacerada, afinal, pela diver-
ência profunda quanto aos princípios
Elosófidos concernentes ao homem e à
história.
O que mais importa nessa reaproxi-
mação de Merleau-Ponty e Sartre atra-
vés do amigo morto é a redescoberta de
um ponto dE contato que ambos supu-
nham perdido: o reconhecimento de que
a idéia de uma juventude revoltada é
uma quimera porque a revolta não pode
permanecer indefinidamente como revol-
ta, e não pode, também, chegar à revolu-
ção. É ainda o amigo perdido que leva os
dois sobreviventes à meditação sobre a
morte e sobre a fragilidade humana,
encarnadas nos dois gestos fundamentais
de Nizan: a ruptura do filho com a fami-
lia e, mais tarde, a ruptura do militante
com o partido.
Por ocasião de sua morte, Merleau-
Ponty preparava um livro sobre a ontolo-
gia prê-reflexiva, mundo do ser bruto ou
selvagem. O livro micialmente deveria
intitular-se LºOrigine de la Vérité (A Ori-
gem da Verdade). Nos manuscritos,
porém, começou a surgir um novo título,
Le Visible et "Invisible (O Visível e o
Invisível). Será com este nome que o
amigo de Merleau-Ponty, Claude Lefort,
preparará a edição póstuma, contendo
capítulos semi-acabados e as notas de
trabalho. Também se deve a Lefort a
publicação póstuma dos Résumes de
818
Cours, ministrados na Sorbonne e no
Collége de France, e La Prose du Monde
(A Prosa do Mundo), coletânea de
ensaios sobre problemas de linguagem.
O Pensamento de sobrevõo
Em suas linhas gerais, a filosofia de
Merleau-Ponty caracteriza-se pela cri-
tica radical do humanismo. Este tem ori-
gem no momento em que o pensamento
reflexivo, colocado diante dos enigmas
do realismo ingênuo — presente na sensa-
ção e na percepção —, procura resolver
os paradoxos perceptivos recorrendo à
separação entre a consciência e o mundo,
e reduzindo o real à dicotomia sujeito-
objeto. A consciência, res cogitans,
sujeito transcendental ou espírito, é defi-
nida pela interioridade absoluta e pela
identidade absoluta consigo mesma. A
coisa, res extensa ou objeto, é definida
pela exterioridade absoluta e pela im-
ossibilidade de deter em si e por sia
identidade consigo: mesma, a não ser que
se converta numa representação, numa
idéia. O pensamento ocidental, “pensa-
mento de sobrevôõo”, procura dominar e
controlar totalmente a si mesmo e esten-
der a dominação e o controle à relidade
exterior. A dicotomia sujeito-objeto,
inaugurada pela metafísica idealista de
Descartes, criou o espaço no qual é pos-
stvel definir e determimar o ato do conhe-
cimento e o conteúdo desse ato. Esse es-
paço põe e respeita a cisão consciência-
mundo, cisão que funda os dois enganos
complementares que constituem aquilo
que Merleau-Ponty denomina humanis-
mo: o subjetivismo filosófico e o objeti-
vismo científico. Em outros termos: dada
a cisão, a filosofia outorga ao sujeito
cognoscente o poder de se apropriar da
realidade exterior e heterogênea a ele.
As coisas se convertem em representa-
ções constituídas pelo sujeito. O pensa-
mento sobrevoa o mundo, transfor-
mando-o em idéia ou conceito do mundo.
No pólo oposto, a ciência outorga ao ob-
jeto o poder de recriar a relação com o
sujeito, exercendo sobre este último uma
influência de tipo causal, cujo resultado
é a presença do exterior na consciência
por meio das sensações. O subjetivismo
encaminha a filosofia para o idealismo:
pouco a pouco as coisas exteriores vão
E
MERLEAU-PONTY
se convertendo em realidades cada vez
menos reais, vão se tornando sombras da
verdadeira realidade, e esta se reduz,
finalmente, à realidade do sujeito cog-
noscente e de suas operações. O objeti-
vismo científico, por sua vez, seguindo o
caminho inverso, vai reduzindo a cons-
ciência a uma realidade cada vez mais
fugaz, atê que se converta num mero
epifenômeno de acontecimentos fisico-fi-
siológicos observáveis e objetivos. O
pensamento de sobrevõo na filosofia con-
verte o mundo em representação do
mundo. O pensamento de sobrevôõo na
ciência converte a consciência num re-
sultado aparente de “fenômenos na ter-
ceira pessoa”, isto é, de acontecimentos
que pertencem à esfera dos. objetos
naturais.
Seria errôneo, contudo, julgar que a
tendência idealista se confina à filosofia
e que a tendência empirista se confina à
ciência. Essa primeira direção, exami-
nada por Merleau-Ponty em sua obra La
Structure du Comportement, encontra
uma contrapartida inversa e recíproca:
idealismo cientifico e empirismo filosó-
fico. Essa contrapartida é examinada na
Phénomeénologie de la Perception, onde o
problema da relação consciência-mundo
é analisado primeiro do ponto de vista
do empirismo científico, mas, em segui-
da, também do ponto de vista do intelec-
tualismo científico. Além dessas duas
abordagens, Merleau-Ponty apresenta
ainda as duas restantes: o empirismo e o
idealismo filosóficos. Assim, subjeti-
vismo e objetivismo, idealismo e empi-
rismo, metafísica e positivismo são dico-
tomias que possuem a mesma fonte: a
separação sujeito-objeto, considerados
como realidades heterogêneas, distintas
e açambarcadoras, que tendem a reduzir
seu oposto a uma aparência ilusória. As
dicotomias são, portanto, as faces com-
plementares de um engano comum e
origmario.
O corpo
A separação sujeito-objeto, origem da
Simone de Beauvoir, sua colega filosofia e da ciência modernas, desem-
na Ecole Normale de Paris, escreve boca na necessidade de reunir os dois
sobre o Merleau-Ponty estudante: termos, c a reunião operada consistirá
“Ele, assim como eu, também sempre em tornar os dois termos absolu-
procurava ansiosamente a verdade”. tamente coextensivos pela redução de
819
OS PENSADORES
um deles ao outro: ou tudo é consciência,
ou tudo é o objeto — e a consciência se
reduz então a um epifenômeno de aconte-
cimentos objetivos.
A grande preocupação de Merleau-
Ponty consiste em exigir que a ciência e
a filosofia se questionem, questionando
seus conceitos fundamentais (sujeito- -ob-
jeto, fato-essência, - ser-consciência,
real-aparência), conceitos usados sem
que se perceba que já carregam uma
interpretação da realidade, da expe-
riência e do sentido. É preciso interrogar
a ciência e a filosofia e propor-lhes um
novo ponto de partida: a compreensão de
suas origens. Isso significa, sobretudo,
revelar que a vida representativa da
consciência não é primeira, nem única,
isto é, não é fundante nem definidora do
que sejam a consciência e o mundo. Essa
revelação, porém, segue uma trajetória
peculiar no pensamento de Merleau-
Ponty. No capítulo final de La Structure
du Comportement, após ter feito a critica
do objetivismo behaviorista e o do rea-
lismo gestaltista, o filósofo indaga qual
a relação entre a consciência perceptiva
e a consciência representativa, e se a
segunda não tende a anular a primeira. A
resposta encontrada é a de que a cons-
ciência perceptiva é fundante com rela-
ção à representativa, de sorte que esta
continua, no nível puramente intelectual,
um conhecimento originado no nível sen-
sivel. Essa resposta é desenvolvida na
Phénomeénologie de la Perception, de-
sembocando pouco a pouco na noção de
uma consciência perceptiva solidária
com o corpo, enquanto corpo próprio ou
vivido, maneira pela qual nos mstalamos
no mundo: anhando e doando significa-
ção. À partir de Signes, porém, a noção
de consciência perceptiva começa a apa-
recer como “um rei em sua ilha deserta”,
uma “semiverdade” que passa a Ser
substituida pela de co e carne, Isto
é, por uma Sds ds que não se
reduz à imanência da RAR RR mas
que não se explica pela exterioridade de
mecanismos fisico-fisiológicos. O corpo
apresenta aquilo que sempre foi o apaná-
gio da consciência: a reflexividade. Mas
apresenta também aquilo que sempre foi
apanágio do objeto: a visibilidade. O
corpo é o visível que se vê, um tocado
que se toca, um sentido que se sente.
820
Quando a mão direita toca a mão esquer-
da, há um acontecimento observável cuja
peculiaridade é a ambiguidade: como
determinar quem toca e quem é tocado?
Como colocar uma das mãos como sujei-
to e a outra como objeto? A descoberta
do corpo reflexivo e observável leva
Merleau-Ponty a mostrar que a expe-
riência inicial do corpo consigo mesmo é
uma experiência em propagação e que se
repete na relação com as coisas e na rela-
ção com os outros. À ciência e a filosofia
não podem dar conta da relação peculiar
do sujeito com o mundo sem destruir um
dos termos; a mesma incapacidade surge
também no tocante à relação com os
outros. À intersubjetividade é impossível
para a filosofia da consciência porque
nesta a própria subjetividade é descar-
tada, de modo que a relação inter-hu-
mana pode ser explicada apenas em ter-
mos de convenção, de condicionamento e
de arbitrariedade. Ao tomar a expe-
riência corporal como originária, Mer-
leau-Ponty redescobre a unidade funda-
mental do mundo como mundo sensível.
O logos do mundo estético
“Eis o enigma: meu corpo é simulta-
neamente vidente e visivel. Ele, que olha
todas as coisas, também pode olhar-se e
reconhecer naquilo que então vê o “outro
lado” de sua potência vidente. Ele se vê
vendo, ele se toca tocando, é visivel e
sensível para si mesmo. É um “si' não por
transparência, como o pensamento, que
pensa tudo assimilando-o, constituindo-
o, transformando-o em pensamento —
mas um “si” por confusão, narcisismo,
inerência daquele que vê naquilo que vê,
daquele que toca naquilo que toca,
daquele que sente naquilo que é sentido
(...). Esse primeiro paradoxo não ces-
sará de produzir outros. Visível e móvel,
meu corpo está no número das coisas, é
uma delas, está preso no tecido do
mundo é sua coesão é a de uma coisa.
Mas, porque vê e se move, mantém as
coisas em circulo à sua volta, as coisas
são um anexo ou um prolongamento
dele, estão incrustadas em sua carne,
fazem parte de sua definição plena e o
mundo é feito do mesmo estofo que o
corpo. Essas reviravoltas, essas antino-
mias são maneiras diferentes de dizer
MERLEAU-PONTY
Merleau-Ponty reconhece na ciência
um pensamento ativo, engenhoso e
desenvolto. Mas faz a crítica de seu
artificialismo: “A ciência manipula
e)
as coisas e renuncia a habitá-las”.
ue a visão é tomada ou feita lá no meio
as coisas, ali onde persiste, como a
água-mãe no cristal, a indivisão do sen-
ciente e do sentido” (L'Oeilet PEsprit).
A relação corpo-mundo é estesioló-
gica: há a carne do corpo e a do mundo;
há em cada um deles uma interioridade
que se propaga para o outro numa rever-
sibilidade permanente. “O mundo está
todo dentro e eu estou todo fora”, escre-
ve Merleau-Ponty em Signes. Corpo e
mundo são um “campo de presença”
onde emergem todas as relações da vida
perceptiva e do mundo sensível. Há um
logos do mundo estético, um campo de
significações sensíveis constituintes do
corpo e do mundo. É esse logos do
mundo estético que torna possível a
intersubjetividade como | intercorpo-
reidade, e que, através da manifestação
corporal na linguagem, permite o surgi-
mento do logos cultural, isto é, do
mundo humano da cultura e da história.
Para Merleau-Ponty, a ciência e a filo-
sofia da consciência são incapazes de
demonstrar a possibilidade da relação
intersubjetiva, na medida em que para a
primeira cada um é um “amontoado de
ossos, carne, sangue e pele” que se igua-
la a um autômato, a uma “coisa” ou À
matéria inerte, enquanto, para a segun-
da, é um “eu penso” único e total, não
havendo como sair de si e encontrar o
outro. “Como o “eu penso” poderia emi-
grar para fora de mim, se o outro sou eu
mesmo?” (La Prose du Monde.)
Palavra e significação
Segundo Merleau-Ponty, a ciência e a
filosofia, vítimas do objetivismo e do
subjetivismo, nunca foram capazes de
prestar contas da especificidade da lin-
guagem e de seu modo de dar origem à
comunidade cultural. Para a ciência, a
linguagem se reduz à emissão de sons,
objetos de uma ciência natural, a acústi-
ca. Assim, a linguagem se reduz a um
sistema a econômico de si-
nais que permitem aos homens uma certa
coexistência. Para a filosofia, a lingua-
gem sempre foi uma tradução imperfeita
do pensamento e os filósofos sempre se
preocuparam em purificá-la para que
pudessem “vestir” mais corretamente as
idéias mudas e verdadeiras. Filosofia e
ciência nunca alcançaram a dimensão
expressiva da linguagem. A palavra não
é tradução de um sentido mudo, mas
criação de sentido. A linguagem não
“veste” idéias — encarna significações,
estabelece a mediação entre o eu e o
outro e sedimenta os significados que
constituem uma cultura. A palavra é «
modulação de uma certa maneira de
existir, que é originariamente sensível.
“A linguagem não é mais a seiva das
significações, mas o próprio ato de signi-
ficar, e o homem falante ou o escritor
não pode governá-la voluntariamente,
assim como o homem vivente não pode
premeditar o detalhe e os meios dos seus
gestos. A única maneira para com-
preender a linguagem é instalar-se nela e
exercê-la” (Signes).
Corpo, mundo, linguagem e intersub-
jetividade encarnada levam Merleau-
Ponty à crítica fundamental do “pensa-
mento de sobrevõo” na filosofia e na
821
OS PENSADORES
ciência. Corpo, mundo, linguagem, inter-
corporeidade revelam que o real trans-
borda sempre, que seu sentido ultra-
passa os “dados” e os “conceitos”. A
percepção revela o mundo como latenicia
como transcendência. A pintura e a lin-
guagem surgem como experiências reve-
ladoras dessa latência e dessa transcen-
dência do real, de um ser selvagem prê-
reflexivo, sempre além e aquém dos fatos
e das idéias. Qual o enigma da pintura?
Quando contemplamos as figuras pinta-
das nas cavernas, o que contemplamos?
As figuras não são as cores ali fixadas;
não são as marcas no calvário; não são
cópias de animais e homens que já dei-
xaram de existir; não são o material
usado para criá-las. Os animais pintados
nas paredes das cavernas são pintados
porque só existem sob a condição ex-
pressa de não se confundirem com a
materialidade que os cristalizou nas
paredes. O enigma da pintura consiste
em fazer com que os objetos estejam na
tela sob a condição expressa de não esta-
rem ah, de transcenderem a materiali-
dade, sem a qual, entretanto, não existi-
riam, € rumarem para 0 sentido, sem o
qual não seriam pintura. Qual o enigma
da linguagem? É o de que nela a signifi-
cação sempre ultrapassa o significante, e
este sempre engendra novas significa-
ções, de sorte que entre significação e
significante nunca existe equilíbrio, mas
ultrapassamento de um pelo outro gra-
ças do outro. Esse ultrapassamento é o
sentido. “A linguagem é, pois, este apa-
relho singular que, como nosso corpo,
nos dá mais do que pusemos nela, seja
porque apreendemos nossos próprios
pensamentos. quando falamos, seja por-
que os apreendemos quando escutamos
os outros. Quando escuto ou leio, as
palavras não vêm sempre tocar significa-
ções pré-existentes em mim. Têm o poder
de lançar-me fora de meus pensamentos,
criam no meu universo privado cesuras
or onde outros pensamentos podem
irromper” (Signes).
A ontologia selvagem
A trajetória merleau-pontyana ruma
para a ontologia selvagem ou prê-refle-
xiva. Le Visible et "Invisible procura o
ser bruto, indiviso, latente, transcen-
822
dente, anterior a todas as separações e
fixações que o pensamento filosófico ou
científico lhe impõe. É essa ontologia
que, partindo dos referenciais já explici-
tados, exigirá a radicalidade da interro-
gação filosófica. Radicalidade em duplo
sentido: por um lado, como exigência de
levantamento crítico de todos os conceil-
tos filosóficos e científicos, como precon-
ceitos que escondem uma metafísica
dualista; por outro lado, como exigência
da busca da raiz, da origem das relações
corpo-mundo, corpo-linguagem, mundo
sensíivel-mundo cultural. Essa radical-
dade visa criticar as pretensões dos sis-
temas conceituais, que aspiram a fechar
aquelas relações num circulo determi-
nado de pressupostos e absolutos. A des-
coberta do ser selvagem é a descoberta
de um “ser de abismo”, que não pode
ficar encerrado, mas que se manifesta e
se ultrapassa numa modificação infinita-
mente aberta e nova.
A última nota de trabalho de Le Visi-
ble et PInvisible mdica o plano que o
livro deveria seguir: “Meu plano: I o
Visível; IL a Natureza; II o Logos. Deve
ser apresentado sem nenhum compro-
misso com o humanismo, nem, além
disso, com o naturalismo, nem, enfim,
com a teolo ii
A filosofia não se compromete com um
sistema conceitual que faça do homem,
da matéria ou de Deus o cânone e o fun-
damento do real e de seu conhecimento.
Nem antropologia, nem naturalismo,
nem teologia, mas ontologia do Ser
Bruto, pré-reflexivo, que se manifesta
através do homem e das coisas, mas que
não se cristaliza neles. A filosofia deve
combater os absolutos rivais: homem-
natureza, Deus-Natureza, Natureza-His-
tória, História-Deus. Nesse combate
contra os absolutos, a filosofia recupera
o valor da contingência e do aconteci-
mento e, dessa maneira, o filósofo apare-
ce como um homem entre outros homens
e não como o detentor do Saber Absolu-
. “Sua dialética ou sua ambiguidade é
ReNera uma maneira de pôr em palavras
aquilo que todo homem sabe muito bem:
o valor dos momentos nos quais sua vida
se renova continuando-se, se retoma e se
compreende, passando além, ali onde seu
mundo privado torna-se mundo comum”
(Éloge de la Philosophie). A única dife-
MERLEAU-PONTY
“Como meu corpo, que entretanto é apenas um pedaço de matéria, se unifica
em gestos que visam além dele, assim também as palavras da linguagem, que,
consideradas uma a uma, são apenas signos inertes aos quais corresponde
alguma idéia vaga ou banal, inflam-se subitamente com um sentido que
extravasa no outro quando o ato de falar os ata em um único todo.” (Signes.)
rença entre os homens e o filósofo reside
na atenção que este dedica ao surgi-
mento das coisas, dos homens e de suas
relações recíprocas como surgimento de
um sentido latente e novo que pré-existia
como possibilidade e que chegou a ser
explicitado. A ontologia de um mundo
selvagem é a afirmação de que “este
mundo barroco não é uma concessão do
espirito à natureza, pois. se em toda
parte o sentido está figurado, em toda
parte se trata de sentido. À renovação do
mundo é também renovação do espírito,
redescoberta do espírito bruto que não
está aprisionado por nenhuma cultura e
ao qual se pede que crie novamente a
cultura. O irrelativo, doravante, não é a
natureza em si, nem o sistema das
apreensões da consciência absoluta,
nem, muito menos, o homem, mas a
“teleologia” de que fala Husserl — escrita
e pensada entre aspas —, juntura e mem-
brana do Ser que se realiza através do
homem” (Le Philosophie et Son Ombre).
823
1908 — 4 4 de março, em
Rochefort-sur-Mer, nasce
Maurice Merleau-Ponty.
1917 — Os revolucionários
comunistas tomam o poder
na Rússia. Morre Durkheim.
1919 — Publicação de
LÉnergie Spirituelle, de
Bergson.
1926-1930 — Merleau-
Ponty estuda na École Nor-
male Supérieure.
1927 — Heidegger publica
a primeira parte de Ser e
Tempo.
1929 — Thomas Mann re-
cebe o Prêmio Nobel de
literatura.
1932 — Jaspers publica Fi-
losofia.
1937 — Morre Antonio
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
Gramsci.
1938 — Publicação de A
Náusea, de Sartre.
1939-1940 — Merleau-
Ponty é mobilizado como
oficial do 5.º Regimento de
Infantaria.
1941 — Arthur Koestler
publica Darkness at Noon.
1942 — Publica-se La
Structure du Comportement,
de Merleau-Ponty. Camus
publica O Estrangeiro e O
Mito de Sísifo.
1945 — Merleau-Ponty
doutora-se em filosofia com
Phénoménologie de la Per-
ception. No mesmo ano, jun-
tamente com Sartre, funda a
revista Temps Modernes.
1947 — Publica Humanis-
BIBLIOGRAFIA
me et Terreur.
1948 — Publica Sens et
Non-Sens. Torna-se profes-
sor na Universidade de
Lyon.
1952 — Torna-se catedráti-
co de filosofia no College de
France; na aula inaugural,
pronuncia seu ensaio Eloge
de la Philosophie.
1953 — Morre Stálin.
1955 — Merleau-Ponty pu-
blica Les Aventures de la
Dialectique. Morre Einstein.
1960 — Merleau-Ponty pu-
blica Signes. Surge a Crítica
da Razão Dialética, de Sar-
tre.
1961 — Em Paris, a 3 de
maio, vitima de embolia, fa-
lece Merleau-Ponty.
CHAUÍ BERLINCK, M.: Merleau-Ponty e a Crítica do Humanismo, tese de mestrado, USP, 1967
(inédito).
WAELHENS, A. de: Une Philosophie de ['Ambiguité: L Existentialisme de Maurice Merleau-
Ponty, Bibliothêque Philosophique de Louvain, 1951.
Ricoeur, P.: Hommage à Merleau-Ponty, in Esprit, n.º 296, 6 de junho de 1961, pp.
1115-1120.
HyproLITE. J.: Existence et Dialectique dans la Philosophie de Merleau-Ponty, in Les Temps
Modernes, número especial, 184-185, 1961, pp. 228-244.
LACAN, J.: Maurice Merleau-Ponty, ibid., pp. 245-254.
LEFORT, C.: L Tdée d Étre Brut et d'Esprit Sauvage, ibid., pp. 255-286.
PoNTALIS,J.-B.: Note sur le Probleme de | Tnconscient chez Merleau-Ponty, ibid., pp. 287-303.
SARTRE, J.-P.: Merleau-Ponty Vivant, ibid., pp. 304-376.
WAELHENS, A. de: Situation de Merleau-Ponty, ibid., pp. 376-398.
WAHL, J.: Cette Pensée. . ., ibid., pp. 399-436.
GANDILLAC, M. de: Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), in Revue Philosophique, n.º 1, 1962,
pp. 103-106.
BAYER, R.: Merleau-Ponty et VExistentialisme, ibid., pp. 1079-117.
DuFRENNE, M.: Maurice Merleau-Ponty, in Les Études Philosophiques, n.º 1, 1962, pp. 81-92.
LerorT, C.: Posfácio, in O Visívele o Invisível, Editora Perspectiva, São Paulo, 1971.
L 'Arc, n.º 46, dedicado a Merleau-Ponty.
Tonel Ex
Vs É ” 2 RS s
4
fo,
É
pos
(|
OS PENSADORES
uma das figuras mais importantes,
olêmicas e contraditórias da filo-
sofia do século XX. Pensador de múlti-
plos interesses intelectuais, desenvolveu
atividade de escritor extraordina-
riamente fecunda e, desde 1896, quando
publicou Democracia Social Alemã, não
houve praticamente um ano, até 1946,
em que não viesse à luz um livro seu,
sem contar imúmeros artigos, publicados
nas mais diversas revistas. Nesses
escritos encontram-se tratados quase
todos os assuntos filosóficos, além de
problemas de interesse geral, como o
uso militar da energia atômica ou a
articipação norte-americana no con-
Niio vietnamita. Até sua morte (1970),
permaneceu um critico de instituições
sociais opressoras, um pacifista ardo-
roso e um militante infatigável em movi-
mentos em defesa da liberdade humana.
Devido a isso, foi muitas vezes atacado
por círculos conservadores, tornou-se
frequentemente manchete dos jornais,
conheceu a prisão.
Ao lado dessas atividades que o torna-
ram conhecido de um amplo público em
todo o mundo, Bertrand Russell desen-
volveu, porém, uma série de trabalhos
rigorosamente técnicos, ue o colocam
como uma das principais figuras da filo-
sofia contemporânea.
B ertrand Russell é, sem dúvida,
Do idealismo ao realismo
A obra filosófica de Russell é consti-
tuída, basicamente, por preocu ações
lógicas, epistemológicas e metafisicas,
mas não é possivel distinguir muito bem
essas três ordens de problemas. A cone-
xão entre elas pode ser formulada da
seguinte maneira: pretendendo-se saber
qual a natureza das coisas, é necessário
procurar conhecê-las; a questão de saber
o que as coisas são é, pois, inseparável
da questão de saber como se conhecem
as coisas como sendo o que são, e parti-
cularmente da questão e saber qual a
garantia de que as coisas são o que se
diz que elas são ao se pretender conhe-
cê-las. Em suma, o problema metafísico
Na página anterior: retrato do
filósofo Bertrand Russell; British
Information Services (Foto Fabbri).
826
(o que as coisas são?) seria inseparável
do problema epistemológico (o que
garante a verdade de um suposto conhe-
cimento das coisas e como um conheci-
mento verdadeiro delas é possível?).
Ora, nem o conhecimento das coisas nem
o discurso que o exprime são dados
simples, indecomponíveis, antes siste-
mas estruturados de elementos de dife-
rentes espécies. Nesse sentido, o exame
do processo do conhecimento é insepa-
rável da análise de sua estrutura, ou
seja, o problema epistemológico é inse-
parável do problema lógico (quais são
os elementos que compõem nosso pensa-
mento das coisas e como se articulam
para produzir um discurso significativo
sobre elas?).
A filosofia russelliana aparece como o
produto da imbricação dessas ordens
distintas de problemas, e nela o privi-
légio da lógica só é comparável à má
fortuna da metafísica. A espantosa mu-
tabilidade das posições filosóficas de
Russell no decorrer de sua vida intelec-
tual pode ser, em ande parte, enten-
dida a partir das dificuldades impostas
pela idéia de que toda tese metafísica
pressupõe uma certa maneira de anali-
sar a estrutura lógica da linguagem,
pois, se a estrutura metafísica do mundo
deve ser, em algum sentido, inferida da
estrutura lógica da linguagem, a ques-
tão de saber como efetuar essa infe-
rência torna-se crucial. As diferentes
respostas que Russell sucessivamente
ofereceu e rechaçou correspondem às
diferentes etapas de sua história filosó-
fica individual.
A primeira etapa caracterizou-se pela
oposição ao idealismo, associado por
Russell aos nomes de Kant
(1724-1804), Hegel (1770-1831) e Bra-
dley (1846-1924). O idealismo de Bra-
ae principal alvo das críticas de Rus-
sell e de quem este se confessa discípulo
até 1898, quando dele teria se afastado,
por influência de Moore, indavasse
sobre a chamada teoria das relações
internas. Segundo essa teoria, todo obje-
to é de natureza mental, desde que se ad-
mita que a natureza de um objeto é
determinada pelo conjunto das proprie-
dades que podem ser atribuídas a ele.
Para Russell, a teoria das relações inter-
nas pode ser inteiramente refutada na
RUSSELL
Russell estudou no Trinity College,
Cambridge. A respeito dessa escola,
escreveria: “O único hábito de
pensamento de real valor que adquiri
foio da honestidade intelectual”.
Mame DO
FABBRI
base de considerações lógicas, pois a
base dessa teoria é constituída por uma
doutrina lógica incorreta: a de que toda
proposição tem como componentes bási-
cos um sujeito e um predicado. A idéia
de que a relação com o espírito é uma
propriedade determinante da natureza
de todo objeto de conhecimento é deriva-
da, diz Russell, da idéia de que a propo-
sição “o objeto a mantém a relação R
com b” decompõe-se em um sujeito (“o
objeto a”) e um predicado (“mantém a
relação R com b”), sendo que o predi-
cado enuncia uma propriedade do sujei-
to. A análise lógica das proposições
matemáticas e o contato com as doutri-
nas lógicas de Peano (1858-1932) e
Frege (1848-1925) levaram Russell a
reconhecer a irrelevância lógica das
categorias de sujeito e predicado. e
particularmente a incorreção da análise
de proposições que enunciam relações
entre da fundada sobre tais catego-
rias. A proposição mencionada não
comportaria dois, mas três elementos lô-
gicos: “o objeto a”; “mantém a relação
R com”; e “b”, Nada obrigaria nesse
caso a inclurr “b” como elemento consti-
tuinte de um predicado enunciado do
sujeito, devendo-se antes considerá-lo no
mesmo nível lógico que o sujeito, enten-
dendo-se a proposição como a enuncia-
ção de algo a respeito de a e b. À análise
lógica correta de proposições dessa
espécie sugere, pois, uma teoria das
relações externas, isto é, a idéia de que
as relações que um objeto mantém com
outros em nada afeta sua natureza
própria.
Nesse periodo, que tem como ponto
máximo Os Princípios da Matemática
(The Principles of Mathematics) (1903),
a inferência da lógica à metafísica foi
feita por Russell de maneira radical:
toda proposição sigmficativa remeteria
a um fato no mundo, a estrutura desse
fato espelharia a estrutura interna da
proposição, de modo que a cada expres-
são da proposição corresponderia algo
no mundo, e a cada relação entre as
expressões corresponderia uma relação
entre os objetos por elas significados.
Tais objetos existiriam, portanto, como
garantia da significatividade das propo-
sições e, contrariamente à tese defendida
por Bradley, seriam independentes entre
827%
OS PENSADORES
si e em relação ao ato de conhecer.
Esse realismo extremo foi logo aban-
donado por Russell. Além dos problemas
mais imediatos colocados por ele (como
o de reconhecer algo no mundo referido
por palavras como “e”, “porém” e ou-
tras da mesma SSnecie: “surgiram outros
problemas que levaram Russell a aban-
donar o realismo extremo. Um dos pri-
meiros e mais importantes passos nessa
direção foi dado, em 1905, no artigo
Sobre a Denotação que, tratando da aná-
lise do significado HE expressões deno-
tativas, introduziu a teoria dos símbolos
incompletos e a noção de significado em
contexto.
Construções lógicas
Russell refutou o idealismo de Bra-
dley, reconhecendo-o como conse-
quência da tese infundada de que toda
proposição deve ser analisada com base
na distinção entre sujeito e predicado. A
passagem do realismo extremo à teoria
do signifi icado em contexto foi conse-
iência da recusa em dotar de qualquer
relevância lógica as categorias de sujei-
to e predicado. Examinando-se as ex-
pressões que aparecem como sujeitos de
proposições, diz Russell, percebe-se que
elas pretendem denotar um ou mais
objetos, determinados ou indetermi-
nados: “o atual rel da França”, “alguns
reis”, “todos os reis”, etc. À luz da dou-
trina do significado em contexto, tais
expressões, chamadas denotativas, ape-
nas poderiam comparecer em proposi-
ções significativas se de fato denotassem
objetos reais, visto que, na qualidade de
SEO das proposições (elementos in-
endentes da estrutura proposicio-
Ea a elas deveriam corresponder ele-
indi independentes da estrutura real
dos fatos significados. A teoria do signi-
ficado em contexto serve para revelar o
caráter ilusório dessa necessidade de
atribuir denotação às expressões deno-
tativas, exibindo-as não como elementos
independentes das proposições, mas
como simbolos incompletos.
O pressuposto de que toda expressão
denotativa denota algo acarreta proble-
mas insolúveis; torna impossível, por
exemplo, a negação de existência. To-
me-se por exemplo a proposição “O
828
atual rei da França não existe”; se ela
for reconhecida como significativa, de-
ver-se-ia reconhecer a existência de algo
denotado por “o atual rei da França” e,
portanto, a falsidade da proposição.
Nenhuma negação de existência seria
então verdadeira, pois sua significati-
vidade implicaria necessariamente sua
falsidade. Uma linha de solução, assu-
mida entre outros por Meinong
(1853-1921), consiste em distinguir
entre existência e subsistência e exigir
que expressões denotativas denotem não
entidades existentes mas simplesmente
subsistentes. Sem falar na obscuridade
da noção de subsitência, se essa distin-
ção resolvesse o problema no que con-
cerne a “o atual rei da França”, certa-
mente não o resolveria no que concerne a
“o círculo quadrado”, visto que o cará-
ter contraditório das propriedades que a
entidade supostamente denotada por
essa expressão deveria possuir impede
atê mesmo que seja admitida como
subsistente, seja qual for o sentido que
se dê a “subsistência”. Problemas seme-
lhantes poderiam ser também levanta-
dos com respeito a expressões como “um
centauro”, “todos os anjos”, etc.
Trata-se pois de mostrar como uma
expressão denotativa pode ocorrer em
proposições significativas sem que ne-
cessariamente denote algo. A solução de
Russell consistiu em reconhecer tais
expressões como símbolos incompletos,
isto é, expressões sem significado inde-
pendente, mas apenas em contexto. Se
elas aparecem como elementos inde-
pendentes da estrutura gramatical da
proposição, como seu sujeito, é porque
essa estrutura gramatical não corres-
ponde à sua estrutura lógica, e o que se
chama sujeito da proposição não corres-
ponde necessariamente a um elemento
independente de seu significado. Anali-
sando o significado de uma proposição
onde aparece “o atual rei da França”,
percebe- se que ele não contém necessa-
riamente a afirmação de que algo corres-
ponde a essa expressão como sua deno-
tação, mais ainda, que na estrutura
lógica da proposição nada corresponde a
'o atual rei da França”. Segundo Rus-
sell, a estrutura lógica de “o atual rei da
França é calvo” encontra um correspon-
dente gramatical adequado na proposi-
RUSSELL
A família de Russell pertencia à ala mais liberal da aristocracia inglesa:
o avó paterno foi primeiro ministro e notabilizou-se pelas lutas em defesa da
instrução popular e da emancipação dos judeus; o pai pretendeu educá-lo como
agnóstico; a mãe foi líder de movimentos feministas e, “não raro, metia-se em
maus lençóis”. (Paris em 1900: passeata pelo direito de voto às mulheres.)
ção “algo é rei da França e é calvo, e
nada mais é rei da França”. Vê-se clara-
mente que nenhuma parte dessa proposi-
ção apresenta-se como indicadora de um
objeto determinado que seria o atual rei
da França; isso evidencia pois que a
expressão denotativa em questão é parte
gramatical, mas não logicamente rele-
vante da proposição inicial. Nesse senti-
do, ela não contribui para o significado
total da proposição com uma parcela
isolável, mas o faz apenas no contexto
global dessa proposição. Indicar a espe-
cificidade dessa contribuição não é, por-
tanto, especificar um significado inde-
pendente, mas indicar como contextos
contendo expressões denotativas podem
ser parafraseados globalmente por con-
textos onde elas não ocorrem, visto que,
na qualidade de simbolos incompletos,
elas significam apenas em contexto.
A teoria dos simbolos incompletos
constatui o núcleo da noção russelliana
de construção lógica. Numa primeira
fase de seu pensamento, Russell susten-
tava que a estrutura dos fatos deveria
ser inferida da estrutura das proposições
de modo imediato. Problemas como os
acima examinados levaram-no, não pro-
priamente a abandonar esse princípio,
mas a distinguir dois niveis na estrutura
de uma proposição: o gramatical e o ló-
gico, a estutura material e visível da
proposição e a estrutura de seu signifi-
cado. A superação do realismo extremo
é, de fato, recusa da inferência que con-
clui a estrutura material, mantendo-se
contudo a possibilidade de tomar como
premissa a estrutura lógica revelada
pela análise lógica. De fato, nem tudo
que a linguagem pretende denotar existe
efetivamente, pois nem toda expressão
denotativa efetivamente denota. Se uma
proposição, que aparentemente se refere
829
FABBRI
OS PENSADORES
a certas entidades, puder ser parafra-
seada de modo que a paráfrase não
implique referência a tais entidades e
tenha o mesmo valor de verdade que a
proposição original, diz-se que a propo-
sição é uma construção lógica a partir
daquela oferecida como paráfrase, e que
as supostas entidades são de fato cons-
truções lógicas a partir dos elementos
es Ra RÃ na paráfrase. À lógica
caberia, pois, o caráter de reverso dessa
construção, reduzindo o mundo aparente
— imduzido pela interpretação imediata
das proposições — ao mundo real dos
elementos a partir dos quais aquele logi-
camente se constrói. À análise lógica
aparece, portanto, como instrumento
essencial da filosofia, e até mesmo da
metafísica.
Construindo a ciência
A noção de construção lógica mostra-
se extremamente fecunda no dominio da
epistemologia. “Desde muito jovem”,
830
1924, “desejei
ardentemente acreditar que pudesse
haver algo como o conhecimento, desejo
combinado com grande dificuldade em
aceitar muito do que passa por conheci-
mento.” De fato, nem toda teoria cienti-
fica exibe à plena luz as garantias de
sua veracidade, em grande parte devido
ao caráter problemático das entidades a
que fazem referência. Ora, se fosse pos-
sivel parafrasear as proposições de uma
tal teoria, de modo a evitar qualquer
referência a essas entidades, e portanto
reduzi-las a construções lógicas, isso
seria um passo importante no sentido de
uma fundamentação satisfatória da ciên-
cia. Russell foi, assim, levado a estabe-
lecer o princípio: “Sempre que possível
substituir inferências a entidades desco-
nhecidas por construções a partir de
entidades conhecidas”. É pena
notar que, para Russell, isso não si
fica necessariamente identificar entda
des desconhecidas a outras conhecidas,
pois é possível também, em certos casos,
confessa Russell em
O
RUSSELL
“Busquei, primeiro, o amor, porque
ele produz êxtase — um êxtase tão
grande que, não raro, eu sacrificava
todo o resto da minha vida por umas
poucas horas dessa alegria.”
(A primeira esposa do filósofo, Alys
Russell; a segunda, Dora Blair;
Russell, em 1907; ea terceira
esposa, Patricia Hellen Spence.)
FABBRI
entender as expressões que pretendem
denotar entidades desconhecidas como
simbolos incompletos, de modo a não
encontrarem correspondente algum nas
paráfrases obtidas.
Dentro da perspectiva desse princípio,
pode-se encarar o trabalho epistemo-
lógico de Russell como tentativa de
reduzir os corpos constituídos de ciência
a construções lógicas a partir dos ele-
mentos mais primitivos, obtendo assim
uma economia de entidades a serem
tomadas por irredutíveis. O momento
mais célebre e bem sucedido desse tra-
balho foi, sem dúvida, a construção da
teoria aritmética a partir de elementos
exclusivamente lógicos, momento ex-
presso com perfeição nos Principia
Mathematica. Além da matemática tam-
bém a fisica e a psicologia mereceram a
atenção de Russell, respectivamente em
Análise da Matéria e Análise de Espíri-
to. Nesses livros, Russell advogou a
idéia de que toda proposição a respeito
de corpos poderia ser parafraseada em
831
OS PENSADORES
“O anseio de amor, a busca do
conhecimento e a dolorosa piedade
pelo sofrimento da humanidade” foram
as paixões do filósofo. (Russell, por
Woodmansterne; Nat. Portrait Gall.)
termos de dados dos sentidos e de que
toda proposição a respeito da mente
poderia ser parafraseada em termos de
sensações. Corpos e mentes não seriam,
pois, entidades irredutíveis, mas cons-
truções lógicas a partir de entidades
mais primitivas, dados dos sentidos e
sensações. Não se trata de identificar
corpos a dados dos sentidos, mentes a
sensações, mas entender toda proposi-
ção a respeito de corpos como uma “ma-
neira de dizer algo” a respeito de dados
dos sentidos, sem que deva haver neces-
sariamente paralelismo entre a estrutura
da paráfrase e a da proposição parafra-
seada. Em outros termos, expressões
aparentemente denotando corpos pode-
riam ser encaradas como simbolos in-
completos, significativos apenas no con-
texto de uma proposição, analogamente
a “o atual rei da França”. Ao contrário
do que ocorre no caso da aritmética,
porém, o projeto construcionista apli-
cado à física e à psicologia não conse-
guiu jamais ultrapassar o nivel da inten-
ção e do esboço.
832
FABBRI
Matemática e lógica
As concepções epistemológicas de
Russell acerca da matemática são gover-
nadas pela idéia nuclear de que a mate-
mática não é mais que um desenvolvi-
mento da lógica, toda proposição
matemática podendo ser parafraseada
em termos exclusivamente lógicos. Essa
paráfrase far-se-iia em duas etapas.
Mostrar-se-ia em primeiro lugar como
parafrasear a aritmética em termos lógi-
cos, em seguida como parafrasear todo o
campo tradicionalmente atribuído à ma-
temática pura.
A fim de levar a cabo esse projeto,
Russell foi obrigado a efetuar uma
reestruturação radical da lógica clássi-
ca. Em primeiro lugar, a paráfrase das
proposições aritméticas em termos lógi-
cos pressupõe a possibilidade de discri-
minar as partes logicamente relevantes
dessas proposições, pois ela assume
necessariamente a forma de um inven-
tário de regras indicando como traduzir
logicamente uma proposição a partir do
conhecimento das partes que a com-
põem, dado o número potencialmente
infinito de proposições a parafrasear,
bem como o número finito de expressões
logicamente simples a partir dos quais
podem ser construidas. Ora, as catego-
rias da lógica clássica são inadequadas
para uma análise lógica precisa, princi-
palmente as de sujeito e predicado. Além
disso, as proposições da lógica que se
devem oferecer como paráfrase para as
aritméticas são de tal modo complexas
que não poderiam ser formuladas con-
tando-se apenas com o vocabulário
disponível na lógica clássica. Enfim, se a
redução da aritmética à lógica não pode
consistir simplesmente em uma tal pará-
frase, mas também na demonstração de
que a proposição lógica que traduz uma
lei aritmética é sempre logicamente
dedutível de leis lógicas gerais, a lógica
clássica não se mostra capaz de oferecer
uma teoria da dedução à altura dessa
tarefa.
A reestruturação da lógica levada a
cabo por Russell é idêntica em espírito à
efetuada por Frege (1848-1925). As
categorias de sujeito e predicado cedem
lugar às de argumento e função proposi-
cional; a oposição entre juízos univer-
RUSSELL
=.
ea
, EM
GEE. Newkoh American EM
há WIM FERN
bUtER EE e ee MO
ABRO AM cr += re a GE cimo CARAS BAOIP
ex VON E eo apos WILSOM
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FABbBRI
NATIONAL SERVICE
WOMENS
LAND ARMY
FABBRI]
Ardente defensor do pacifismo, Bertrand Russell trabalhou ativamente para que
a Inglaterra permanecesse neutra, durante a Primeira Guerra Mundial; por
causa disso chegou a ser encarcerado. (Cartaz inglês exorta as mulheres a
ngressar no Serviço Rural Feminino, e um jornal norte-americano anuncia a
entrada dos Estados Unidos no conflito; Fototeca Histórica Nacional, Roma.)
sais, particulares e singulares é formu-
lada em termos de uma teoria da
quantificação; a oposição entre afirma-
ção e negação é abarcada por uma teoria
mais ampla das funções de verdade. A
noção de função proposicional foi obtida
por Russell por extensão da noção mate-
mática de função: “Por uma “função
proposicional” entendemos algo que con-
tém uma variável x e exprime uma
proposição quando um valor é atribuído
a x. Isto é, difere de uma proposição
somente pelo fato de ser ambígua: con-
têm uma variável cujo valor não é atri-
buído. Concorda com as funções ordiná-
rias da matemática no fato de conter
uma variável não atribuida; difere delas
pelo fato de serem os valores da função
proposições. São funções proposicio-
nais, por RA tr é homem”, “x é
menor que yº 'x não é ímpar”. Um
valor para a amáde que converta a fun-
ção em proposição é chamado argu-
mento da função. e a proposição resul-
tante é chamada valor da função para
aquele argumento. Toda proposição ele-
mentar, isto é, toda proposição que não
contém outras como partes, pode ser
encarada ou como o valor de certa fun-
ção para um ou mais argumentos, ou
como a afirmação de que todo argu-
mento converte uma função em proposi-
ção verdadeira, ou ainda como a de que
algum argumento converte certa função
em proposição verdadeira. Diz-se que as
duas últimas espécies de proposição são
obtidas a partir de tunções proposi-
cionais por operações de generalização,
termo substituído, depois de Russell,
por quantificação. À partir de proposi-
ções elementares podem ser obtidas
proposições moleculares mediante cer-
tas operações hoje conhecidas como fun-
ções de verdade. Essas operações carac-
terizam-se pelo fato de ser o valor de
verdade da proposição complexa univo-
camente determinado pelos valores de
verdade das proposições elementares
componentes. À negação, a disjunção, a
implicação, entre outras, são encaradas
como funções de verdade, visto que o
valor de verdade da negação de uma
833
OS PENSADORES
Alfred North Whitehead, autor de uma
obra original, como matemático e
Roso pa ho também o colaborador
o principal livro de
Russell, os Principia Mathematica.
proposição, por exemplo, é univoca-
mente determinado pelo valor de verda-
de da proposição negada, isto é, como
seu inverso.
As categorias inadequadas da lógica
clássica mostram-se tão solidárias com
a natureza das linguagens ordinárias
que dificilmente a formulação de propo-
sições da lógica em termos das novas
categorias poderia ser acomodada nes-
sas linguagens. Surgiu assim a necessi-
dade de conduzir o trabalho de redução
da aritmética à lógica, mediante uma
linguagem simbólica artificial, cuja gra-
mática fosse construida de acordo com
essas novas categorias. Além disso, a
posse de um simbolismo adequado per-
mitiu a especificação de um conjunto
bem determinado de regras de dedução,
indicando como passar de certas sequên-
cias simbólicas a outras logicamente
deriváveis daquelas, o que permite a
834
FABBRI
constituição de uma teoria precisa da
dedução. A operação de de pode
então ser efetuada mecanicamente, como
uma operação sobre simbolos, dispon-
do-se, portanto, de um cálculo lógico, no
sentido do projeto leibniziano de uma
característica universal.
Um paradoxo decisivo
As proposições aritméticas enunciam
propriedades e relações numéricas. O
primeiro passo da redução da aritmética
à lógica consiste, pois, em exibir o con-
ceito de número como uma construção
lógica a partir de materiais lógicos. Isso
se faz em duas etapas. Em primeiro
lugar, proposições acerca de números
são reduzidas a proposições acerca de
classes de objetos, e em seguida proposi-
ções acerca de classes são reduzidas a
proposições acerca de funções proposi-
cionais. A primeira etapa desse projeto
foi cumprida por Russell na mesma
linha seguida por Frege em sua obra
Leis Fundamentais da Aritmética
(1903), tendo os dois grandes lógicos
chegado a resuldados praticamente
idênticos de modo independente. Em
comparação com Frege, o trabalho de
Russell é menos rigoroso no manejo do
simbolismo e na condução das demons-
trações, representando, do ponto de
vista da sintaxe lógica, um passo atrás.
Por outro lado, enquanto Frege nem che-
gou a examinar as operações aritméticas
elementares dos números cardinais,
Russell ofereceu definições para os car-
dmais e ordinais, Inteiros e RacionaRoa
positivos e negativos, racionais e irra-
cronais, chegando a esboçar uma teoria
lógica da operação de medir grandezas
concretas.
Do seguinte modo Russell apreende
números cardinais enquanto classes: Um
cardinal n pode ser encarado como algo
que certas classes de objetos têm em
comum, precisamente as classes de n
objetos; esse “algo em comum” pode ser
nada mais que o fato de pertencerem
todas a uma certa classe, a classe das
classes que têm n elementos. Russell de-
fine então o número cardinal que convém
a uma classe como sendo a classe de
todas as classes que têm o mesmo núme-
ro de elementos que ela. Russell evitou a
- q
as -
RUSSELL
“À satisfação que então sentíamos em ser companheiros oi crescendo e parece
continuar crescendo sem limites, convertendo-se numa felicidade duradoura e
estável que é a base de nossa vida."
* Assim o filósofo refere-se a Edith
Finch, sua quarta esposa, com quem se casou aos oitenta anos de idade.
(Bertrand Russelle Edith Finch, em foto de 1953; Staatsbibliothek, Berlim.)
flagrante circularidade dessa definição,
definindo a relação “ter o mesmo núme-
ro de elementos que” em termos pura-
mente lógicos: uma classe tem o mesmo
número de elementos que outra sea cada
elemento da primeira se pode fazer
corresponder um único da segunda e
vice-versa, ou seja, se existe entre elas
uma correspondência biunivoca. Enfim,
define-se o conceito de número da
seguinte maneira: algo é um número se e
somente se existe uma classe da qual
esse algo seja o número. Os cardinais
finitos são definidos, em seguida, de
modo recursivo: em primeiro lugar defi-
ne-se O como o número da classe vazia;
depois define-se o 1 como o número de
uma classe não vazia, de modo tal que,
dados quaisquer elementos a e b, a é
considerado igual a b; finalmente, indi-
ca-se como ohter o número n+l a partir
da definição do número n. Reduzidos os
cardinais a classes, consequentemente
as propriedades, relações e operações
numéricas são reduzidas, em seguida, a
propriedades, relações e operações no
domínio das classes, obtendo-se, pois,
um método para reduzir proposições
sobre cardinais a proposições sobre
classes.
Russell, contudo, não considerou in-
teiramente satisfatória a redução dos
números a classes, por dois motivos. Em
primeiro lugar, a vantagem epistemo-
lógica dessa redução ficava comprome-
tida pelo caráter problemático das su-
postas entidades que seriam as classes.
Russell resolveu essa dificuldade mos-
trando como tudo o que se pretende com
a noção de classe pode ser também obti-
do com a noção de função proposicional.
Além disso, definiu contextualmente o
conceito de classe, indicando como para-
frasear proposições contendo nomes e
835
FABBRI
OS PENSADORES
variáveis para classes, em termos exclu-
sivamente de funções proposicionais.
Essa passagem deixa claro por que, para
Russell, proposições sobre classes são
proposições da lógica.
Outro aspecto torna problemática a
redução de números a classes. Se cabe
demonstrar as proposições artiméticas
reduzidas a partir de leis lógicas gerais,
uma dessas leis deve especificar a natu-
reza geral das classes. Os primeiros ló-
gicos e matemáticos que se aprovei-
taram da fecundidade da noção de
classe, como Frege, Cantor (1845-1918)
e Dedekind (1831-1916), julgaram evi-
dente que essa lei devesse tornar possi-
vel afirmar a existência de uma classe
correspondendo a toda função proposi-
cional, precisamente a classe de todos os
objetos que satisfizessem essa função,
ou seja, que a convertessem em proposi-
ção verdadeira. Mas, em 1903, Russell
descobriu uma contradição implicada
em tal afirmação, contradição conhecida
como o paradoxo das classes: tome-se a
função proposicional “x é uma classe
que não é membro de x” e chame-se de k
a classe por ela determinada; a classe k
será membro de k, se e somente se satis-
fizer a função que determina k, isto é, se
e somente se k não for membro de k, o
que é uma contradição. Em sua Autobio-
grafia, Russell refere-se ao paradoxo de
maneira mais simples: “Burali-Forti já
haviam descoberto uma contradição se-
melhante e, através da análise lógica,
verificou-se que havia entre ela afini-
dade com a contradição grega antiga a
respeito de Epimênides, o Cretense, que
disse que todos os cretenses são mentiro-
sos. Uma contradição essencialmente
semelhante à de Epimênides pode ser
produzida dando-se a uma pessoa um
pedaço de papel em que esteja escrito:
“A afirmação existente no verso deste
papel é falsa”. A pessoa vira o papel e lê,
no verso: “A afirmação existente no
outro lado deste papel é falsa”. Parecia
indigno de um homem já adulto perder
seu tempo com tais trivialidades, mas
que é que eu poderia fazer? Havia algo
errado, já que tais contradições eram
mevitáveis em premissas ordinárias.
Trivial ou não, a questão constituía um
desafio”.
A crise provocada pela descoberta do
836
paradoxo é de tal ordem que levou Frege
a abandonar a crença na possibilidade
de reduzir a aritmética à lógica.
A construção das classes a partir de
funções proposicionais não altera em
nada a situação, visto que o paradoxo
pode ser reproduzido para funções pro-
posicionais: basta indagar se a função
“F é uma função proposicional que não
satisfaz a si própria” satisfaz a si pró-
pria. Russell contudo não desesperou, e
ofereceu como remédio a chamada teoria
dos tipos.
O paradoxo é inevitável quando se ad-
mite a possibilidade de toda função
proposicional ser tomada como argu-
mento de toda função proposicional, e
particularmente de uma função ser to-
mada como argumento de si própria.
Essa possibilidade não pode, por outro
lado, ser inteiramente abolida, pois os
números devem ser apreendidos como
classes de classes, o que equivale, após a
redução de classes a funções, à exis-
tência de funções satisfeitas por funções.
Além disso, se essa possibilidade há que
ser de algum modo restrita, isso deve ser
feito por bons motivos lógicos, se as pre-
missas das deduções aritméticas devem
ser leis lógicas gerais. É o que Russell
pretendeu com a teoria dos tipos. Ela
consiste em ordenar os objetos em uma
hierarquia de tipos mutuamente exclusi-
vos, e em limitar os argumentos de toda
função aos objetos de um sô tipo. Assim,
objetos que não são funções seriam de
tipo 1, funções cujos argumentos são de
tipo 1 seriam de tipo 2, e assim por dian-
te, de modo que uma função de tipo n+1
apenas pudesse tomar como argumentos
objetos de tipo n. Desse modo, uma
expressão que pressupusesse o contrário
não deveria ser tomada como falsa, mas
como não significativa, gramaticalmente
incorreta. Em particular, não seria sig-
nificativa a expressão “F não satisfaz
F”, pois implica tomar como argumento
de F uma função de mesmo tipo, a pró-
pria F.
Russell encarou a teoria dos tipos
como logicamente admissível na medida
em que é simplesmente a generalização
de um fato lógico inconteste: o fato de
nem sempre ser possivel a uma expres-
são ocupar no contexto de uma proposi-
ção qualquer posição lógica. Uma ex-
RUSSELL
Por volta de 1955, Bertrand Russell empreendeu grandes esforços pela
utilização pacífica da energia nuclear e contra a bomba atômica. Para isso,
entrou em contato com os mais eminentes cientistas e intelectuais de todo o
mundo e organizou a conferência de Pugwash, na Índia. (O
ilósofo e Albert
Schweitzer, 1955; foto do livro Russell, de autoria de Philip Devane.)
ressão que denote um objeto que não é
funcao não pode evidentemente ocupar a
posição reservada a expressões de fun-
ção. Do mesmo modo, dada uma função
F, nem todo objeto pode aparecer na
posição de seu argumento, surgindo o
paradoxo como evidência de que, em
especial, a própria função F não o pode.
Essa impossibilidade seria requerida
ainda por um princípio que Russell en-
cara como lógico, o princípio do círculo
vicioso: “Tudo aquilo que implica a
totalidade de uma coleção não deve ser
membro da coleção”. Se uma coleção é
formada a partir de seus membros, estes
devem estar disponíveis no momento de
formá-la, nenhum deles podendo impli-
car, portanto, a existência prévia da
coleção. Ora, uma função proposicional
determina-se pelo conjunto de seus valo-
res possíveis, não sendo possivel, sem
incorrer em círculo vicioso, admitir que
alguns desses valoes dependam da
disponibilidade prévia da própria fun-
ção como argumento possível.
A adoção do princípio do círculo
837
FABBRI
OS PENSADORES
!
Quase centenário, Bertrand Russell
liderou um movimento contra a
di dos norte-americanos no
conflito vietnamita, e instituiu um
tribunal para julgar crimes de guerra.
vicioso levou Russell a complicar a hie-
rarquia dos tipos, acrescentando uma
hierarquia de ordens, de modo que fun-
ções do mesmo Al an pertencer
a diferentes ordens, de acordo com o tipo
das funções que aparecem como partes
de suas expressões. Essa hierarquia de
ordens complica muito a manipulação
do simbolismo e, principalmente, torna
necessário acrescentar um novo axioma
ao sistema, a fim de que ele comporte a
redução da aritmética à lógica; trata-se
do axioma da redutibilidade, que garan-
te a pessibi doa ae de encontrar, para
toda função de tipo n, outra função de
mesmo tipo, satisfeita pelos mesmos
argumentos e da menor ordem compa-
tivel com o tipo n, o que praticamente
equivale à possibilidade de manipular o
simbolismo independentemente de consi-
derações acerca das ordens de funções;
Na verdade, a hierarquia de ordens ape-
nas é relevante quando se trata de afas-
838
FABBRI
tar paradoxos semânticos, surgidos no
momento em que são admitidas na lin-
guagem expressões que denotam expres-
sões da própria linguagem. Na medida
em que a qe que deve servir ao
projeto de redução da aritmética à lógi-
ca prescinde de tais expressões, pode-se
construí-la de modo que os paradoxos
semânticos não apareçam; a hierarquia
de ordens, assim, torna-se supérflua.
Embora outras soluções tenham sido
propostas para os paradoxos em ques-
tão, a teoria dos tipos não perdeu sua
atualidade na moderna teoria dos con-
Juntos, inspirando, entre outros, o siste-
ma exposto pelo lógico W. Quine
(1908- ) em seu conhecido e impor-
tante artigo Novos Fundamentos de Ló-
gica Matemática.
Os átomos da lógica
O método de análise lógica das teorias
científicas e do discurso sobre as coisas
ocupa lugar central na filosofia de Rus-
sell, articulando facetas epistemológicas
e metafísicas. Para Russell, tudo o que
se conhece é obtido ou a partir de um
contato direto (acquaintance) com obje-
tos, ou por construções lógicas redutí-
veis, em última instância, a elementos
dados diretamente. A análise lógica das
teorias é, pois, ao mesmo tempo, o
discernimento das etapas e procedi-
mentos que possibilitam a edificação de
um sistema de conhecimentos, e um 1ns-
trumento indispensável a toda investiga-
ção epistemológica. Essa maneira de
encarar o conhecimento foi posta por
Russell a serviço do empirismo. À noção
de “contato direto” tende a confundir-se
com a de “experiência direta”, de modo
que a análise lógica de uma teoria deve
poder apresentar todo o conjunto de suas
proposições como formulado em termos
de expressões simples, denotando enti-
dades simples e diretamente acessíveis à
experiência. O empirismo russelliano
afasta-se, porém, do empirismo tradicio-
nal, ou ao menos daquilo que Russell
Julgava ser o empirismo tradicional, no
sentido de reconhecer a necessidade de
princípios de inferência não empirica-
mente fundamentados, para tornar pos-
RUSSELL
Analisando os fundamentos lógicos da matemática, Bertrand Russell abriu novos
rumos para a filosofia nos terrenos da mais alta abstração, mas manteve-se
sempre interessado pelos problemas concretos da humanidade e liderou diversos
movimentos populares. Na foto acima, em Trafalgar Square, Londres, o filósofo
dirige-se a encrme público, abordando o problema do desarmamento nuclear.
sível a construção do corpo geral de
conhecimentos, a partir da experiência
imediata. Em particular, as leis lógicas
e matemáticas não seriam SeneraliZaÉ
ções da experiência, como acreditava
Stuart Mill (1806-1873), mas princípios
diretores de construções lógicas, inde-
pendentes da experiência. Russell apro-
xima-se, assim, do empirismo lógico do
Circulo de Viena, do qual diverge,
porém, ao abandonar a idéia, inicial-
mente professada, de que a lógica e a
matemática dispõem de evidência ime-
diata, por serem construídas a partir de
meras definições. Segundo Russell, em-
bora não deriváveis da experiência, os
princípios lógicos e matemáticos devem
poder ser confirmados em suas aplica-
ções empíricas, dai retirando seu valor
de conhecimento.
Do mesmo modo que o primeiro Rus-
sell inferia a estrutura metafísica do
mundo a partir da estrutura lógica da
linguagem, não distinguindo entre estru-
tura amatical e estrutura lógica, o
Russell construcionista chegou a crer na
possibilidade de inferir essa estrutura
metafísica a partir da estrutura última
das teorias, revelada pelo procedimento
de análise. Essa inferência, influenci-
ada em muito por um seu antigo aluno,
Ludwig Wittgenstein (1889-1951), le-
vou-o ao atomismo lógico, expresso
como teoria metafísica em 1918, numa
série de conferências intitulada 4 Filo-
sofia do Atomismo Lógico, e logo aban-
donado. Assim como toda teoria cienti-
fica deveria poder ser formulada em
termos de expressões simples para obje-
tos, propriedades e relações, o mundo
seria redutível a objetos, propriedades e
relações simples. A posse de uma pro-
priedade simples por um objeto simples,
ou uma relação simples entre objetos
simples seriam fatos atômicos, o mundo
real nada mais sendo que a totalidade
839
FABBRI
OS PENSADORES
dos fatos atômicos que realmente ocor-
rem. Toda descrição do mundo seria
redutível à expressão de fatos atômicos
ou de um complexo de tais fatos, indi-
cado por uma proposição molecular
construida mediante o uso de funções de
verdade. O atomismo lógico aparece em
Russell inseparável do empirismo, visto
que os elementos simples do mundo se-
riam imediatamente acessíveis à nossa
experiência.
Contudo, duas espécies de problemas
levaram Russell a abandonar o ato-
mismo como tese metafísica e a descrer
da possibilidade de efetuar a inferência
da linguagem ao mundo. O atomismo
deixa sem correspondente metafísico as
proposições gerais, que exprimem as
leis cientificas mais importantes, visto
que não remetem a fatos atômicos nem,
se o universo de objetos for infinito,
podem ser reduzidas a compostos fun-
cionais-veritativos de pro osições expri-
mindo fatos atômicos. Além disso, de-
pendendo a estrutura metafísica do
mundo do tipo de linguagem adotada
como última e irredutível, a possibili-
dade, cada vez mais presente para Rus-
sell, de encontrar várias linguagens
divergindo quanto aos elementos a
serem encarados como simples — e todas
igualmente adequadas — introduz na
metafísica uma relatividade insupor-
tável. O atomismo lógico tende, pouco a
pouco, ao estatuto de simples máxima
de análise lógica, retirando-se paralela-
mente da filosofia todo direito a pronun-
ciar-se sobre a natureza do real, direito
que caberia com exclusividade à ciência.
Um problema de filosofia, afirma Rus-
sell, ou é um problema de lógica ou não
é um problema de filosofia.
1872 — A 10 de maio, em
Trellek, País de Gales, nas-
ce Bertrand Arthur William
Russell.
1874 — Morre sua mãe.
1875 — Perde seu pai.
1890 — Russell ingressa no
Trinity College.
1894 — Gradua-se em filo-
sofia. Casa-se com Alys
Pearsall Smith.
1896 — Viaja para a Ale-
manha. Publica a Democra-
cia Social Alema.
1897 — Publica Um Ensaio
sobre os Fundamentos da
Geometria.
1903 — Escreve The Princi-
ples of Mathematics
1910 - 1913 — Russell, jun-
tamente com Whitehead,
CRONOLOGIA
publica os Principia Mathe-
matica.
1920 — Já divorciado de
Alys, casa-se com Dora
Black.
1929 — Publica Casamento
e Moral.
1932 — Publica Educação
e Ordem Social.
1935 — Divorcia-se de Do-
ra, casando-se com Patricia
Helen Spence.
1940 — E convidado a inte-
grar o departamento de filo-
sofia da Universidade da Ci-
dade de Nova York. Sua in-
dicação é rejeitada devido a
suas concepções morais.
Torna-se conferencista da
Fundação Barnes, em Me-
rion, Filadélfia.
BIBLIOGRAFIA
1943 — Em janeiro, é des-
pedido da Fundação.
1950 — Recebe o Prêmio
Nobel de Literatura.
1952 — Divorcia-se de Pa-
tricia e casa-se com Edith
Finch.
1957 — Patrocina a primei-
ra conferência de Pugwash
(contra a corrida armamen-
tista). »
1961 — E preso devido a
sua campanha pelo desar-
mamento nuclear.
1963 — Cria a Fundação
de Paz Bertrand Russell.
1967 - 1969 — Publica sua
Autobiografia.
1970 — Morre em Penrhyn-
deudracth, País de Gales, a
2 de fevereiro.
Frirz, €. A.: Bertrand Russell's Construction of the External World, Londres, 1952.
GórtTuinD, E.: Bertrand Russell's Theories of Causation, Uppsala, 1952.
QuinE, W. V.: From a Logical Point of View, Cambridge, Massachusetts, 1953.
CLark, C. H. D.: Christianity and Bertrand Russell, Londres, 1958.
MontTGoMERY, G. S.: Why Bertrand Russell is not a Christian, Nova York, 1959.
EDWARDS, P. e outros: Russell, Bertrand Arthur William, in The Encyclopedia of Philosophy,
8 vols., The Macmillan Company & The Free Press Nova York, 1967.
Urmson, J. O.: Philosophical Analysis, its Development between the two World Wars
Oxford, 1956.
WARNOCK, G. J.: English Philosophy Since 1900, Londres, 1958.
840
CAPÍTULO 65
OS PENSADORES
os fins de século XIX, o idealismo
era a filosofia dominante na Ingla-
terra. A tradicional corrente empi-
rista, que caracterizara por séculos a
filosofia britânica, esteve quase total-
mente extinta, salvo a ética de Sidgwick
e o pensamento de John Stuart Mill
(1806-1873); este era visto apenas
como um mau exemplo dessa tradição.
Triunfante através do estilo incompa-
ravelmente gracioso e claro de Mac Tag-
gart (1866-1927), da teoria do “eu
ativo” de James Ward (1843-1925), do
neoberkelianismo de Hastings Rashdall
(1858-1924) e do pragmatismo huma-
nista de F. C. S. Shiller (1864-1937),
cedo, no entanto, o idealismo viu conta-
dos os seus dias.
Nesse sentido, o ano de 1903, com
recisão fora do comum em matéria de
história das idéias, foi o divisor de
águas entre duas épocas bem marcadas.
Em 1903, vieram à luz The Principles of
Mathematics, primeira das grandes
obras de Bertrand Russell (1872-1970),
e dois livros de George Edward Moore
(1873-1958), Principia Ethica e Refuta-
ção do Idealismo. Eos obras marca-
ram o surgimento de uma nova corrente
de pensamento, que teria profundas
consequências no desenvolvimento pos-
terior da filosofia britânica, particular-
mente no período compreendido entre as
duas guerras mundiais de 1914 e 1939.
As idéias desenvolvidas pelo novo
movimento poderiam ser caracterizadas,
em primeiro lugar, exprimindo uma
espécie de realismo. Russell e Moore, a
despeito de suas diferenças, susten-
tavam que o mundo consiste em uma
vasta pluralidade de coisas, de espécies
radicalmente diferentes, independentes e
logicamente distintas. Em segundo
lugar, os dois filósofos retomaram o
tradicional empirismo inglês, levando-o
a refinamentos originais, em conexão
com o desenvolvimento das ciências no
século XX e com a lógica matemática.
Em terceiro lugar, Russell e Moore,
ambos criticando a teoria das relações
internas, definida pelos idealistas, che-
Pág. anterior: George Edward Moore;
desenho do acervo Galeria Nacional
de Retratos, Londres (Susan Pinkus).
842
aram à conclusão de que a tarefa do
Elósofo deve ser, sobretudo, analítica;
assim, não haveria lugar na filosofia
para as grandes sínteses das metafisicas
tradicionais que pretendiam explicar a
totalidade das coisas.
O principal centro do neo-realismo e
da filosofia analítica inglesa foi a
Universidade de Cambridge, onde Geor-
e Edward Moore passou a maior parte
dé sua vida acadêmica e formou toda
uma geração de pensadores. Além da
influência sobre esses filósofos, muitas
das idéias de Moore ressurgem em Witt-
genstein (1889-1951) e no grupo dos
neopositivistas.
A análise filosófica
Moore dedicou-se sobretudo à análise
da significação de expressões emprega-
das na linguagem corrente e à investiga-
ção das principais proposições dos filó-
sofos. Esses dois tipos de análise são
distintos: no caso da linguagem corren-
te, Moore aceita seus significados como
verdadeiros e os acha suficientemente
claros; no caso da linguagem dos filóso-
fos (sobretudo dos idealistas) o mesmo
não ocorreria, sendo necessário, por
um lado, investigar o significado das
proposições e, por outro, inquirir sobre
sua verdade ou falsidade. Embora as
proposições do senso comum, diz
Moore, não possam ser provadas ou
contestadas, e melhor aceitá-las como
verdadeiras, pois, caso contrário, che-
ga-se a muitos paradoxos.
Por essa razão, muitos críticos viam
em Moore apenas um filósofo do senso
comum. No entanto, essa opinião só deve
ser aceita na medida em que se tenha em
conta o fato de ele ter utilizado o senso
comum não apehas para elucidar os
significados encontrados nas proposi-
ções dos filósofos, como também para
distinguir o que essas proposições conte-
nham, por ventura, de verdadeiro. Em
suma, sua defesa do senso comum tem
um significado sobretudo metodológico.
O método analítico de Moore consiste
mais numa prática metodológica do que
propriamente num método rigorosa-
mente elaborado. Isso não significa que
não se possa averiguar O que seja seu
método, mas é necessário aceitar o fato
MOORE
SUSAN PINKUS
Embora sem maior ressonância junto a um público mais amplo, as obras de Moore
e suas atividades na Universidade de Cambridge tiveram profunda influência
na filosofia inglesa e moldaram toda uma geração. “Homenagem a Maret”, tela
de Orpen William, mostra Moore, o primeiro sentado à esquerda, e W. Steer, H.
Tonks, H. Lane, D.S. Mac Colle W. Sickert. (City Art Gallery, Manchester.)
843
Ee CS SESSS:
OS PENSADORES
de que ele não é constituido por uma
série de regras, como o método baconia-
no, por exemplo. Como consegiência,
toda exposição do pensamento de Moore
exige que se siga sua prática. Em outros
termos, é mais fácil seguir do que expor
o método de Moore.
O interesse mostrado por Moore no
sentido de pôr em prática o seu método
analítico não significa, no entanto, que
ele tenha se desinteressado de toda
proposição filosófica acerca da realida-
de, nem, tampouco, que seu método seja
destituído de pressupostos filosóficos. O
próprio Moore afirma, numa de suas
obras, que a filosofia tem por missão
“dar uma descrição geral de todo o
universo”: por outro lado, ao fazer a
análise das significações, Moore pressu-
põe a existência de um universo de signi-
ficações manifestado nas expressões da
linguagem.
Uma das mais interessantes aplica-
ções do método analítico de Moore
encontra-se em seu livro Principia Ethi-
ca, no qual elabora uma doutrina objeti-
vista da natureza da moral. Primeira-
mente, Moore analisa as “coisas boas”;
em seguida investiga o significado da
palavra “bom”. Esta última parte é de
especial importância; nela, Moore chega
à conclusão de que “bom” é um predi-
cado básico, já que não se pode decom-
por a significação desse termo em outras
significações mais primárias. Os filóso-
fos que tentaram realizar essa decompo-
sição, diz Moore, foram levados a isso
por uma “falácia naturalista”. O fato de
tratar-se de um predicado básico, no
entanto, não faz de “bom” uma quali-
dade misteriosa; para Moore trata-se
apenas da expressão que designa uma
qualidade irredutível, da mesma forma
como “amarelo” também é irredutível.
Posteriormente, Moore admitiu que
“bom” pudesse ser uma palavra para
designar a atitude de “aprovação”, não
concebendo, no entanto, a “aprovação”
como uma atitude “natural”, mas, antes,
como resultado de um “uso linguístico”,
tomada esta expressão no seu mais
amplo sentido.
1873 — Em Londres, a 4
de novembro, nasce George
Edward Moore.
1879 — Nasce Albert
Einstein.
1892 — Moore
no Trinity College.
1899 — Publica The Na-
ture of Judgement.
1903 — Moore publica, A
Refutação do Idealismo e os
Principia Ethica.
ingressa
CRONOLOGIA
1904 — Surge a Psicopa-
tologia da Vida Cotidiana,
de Freud.
1907 — Bergson publica a
Evolução Criadora.
1910 — Início da publica-
ção dos Principia Mathema-
tica, de Russell e White-
head.
1913 — Publicação de
Idéias para uma Fenomeno-
logia Pura e para uma Filo-
BIBLIOGRAFIA
sofia Fenomenológica, de
Husserl.
1916 — Moore casa-se
com Dorothy Ely, com
quem terá dois filhos.
1922 — Moore publica os
Estudos Filosóficos.
1953 — Publica Some
Main Problems in Philo-
sophy.
1958 — Morre em Cam-
bridge, a 24 de outubro.
MaALCOLM, N.: Knowledge and Certainty, Englewood Cliffs, Nova Jersey, 1963.
PASsMORE, J.: Moore and Russell, in A Hundred Years of Philosophy, Londres, 1957.
UrMmson, J. O.: Philosophical Analysis, its Development between the tuo World Wars,
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O'Connor, The Free Press of Glencoe, Nova York, 1964.
MORA, J. F.: Moore, George Edward, in Diccionario de Filosofia, 2 vols., Editorial Sudameri-
cana, Buenos Aires, 1969.
844
sam a
PA a
CONAMA raT aa
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CAPÍTULO 66
qcrmeira
[AR na
Y
e
4
Rd
e
“ta
OS PENSADORES
om a publicação, em 1922, de Os
Argonautas do Pacífico Ocidental,
Malinowski não realizou apenas
uma adição, embora substancial, à etno-
grafia da Melanésia, mas procedeu a
uma verdadeira revolução na lhteratura
antropológica.
O caráter inovador da obra de Mali-
nowski, exemplificado nessa monografia
e nos trabalhos que a sucederam, ultra-
passou de muito o circulo restrito dos es-
pecialistas em antropologia. Talvez ape-
nas Morgan (1818-1881), antes dele, e
Lévi- São (1908- ), depois, tenham
logrado uma repercussão tão ampla de
seus trabalhos, inclusive entre o público
leigo.
No caso de Malinowski, como no dos
outros dois, a popularidade da obra e
seu significado movador repousam na
apresentação de uma nova visão do ho-
mem e na indicação de uma nova ma-
neira de compreender o comportamento
humano. Com os Argonautas, desfaz-se
definitivamente a visão das sociedades
tribais como fósseis vivos do passado do
homem, equivalentes humanos das pe-
cas de museu, aglomerados de crenças e
costumes irracionais e desconexos. Os
costumes e as crenças de um povo exó-
tico adquirem agora plenitude de signifi-
cado e o comportamento nativo aparece
como ação coerente e integrada. A etno-
grafia adquiriu a capacidade de recons-
truir e transmitir uma experiência, de
vida diversa da nossa, mas nem por isso
menos rica, ou menos humana.
Essa inovação não resulta simples-
mente de uma intuição feliz, mas é, sem
dúvida alguma, o produto de uma refle-
xão laboriosa, que arquitetou novas téc-
nicas de investigação e novos métodos de
interpretação, tão candidamente expos-
tos na Introdução de Os Argonautas. A
singular mistura de objetividade cienti-
fica e vivência pessoal, de humildade e
jactância que transparece nessa Introdu-
ção, revela muito da personalidade de
Bronislaw Kaspar Malmnowski.
Professor rilhante, conferencista
magnífico, polemicista apaixonado, Ma-
Foto de Bronislaw Kaspar Malinowski
em Yale, pouco tempo antes
de sua morte, ocorrida em 1942.
(John Phillips — Time Life)
846
linowski possuía simultaneamente a ca-
pacidade de simpatia e a intolerância
que coexistem tão frequentemente nas
pessoas muito afetivas. Por isso mesmo,
criou discípulos fervorosos e adversários
ferrenhos. O próprio caráter polêmico,
complexo e muitas vezes contraditório
de sua obra provoca a admiração sincera
e a crítica impiedosa que têm marcado
todas as avaliações de sua contribuição
científica. A extraordinária vivacidade e
penetração da análise etnográfica colo-
cam problemas teóricos da maior rele-
vância, que permanecem hoje tão atuais
como no passado. Por outro lado, as ten-
tativas de sistematização CE Grica espe-
cialmente como aparecem nos poucos en-
saios que publicou sobre o método
funcionalista, dois dos quais póstumos,
estão eivadas de contradições insolúveis
e generalizações apressadas, que obscu-
recem o alcance e a importância das
questões levantadas nos trabalhos etno-
gráficos. Por isso, a apreciação do que
existe de vivo e provocante na sua obra
só pode ser feita através da leitura de
uma de suas monografias, como Os Ar-
gonautas do Pacífico Ocidental.
As novas bases
da antropologia
Malinowski chegou à antropologia
por caminhos transversos. Sua formação
inicial foi no campo das ciências exatas,
tendo obtido em 1908 o doutoramento
em fisica e matemática pela Universi-
dade de Cracóvia, sua cidade natal.
Nessa época, tinha apenas 24 anos de
idade, pois nascera nessa antiga cidade
polonesa, a 16 de maio de 1884.
De constituição franzina, teve que in-
terromper sua carreira cenulica logo
depois de formado, por motivos de
saúde. Impedido de gaba lhar: leu, como
distração, a famosa obra de Sir James
Frazer, The Golden Bough, que o atraiu
defini isamende para a antropologia e
que exerceu influência profunda em sua
formação. Dirigiu-se então para Leipzig
onde, em breve permanência, iniciou-se
em sua nova vocação sob a orientação de
Karl Búcher e Wilhelm Wundt. Em 1910
Já estava na Inglaterra, tendo sido admi-
tido na London School of Economics
como aluno de pós-graduação.
MALINOWSKI
Cortesia do Consulado da Polônia
Natural de Cracóvia, Polônia, Malinowski cedo deixou seu país, passando a
realizar inúmeras viagens de estudos e pesquisas. Iniciou-se na antropologia
em Leipzig (Alemanha); a partir de 1910 estudou em Londres; em 1914 organizou
uma expedição à Nova Guiné, a primeira de uma série ligada ao trabalho de
campo em várias regiões do Pacífico. (Acima, vista da cidade de Cracóvia.)
847
OS PENSADORES
Cpm
A formação inicial de Malinowski foi no campo das ciências exatas: em 1908
doutorou-se em fisica e matemática pela universidade de Cracóvia (acima).
A leitura do livro de Sir James Frazer, The Golden Bough, marcou o início
de seu interesse pela antropologia. O começo da carreira de Malinowski, como
antropólogo, coincidiu com o desenvolvimento de novas técnicas de pesquisa.
848
EDS
Ê :
-
Lda
+
4
Cortesia do Consulado da Polônia
MALINOWSKI
Em menos de três anos, Malinowski já
era reconhecido como antropólogo pro-
missor e de grandes qualidades intelec-
tuais, tendo publicado três artigos e um
bvyro. Em 1913, começou sua carreira
docente, tendo ministrado, entre esse ano
e o seguinte, dois cursos na London
School of Economics, como Lecturer on
Special Subjects. Nesse mesmo período
travou relações com os maiores antropó-
“logos da época como Seligman, Haddon,
. Rivers, Frazer e Marett. Com Seligman,
particularmente, mantinha contato
muito estreito, o mesmo acontecendo
também com Westermarck, que prefa-
ciou seu primeiro livro, The Family
Among | the Australian Aborigines.
O início da carreira de Malinowski
coincide com um periodo de grande efer-
vescência na antropologia, caracteri-
zado pelo desenvolvimento de novas téc-
nicas de pesquisa e pela critica aos
métodos de interpretação vigentes.
Até o fim do século XIX, a quase tota-
lidade dos antropólogos jamais havia se-
quer visto um representante dos chama-
dos povos primitivos sobre os quais
escreviam. Seus trabalhos baseavam-se
em material histórico e arqueológico so-
bre as civilizações clássicas e orientais
e em informações sobre sociedades tri-
bais contidas em relatos de viajantes, co-
lonos, missionários e funcionários dos
governos coloniais. Havia, é claro, algu-
mas exceções, principalmente na Amé-
rica: Morgan imabalhara com informan-
tes iroqueses, Cushing vivera cinco anos
entre os indios Zuni. Com Boas
(1858-1942), a tradição do trabalho de
campo estabeleceu-se definitivamente
nos Estados Unidos: já em 1883-1884,
realizara uma pesquisa entre os esqui-
mós e depois disso promoveu um traba-
lho de pesquisas de campo sistemáticas
entre os indios da costa noroeste.
No final do século, começaram a mul-
tiplicar-se também na Europa os traba-
lhos de antropólogos ou estudiosos e
missionários com formação antropoló-
gica, contendo observações feitas direta-
mente sobre populações tribais.
A publicação, em 1899, das extensas
investigações desenvolvidas por Spencer
e Gillen entre os aborígines australianos
demonstrou definitivamente as grandes
potencialidades do trabalho de campo e
A saúde precária obrigou Malinowskt
a abandonar sua carreira no setor das
ciências exatas. E ele acabou como
um dos maiores nomes da antropologia.
(Malinowski ao se formar em Cracóvia.)
a importância das informações obtidas
por meio de observação direta para a re-
solução dos problemas teóricos coloca-
dos pela antropologia. Só essa obra ins-
pirou pelo menos três grandes trabalhos,
cada um dos quais constituía uma refle-
xão movadora em seu próprio campo: Às
ormas elementares da vida religiosa, de
Durkheim (1858-1917), Totem e Tabu,
de Freud (1856-1939), e A família entre
os aborigines australianos, o primeiro
livro de Malinowski, todos publicados
em 1913.
A publicação da obra de Spencer e Gil-
len coincide com a realização (em
1888-1889) da famosa Expedição Cam-
bridge ao estreito de Torres (entre Aus-
trália e Nova Guiné), organizada por
Haddon e da qual participaram, entre
outros, Seligman e Rivers (1864-1922).
Tratava-se pois de uma equipe de reno-
mados especialistas, realizando simulta-
neamente uma série de investigações
científicas na mesma região.
Em 1901, Rivers trabalhou entre os
Todda. Seligman, em 1904, empreendeu
849
OS PENSADORES
um survey monumental de toda a Nova
Guiné Britânica e, nos anos seguintes, es-
teve, com sua mulher, entre os Vedda do
Ceilão e as tribos do Sudão britânico.
Quando Malinowski chegou à Ingla-
terra, todos esses pioneiros já estavam
formando a primeira geração de investi-
adores de campo e Radcliffe-Brown
(1881-1954) havia acabado de concluir
sua pesquisa entre os Andamaneses, rea-
lizada entre os anos de 1906 e 1908
(embora só publicada em 1922).
O funcionalismo
O desenvolvimento do trabalho de
campo sistemático produziu uma
enorme quantidade de novos conheci-
mentos e colocou em xeque o modo tra-
dicional de manipular os dados empiri-
cos. A nova geração de antropólogos
britânicos, cujos expoentes são justa-
mente Radcliffe-Brown e Malmnowski,
promoveu a crítica radical dos postula-
dos evolucionistas e difusionistas que
dominavam a antropologia clássica, es-
tabelecendo um novo método de investi-
gação e interpretação que ficou conhe-
cido como “escola funcionalista”. O
funcionalismo, na antropologia, desen-
volve-se em três linhas, algo distintas: a
dos discípulos de Boas, nos Estados Uni-
dos; a de Malinowski e a de Radcliffe-
Brown, na Inglaterra.
Em qualquer uma de suas formas, o
funcionalismo está estreitamente vincu-
lado ao trabalho de campo. Isso não
quer dizer, entretanto, que o funciona-
lismo se reduza a uma técnica de pes-
quisa. Mesmo em Malinowski, que é o
etnógrafo por excelência, a crítica à an-
tropologia clássica e a formulação de no-
vos problemas teóricos precedem seu
trabalho de campo. Já no seu primeiro
livro, 4 família entre os aborígines aus-
tralianos, baseado exclusivamente em
material bibliográfico, Malinowski
aponta com muita exatidão a deficiência
das categorias de análise e dos conceitos
evolucionistas difusionistas e propõe
um novo método de ordenação e inter-
pretação da evidência empírica.
Os primeiros trabalhos de Mali-
nowski, assim como os de Radcliffe-
Brown, acusam uma forte influência de
Durkheim, que forneceu a ambos a for-
850
mulação inicial dos conceitos de função
e de integração funcional, com os quais
essa nova geração de antropólogos pro-
curou contruir um método próprio e che-
gar a uma nova teoria antropológica.
A crítica fundamental que Malinowski
e os demais funcionalistas dirigem à an-
tropologia clássica refere-se à arbitra-
riedade das categorias utilizadas. A
comparação entre sociedades diversas é
feita através de um desmembramento
inicial da realidade em itens culturais
tomados como elementos autônomos;
com os fragmentos assim obtidos os au-
tores procedem a um rearranjo arbitrá-
rio, agrupando-os de acordo com catego-
rias tomadas de sua própria cultura e
fabricando com isso intituições, comple-
xos culturais e estágios xo luLINDE que
não encontram correspondência em qual-
quer sociedade real.
A preocupação com a adequação das
categorias à realidade estudada está es-
treitamente associada ao empenho em
reconhecer e preservar a especificidade e
particularidade de cada cultura. Para
os funcionalistas, os elementos culturais
não podem ser manipulados e compostos
arbitrariamente porque fazem parte de
sistemas definidos, próprios de cada cul-
tura e que cabe ao investigador descobri-
dor. Essa noção se expressa no postu-
lado da integração funcional, que
assume importância fundamental em
toda análise funcionalista. O conceito de
função aparece como o instrumento que
permite reconstruir, a partir dos dados
aparentemente caóticos que se oferecem
à observação de um pesquisador de ou-
tra cultura, os sistemas que ordenam e
dão sentido aos costumes nos quais se
cristaliza o comportamento dos homens.
São essas preocupações, já aparentes
em 4 vida familial dos aborígines aus-
tralianos, que orientam Malinowski
quando parte para o trabalho de campo.
A oportunidade de realizar uma inves-
tigação de campo surge em 1914. Gra-
ças ao apoio e aos esforços de Seligman,
Malinowski obtém duas bolsas, a Robert
Mond Travelling Studentship, da Uni-
versidade de Londres, e a Constance
Hutchinson Scholarship, da London
Schooll of Economics, que lhe permitem
organizar uma expedição à Nova Guiné.
A escolha da área prende-se, obvia-
MALINOWSKI
A publicação, em 1899, das extensas investigações feitas por Spencer e Gillen
sobre os aborígines australianos mostrou que o trabalho de campo podia
fornecer dados decisivos para a resolução e problemas teóricos colocados
pela antropologia. Essa publicação inspirou o primeiro livro de Malinowski:
A família entre os aborígines australianos. (Malinowski ainda estudante.)
Routledge & Kegan Paul, London
OS PENSADORES
Até o fim do século XIX, os antropólogos em geral teorizavam com base em
relatos de sas missionários e funcionários de governos coloniais que
escreviam sobre os chamados povos primitivos. O trabalho de campo como
sustentação das teorias antropológicas firmou-se definitivamente nos Estados
Unidos com Franz Boas (acima), grande figura da linguística e da antropologia.
892
MALINOWSKI
mente, à influência de Seligman, que já
havia então publicado seu trabalho mo-
numental sobre essa região.
A observação participante
Malinowski chegou a Port Monesby
depois de passar pela Austrália já em
pleno início da Segunda Guerra Mun-
dial, o que lhe causou dificuldades adi-
cionais, visto ser então tecnicamente sú-
dito austriaco e, portanto, cidadão
inimigo. Na verdade, só voltou à Ingla-
terra depois de terminado o conflito; a
longa duração de sua permanência em
campo — que lhe permitiu realizar um
trabalho de investigação tão intenso e
minucioso — talvez se deva, pelo menos
em parte, a essas dificuldades políticas.
De início passou alguns meses — de se-
tembro de 1914 a março de 1915 — entre
os Mailu, habitantes da ilha de Tulon,
sobre os quais publicou, no mesmo ano,
uma pequena monografia.
Retornando à Austrália em 1915 e ob-
tendo recursos adicionais através da in-
fatigável boa vontade de Seligman, diri-
giu-se novamente para o campo, desta
vez para os arquipélagos que se esten-
dem a nordeste do extremo oriental da
Nova Guiné. Tendo encontrado dificulda-
des em seguir seus planos iniciais, que
compreendiam permanência em diversas
has, acabou fixando-se nas Ilhas Tro-
briand, onde permaneceu de junho de
1915 a maio do ano seguinte. De volta
à Austrália, dedicou-se durante um ano
e meio à ordenação e interpretação ini-
cial do material coletado. Nessa época,
recebe, de Londres, o título de Doutor
em Ciências, que lhe é outorgado pelos
seus dois trabalhos já publicados: o re-
lativo aos aborígines australianos e a
monografia sobre os Mailu. Além disso,
apronta e envia para publicação o ensaio
intitulado Baloma: Spirits of the dead in
the Trobriand Islands, que aparece no
mesmo ano. Um artigo sobre a pesca nas
ilhas trobriandesas, publicado na revista
Man, em 1918, data também provavel-
mente dessa época. Em outubro de 1917.
parte para novo período de trabalho de
campo, voltando mais uma vez às ilhas
trobriandesas, onde permanece todo um
ano, até outubro de 1918.
Planejado ou não, esse interregno en-
tre duas extensas permanências em
campo revelou-se extrenlamente fruti-
fero para Malinowski. Sem uma elabora-
ção preliminar do material é impossível
determinar suas insuficiências e, em-
bora nem sempre possível. esse procedi-
mento constitui ainda hoje o ideal da
prática da investigação etnográfica. tal
como a prescreveu Malinowski a partir
dessa época
A grande inovação de Malinowski no
trabalho de campo consistiu na prática
do que é chamado hoje em dia observa-
cão participante. Os princípios funda-
mentais dessa prática e o desenvolvi-
mento dessa experiência estão
minuciosamente relatados na Introdução
dos Argonautas.
As pesquisas de campo anteriores de-
pendiarh quase inteiramente de inquéri-
tos realizados com uns poucos informan-
tes bilingies ou de questionários
aplicados com o auxílio de tradutores. A
observação direta do comportamento era
necessariamente breve e superficial, pois
realizada durante visitas de curta dura-
ção às aldeias indígenas. Através dessas
técnicas de investigação “é possível acu-
mular grande número de informações e,
inclusive, testar a veracidade dos infor-
mes utilizando informantes diferentes.
No entanto, é impossível captar, com
esse trabalho, toda a riqueza de signifi-
cados que permeia a vida social — e a
cultura aparece, necessariamente, como
o conjunto de itens independentes que fi-
guram nos inquéritos. Além disso, a or-
denação das questões apresentadas é
feita a frequentemente em termos de cate-
gorias alheias ao universo cultural in-
vestigado, introduzindo assim pequenas
ou grandes distorções no próprio mate-
rial etnográfico.
Malinowski alterou radicalmente essa
prática, passando a viver permanente-
mente na aldeia, afastado do convivio de
outros homens brancos e aprendendo a
lingua nativa, tarefa para a qual, ahás,
era extremamente dotado. Desse modo,
embora não dispensando o uso de infor-
mantes, substituiu-o em grande parte
pela observação direta, que só é possível
através da convivência diária, da capaci-
dade de entender o que está sendo dito
e de participar das conversas e aconteci-
mentos da vida da aldeia.
853
OS PENSADORES
Malinowski preconizou e praticou a observação participante: sem dispensar os
informantes, substituiu-os em parte pela observação direta do comportamento
dos indígenas. O antropólogo deve conviver prolongadamente com os nativos em
suas aldeias e aprender-lhes a língua, assimilando categorias inconscientes
que ordenam o universo cultural investigado. (Papuas — nativos da Nova Guiné.)
É importante ressaltar que o funda-
mento dessa técnica reside num processo
de “aculturação” do observador que con-
siste na assimilação das categorias in-
conscientes que ordenam o universo cul-
tural investigado. Através desse
processo, que é análogo ao do aprendi-
zado de uma língua estranha e, como
este, também em parte inconsciente, o
observador apreende uma “totalidade in-
tegrada” de significados que é anterior
ao processo sistemático da coleta e orde-
nação das informações etnográficas. Isto
é, a apreensão inconsciente da totalidade
prece de e permite o procedimento analí-
tico consciente da investigação da reali-
dade cultural.
Dessa maneira, a totalidade e a inte-
gração da cultura, que consistiam em
pressupostos teóricos decorrentes da cri-
tica à antropologia clássica, transfor-
mam-se agora numa realidade que é
atingida intuitivamente pelo investiga-
dor por meio de sua vivência da situação
de pesquisa.
Se a observação participante recoloca
para Malinowski o problema da totali-
dade, ela obviamente não o resolve. A fa-
miliaridade com o nativo, a capacidade
de participar de seu universo constituem
condições prévias para o investigação,
mas não eliminam o laborioso trabalho
da coleta sistemática de dados, nem a in-
terpretação e integração da evidência
empírica de modo a recriar a totalidade
vivida pelo nativo e apreendida pela in-
tuição do pesquisador. Essa tarefa devia
ser resolvida na elaboração das mono-
grafias sobre os trobriandeses, tarefa à
qual Malinowski se dedicou com o má-
ximo empenho durante o resto de vida.
A instituição
Após sua extraordinária experiência
de trabalho de campo, Malinowski vol-
United Nations
MALINOWSKT
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United Nations
Os trabalhos de Malinowski sobre a vida sexuale a família de aborígines da
Melanésia tornaram-se suas obras mais populares. Numa época ainda marcada
pelo puritanismo vitoriano, faz descrições bastante explícitas da vida sexual
dos indígenas, e mostra dE A a de uma sociedade matrilinear —
o inverso da sociedade ocidental de então. (Nova Guiné: família de nativos.)
E |
OS PENSADORES
tou à Austrália, onde se casou com Elsie
Masson, filha de um professor de qui-
miça da Universidade de Melboure. Sua
saúde, sempre frágil, estava bastante
abalada e, logo após seu regresso à In-
glaterra. a ameaça de tuberculose for-
cou-o a retirar-se para Tenerife, nas
ilhas Canárias. Foi aí que em abril de
1921 terminou sua primeira monografia
sobre os trobriandeses, à qual deu o
nome romântico de Argonautas do Pací-
fico Ocidental. No ano seguinte, a obra
era publicada na Inglaterra, para onde
Malinowski já havia voltado.
O trabalho difere bastante das mono-
grafias tradicionais. Não é uma descri-
ção de toda a cultura trobriandesa. Não
é também uma análise especializada de
um dos aspectos nos quais os antropólo-
gos normalmente decompõem a cultura:
economia, parentesco e organização so-
cial, religião, ritual e mitologia, cultura
material. Consiste, na verdade, de todos
esses aspectos vistos da perspectiva de
uma única instituição, o Kula. A escolha
da análise institucional constitui, por-
tanto, a solução encontrada por Mali-
nowski para reconstituir, na descrição
etnográfica, a integração e a coerência
ou, em outras palavras, a totalidade 1n-
tegrada que a técnica de investigação lhe
havia permitido captar no trabalho de
campo.
Se, para Malinowski, a cultura consti-
tui uma totalidade integrada, não é, en-
tretanto, um todo indiferenciado, mas
apresenta núcleos de ordenação e corre-
lação que são as instituições. As institui-
ções se apresentam portanto como limi-
tes “naturais”, isto é, estabelecidos pela
própria cultura, que permitem evitar o
perigo de transformar a análise funcio-
nalista no estabelecimento infindável de
correlações. O conceito de instituição
permite a Malinowski resolver o pro-
blema da adequação entre as categorias
da análise e a realidade empírica, esta-
belecendo um isolado teórico que corres-
ponde às unidades observadas na pró-
pria realidade e que dela emergem.
Para Malinowski, a instituição é
sempre uma unidade multidimensional.
Conforme a formulação elaborada anos
mais tarde, no seu ensaio Uma Teoria
Científica da Cultura, ela compreende
uma constituição ou código, que consiste
856
no sistema de valores em vista dos quais
os seres humanos se associam; isto é,
corresponde à idéia da instituição tal
como é concebida pelos membros da pró-
pria sociedade. Compreende também um
grupo humano organizado, cujas ativi-
dades realizam a instituição. Essas ati-
vidades se processam de acordo com
normas e regras, que constituem mais
um elemento dessa totalidade. Fimal-
mente, compreende um equipamento ma-
terial que o grupo manipula no
desempenho de suas atividades. Esses
diferentes elementos definem o que Mali-
nowski chama estrutura da instituição.
O aspecto mais importante dessa con-
ceituação consiste na preservação da
multidimensionalidade do real, reprodu-
zindo, em cada unidade de análise, as di-
mensões do processo cultural em sua to-
talidade. Com efeito, o processo
cultural, isto é, a própria vida social, em
qualquer de suas manifestações concre-
tas, envolve sempre, para Malinowski,
seres humanos em relações sociais defi-
nidas, pessoas que manipulam artefatos
e se comunicam através da linguagem e
de outras variadas formas de simbo-
lismo. O equipamento material, a orga-
nização social e o simbolismo consti-
tuem três dimensões mtimamente
vinculadas e a realidade jamais pode ser
compreendida integralmente se não se
apreender a simultaneidade de todas as
suas dimensões.
Na interpretação de Malinowski, a
instituição não deve ser concebida como
a simples soma dos aspectos de sua es-
trutura, mas verdadeiramente como sua
sintese. A integração das diferentes di-
mensões da cultura é a referência cons-
tante de toda a investigação. Por outro
lado, é necessário não confundir a sin-
tese construida pelo antropólogo com a
idéia que dela fazem seus portadores.
Note-se que Malinowski sempre insiste
na diferença entre o código e as normas
da instituição, de um lado, e, de outro,
as atividades efetivamente desempenha-
das pelos membros do grupo. É através
da análise das atividades e de seus resul-
tados que o investigador encontra instru-
mentos para superar a consciência res-
trita e deformada que os membros de
uma sociedade possuem de sua própria
cultura.
MALINOWSKI
Desse modo, verifica-se que os dife-
rentes aspectos da instituição não pos-
suem todos a mesma relevância explica-
tiva, pois é nas atividades, isto é, no
comportamento humano real, que se en-
contra o elemento verdadeiramente sin-
tético que fornece a chave para a apreen-
são da instituição na totalidade de seus
aspectos.
A sintese que Malinowski se esforça
por construir na descrição etnográfica
não se reduz pois ao estabelecimento de
interdependências entre sistemas analiíti-
cos diversos (legais, econômicos, técni-
cos, religiosos), tomados em sua inde-
pendência. Para ele, esse tipo de sintese
não pode ser atingido a posteriori, pela
justaposição e correlação de aspectos
descontinuos, mas deve estar presente de
início e em todos os momentos da inves-
tigação. Por isso é que os temas que
isola como focos de análise, isto é, as
instituições, como o Kula. são escolhi-
dos de modo a preservar, na unidade de
investigação, essas totalidades comple-
xas que incluem a multiplicidade do real
e, ao contrário das monografias tradicio-
nais, jamais se encontra em Malinowski
uma análise de sistema econômico, poli-
tico, religioso, etc., em si mesmos.
A instituição aparece pois como uma
projeção parcial da totalidade da cul-
tura, não como um de seus aspectos ou
partes. A descrição sempre as desenvolve
no sentido de mostrar, simultaneamente,
como a instituição em apreço permeia
toda a cultura e, inversamente, como
toda a cultura está presente na institui-
ção. Muitos autores já apontaram um
aparente paradoxo: Malinowski. que
tanto se preocupou com a noção da tota-
lidade da cultura, jamais apresentou
uma descrição integrada de todos os as-
pectos da cultura trobriandesa. É que o
estudo do todo não se confunde com o es-
tudo de tudo e a totalidade só pode ser
apreendida concretamente através de
realizações parciais, projetada no com-
portamento dos homens.
Harcount, Brace & World, Inc.
Viagens e trabalhos
Para Malinowski o conceito de função
é que permite, a partir de dados Após a publicação dos Argonautas,
aparentemente caóticos, reconstruir com a qual formula as linhas gerais de
os sistemas que ordenam e dão seu método, abre-se um período muito
sentido aos comportamentos e costumes. fértil na carreira de Malinowski.
891
OS PENSADORES
Tendo retornado a Londres em 1921,
retoma a atividade didática que iniciara
antes do trabalho de campo, no começo
novamente como Occasional Lecturer na
London School of Economics e, a partir
de 1922, como Lecturer in Social An-
thropology na mesma instituição. Em
1924, assume o cargo de Reader in An-
tropology pela Universidade de Londres,
cargo que entretanto é exercido na Lon-
don School. Em 1927, é indicado para a
primeira Cadeira de Antropologia,
criada para ele naquela universidade.
Com sua reputação estabelecida nos
meios científicos, Malinowski dedica-se
a defender sua nova visão da antropolo-
gia, atacando vigorosamente as coloca-
ções evolucionistas e principalmente di-
fusionistas, generalizadas no mundo
acadêmico britânico. Exemplo dessa po-
lêmica é otrabalho “*The Life of Culture”,
parte da publicação Culture — The diffu-
sion controversy, em que figuram traba-
lhos de seus opositores, G. Elliot Smith,
H. S. Spinden, A. Goldenweiser. A rigi-
dez de muitas de suas formulações pren-
de-se inegavelmente ao caráter polêmico
de grande parte dos trabalhos que escre-
veu nessa época.
Malinowski também viajou muito,
tendo ministrado cursos e conferências
em Genebra, Viena e Oslo, visitando
muitas outras capitais e mantendo con-
tatos pessoais com antropólogos de todo
o mundo. Visitou os Estados Unidos em
1926, 1933 e 1936 quando recebeu o
au de Doutor Honorário pela Universi-
dade de Harvard. Em 1934, percorreu
também a África Meridional e Oriental,
visitando então muitos de seus discípu-
los que estavam realizando trabalhos de
campo, pois Malinowski foi o responsá-
vel pelo primeiro programa de treina-
mento em pesquisa de campo do Interna-
tional African Institute. Certamente sua
capacidade de falar diversas línguas e
sua origem polonesa contribuiram muito
para esse contato tão amplo com insti-
tuições e pesquisadores de diferentes
países, duebrado o relativo isolamento
que caracterizava a comunidade de an-
tropólogos britânicos.
Sua vida pessoal, entretanto, conti-
nuava marcada pela doença. Sua pri-
meira mulher, com quem teve três filhas,
foi acometida de uma doença incurável
858
que afetou a coluna vertebral, tendo fale-
cido em 1935, após dez longos anos de
sofrimento.
Além de toda essa intensa atividade e
de sua enorme dedicação às tarefas didá-
ticas, Malinowski manteve, durante todo
esse período, uma constante produção de
artigos, ensaios e livros.
Após a publicação dos Argonautas, o
interesse de Malinowski — até então con-
centrado em grande parte em questões
econômicas — volta-se para outros te-
mas. Até 1929 publicou, além de inúme-
ros trabalhos menores, alguns ensaios
muito importantes, além de mais uma
monografia sobre os trobriandeses.
Sobre religião, magia e mitologia, pu-
blica, em 1925, o ensaio Magic, Science
and Religion e, em 1926, Myth in Primi-
tive Psychology. Em 1926 aparece ainda
o primeiro trabalho no qual formula, de
modo sistemático, embora resumido, sua
visão própria do trabalho antropológico.
Trata-se do verbete Anthropology, publi-
cado na 13.º edição da Encyclopaedia
Britannica. Data ainda desse mesmo ano
Crime and Custom in Sarage Society,
onde explora a nação de reciprocidade
como princípio de ordenação social.
São entretanto os temas referentes ao
sexo e à vida familiar que parecem cons-
tituir a preocupação central de Mali-
nowski até o fim da década de 20, exem-
plificada através de inúmeros pequenos
trabalhos, reunidos em parte no livro
Sex and Repression in Savage Society,
de 1927. Essa fase culmina, em 1929,
com a publicação de sua segunda grande
monografia sobre os trobriandeses, The
Sexual Life of Savages in North Western
Melanesia.
Sexo e cultura
Os trabalhos referentes à vida sexual
e à familia certamente foram — e talvez
ainda sejam — os mais populares de toda
a obra de Malinowski. Do ponto de vista
antropológico, assim como do público
científico e leigo em geral, o fascínio
desses trabalhos reside na capacidade de
Malinowski de retratar o funcionamento
de uma sociedade matrilinear que cons-
titui, pelo menos sob esse aspecto, prati-
camente o inverso da sociedade ociden-
tal da época Além disso, pode-se bem
MALINOWSKI
Fabhri
Para Malinowski o processo cultural, em todas as suas manifestações concretas,
envolve sempre seres humanos em relações sociais definidas e que man pulam
artefatos e se comunicam utravés da linguagem e outras formas de simbolismo.
Equipamento material, organização sociale simbolismo estariam intimamente
vinculados. (Imagem e máscara da região do Golfo de Papua, Nova Guiné.)
imaginar o sucesso de trabalhos em que
figuram descrições bastante explícitas
da vida sexual numa época ainda mar-..
“ada por muitos resquícios de purita-
nismo vitoriano.
Do ponto de vista europeu, a primeira
grande peculiaridade trobriandesa resi-
dia justamente na ampla liberdade se-
xual. Com efeito, entre eles, não só a
castidade pré-nupcial era totalmente
desconhecida, como também a fidelidade
conjugal não era observada com muito
rigor. A segunda peculiaridade refe-
ria-se ao fato de que os trobriandeses,
além da negarem a paternidade social,
apresentando-se como sociedade estrita-
mente matrilinear, ignoravam inclusive
a paternidade fisiológica, acreditando
que as fêmeas (tanto humanas, quanto
animais) procriavam independentemente
das relações sexuais. A descrição de uma
sociedade desse tipo não podia deixar de
fascinar um público muito mais amplo
que o círculo restrito dos antropólogos
profissionais.
O problema básico que Malinowski se
propunha não era analisar a estrutura do
sistema de parentesco, tema tradicional
da antropologia, mas estudar a dinâmica
específica da ordenação das condutas
dentro desse quadro institucional, Isto é,
como “funcionava”, na verdade, uma so-
ciedade matrilinear.
A ordenação dos dados, nesses traba-
lhos, não se faz tanto em termos da imsti-
tuição da família, mas em termos de um
aspecto universal do comportamento hu-
mano, presente em todas as culturas: o
impulso sexual.
A análise da vida sexual é feita em ter-
mos de uma dupla referência: os impul-
sos biológicos e sua regulamentação so-
cial. A importância desse tema, para
Malinowski, está justamente em que
consiste no tipo de atividade, por exce-
lência. na qual se integram, de modo o
mais explícito, impulsos naturais e im-
perativos sociais, apresentando-se por-
tanto como ponto central da reflexão so-
bre a própria natureza da cultura. Essa
integração, entretanto, só pode ser
apreendida ao nível individual e a refe-
rência básica ao impulso sexual implica
numa abordagem que localiza no indiví-
859
Fabbri
OS PENSADORES
duo (e não na sociedade) todos os pro-
cessos significativos e todas as explica-
ções formuladas. Aparecem assim nesse
tema, com grande nitidez, o biologismo
e o psicologismo que estão latentes em
quase toda a obra de Malinowski.
É necessário reconhecer que, apesar
das deficiências desse tipo de aborda-
gem, ela permite a Malinowski, como
talvez em nenhum outro trabalho, fazer
emergir, com extraordinária nitidez, a
visão do nativo “em carne e osso”. Foca-
lizando quase que exclusivamente as atl-
tudes e a motivação do comportamento
— isto é, o arranjo particular trobrian-
dês de aspectos universais do compor-
tamento humano —, torna-se aparente,
através da peculiaridade do costume, a
qualidade humana da conduta.
Malinowski demonstra que o compor-
tamento do trobriandês não é nem irra-
cional nem imoral, mas coerente e com-
preensível dentro das premissas da
cultura trobriandesa. Para demonstrar
isso, é necessário apreender as premis-
sas, mas não é necessário analisá-las
como sistema. Por isso mesmo, nesses
trabalhos evidenciam-se claramente
tanto a riqueza como as limitações desse
tipo de abordagem. Dê um lado, ela nos
aproxima da vida real, mas, de outro,
abandona uma problemática de enorme
relevância, muito mais presente nas duas
outras monografias, que consiste na aná-
lise das forças sociais que explicam a
emergência e a força das atitudes pró-
prias das situações investigadas: a natu-
reza das relações entre os grupos e a
oposição entre segmentos sociais, estru-
turadas através do parentesco.
Na verdade, a ausência de uma análise
sistemática do parentesco, frequente-
mente impede o esclarecimento de aspec-
tos fundamentais da organização social,
constituindo uma deficiência que tem
sido apontada por todos os críticos de
Malinowski.
O biologismo tantas vezes criticado
em Malinowski relaciona-se diretamente
com sua concepção de cultura, que é
sempre referida à capacidade de satisfa-
zer necessidades humanas. A instrumen-
talidade da cultura é que assegura, do
ponto de vista de Malinowski, sua racio-
nalidade inerente.
A relação entre as instituições e a sa-
860
tisfação das necessidades humanas apa-
rece constantemente em suas tentativas
de elaboração teórica e constitui um pro-
blema que ele jamais conseguiu resolver
de modo satisfatório. Nas elaborações
posteriores, especialmente tal como apa-
rece em 4 Scientific Theory of Culture,
Malinowski postula toda uma gama de
tipos de necessidade. Inicialmente, há a
considerar as necessidades biológicas do
organismo, denominadas básicas (nutri-
ção, procriação, proteção, etc.). Como o
homem, entretanto, só pode satisfazer
essas necessidades básicas através da
cultura, surgem necessidades derivadas,
relacionadas à manutenção, reprodução
e transmissão do próprio equipamento
cultural. Estas, Malinowski subdivide
em imperativos instrumentais (que inclui
a organização econômica, legal e educa-
cional da sociedade) e imperativos inte-
grativos (como a magia, a religião, a
ciência e as artes). A dificuldade funda-
mental que encontra é a de relacionar, de
um lado, as necessidades derivadas às
necessidades básicas e, de outro, as ins-
tituições às necessidades.
Caberia exatamente ao conceito de
função superar esta última dificuldade.
Dentro dessa formulação, Malinowski
define o conceito em termos da corres-
pondência entre a instituição e as neces-
sidades que ela satisfaz. Obviamente, tal
definição distancia-se enormemente da
aplicação efetiva do conceito à análise
etnográfica.
Na verdade, a posição de Malinowski
nessa questão é bastante ambígua, pois
elaborou diferentes conceitos de função,
definindo-a também, em oposição aa có-
digo ou carta de uma instituição, como
seu papel no esquema geral da cultura,
tal como é definido pelo investigador.
Verifica-se facilmente que essa definição
é diferente da anterior e muito mais pró-
xima do método de interpretação usado
no tratamento dos dados empíricos, onde
é a análise da função que permite a pas-
sagem da consciência dos agentes para
as conexões gerais, constituídas pelo ob-
servador e que definem a natureza da
instituição (como ocorre, por exemplo,
na análise do Kula).
Questões teóricas e metodológicas
permeiam toda a obra de Malinowski.
Após 1930 aparecem mais alguns en-
MALINOWSKI
saios, verbetes e artigos nos quais pro-
cura explicitar e sintetizar sua posição
teórica. Datam dessa época, por exem-
plo, o verbete Culture da RR a
of Social Sciences (1931), verbete
Anthropology, do Book of hê Year de
1938 da Encyclopaedia Britannica cas
diferentes versões do artigo “Culture as
determinant of Behavior” (1937, 1937,
1938). É também a partir dessa época
que sua posição começa a ser criticada
pelos antropólogos mais jovens, sobre os
quais aumenta a influência do funciona-
lismo estrutural de Radcliffe-Brown.
A última grande obra
Entretanto, não se pode dizer que di-
minua o prestígio de Malinowski. Seus
próprios alunos começam a atingir a ma-
turidade cientifica; muitos deles. Já
tendo terminado o trabalho de campo
sob sua orientação, começam a publicar
obras originais. Malinowski prefaciou
muitas dessas monografias: em 1932,
escreveu a introdução do livro de Reo
Fortune, Sorcerers of Dobu e de Audrey
Richarde: Hunger and Work ina Savage
Tribe; em 1934, prefaciou o trabalho de
lan Hogbin, Law and Order in Polyne-
sia; em 1936, o de Raymond Firt. We,
The Tikopia; no ano seguinte, o de Ash-
ley- Montagu, Coming of Age in Samoa;
em 1938, aparece, com prefácio de Mali-
nowski, o livro de Jomo Kenyata, Facing
Mount Kenya, a primeira monografia
antropológica escrita por um membro da
sociedade tribal.
Com tantos discípulos fazendo traba-
lhos de campo, aumenta também seu in-
teresse pelos problemas da transforma-
ção cultural induzida pela dinâmica da
situação colonial, interesse que cresce
depois de sua visita à África. Em 1936,
aparece seu primeiro artigo sobre esse
problema, “Native Education and Cul-
ture Contact”. Data de 1938 um ensaio
intitulado “Introductory Essay on the
Anthropology of Changing African Cul-
tures”, incorporado mais tarde em Dyna-
mics of Culture Change. Além desses, há
Leslie A. White
Malinowski foi um dos expoentes do inúmeros trabalhos menores sobre o
co em antropologia. mesmo assunto, a respeito do qual pas-
Malinowski no Encontro Anual da sou a conduzir seminários regulares.
Associação Antropológica Americana, Apesar das dificuldades que encontra
realizado no ano de 1939.) em formular de modo satisfatório os
861
OS PENSADORES
princípios da abordagem funcionalista, o
grande trabalho que publica em 1935, a
monografia Coral Gardens and Their
Magic indica um grande progresso em
relação às anteriores, tanto no que diz
respeito à formulação das questões teó-
ricas quanto à integração do material
empírico.
Retomando os problemas relativos à
economia primitiva, volta-se agora para
o estudo do trabalho agricola e da pro-
priedade da terra nas Ilhas Trobriand.
Apesar de incluir muito material já ana-
lisado em trabalhos anteriores — espe-
cialmente nos Argonautas — Coral Gar-
dens é uma obra original, um esforço
novo e produtivo para resolver os proble-
mas relativos à integração da cultura.
Nota-se também uma nova preocupação
com as questões relativas à estrutura so-
cial: encontram-se ainda nesse trabalho
não apenas uma apresentação muito
mais clara da estrutura social trobrian-
desa como, e pela primeira vez, um tra-
tamento adequado, embora parcial, da
estrutura do sistema de parentesco.
Nesse trabalho, Malinowski aborda,
com inigualável maestria, a relação en-
tre o trabalho, a magia, a mitologia e a
propriedade da terra. Demonstra como
as atividades relacionadas à produção,
distribuição e consumo do alimento —
atividades que compreendem trabalho e
magia, técnica e crença, uso e signifi-
cado, ação e representação — simulta-
neamente expressam e produzem a pró-
pria sociedade.
Desaparece, nesse trabalho, o
psicologismo que permeara as monogra-
fias anteriores. A relação entre o social
e o individual não é mais direta e ime-
diata, embora a análise realize constan-
temente a passagem de um nível a outro.
Mas agora os aspectos psicológicos apa-
recem como sintese, ao nível do compor-
tamento, dos aspectos culturais e sociais
revelados pela análise etnográfica.
Nos capítulos finais, Malinowski
aborda a questão da propriedade da
terra. levantando, de modo extrema-
mente rico e original, a questão básica
da relação entre o processo produtivo e
sua regulamentação juridica, política e
mitológica. Com Coral Gardens, encer-
ra-se o ciclo das suas grandes produções
etnográficas.
862
Publicações póstumas
Em 1938, Malinowski volta nova-
mente à América para uma permanência
mais prolongada. Com a saúde outra vez
abalada, estabelece-se por algum tempo
em Tucson, Arizona, onde o clima se
mostra benéfico para suas complicações
pulmonares.
O início da guerra na Europa leva-o a
prolongar a permanência nos Estados
Unidos, sendo contratado como profes-
sor visitante pela Universidade de Yale
em outubro de 1939. Permanece nessa
Universidade até 1942, através de uma
subvenção do Bernice P. Bishop Mu-
seum, de Honolulu, tendo encontrado
tempo e energia para iniciar novo traba-
lho de campo entre os Zapotec, no Mé-
xico. No início de 1942 foi nomeado pro-
fessor permanente da Universidade de
Yale, mas faleceu a 16 de maio desse
mesmo ano, em New Haven, antes de as-
sumir seu novo posto.
Nesses últimos anos reconstituiu sua
vida familiar, tendo se casado com a ar-
tista Valetta Swann. A crise deflagrada
pela ascensão do nazismo e o início da
Segunda Guerra Mundial, entretanto,
perturbaram- no profundamente. Via na
emergência do totalitarismo uma
ameaça à própria civilização, com a des-
truição de todos os valores nos quais
realmente acreditava.
Embora tivesse se naturalizado cida-
dão britânico há muitos anos e não se
identificasse politicamente com a Polô-
nia, a invasão de seu pais pelos alemães
levou-o a solidarizar-se com o povo po-
lonês, tendo ajudado a fundar, nos Esta-
dos Unidos, o Polish Institute of Arts
and Sciences, do qual foi presidente,
através do qual se empenhou em auxiliar
os refugiados poloneses.
Nesse período final de sua vida, Mali-
nowski não produziu nenhuma obra de
grande relevância. Os trabalhos dessa
época, em reral pequenos, estão quase
todos voltados para as questões que o vi-
nham preocupando desde o início da dé-
cada de 30, especialmente aquelas rela-
tivas à transformação das sociedades
tribais e à fundamentação teórica do fun-
cionalismo. Sobre esta última questão
publicou, em 1939, The Group and the
individual in functional analysis.
MALINOWSKI
AND OTHER
ESSAYS
ROBERT
REDFIELD
Harcoun, Brace & World, Inc.
es
ao cds
o os.
Re
Cuenca
A cultura, para Malinowski, não é um todo indiferenciado, mas uma totalidade
integrada que apresenta núcleos de ordenação e correlação — as instituições.
A instituição é uma unidade multidimensional que compr -cende: uma constituição
ou código, um grupo humano organizado e um equipamento material manipulado
pelo grupo na realização de suas atividades. (Capas de obras de Malinows E
Após sua morte,e entretanto, a viúva,
auxiliada por amigos e discípulos de
Malinowski, empreendeu a publicação
dos manuscritos que ele havia deixado.
Em 1944 aparece 4 Scientific Theory of
Culture — and other essays, com refácio
da Huntington Cairns que preparou o
manuscrito para publicação.
Esse trabalho consiste numa tentativa
de conciliar e integrar a abordagem ba-
seada na análise das instituições com a
concepção instrumental da cultura; nele
Malinowski elabora a teoria das necessi-
dades básicas e dos imperativos cultu-
rais. Apesar de incompleto e contraditó-
rio, O livro teve grande aceitação, sendo
traduzido para inúmeras línguas.
Em 1945 é publicado The Dynamics
of Culture Change, ednado por Phyllis
M. Kaberry e uma de suas obras mais
discutíveis — que incorpora trabalhos
que publicara anteriormente e as discus-
sões que promovera durante os seminá-
rios que conduziu em Yale em 1941. Tal
como é apresentada nesse trabalho, a
análise da transformação cultural as-
sume a forma extremamente rígida de
relações entre instituições de três reali-
dades ou culturas distintas: a do coloni-
zador, a tribal e a nova cultura que
emerge da interação entre as duas.
No conjunto, essas duas obras póstu-
mas, apesar de sua ampla divulgação e
aceitação, guardam um caráter de im-
provisação e estão cheias de generaliza-
ções apressadas e de contradições. Mui-
tas das críticas dirigidas a Malinowski
e à fragilidade de sua teoria da cultura
baseiam-se exatamente nesses traba-
lhos, que se prestam facilmente à crítica
e, com isso, obscurecem o alcance da sua
contribuição à antropologia moderna e
às ciências humanas em geral.
; Muito discutível foi também a utili-
dade ou o interesse da publicação, em
1967, da tradução de seu diário intimo
863
Harcourt. Brace & World, Inc.
OS PENSADORES
— redigido em polonês durante o traba-
lho de campo nas ilhas Trobriand — e
que Malinowski certamente jamais pre-
tendeu publicar. De pouco valor cienti-
fico ou literário, demonstra apenas sua
constante preocupação com a saúde
(aliás, não sem motivo) e as frequentes
crises de angústia, mal humor e hostili-
dade para com os nativos que acometem,
mevitavelmente, todo pesquisador de
campo na situação de ab seRtaças parti-
cipante” preconizada por Malinowski.
Na verdade, o significado e a profun-
didade da obra de Malinowski estão con-
tidas, com toda sua riqueza, nas
monografias etnográficas.
1858 — Franz Boas nasce
em Minden, Alemanha.
1881 — Radcliffe-Brown
nasce em Birmingham, In-
glaterra.
1883/84 — Boas realiza ob-
servações entre os esquimós.
1884 — Nasce Bronislaw
Malinowski em Cracóvia,
Polônia.
1906/08 | — | Radcliffe-
Brown faz pesquisas entre
os andamaneses.
1910 — Malinowski é ad-
mitido na London School
of Economics.
1911 — Boas publica Chan-
ges in Bodily Form of Des-
cendents of Immigrantes.
1913 — Publicação de As
formas elementares da vida
religiosa, de Durkheim:
CRONOLOGIA
Totem e Tabu, de Freud; e
de A família entre os abori-
gines australianos, de Mali-
nowski.
1922 — Malinowski pu-
blica Argonautas do
Pacífico Ocidental; publica-
ção de The Andaman Islan-
ders, de Radcliffe-Brown.
1925 — Malinowski pu-
blica Magic, Science and
Religion.
1926 — Publica o verbete
Antropologia, na Enciclopé-
dia Britânica, e as obras
Crime and Custom in Sa-
vage Society e Myth in
Primitive Psychology.
1927 — Publica Sex and
Repression in Savage So-
ciety.
1929 — Publica The Se-
BIBLIOGRAFIA
xual Life of Savages in
North-Western Melanesia.
1930 — Radcliffe-Brown
publica The Social Organi-
zation of Australian Tribes.
1932 — Malinowski pu-
blica The Sexual Life of Sa-
vages.
1935 — Publica Coral
Gardens and Their Magic.
1942 — Morre Malino wski.
Morre Franz Boas.
1944 — Publicação de A
Scientific Theory of Culture.
1945 — Publicação de The
Dynamics of Culture
Change.
1947 — Publicação de
Freedom and Civilization.
1948 — Publicação de Ma-
gic, Science and Religion
and Other Essays.
DurHAM, E. R.: 4 Reconstituição da Realidade. Um estudo sobre a obra etnográfica de
Bronislaw Malinowski. Tese de Livre-Docência apresentada ao Departamento de Ciências
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PanorF, M.: Bronislaw Malinowski, Payot, Paris, 1972.
RICHARDS, À.: Bronislaw Kaspar Malinowski in Man, n.º 1, London, 1943.
864
OS PENSADORES
o economista Otto Neurath
(1882-1945) e o fisico Philip
Frank começaram a reunir-se informal-
mente, em Viena, para discutir proble-
mas de filosofia da ciência. O intuito
fundamental era o de conciliar uma con-
cepção essencialmente empirista da ciên-
cia, sob influência das doutrinas de
Ernst Mach (1838-1916), e o reconheci-
mento da importância inegável da lógi-
ca, matemática e física teórica na cons-
trução de teorias. Esse projeto,
inicialmente vago, antecipava contudo o
que seria uma das principais preocupa-
ções filosóficas do Circulo de Viena,
grupo de filósofos e cientistas preocu-
pados com a filosofia da ciência, consti-
tuído a partir daquele núcleo inicial, sob
a orientação intelectual do filósofo ale-
mão Moritz Schlick.
Schlick nasceu em Berlim em 1882.
Após quatro anos de estudo de fisica na
Universidade de Berlim, sob a orienta-
ção de Max Planck (1858-1947), apre-
sentou em 1904, uma dissertação sobre
a reflexão da luz em meios não homogê-
neos, que lhe valeu o título de doutor.
Interessado em filosofia e descontente
com as correntes de inspiração neokan-
tiana e fenomenológica, então dominan-
tes no cenário filosófico alemão, Schlick
começou a refletir sobre o que é o conhe-
cimento científico e por que a filosofia
tradicional não constituiu um corpo de
conhecimentos admissíveis. Essas refle-
xões orientaram boa parte de suas ativi-
dades no período de 1911 a 1917, resul-
tando na publicação, em 1918, de uma
Teoria Geral do Conhecimento. Entre-
tanto, já em uma obra dedicada a ques-
tões de física, Espaço e Tempo na Física
Presente, Schlick voltava-se contra a
tese kantiana de que as leis relativas ao
espaço e tempo são ao mesmo tempo
sintéticas e a priori, referentes ao domi-
nio da experiência mas não deriváveis de
nenhuma experiência. Essa crítica da
noção de proposição sintética a priori
prenunciava um dos temas dominantes
de seu pensamento posterior, a ponto de
Schlick afirmar que as doutrinas do Cir-
E m 1907 o matemático Hans Hahn,
Na página anterior: retrato do filósofo e
professor austríaco
Karl Popper (Associated Press).
866
culo de Viena poderiam resumir-se a um
empirismo que nega a possibilidade de
Juízos sintéticos a priori. E foi feita sob
influência do convencionalismo de Poin-
caré (1854-1912), que afirmava que as
leis mais gerais da natureza, como as
leis gerais do espaço e do tempo, não são
deriváveis da experiência nem verdades
lógicas, mas convenções usadas na siste-
matização dos dados empíricos.
Na Teoria Geral do Conhecimento a
crítica de Schlick ultrapassa os limites
da física, generalizando-se em termos da
noção geral de conhecimento. Exami-
nando todas as espécies de proposições a
que Kant (1724-1804) conferira caráter
sintético a priori, Schlick concluia que
cada uma delas poderia ser precisamente
formulada, ou como uma verdade logica-
mente necessária, e portanto analítica e
não sintética, ou como dotada de con-
teúdo empírico determinante de seu
valor de verdade, e portanto a posteriori
e não a priori. Proposições admitidas
por convenção não deveriam ser encara-
das como leis em sentido próprio, mas
como regras de organização dos dados
empíricos. Todo conhecimento indepen-
dente de quaisquer fatos particulares
seria simplesmente lógico e todo conhe-
cimento fatual seria simplesmente empi-
rico, não restando lugar algum para um
conhecimento fatual a priori, projeto que
Schlick descobriu na essência da filoso-
fia tradicional. Se a metafísica, alvo
principal de suas objeções, mantém uma
aparência de relevância teórica, é por-
que, diz Schlick, a linguagem garante a
possibilidade de usos não científicos de
suas expressões, nem sempre nitida-
mente distintos dos usos propriamente
científicos. Proposições científicas se-
riam as univocamente verdadeiras ou
falsas, opondo-se, por exemplo, a propo-
sições que aparecem em um texto poeti-
co, para as quais não se colocaria a
questão da verdade. As regras da gramá-
tica não seriam, pois, suficientes para se
fazer distinção entre, de um lado, se-
quências de expressões que constituem
proposições científicas e, de outro, se-
quências despidas de relevância para o
conhecimento. Seria necessário comple-
tar a gramática, acrescentando-lhe um
inventário de regras lógicas, capazes de
determinar com rigor os limites do con-
FASBRI
SCHLICK
Viena, capital da Áustria, foi sede de uma das mais importantes orientações
do pensamento filosófico do século XX. Ali, formou-se o chamado “Círculo de
Viena”, do qual participaram inúmeros filósofos e cientistas,
reocupados,
sobretudo, com a análise da estrutura da linguagem científica. (Viena:
edifício do Parlamento Austríaco, obra do arquiteto Th. Edward Hansen.)
Junto de proposições cientificamente re-
levantes. Schlick concebia a natureza
dessas regras a partir da idéia de que
todo conhecimento é descrição de rela-
ções entre elementos dados empirica-
mente, sendo ilusório o projeto de conhe-
cer o conteúdo dos fenômenos. Esse
conteúdo seria acessivel não teorica-
mente, mas por meio de uma experiência
intuitiva e emocional. A pretensão meta-
fisica de conhecer o conteúdo, a essência
das coisas reais, envolveria, pois, uma
contradição. Para Schlick, a grande
parte das teses que compõem sistemas
metafísicos seriam simplesmente propo-
sições sem significado de conhecimento,
sequências de expressões construídas em
desacordo com as regras lógicas da lin-
guagem, e, portanto, nem verdadeiras
nem falsas, mas, do ponto de vista do
conhecimento, não significativas. A apa-
rência de cientificidade de que elas se
revestem, diz Schlick, exprimiria tanto a
inadequação da gramática como critério
para a edificação da linguagem da ciên-
cia, quanto a possibilidade de conferir à
metafísica um significado emotivo, aná-
logo ao que cabe ao discurso poético.
Nessa primeira fase do pensamento de
Schlick, estão presentes muitos dos pon-
tos que caracterizarão mais tarde as
doutrinas do Circulo de Viena. Em pri-
meiro lugar, a convicção de que a lógica,
a matemática e as ciências empíricas
esgotam o domínio do conhecimento pos-
sivel, salientando-se a estreita relação
entre matemática e lógica enquanto for-
mas de conhecimento analítico, sem con-
867
OS PENSADORES
teúdo fatual. Nesse sentido, Schlick par-
tilhava da convicção de Mach, segundo a
qual, todo conhecimento deve poder
reduzir-se, em última análise, à descri-
ção da experiência, descrição que, entre-
tanto, requer instrumentos analíticos,
investigados pela lógica e pela matemá-
tica. Outro ponto que, posteriormente,
ressurgiria no Círculo de Viena, diz res-
peito ao estatuto da filosofia. Mais do
ue um projeto fracassado, Schlick ten-
dia a encontrar na filosofia tradicional
um projeto impossível, e, nos sistemas
metafisicos, mais do que teses falsas,
teses sem sentido. A esse Re
porém, a primeira posição de Sch ick é
ainda mais amena que a assumida em
Viena, alguns anos depois. Ela não .
implica ainda na recusa em conceder à
filosofia qualquer relevância teórica,
mas apenas na recusa em concedê-la nas
condições requeridas pela filosofia tradi-
cional. Schlick reconhece que algumas
uestões filosóficas são de natureza
atual, e, nessa medida, admitem solução
satisfatória, a partir de uma análise dos
resultados das ciências empíricas. Uma
dessas questões exprime-se na contro-
vérsia entre realismo e idealismo. Segun-
do Schlick, a atitude cartesiana diante
desse problema conduz necessariamente
ao idealismo, se for coerentemente man-
tida. De fato, se para encontrar-se um
conhecimento absolutamente verdadeiro
da realidade é necessário, de início,
duvidar metodologicamente de tudo que
aparentemente contenha algo de proble-
mático, nada mais restará além de dados
imediatos da experiência, a partir dos
uais nenhuma realidade pode ser inferi-
dE Nada autoriza, porém, a exigência
de que conhecimentos adequados à su-
posta realidade devam mostrar-se como
tais, de modo imediato. A realidade de
um conhecimento, pelo contrário, mos-
tra-se apenas no final de uma investiga-
ção, como o resultado de uma reflexão
crítica. Responder à questão “O que é
real?” consiste apenas em examinar
criticamente o conjunto de proposições
científicas, excluindo dele toda proposi-
ção que se possa demonstrar falsa. O
conjunto de proposições que resistirem
ao exame exprimirá a realidade como
ela é, não havendo nenhuma razão para
não identificar os objetos de que tratam
868
tais proposições com as coisas reais em
si mesmas. Essa posição, que consiste
em admitir que o real pode ser conhecido
em si mesmo, não de inicio, mas como o
resíduo de uma depuração critica, rece-
beu de Schlick o nome de realismo criti-
co. A questão filosófica de saber se algo
é real admite resposta derivada da res-
posta que se dê à questão científica de
saber se as hipóteses acerca de fenôme-
nos PR podem resistir a
tentativas de refutação empírica.
Empirismo lógico
Em 1922, Schlick aceitou o convite
para ocupar a cadeira de filosofia das
ciências indutivas, na Universidade de
Viena. Rapidamente reuniu um grupo de
filósofos e cientistas, ligados pelo inte-
resse comum por certos tipos E: proble-
mas, bem como pela atitude francamente
empirista assumida diante dos mesmos.
Faziam parte do grupo inicial Neurath,
Frank, Hahn, Herbert Feigl, Friedrich
Waismann, Kurt Gódel, Karl Menger
(1840-1921), Victor Kraft, entre outros.
Concordando com o empirismo clássico,
quanto ao caráter empírico de todo
conhecimento fatual, os membros do Cir-
culo de Viena, contudo, julgavam insa-
tisfatória a concepção da matemática e
da lógica como sistemas de proposições
muito gerais, estabelecidas indutiva-
mente a partir de fatos empíricos parti-
culares. O progresso das duas ciências
no início do século e o alargamento de
seus limites, com o desenvolvimento da
teoria dos conjuntos, pareciam obrigar
os novos empiristas a encontrar outra
maneira de fundamentar a cientificidade
do domínio lógico-matemático.
Dentro desse panorama crítico, foi
decisivo para os membros do Círculo de
Viena a leitura empirista que fizeram do
Tractatus Logico-Philosophicus de Witt-
enstein (1889-1951), uma das mais
Importantes tentativas de extrair conse-
quências filosóficas da nova lógica,
publicado em 1921. Para Wittgenstein,
o mundo é um conjunto de fatos simples,
fatos atômicos, e o estado atual do
mundo determina-se pelo conjunto de
fatos atômicos que tamento ocor-
rem, com a exclusão daqueles que não
ocorrem. Assim, segundo Wittgenstein,
SCHLICK
FABBRI
tm 1928, o Círculo de ct idas a Sociedade Ernst Mach, com a finalidade
de “divulgar e desenvolver uma perspectiva científica” e “criar os
instrumentos intelectuais do empirismo moderno”. O nome foi escolhido para
homenagear o filósofo do século XIX que teve decisiva influência na formação
das primeiras idéias do grupo. (Foto de Mach; Archiv Gerstenberg, Frankfurt.)
869
OS PENSADORES
tia
DO mass |
ss ta
FABBRI
A teoria da relatividade, formulada por Albert Einstein, desempenhou papel
relevante na constituição do pensamento do Círculo de Viena. A noção E
“construção lógica do mundo”, elaborada por Carnap e que considera o universo
como um conjunto de pontos-instante, utiliza a concepção einsteiniana de
espaço-tempo. (Foto de Einstein em 1903; Biblioteca Politécnica, Zurique.)
870
SCHLICK
toda proposição é significativa, fornece
alguma informação acerca do estado
atual do mundo, na medida em que afir-
me a ocorrência de certos fatos atômicos
e exclua a ocorrência de outros. O valor
de verdade de uma proposição deve,
pois, poder ser determinado a partir do
conhecimento da ocorrência, ou não-
ocorrência, dos fatos atômicos envolvi-
dos. Imaginando-se uma linguagem
capaz de exprimir cada fato atômico,
toda proposição significativa poderia ser
reduzida a uma combinação de proposi-
ções atômicas mediante funções de ver-
dade, de modo a ficar o valor de verdade
da proposição complexa univocamente
determinado pelos valores de verdade
das proposições atômicas componentes.
Segundo esse critério, três espécies de
proposições deixariam de merecer o
nome de significativas. A primeira espé-
cie seria a das verdades lógicas, ou
tautologias, e as contradições, cujo valor
de verdade independe da ocorrência ou
não de qualquer fato; por essa razão,
elas nada diriam acerca do estado atual
do mundo, sendo, pois, expressões va-
zias. Tratar-se-ia, diz Wittgenstein, de
proposições verdadeiras somente devido
à natureza de sua construção gramati-
cal. Um segundo tipo de proposições não
significativas seria o das verdades mate-
máticas, que Wittgenstein acredita
serem identidades; elas também seriam
vazias, na medida em que toda identi-
dade não passaria de uma regra lingúis-
tica que exprime o fato de dois simbolos
poderem nomear a mesma entidade. A
matemática e a lógica são reconhecidas
como independentes dos fatos, mas por
isso mesmo vazias de significado, sua
aplicabilidade ao mundo devendo-se à
sua derivabilidade da estrutura da lin-
guagem, que é construída para falar do
mundo. Finalmente, segundo Wittgens-
tein, a terceira espécie de proposições
não significativas é das proposições filo-
sóficas que não pretendem ser meras
consequências da maneira como se cons-
titui à linguagem, visto que se apresen-
tam como conhecimentos efetivos do
mundo, mas que tampouco se deixam
reduzir a um complexo de proposições
atômicas. Essa pretensão, para ele,
configura-se estritamente impossível,
concluindo-se dai o caráter ilusório do
suposto conhecimento filosófico. O co-
nhecimento do mundo, para Wittgens-
tein, é esgotado no nível das ciêneias
naturais, não restando à filosofia nenhu-
ma função teórica independente.
Uma primeira lição aprendida no
Tractatus — a identificação dos fatos
atômicos a fatos empíricos — levou o Cir-
culo de Viena a formular o princípio da
verificabilidade: o significado de uma
proposição reduz-se ao conjunto de
dados empíricos imediatos, cuja ocor-
rência confere veracidade à proposição .e
cuja não-ocorrência a falsifica; o signifi-
cado de uma proposição são suas condi-
ções empíricas de verdade. Em termos
lingúísticos, uma proposição fatual será
significativa se for possível reduzi-la a
uma combinação de proposições que
exprimam fatos da experiência imediata.
proposições protocolares, mediante fun-
ções de verdade. A segunda lição condu-
ziu os pensadores de Viena analoga-
mente a Wittgenstein, a retirar
significado fatual das proposições lógi-
cas e MATEMÁTICA, que são entendidas
como tautologias, ou seja, verdades
independentes do significado das expres-
sões componentes e inteiramente deter-
minadas, enquanto verdades, por sua
estrutura sintática particular. Final-
mente, uma terceira lição impôs a irrele-
vância teórica da filosofia, na qualidade
de suposto conhecimento não cientifico.
isto é, não empírico, do mundo.
A ampliação do movimento
Para o Círculo de Viena, se cabe a uma
disciplina função teórica distinta das
funções próprias das ciências empíricas,
da matemática e da lógica, essa função
reduz-se à análise e clarificação do dis-
curso propriamente científico, bem como
ao estabelecimento de suas condições de
legitimidade. — Enquanto proposições
acerca do mundo, porém, as teses filosó-
ficas não passariam de sequências de si-
nais despidas de qualquer sentido, visto
que, por definição, esse sentido não se
reduz a um conjunto de experiências
particulares. A possibilidade ou não de
conferir à filosofia um novo estatuto teô-
rico, contudo, constituiu um dos pomos
de discórdia no interior do Circulo de
Viena.
OS PENSADORES '
A influência de Wittgenstein na for-
mação das doutrinas do empirismo lógi-
co só é comparável em importância ao
papel desempenhado pelo alemão Rudolf
Carnap. Nascido em Ronsdorf, em 1891,
Carnap estudou matemática, fisica e filo-
sofia na Universidade de Jena, onde foi
aluno de Frege (1848-1925), que, junta-
mente com Russell (1872-1970), marcou
profundamente sua formação intelectual.
Em 1921, doutrinou-se em Jena com a
dissertação O Espaço: uma Contribui-
ção à Teoria da Ciência. Nesse trabalho
que procura determinar diferenças lógi-
cas entre os conceitos matemático, fisico
e intuitivo de espaço, e remeter à igno-
rância dessas diferenças alguns proble-
mas filosóficos acerca do espaço, já se
encontram alguns traços característicos.
de seu pensamento maduro. Em particu-
lar, surge claramente a tendência a
tomar problemas filosóficos como frutos
de mal-entendidos, que seriam resul-
tantes de análises lógicas defeituosas, a
serem corrigidas com o uso dos instru-
mentos da lógica de Frege e Russell. Na
dissertação, aparece, também, a tendên-
cia no sentido de conciliar uma postura
basicamente empirista com os modernos
métodos lógicos e matemáticos.
O trabalho de Carnap foi bem recebido
no Circulo de Viena, a ponto de Schlick
convidá-lo, em 1926, a assumir um
cargo de professor-assistente na Univer-
sidade de Viena. Carnap passou a parti-
cipar ativamente das discussões do
grupo, convertendo-se rapidamente em
um de seus membros mais proeminentes.
Alêm de inúmeros artigos, escreveu
nesse período as duas obras que levaram
mais adiante, de modo minucioso e pre-
ciso, o projeto fundamental do empi-
rismo lógico: 4 Construção Lógica do
Mundo, (1928), e 4 Sintaxe Lógica da
Linguagem, (1934). A primeira, apre-
senta-se como parte da realização do
projeto geral de mostrar como as leis
científicas poderiam ser reformuladas
em uma linguagem exprimindo direta-
mente a experiência imediata, e que,
portanto, exprimiria claramente seu sig-
nificado efetivo. A segunda visa a deter-
minar o verdadeiro estatuto teórico da
filosofia, bem como demonstrar conclu-
sivamente a impertinência dos projetos
filosóficos tradicionais.
872
A participação de Carnap contribuiu
em muito para dar ao Circulo o caráter
de movimento organizado. Em 1928,
formou-se a Sociedade Ernst Mach, com
os objetivos de “propagar é ampliar uma
atitude científica” e “criar os instru-
mentos intelectuais do empirismo mo-
derno”. Em 1929 Carnap, Hahn e Neu-
rath preparam um manifesto sob o título
A Concepção Científica do Mundo: o Cir-
culo de Viena, onde procuram sistema-
tizar as teses básicas do empirismo-
lógico e traçar suas origens históricas.
Sentindo-se ilhados no ambiente filosó-
fico alemão, dominado pelo idealismo de
filiação kantiana, o grupo vienense de-
senvolveu intenso intercâmbio com gru-
pos empiristas de outros países. En-
quanto os contatos na Alemanha
limitavam-se ao debate com Wittgens-
tein, as doutrinas do Circulo encon-
traram ampla ressonância na Inglaterra
e Estados Unidos. O trabalho de divulga-
ção incluiu a realização de congressos
internacionais, o primeiro em Praga, em
1929.
A partir de 1930, o Circulo passou a
dispor de publicações próprias para a
comunicação de seus trabalhos. Em cola-
boração com Reichenbach (1891-1953),
Carnap passôóu a editar a revista Er-
kenntnis, Neurath organizou uma cole-
ção de monografias denominada Ciência
Unificada, Schlick e Frank cuidaram de
uma coleção de livros intitulada Escritos
para uma Concepção Científica do
Mundo. Mas, ao mesmo tempo, o grupo
começou a desintegrar-se. Em 1931,
Carnap mudou-se para Praga e, em
1935, sob pressão do nazismo, resolveu
fixar-se nos Estados Unidos, onde per-
maneceria até sua morte, em 1970. Tam-
bém Feigl estabeleceu-se nos Estados
Unidos, em 1931, seguido por Menger e
Góodel. Hahn faleceu em 1934 e final-
mente, .em 1936, Schlick foi assassi-
nado, a caminho da Universidade de
Viena, por um estudante desequilibrado.
Neurath fez uma última tentativa para
manter vivo o movimento, transferindo,
sob pressões políticas, a revista Erkennt-
nis para Haia, com o novo título de The
Journal of Unified Science. Em ot
Carnap planejou uma série de opúsculos
a serem reunidos numa Enciclopédia da
Ciência Unificada, projetaram-se novos
ss —— >>>
CARNAP
Como muitos outros intelectuais e artistas da época, os componentes do
Círculo de Viena foram perseguidos pelo nazismo. Segundo o filósofo inglês
Alfred Jules Ayer, o pensamento dos positivistas lógicos foi atacado pelos
nazistas, em virtude da natureza essencialmente crítica de suas posições.
(Foto da coleção Gerschein mostra a parada pela vitória de Hitler, em Viena.)
congressos, mas a Segunda Guerra Mun-
dial e a morte de Neurath retiraram do
movimento sua coesão inicial. Curiosa-
mente, essa desintegração coincidiu com
o início de um processo de absorção do
empirismo lógico por outras correntes de
origem empirista, o que fez com que o
grupo de Viena perdesse sua singulari-
dade, e fosse conduzido a um ameniza-
mento progressivo das rígidas posições
iniciais.
Construção lógica do mundo
A tese de que o significado de uma
proposição consiste no conjunto de suas
condições empíricas de verificação, e a
distinção entre ciência e metafísica na
base da distinção entre proposições
significativas e não significativas, impli-
cam, necessariamente, a crença de que
toda proposição científica pode, em RE
ma análise, reduzir-se a uma combina-
ção de enunciados protocolares. Em ou-
tros termos, todas as leis científicas,
expressas habitualmente em uma lingua-
gem que admite expressões nem sempre
diretamente ligadas a dados da expe-
riência imediata, deixar-se-iam formular
em uma linguagem comportando exclu-
sivamente expressões dessa natureza. À
Construção Lógica do Mundo, de Car-
nap, constitui a tentativa mais sistemá-
tica de justificar essa crença.
O instrumento metodológico básico
utilizado por Carnap para essa tarefa foi
tomado por empréstimo a Bertrand Rus-
sell: a noção de definição contextual.
Para Russell, traduzir a linguagem nor-
mal da ciência em uma linguagem da
experiência imediata não significa, ne-
cessariamente, definir cada expressão da
primeira em termos da segunda, mas,
simplesmente, formular um conjunto de
regras que permitam reduzir toda propo-
sição, contendo a expressão a ser defini-
da, a uma proposição que não a-conte-
nha, sem que deva haver entre ambas
873
E = SS
OS PENSADORES
qualquer analogia de estrutura lógica ou
gramatical. O trabalho de Carnap con-
sistiu em, primeiro, especificar um con-
junto equeno de expressões primitivas
referida as à experiência imediata, a base
da linguagem; segundo, acrescentar-lhe
o conjunto das expressões lógico-mate-
máticas; e, terceiro, determinar um con-
Junto de regras constitucionais, indi-
cando como algumas expressões da
linguagem notmal da ciência poderiam
ser definidas, no sentido mencionado, em
termos daquelas expressões iniciais.
A base da linguagem construída por
Carnap comporta expressões para expe-
riências sensíveis e para uma relação
primitiva que existe entre as experiên-
cias T e y, tomadas nessa ordem e se, e
somente se, x é lembrada como sendo
semelhante a y. Na primeira parte de 4
Construção Lógica do Mundo, algumas
noções, como qualidade e sensação,
entre outras, são introduzidas por regras
constitucionais. Na segunda parte, de
modo mais informal, Carnap indica
como construir logicamente o mundo
espaço-temporal, enquanto conjunto de
pontos-instante, entendidos como quá-
druplas (as três dimensões do espaço e o
tempo) de números reais; além disso,
Carnap argumenta em favor da idéia de
que toda afirmação sobre o mundo pode-
ria reduzir- se a atribuições de qualida-
des sensíveis a tais pontos-instante, defi-
nindo contextualmente expressões como
“objeto visual” e “meu corpo”. Em
seguida, focaliza o problema de como
entender proposições tratando de outras
mentes e de objetos culturais, de modo
pouco mais que alusivo.
A escolha de uma linguagem imedia-
tamente ligada à experiência imediata,
como linguagem básica da ciência, colo-
cou, contudo, problemas no interior do
empirismo lógico, problemas prove-
nientes da ambiguidade da noção de
proposição protocolar. Todos concor-
davam em admitir como protocolares
exclusivamente proposições empirica-
mente verificáveis de modo imediato, o
que não evitou discussões acerca do tipo
de entidades a serem referidas por
proposições empiricamente verificáveis
de modo imediato. Schlick advogou fran-
camente a tese de que tais proposições
devem referir-se a dados sensíveis, nos
874 5;
moldes da linguagem especificada por
Carnap em A Construção Lógica do
Mundo. Neurath declarou ser insusten-
tável essa posição, visto que conduziria
a um solipsismo inconciliável com a
objetividade e intersubjetividade carac-
terísticas da ciência. As proposições bá-
sicas da ciência deveriam, segundo Neu-
rath, referir-se a objetos físicos,
públicos, e a linguagem cientifica seria
uma linguagem fisicalista, comum a
todas as disciplinas, concretizando a
ideal empirista da ciência unificada.
Schlick procurou responder a essa obje-
ção, retomando sua antiga distinção
entre estrutura e conteúdo da experiên-
cia. Segundo ele, uma linguagem refe-
rida a dados sensíveis seria incomuni-
cável quanto ao conteúdo desses dados,
mas não quanto à sua estrutura e quanto
à sua ordem e suas relações mútuas.
Para Schlick, embora nada possa garan-
tir que a impressão sensivel associada
por uma pessoa à palavra “'vermelho”
seja a mesma que outra pessoa associa à
mesma palavra. pode-se constatar que a
mesma palavra é usada nas mesmas
situações, e que se reconhecem as mes-
mas relações entre as impressões asso-
ciadas às palavras “vermelho”, “verde”
e “azul”, quaisquer que sejam essas
impressões para cada indivíduo. Isso
bastaria para assegurar a objetividade
de proposições contendo tais palavras.
Por influência de Neurath, Carnap
aproximou- se progressivamente das po-
sições fisicalistas, em artigos como A
Linguagem Fisicalista como Linguagem
Universal da Ciência e Psicologia em
Linguagem Fisicalista, publicados res-
pectivamente em 1931 e 1932. Neste
segundo artigo, Carnap procurou mos-
trar como a psicologia não se distingue
qualitativamente, em objeto e método,
das ciências naturais, a possibilidade de
formulá-la em uma linguagem fisicalista
refletindo a possibilidade de encará-la
como a descrição de certos aconteci-
mentos fisicos, no caso as condutas
manifestas de homens e animais. Desde
A Construção Lógica do Mundo, porém,
Carnap evitou conceder à polêmica do
fisicalismo relevância mais que metodo-
lógica. Para ele essa polêmica tende a
assumir contornos metafísicos, reduzin-
do-se à polêmica entre positivistas e rea-
CARNAP
listas, entre os que negam a existência
de objetos exteriores — reconhecendo
apenas dados sensíveis como entidades —
e os que afirmam a existência desses
objetos além do que é dado na experiên-
cia. À opção entre uma base solipsista e
uma fisicalista aparece como uma opg ão
metodológica, atendendo à conveniência
ditada pelos objetivos propostos. Sua
escolha de uma linguagem solipsista
teria sido ditada pelo interesse epistemo-
lógico de seu trabalho, entendido como a
reconstrução racional do aparato concei-
tual da ciência, isto é, como a determina-
ção da maneira como os conceitos cienti-
ficos mantêm conexões lógicas com a
experiência, e não como a descrição da
maneira como eles são psicologicamente
obtidos por cada sujeito individual. Se o
interesse for, por outro lado, sistemático
— se está em questão a formulação de um
sistema teórico intersubjetivo — a prefe-
rência recai sobre uma linguagem fisica-
lista. Na opinião de Carnap, porém, o
conteúdo empírico de proposições fisica-
listas fica garantido pela possibilidade
de reduzi-las a proposições solipsistas, o
que, por outro lado, não implica em
negar a existência de objetos físicos.
Sendo impossível determinar critérios
empíricos de sua verdade, essa negação
configura-se como uma pseudo-propo-
sição metafísica. Nesse sentido, A Cons-
trução Lógica do Mundo seria metafisi-
camente neutra.
A passagem de Carnap ao fisicalismo
— caracterizada pela recusa do privi-
légio de que ainda dispunha na Constru-
ção a linguagem solipsista, enquanto lin-
suagem básica da ciência —, não deixa
de colocar problemas. A concepção de
proposição protocolar, como algo refe-
rido imediatamente às experiências ime-
diatas do cientista, concedia a ela um
grau de certeza máximo, tornando possi-
vel dispor de um critério conclusivo para
verificação de hipóteses. Por outro lado,
converter as proposições protocolares
FABBRI
a e
midia tn te
Seo
E em proposições acerca de objetos exte-
É Pk riores ao sujeito retira-lhes esse grau de
certeza. Coloca-se, assim, um problema:
O economista Otto Neurath fem cuna) como determinar se um fato confirma
foi um dos primeiros participantes do uma hipótese, se a própria proposição
grupo dos positivistas lógicos de que afirma de modo mais imediato a
Viena. O pensador Kurt Gódel foi ocorrência do fato deve, por sua vez,
outra figura expressiva do movimento. submeter-se a confirmação, visto tratar-
87
q
OS PENSADORES
se apenas de uma expressão de dados
sensíveis presentes imediatamente ao
sujeito? As proposições protocolares dei-
xam de ser incorrigíveis, sua verdade
torna-se tão discutível quanto a de hipó-
teses que, em princípio, ganhariam con-
teúdo empírico por meio delas. Se uma
proposição protocolar entrasse em con-
flito com uma dessas hipóteses, nada
obrigaria a abandonar a hipótese e não a
proposição protocolar. No artigo Sobre o
Fundamento do Conhecimento, Schhck
Julga insustentável essa concepção do
ponto de vista empirista, pois signifi-
caria colocar a ciência fora do controle
dos fatos. Esse argumento não impres-
sionou Neurath e Carmnap, visto que o
problema das relações entre enunciados
e fatos aparecia-lhes como metafísico.
Na medida em que enunciados e fatos
são realidades de espécie diferente, não
teria sentido falar em correspondência
entre eles, mas apenas em correspon-
dência entre certos enunciados e outros
que são pesa no momento, por
razões de conveniência. Constituiu-se
assim a chamada teoria da coerência da
verdade: do ponto de vista lógico, não se
pode exigir de uma teoria mais que coe-
rência interna, a decisão entre teorias
coerentes opostas guiando-se por moti-
vos de conveniência. Embora Carnap,
posteriormente, tenha abandonado essa
teoria, convencido pelos trabalhos se-
mânticos de Alfred Tarski (1902- ).
segundo os quais existe possibilidade de
tratar a verdade como correspondência
de maneira não metafísica, não abando-
nou a postura pragmática, que faz inter-
vir razões de conveniência no processo
de aceitação de teorias, o que implica a
insuficiência dos critérios simplesmente
empíricos para dar conta da tarefa de
verificar teorias científicas.
Uma nova filosofia
O princípio de verificabilidade, iden-
tificando significado e condições empíri-
cas de verdade, reduzia a filosofia tradi-
cional a um conjunto de segiiências
assignificativas de sinais, retirando da
metafísica o direito de ocupar um lugar
no domínio do conhecimento do real.
Surgem dai duas questões. Em primeiro
lugar, a assignificatividade da metafi-
876
=" - lan, gate
— «2 >
A fim de propagar suas idéias,
Os positivistas organizaram
diversos congressos internacionais.
O primeiro foi realizado em Praga.
(Uma rua do gueto judeu de Praga.)
CARNAP
sica não pode ser, evidentemente, da
mesma espécie da assignificatividade de
uma sequência desordenada de sinais
combinados a esmo. Ela reveste-se de
uma inegável aparência de correção
linguistica, que cabe explicar. Além
disso, se o dominio do conhecimento é
esgotado pela lógica, pela matemática e
pelas ciências empíricas, pode- se per-
guntar: qual o estatuto do empirismo ló-
gico enquanto sistema de aparentes afir-
mações? qual o sentido da proposição
que afirma a validade do próprio princí-
pio de verificabilidade?
A resposta de Schlick assemelha-se à
de Wittgenstein: a filosofia dedica-se a
esclarecer os conceitos propriamente
científicos, o erro da metafísica consis-
tindo em tomar esse esclarecimento por
uma expressão. Para Schlick, se cabe
explicitar o significado de uma proposi-
ção, é óbvio que essa explicitação não
pode ser feita exclusivamente em termos
de outras proposições, pois seria sempre
cabível, por sua vez, indagar pelos si
ficados dessas proposições, o que ade
garia a um regresso infinito. Se a tarefa
de explicitação é realizável, deve-se em
algum momento abandonar o nivel da
expressão e recorrer a um ato que aponta
em direção do que não se pode exprimir
por nenhuma proposição. A filosofia não
seria uma teoria exprimindo fatos, mas
uma atividade de indicar o inexprimível.
Em suma, segundo Schlick, o princípio
de verificabilidade não remeteria a ne-
nhum fato, mas seria a regra orientadora
da atividade filosófica, na busca do
significado das proposições da ciência, e
a validade da filosofia tradicional seria
reconhecível na atividade de explicita-
ção oculta sob a roupagem de conheci-
mento fatual.
É outra a atitude de Carnap diante da
filosofia. Segundo ele, não se justifica a
afirmação de Wittgenstein de que as
proposições do Tractatus carecem de
sentido. Elas não seriam na verdade,
proposições significativas sobre o
mundo, mas proposições significativas
sobre a linguagem utilizada para falar
do mundo. Para Carnap, a filosofia teria
duas funções, uma positiva e outra nega-
tiva, ambas referindo-se à análise da lin-
guagem. Se proposições sem sentido,
como as da metafísica, podem ser gra-
César é um número primo”,
maticalmente corretas, é porque a gra-
mática de uma linguagem ordinária não
é adequada às exigências da lógica. Se a
gramática nada tem a opor contra propo-
sições como “o nada nadifica”, onde o
uso substantivo da palavra “nada” reti-
ra-lhe qualquer significado, ou “Júlio
onde pro-
priedades que convêm a objetos de um
certo tipo lógico são atribuídas a um ob-
Jeto de tipo diferente, é porque as lingua-
gens comuns não se definem tendo em
vista exclusivamente fins teóricos — o
que exigiria adequação à lógica — mas
comportam também outros fins, como
por exemplo a expressão de uma atitude
emotiva diante do mundo. É pois tarefa
relevante construir linguagens regidas
por uma sintaxe lógica, que permita
identificar correção lógica a correção
gramatical. A pas bidede de até
mesmo formular a maior parte dos pro-
blemas metafisicos em tais linguagens
atesta seu caráter de pseudo-proble-
mas. À filosofia, enquanto crítica, cabe
pois o trabalho de revelar as transgres-
sões lógicas, não espelhadas gramatical-
mente e que sustentam a ilusão metafi-
sica. À esse trabalho, Carnap se dedicou
em dois artigos que se tornaram famo-
sos: Superação da Metafísica pela Aná-
lise Lógica da Linguagem e Pseudo-Pro-
blemas em Fitosofin.
Em Sintaxe Lógica da Linguagem
Carnap desenvolveu o projeto a nova
filosofia em sua função positiva, ou seja,
como teoria da sintaxe lógica da lingua-
gem da ciência. Toda linguagem logica-
mente adequada poderia : ser especificada
em termos de um conjunto de sinais
rimitivos, que constituiriam, por um
dedo um conjunto de regras de forma-
ção, indicadoras de como obter expres-
sões complexas por combinação de ex-
pressões mais simples, exclusivamente
na base de suas formas visíveis, e, por
outro, um conjunto de regras de transfor-
mação, também restritas à forma das
expressões, capazes de refletir os modos
válidos de inferência. As proposições da
filosofia seriam significativas na medida
em que descrevessem a estrutura sintá-
tica de uma linguagem, resultante da
escolha de certos sinais e “certas regras,
ou na medida em que exprimissem certas
prescrições para a construção de novas
877
ASSOCIATED PRESS
OS PENSADORES
! e
“Ninguém duvida de que a investigação pragmática das lin uagens naturais é da
maior importância para entender, tanto o comportamento dos indivíduos como o
caráter e o desenvolvimento de culturas inteiras. (...) Parao propósito
especial do desenvolvimento da lógica, é mais importante a construção e
investigação semântica dos sistemas linguísticos.” (Texto de Carnap, acima.)
878
CARNAP
linguagens, tendo em vista determinados
fins teóricos. A partir dessa concepção
de filosofia como metalinguagem (lin-
guagem que cuida de linguagem), Car-
nap acreditava poder recuperar o valor
cognitivo de certas teses da filosofia
tradicional, convertidas em teses meta-
linguísticas. Dever-se-iam, assim, distin-
guir duas espécies de proposições signi-
ficativas, conforme tratem do mundo ou
da linguagem: sentenças-objeto e senten-
ças sintáticas. Quando a referência aq
mundo ou à linguagem for explicita, dir-
se-á que se trata, respectivamente, de
sentenças em modo material ou em modo
formal. Algumas proposições metafi-
sicas poderiam ser reconhecidas como
sentenças pseudo-objeto, isto é, senten-
cas sintáticas formuladas no modo mate-
rial: convertidas ao modo formal, passa-
riam a exprimir verdadeiras afirmações,
cabendo discuti-las de maneira significa-
tiva. Exemplo típico desse procedimento
encontra-se no artigo Empirismo, Se-
mântica e Ontologia, onde arnap anali-
sa o problema filosófico da existência.
Embora Carnap, posteriormente,
tenha atenuado essa concepção, permi-
tindo à filosofia referir-se não apenas
aos aspectos sintáticos, simplesmente
formais, da linguagem, mas também aos
semânticos, nunca abandonou a idéia de
que a relevância teórica da filosofia resi-
de em seu caráter metalingúístico, e sua
irrevelância teórica é proporcional à sua
pretensão em competir com a ciência no
conhecimento do mundo.
Verificação e confirmação
Ao formular o princípio de verificabi-
lidade, os empiristas lógicos acredi-
taram ter encontrado um critério capaz
de distinguir entre ciência e filosofia
tradicional, relegando as proposições
metafisicas ao estatuto de sequências va-
zias de sinais e reservando para as ciên-
cias naturais o caráter de conhecimento
fatual. Entretanto, logo se tornou apa-
rente a inadequação do princípio de
verificabilidade, enquanto critério satis-
fatório de demarcação. Se um dos objeti-
vos das ciências é a formulação de leis
válidas em geral. a exigência de que
toda proposição científica seja equiva-
lente a uma combinação de proposições
protocolares implica em admitir que
esse objetivo é inatingível, visto que
evidentemente nenhum conjunto finito de
experiências pode conferir veracidade a
uma lei geral. Schlick procurou contor-
nar a dificuldade, sugerindo que tais leis
são de fato regras que permitem passar
de enunciados singulares a enunciados
singulares, e não propriamente proposi-
ções. Essa solução não satisfez a Carnap,
a quem parecia claro serem as leis cienti-
ficas usadas como proposições, pois,
caso contrário, não teria sentido falar na
falsidade de uma suposta lei. Cabia, por-
tanto, reformular a noção empirista de
significado, sob pena de abandonar a
parte mais relevante das teorias cientifi-
cas. Além disso, o exame de certos con-
ceitos científicos, conhecidos como dis-
posicionais, que servem para descrever
fenômenos que ocorrem em certos corpos
apenas quando lhes são impostas condi-
ções particulares (caso da solubilidade
em água), convenceu Carnap a abando-
nar o princípio de que todo conceito cien-
tífico pode ser definido contextualmente,
em termos de uma linguagem protocolar.
Em um artigo de 1936, Sobre a Lingua-
gem Unificada da Ciência, ele admite
que o sentido preciso de expressões
como “solúvel em água” não pode ser
reproduzido por nenhuma espécie de
regra constitucional, mas apenas por for-
mas redutivas, que não permitem elimi-
nar proposições contendo tais expres-
sões, em beneficio de proposições
equivalentes de uma linguagem protoco-
lar, mas formular nesta linguagem pro-
posições implicadas pelas primeiras.
Certamente, deve haver relação lógica
entre uma proposição científica e propo-
sições protocolares, mas. tal relação não
é sempre a de mera equivalência.
No artigo Testabilidade e Significado,
publicado em 1936-37, Carnap substi-
tulu O princípio da verificabili ade pelo
princípio mais flexível da confirmabi-
lidade. Aceitando que leis gerais nunca
podem ser completamente verificadas, e
que mesmo proposições protocolares, se
entendidas em sentido fisicalista. são
passíveis da mesma consideração, Car-
nap propôs, como possível critério de
significado, a possibilidade de confirma-
ção gradual. Uma proposição científica
seria mais ou menos confirmada pela
879
OS PENSADORES
experiência, de acordo com a quantidade
de evidência empírica disponível a seu
favor, reconhecendo-se a impossibi-
lidade de sempre elevar o grau de confir-
mação ao absoluto. Quanto maior o nú-
mero de proposições protocolares
verdadeiras dedutíveis de uma hipótese,
maior seu grau de confirmação, Rendo
assim garantida sua pe A
no corpo da teoria. Carnap definiu ainda
a noção de testabilidade: uma proposi-
ção dir-se-á testável, se for possivel rea-
na experimentos capazes de confir-
má-la. A partir dai, distinguiu quatro
maneiras empiristas de entender a noção
de significado: como testabilidade com-
pleta, testabilidade parcial, confirmabi-
lidade parcial e confirmabilidade com-
pleta ou verificabilidade. Embora
recomendando tolerância e atenção aos
fins propostos por cada investi ação,
Carnap manifestou preferência pelo cri-
tério mais liberal da mera confirmabi-
lidade parcial. Em Fundamentos Lógicos
da Probabilidade (1950), Carnap fez
uma análise lógica da noção de grau de
confirmação de uma hipótese, lançando
as bases de uma lógica indutiva. En-
quanto a lógica dedutiva permitiria
determinar cabalmente a verdade de uma
proposição, a partir da verdade de ou-
tras das quais é consequência lógica, a
lógica indutiva permitiria estabelecer
que a verdade de certas conseqiências
lógicas de uma proposição determina
para ela um grau de confirmação n. Do
mesmo modo que a determinação dedu-
tiva independeria do significado particu-
lar das expressões não lógicas envolvi-
das, a determinação indutiva decorreria
simplesmente da forma lógica das pro-
posições e do conceito lógico de grau de
confirmação, Justificando-se assim cha-
má-las ambas de lógica.
Conjetura e refutações
Na revisão crítica do princípio de
verificabilidade, o filósofo vienense Karl
Popper desempenhou papel importante.
Nascido em 1902, estudante de matemá-
tica, fisica e filosofia na Universidade de
Viena, Popper manteve contatos estrei-
tos com os membros do Circulo, sofrendo
influência principalmente de Carnap, o
que não impediu que recusasse muitas
880
das teses mais características do empi-
rismo lógico.
Em seu primeiro livro, Lógica da
Investigação (1935), Popper criticou o
projeto de estabelecer os limites entre
ciência e pseudo-ciência (a metafísica em
particular), na base da distinção entre
proposições com e sem significado, bem
como o estabelecimento a distinção
or meio do princípio de verificabi-
asd Segundo Popper, esse princípio
não serve para delimitar precisamente o
domínio da ciência, por ser demasiada-
mente restritivo, 26 certos aspectos,
demasiadamente amplo, sob outros. De
fato, a aceitação do princípio equivale,
por um lado, a excluir da ciência leis
gerais, e, por outro, a admitir como ciên-
cias formas de conhecimento que o empi-
rismo não pode aceitar a não ser como
pseudo-ciências: a astrologia, partes da
metafísica tradicional, o historicismo
marxista e a psicanálise, as quais con-
têm inúmeras proposições empirica-
mente verificáveis. Contra a idéia de que
as leis científicas são meras abreviações
de experiências singulares, Popper con-
sidera-as criações livres da razão huma-
na, mais do que reações passivas diante
de observações. Para Popper, toda ob-
servação pressupõe uma atividade seleta-
va, que permite discernir certas irregula-
ridades em prejuizo de outras, e essa .
atividade, por sua vez, supõe uma teoria .
prévia que a oriente nas seleções. Em ou-
tros termos, não há observação pura, e
mesmo que houvesse, mesmo que a indu-
ção fosse responsável pela formação de
teorias científicas, ainda assim ela per-
maneceria incapaz de justificá-las. O
que distingue teorias científicas de pseu-
do-cientificas não é a verificabilidade
empírica e sim a refutabilidade empiri-
ca. O que defme a racionalidade cienti-
fica não é o momento da obtenção das
teorias, nem tampouco o de sua verifica-
ção, que é impossível, mas o de sua críti-
ca. Segundo Popper, uma teoria deve ser
reconhecida como científica na medida
em que for possível deduzir dela propo-
sições observacionais singulares, cuja
falsidade seria pois prova conclusiva da
falsidade da teoria. Por outro lado, se
uma teoria não provê meios para uma
possível refutação empírica, se não há
experiência capaz de refutá-la, deve ser
FABBRI
POPPER
Lara dra a 1891 vão Tomado tear
Damues, a Nom Ed,
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rap parda
pune da hds d uses “ dee, ez
pe
Geralmente considerado como o mais importante r epresentante no ositivismo
lógico, Rudolph Carnap evoluiu de uma posição inicial
neutralidade cética em relação à metafísica até a sua radical re E TCROs
Suas críticas à filosofia tradicional influenciaram inúmeros filósofos
do século XX. (Manuscrito da Autobiografia de Carnap, editada em 1957.)
881
OS PENSADORES
reconhecida como um mito, explicação
pseudo-científica do real. A atitude cien-
tífica diante de uma hipótese não consis-
te, pois, em procurar casos particulares
que a confirmem, mas Rca casos
que, se ocorressem, falsificariam a hipó-
tese. A racionalidade da adoção provi-
sória de uma teoria ou de sua rejeição
deriva, portanto, da objetividade dos
procedimentos dedutivos, que orientam o
discernimento das possíveis experiências
refutadoras. Popper conclui então pela
total irrelevância das tentativas de ela-
borar uma lógica indutiva como método
de decisão em ciência.
Em uma série de artigos posteriores,
alguns deles reunidos no volume Conje-
turas e Refutações, Popper mostrou
como sua crítica ao princípio de verifica-
bilidade atinge também o substitutivo
proposto por Carnap, com base na noção
mais fraca de confirmação, visto que
toda proposição vérificâvel é também
confirmável, e há proposições verificá-
veis pseudo- científicas. Popper recusou
também a interpretação de alguns empi-
ristas, undo a qual o princípio da
cefutabilidade empírica funcionaria
como novo critério de significatividade.
Popper acreditava que o problema da
demarcação entre ciência e pseudo-
ciência nada tem a ver com o problema
do significado, que lhe parece de fato um
pseudo- problema. Dizer “que uma propo-
sição é significativa se é empiricamente
refutável envolve, do mesmo modo que
dizer que o é no caso de ser empirica-
mente verificável, uma transgressão do
uso comum da palavra “significado”,
pois a negação de uma proposição refu-
tável nem sempre é refutável, enquanto
espera-se que a negação de uma proposi-
ção significativa sempre seja significa-
tiva. Além disso, muitas teorias cienti-
ficas surgiram como o resultado de um
desenvolvimento a partir de mitos, como
foi o caso da teoria corpuscular da luz.
Seria dificilmente compreensível que
uma teoria carecesse de sentido em um
estágio de seu desenvolvimento e, de
repente, passasse a dispor de sentido
completo. Mais conveniente seria reco-
nhecer duas formas de conhecimento de
valor desigual, uma científica, porque
crítica, outra não científica, porque
dogmática, inacessível ao tribunal da
882
experiência. Popper também não acom-
panhou Carnap no estabelecimento de
uma distinção rigorosa entre filosofia e
ciência. Por um lado, a filosofia, para
cle, não está restrita ao estudo de lingua-
gens; por outro, ela apenas adquire esta-
tuto científico, quando conduz sua inves-
tigação sem perder de vista os
problemas levantados pelas ciências par-
ticulares. Se é possível estabelecer, em
certa medida, diferenças metodológicas
entre elas, tais diferenças não anulam o
que deve haver de comum em seus proce-
dimentos, ou seja, construção de hipóte-
ses e tentativas de refutá-las.
Em Conjeturas e Refutações, e espe-
cialmente em seu livro posterior, Conhe-
cimento Objetivo, Popper procurou mos-.
trar a incorreção de certas
interpretações, que encontram germes de
relativismo e irracionalismo em suas
doutrinas. Segundo essas interpretações,
se é impossível, falar em verificação, e
até mesmo em confirmação de teorias
cientificas, parece ser também impos-
sivel falar em verdade objetiva a que as
leis científicas devessem responder. Para
hd tal interpretação é viciada pela
confusão entre certeza e verdade. A
impossibilidade de verificação atesta
simplesmente a impossibilidade de cer-
teza absoluta no que concerne à verdade
de uma teoria, isso em nada afetando o
próprio conceito de verdade, enquanto
correspondência entre teoria e mundo
real. À própria noção de refutabilidade
implica o reconhecimento de uma verda-
de objetiva, visto que só tem sentido
falar em teoria falsa pressupondo-se
uma verdade da qual essa teoria ter-se-ia
desviado. Se tal verdade nunca pode ser
conclusivamente reconhecida por nós,
isso não implica que ela não exista. A
idéia de verdade funcionaria, de fato,
como um ideal regulador da prática
científica, entendida esta como processo
de criação de hipóteses e tentativas para
mostrar que elas não correspondem à
verdade. Falsificada uma teoria, cumpre
substituí-la por outra menos inadequada
ao real; o progresso da ciência consisti-
ria, assim, numa aproximação progres-
siva em direção à verdade.
Entretanto, como falar em aproxima-
ção sucessiva à verdade, em graus de
verdade, se mesmo uma confirmação
POPPER
parcial é impossível, e mais se não há
observação pura, se os próprios enuncia-
dos básicos da ciência — que suposta-
mente remeteriam a fatos do mundo -—,
são partes das teorias, e consequen-
temente estão também sujeitos a testes
de refutação? Em suma, como comparar
duas teorias até agora refutadas, ou
duas teorias já refutadas, a fim de esta-
belecer seus lugares no progresso para a
verdade? As concepções de Popper pare-
cem conduzir a um irracionalismo, à
impossibilidade de encontrar critérios
objetivos para comparar duas teorias
científicas conflitantes. Popper respon-
deu a essa objeção, indicando alguns cri-
térios objetivos admissíveis. O caráter
hipotético dos enunciados básicos, pen-
sava Popper, não impossibilita a opera-
ção de SERIE empírica, pois podemos
atribuir convencionalmente valores de
verdade a certos enunciados básicos, de
maneira provisória, sujeita a revisões
possíveis na base da verdade ou falsi-
dade de outros enunciados básicos dedu-
tíveis dos primeiros, no contexto da teo-
ria. Se, aparentemente, a possibilidade
de convencionar valores de verdade im-
pede a refutação conclusiva de qualquer
teoria, de fato 1sso não ocorre, pois cer-
tas convenções diminuiriam a onto a
precisão, a simplicidade e o conteúdo
empírico da teoria que a tornariam
inaplicável à realidade que pretende
explicar. Entre outros, surgem como cri-
térios objetivos a verossimilhança (ou
au de corroboração), entendida como
unção do número de tentativas fracas-
sadas de refutação; o conteúdo informa-
tivo ou empírico, entendido como o con-
junto de enunciados básicos que
logicamente contradizem a teoria; a pre-
cisão; a amplitude explicativa. Se a ava-
liação de teorias não pode ser feita no
nível puramente empírico — que aliás é
uma ilusão —, isso não implica fazê-la no
nível psicológico e subjetivo. Além do
mundo real dos fatos e do mundo interior
de cada um, há um terceiro mundo: o
mundo lógico das teorias, onde elas se
confrontam segundo critérios propria-
FABBRI
Moritz Schlick, um dos fundadores do mente racionais e objetivos, porque
Círculo de Viena, concebia a puramente lógicos. Recusar a lógica da
ilosofia como elucidação dos indução não significa recusar a lógica da
fundamentos e da estrutura da ciência. investigação científica.
(Biblioteca Nacional Austríaca.) Em 4 Sociedade Aberta e Seus Inimi-
883
OS PENSADORES
gos e A Miséria do Historicismo, Popper
tirou algumas consequências de sua teo-
ria da ciência, no que concerne à ciência
da história e das sociedades. Em A
Sociedade Aberta examinou e criticou as
teorias da história de Platão (427 a.C. -
347 a.C.), Hegel (1770-1831), e Marx
(1818-1883), enquanto formas de histo-
ricismo: doutrina que reconhece leis ge-
rais da evolução histórica,que a conver-
tem em algo inteiramente determinado e
predizível. Em A Miséria do Histori-
cismo, Popper reconheceu no histori-
cismo dois falsos pressupostos naturalis-
tas: o de que a evolução histórica deve
ser tão determinada quanto a biológica,
o que é um erro também biológico, e o de
que uma ciência da história deve recor-
rer ao método das ciências naturais, que
consistiria no estabelecimento de regula-
ridades entre fenômenos, o que é uma má
compreensão do método das ciências
naturais. O método das ciências histó-
ricas e sociais seria de fato o mesmo:
criação de hipóteses relativas a aspectos
particulares do real e tentativas de refu-
tação empírica. Popper justifica, a partir
dai, suas posições políticas: a ação poli-
tica não deve ser revolucionária, não
deve visar à reconstrução global da
sociedade, visto não haver nenhuma
ciência capaz de prever o resultado de
tal reconstrução; deve antes consistir na
reforma paulatina de setores particu-
lares da sociedade, em termos de uma
engenharia social.
1882 — Em Berlim, a 14
abril, nasce Moritz Schlick.
1891 — 4 18 de maio, em
Ronsdorf, Alemanha, nasce
Rudolf Carnap.
1902 — Nasce Karl Rai-
mund Popper, em Viena.
1910 — Publicação dos
Fundamentos Lógicos das
Ciências Exatas, de Natorp.
1916 — Morre Ernst
Mach.
1918 — Schlick publica
sua Teoria Geral do Conhe-
cimento.
1921 — Carnap doutora-se
em Jena com a dissertação O
CRONOLOGIA
Espaço: uma Contribuição
a Teoria da Ciência. Witt-
genstein publica seu Tracta-
tus Logico-Philosophicus.
1922 — Schlick assume a
cátedra de filosofia das ciên-
cias indutivas, na universida-
de de Jena.
1926 — Carnap é convida-
do por Schlick para o cargo
de professor assistente na
universidade de Viena.
1928 — Carnap publica A
Construção Lógica do Mun-
do. Constitui-se a Sociedade
Ernst Mach.
1929 — Carnap, Hahn e
BIBLIOGRAFIA
Neurath preparam seu mani-
festo: A Concepção Cientifi-
ca do Mundo: o Círculo de
Viena.
1931 — Carnap publica A
Linguagem Fisicalista como
Linguagem Universal da
Ciência.
1934 — Carnap publica A
Sintaxe Lógica da Lingua-
gem.
1935 — Publicação da Ló-
gica da Investigação, de Pop-
per.
1936 — Schlick é assassi-
nado por um estudante.
1970 — Morre Carnap.
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884
OS PENS
JADORES
“.. as pessoas ávidas de escândalo e agitação voltam-se para esta filosofia lo
existencialismo | , Que, a
aliás, nada lhes pode trazer nesse domínio; na realidade,
é a doutrina menos escandalosa e mais austera possivel); Flo é
estritamente destinada aos técnicos e aos filósofos.”
(Caffée Deux-Magots,
Paris, frequentado por Sartre nos anos após a Segunda Guerra Mundial, época de
grande difusão do existencialismo.) Pág. ant.: Sartre.
a vá Filosofia aparece a alguns
como um meio homogêneo: os
pensamentos nascem nele, mor-
rem nele, os sistemas nele se edificam
para nele desmoronar. Outros conside-
ram-na como certa atitude cuja adoção
estaria sempre ao alcance de nossa liber-
dade. Outros ainda, como um setor
determinado da cultura. À nosso ver, a
Filosofia não existe; sob qualquer forma
que a consideremos, esta sombra da
ciência, esta eminência parda da huma-
nidade não passa de uma abstração
hipostasiada.”
O texto acima constitui as linhas ini-
ciais do livro Questão de Método, escri-
to. pare adoxalmente, por um homem que
jamais deixou de fazer de todos os
momentos de sua vida uma permanente
reflexão sobre os problemas fundamen-
tais da existência humana.
Jean-Paul Sartre nasceu em Paris, no
886
(Keystone.)
dia 21 de junho de 1905. O pai faleceu
dois anos depois e a mãe, Anne-Marie
Schweitzer, mudou-se para Meudon, nos
arredores da capital, a fim de viver na
casa de Charles Schweitzer, avô materno
de Sartre. Sobre a morte do pai, escreve-
rá mais tarde: “Fo: um mal, um bem?
Não sei; mas subscrevo de bom grado o
veredicto de um eminente psicanalista:
não tenho Superego”.
Seja como for, talvez a ausência da
figura paterna em sua vida possa expli-
car por que Sartre se tornou um homem
radicalmente livre, tomada a expressão
no sentido que ele lhe dará posterior-
mente: não existe uma natureza huma-
na, é o próprio homem, numa escolha
livre porém “situada”, quem determina
sua própria existência.
Outro traço marcante na formação
de Sartre foi a imaginação criativa, ali-
mentada pela leitura precoce e intensi-
O
SARTRE
“O homem é antes de mais nada um
projeto que se vive subjetivamente,
em vez de ser um creme, qualquer
coisa podre ou uma couve-flor .. .o
homem será antes de mais nada o que
(Sartre.)
tiver projetado ser”.
va: “... por ter descoberto o mundo
através da linguagem, tomei durante
muito tempo a linguagem pelo mundo.
Existir era possuir uma marca regis-
trada, alguma porta nas tábuas infinitas
do Verbo: escrever era gravar nela seres
novos — foi a minha mais tenaz ilusão —,
colher as coisas vivas nas armadilhas
das frases...” Como consequência, aos
dez anos de idade quis tornar-se escritor
e ganhou uma máquina de escrever.
Seria seu instrumento de trabalho por
toda a vida.
Em 1924. aos dezenove anos de idade,
Sartre ingressou no curso de filosofia da
Escola Normal Superior. onde não foi
aluno brilhante. mas muito interessado,
especialmente pelas aulas de Alain
(1868-1951). que dedicava atenção par-
ticular à discussão do problema da
liberdade. Na Escola Normal, Sartre
conheceu Simone de Beauvoir
CULVER PICTURES INC
(1908- ), “uma moça bem comporta-
da” que lhe afirmou: “A partir de agora,
eu tomo conta de você”. Desde então,
nunca mais se separaram.
Terminado o curso de filosofia. em
1928, Sartre teve de prestar o serviço
militar e o fez em Tours, na função de
meteorologista. Depois disso obteve
uma cadeira de filosofia numa escola
secundária do Havre, cidade portuária.
Nessa época escreveu um romance. À
Lenda da Verdade, recusado pelos edito-
res. Em 1933, passou um ano em Ber-
lim, estudando a fenomenologia de Ed-
mond Husserl (1859-1938). as teorias
existencialistas de Heidegger e Karl
Jaspers (1883-1969) e a filosofia de
Max Scheller (1874-1928). A partir
desses autores, Sartre foi levado à obras
de Kierkegaard (1813-1855). A partir
dessas referências principais. Sartre ela-
borou sua própria versão da filosofia
existencialista.
Na Alemanha. Sartre iniciou a reda-
cão de Melancolia, romance mais tarde
concluído e intitutaldo 4 Náusea. De
volta à França. publicou. em 1936. 4
Imaginação e A Transcendência do Ego,
trabalhos marcados por forte influência
da fenomenologia. Em 1938, foi editada
A Náusea. Um ano depois, uma coletã-
nea de contos. O Muro, e o ensaio Esbo-
co de uma Teoria das Emoções; em
1940, mais um ensaio. O Imaginário,
que. como o anterior, utilizava o método
fenomenológico.
Um homem engajado
Ao estourar a Segunda Guerra Mun-
dial. Sartre foi convocado para servir
como meteorologista na Lorena. Em
junho de 1940. caiu prisioneiro e foi
encerrado no campo de concentração de
Trier, Alemanha. Cerca “ue am ano mais
tarde, conseguiu escapar e, na prima-
vera de 1941, encontrou-se. em Paris.
com Simone de Beauvoir.
Em Paris, Sartre fundou o grupo
Socialismo e Liberdade, a fim de colabo-
rar com a Resistência. produzindo pau-
fletos clandestinos contra a ocupação
alemã e contra os colaboracionistas
franceses. Em março de 1943. encenou
sua primeira peça teatral, intitulada Às
Moscas, uma lenda grega, segundo o
887
OS PENSADORES
Unamuno é também representante da
“filosofia da existência”. (Tela de D. V.
Diaz; Museus Provinciais
Espanhóis.) Gide defendeu a liberdade
humana enquanto “ato gratuito”. (Tela
de J. E. Blanche, Museu de Rudo.)
888
programa. Na verdade, todos os elemen-
tos da peça funcionavam simbolica-
mente: o reino de Agamenão era a Fran-
ca ocupada; Egisto, o comando alemão
que depusera as autoridades francesas;
Clitemnestra, os colaboracionistas; a
praga das moscas, o medo de setores
cada vez mais amplos da população; o
gesto final de Orestes, eliminando a
praga das moscas, era uma exortação à
luta contra os alemães.
No mesmo ano, Sartre publicou um
volumoso ensaio filosófico, iniciado em
1939: O Ser e o Nada, obra fundamental
da teoria existencialista. Em 1945, uma
nova peça teatral, Entre Quatro Paredes,
põe em cena personagens que vivem os
dramas existenciais abordados por Sar-
tre nas obras teóricas. Os romances que
escreveu na mesma época fazem o
mesmo: 4 Idade da Razão, Sursis, Com
a Morte na Alma.
Terminada a Segunda Guerra Mun-
dial, em 1945, Sartre dissolveu o movi-
mento Socialismo e Liberdade, por
corresponder apenas a uma necessidade
da resistência, ce fundou a revista Os
Tempos Modernos, juntamente com
Merleau-Ponty (1908-1961), Raymond
Aron (1905- ) e outros intelectuais.
Na revista apareceram os trabalhos
mais diversos, colocando e analisando
os principais problemas da época, sem
qualquer espírito sectário.
Em 1946, diante das críticas à sua
filosofia existencialista, exposta em O
Ser e o Nada, Sartre publica O Existen-
cialismo é um Humanismo, onde mostra
o significado ético do existencialismo.
No mesmo ano, publica também duas
pecas, Mortos sem Sepultura e 4 Prosti-
tuta Respeitosa e o ensaio Reflexões
sobre a Questão Judaica, onde defende a
tese de que a emancipação dos judeus só
será possível numa sociedade sem clas-
ses. Em 1948, encena 4s Mãos Sugjas e,
três anos depois, O Diabo e o Bom Deus.
No plano da ação política, essa época
marca a aproximação de Sartre do Par-
tido Comunista, ao qual acaba por
filiar-se, em 1952. A intervenção sovié-
tica na Hungria, em 1956, leva-o,
porém, a romper com o partido e escre-
ver um artigo, O Fantasma de Stálin, no
qual explica sua posição, em face dos
SARTRE
desvios do espírito do marxismo por
parte das autoridades soviéticas.
Nos anos seguintes, Sartre conti-
nuaria sendo, ao mesmo tempo, um
homem de ação e de pensamento. Em
1960, publica um extenso trabalho, a
Crítica da Razão Dialética, precedido
pelo ensaio Questão de Método, nos
quais se encontram reflexões no sentido
de unir o existencialismo e o marxismo.
A obra literária também não cessa e no
mesmo ano é estreada a peça Segues-
trados de Altona, cujo tema é o pro-
blema do Rolonia ano francês na Argé-
lia. embora a ação transcorra na
Alemanha nazista. O interesse pelo pro-
blema argelino liga-se, em Sartre, aos
problemas mais gerais do Terceiro
Mundo. Vi iaja para Cuba e para o Brasil
(1961) e vê no conflito vietnamita um
alargamento “do campo do possível” por
parte dos revolucionários vietcongs.
Em 1964, surpreende seus admira-
dores com As Palavras, análise do signi-
ficado psicológico e existencial de sua
infância. No mesmo ano é-lhe atribuído
o Prêmio Nobel de Literatura, mas ele o
recusa. Receber a honraria significaria
reconhecer a autoridade dos juízes, o
que considera inadmissível concessão.
A carreira literária de Sartre parecia
a muitos ter-se encerrado com As Pala-
vras. Em 1971, porém. Sartre sur-
preende de novo seu público. com a pri-
meira parte de um extenso estudo sobre
Flaubert, L'Idiot de Famille.
KEYSTONE
O ser e o nada
Do ponto de vista estritamente filosó-
fico, o itinerário do pensamento de Sar-
tre inicia-se com 4 Transcendência do
Ego, À Imaginação, Esboço de uma Teo-
º ria das Emoçõese O Imaginário, publica-
E dos entre 1936 e 1940. Neles encon-
Z tram-se aplicações do método
& fenomenológico de Husserl, ao mesmo
5 tempo que o autor se afasta do mestre e
” chega a criticar algumas de suas posi-
Albert Camus (em cima) e André ções. Mas a obra na qual se encontra a
Malraux (embaixo) durante muito filosofia existencialista que celebrizou
tempo caminharam juntos na defesa dos Sartre é O Sere o Nada.
mesmos ideais de liberdade de Sartre. O Ser e o Nada subintitula-se ensaio
Divergências políticas posteriores de ontologia fenomenológica, o que
acabaram por separar os três amigos. desde o início define a perspectiva meto-
889
OS PENSADORES
RE
aa EPE e usa
“Não cesso de me criar; sou o doador e a doação. Se meu pai ao eu
conheceria meus direitos e meus deveres; ele está morto e eu os ignoro: não
tenho direitos, pois o amor me cumula; não tenho dever,
»
ois dou por amor.
Sartre e Simone de Beauvoir, em 1963, recebendo um prêmio romano por seus
escritos. Eles se conheceram ainda estudantes e jamais se separaram.
dológica adotada pelo autor. A aborda-
gem proposta pretende não confundir o
objetivo do livro com as metafiísicas
tradicionais. Estas sempre contrastaram
ser e aparência, essências subjacentes à
realidade e fenômenos, o que estaria
atrás das coisas e as próprias coisas,
como suas manifestações. A ontologia
fenomenológica superaria essa duali-
dade pela descrição do ser como aquilo
que se dá imediatamente, ou seja, não
propondo explicar a experiência huma-
na por referência a uma realidade extra-
fenomenal. Nesse sentido, a ontologia
fenomenológica seria idêntica a outras
espécies de descrições fenomenológicas,
como as que o próprio Sartre realizou
com relação às emoções e ao imaginário.
Para Sartre, o dualismo de ser e parecer
não tem as “direito de cidadania na
filosofia”. O ser de um existente qual-
quer seria precisamente aquilo que
890
parece e não existiria outra realidade
fora do fenômeno: “O fenômeno pode ser
estudado e descrito enquanto tal, pois
ele é absolutamente
mesmo”. Isso não quer dizer que o fenô-
meno não seja verdadeiramente um ser.
Para Sartre, o ser do fenômeno é posto
pela própria consciência e esta tem como
caráter essencial a intencionalidade. Em
outros termos, a consciência visa a um
objeto transcendente, implicando, por-
tanto, a existência de um ser não-cons-
ciente. Poder-se-ia então concluir que
existem dois tipos de ser: o ser-para-si
(consciência) e o ser-em-si (fenômeno).
indicativo de si
FABBRI
Do ser-em-si somente se pode dizer
que ele “é aquilo que é”. Isso significa
que o “ser-em-si & opaco para si
mesmo”, nem ativo nem passivo, sem
qualquer relação fora de si, não deri-
vado de nada, nem de outro ser: o ser-
em-si simplesmente é. Daí o caráter de
SARTRE
absurdo que o ser-em-si carrega como
sua determinação fundamental. A densi-
dade opaca, o absurdo do ser-em-si
provocariam no homem o mal-estar, que
Sartre denomina náusea.
Para Sartre, o ser-para-si, a consciên-
cia, é radicalmente diferente, definindo-
se “como sendo aquilo que não é e não
sendo aquilo que ele é”. Enquanto o ser-
em-si é inteiramente preenchido por si
mesmo e sem nenhum vazio, a cons-
ciência é constituida por uma descom-
pressão do ser. À consciência é presença
para si mesma, o que supõe que uma fis-
sura se instala dentro do ser. Essa fissu-
ra, ou descolamento, é a marca do nada
no interior da consciência. O nada é um
“buraco” mediante o qual se constitui o
ser-para-si, e o fundamento do nada é o
próprio homem: “mediante o homem é
que o nada irrompe no mundo”
O ser-para-si conteria, portanto, uma
abertura e seria precisamente essa aber-
tura a responsável pela faculdade do
para-si no sentido de sempre poder
ultrapassar seus próprios limites. En-
quanto o ser-em-si permaneceria fecha-
do dentro de suas próprias fronteiras, o
ser-para-si ultrapassar-se-ia perpetua-
mente e esse poder de transcendência
seria expresso através das formas do
tempo. Em outros termos, o ser-para-si
seria um ser para o futuro, seria espon-
taneidade criadora.
Segundo Sartre, o tempo é também
expressão de mistura entre o em-si e o
para-si e essa mistura constitui a exis-
tência humana. Dentro dessa perspec-
tiva, o passado não existe, a não ser
enquanto ligado ao presente; todo indi-
viíduo pode afirmar: eu sou meu passado
e no momento de minha morte não serei
mais do que o meu passado que, agora, é
meu presente. O passado, pensa Sartre, é
a marca do em-si. Enquanto o homem é
consciente de si mesmo, no presente, ele
vive segundo o modo do para-si; contu-
do, o seu passado tem todas as caracte-
rísticas do em-si: Da mesma forma como
FARABOLA
o corpo humano das sereias termina em “Comecei minha vida como hei de
cauda de peixe, a existência humana acabá-la, sem dúvida: no meio dos
constitui-se, sobretudo, pela esponta- livros.” Agraciado com o Prêmio Nobel
neidade da consciência, mas encontra de Literatura, em 1964, Sartre, contudo,
atrás de si um ser que tem toda a fixidez o recusou. (Entrevistado
de uma coisa qualquer do mundo. sobre a recusa, explica suas razões.)
891
E
=== TE SD e E E E e É
OS PENSADORES
Apesar disso, afirma Sartre, não é
possivel ver na consciência algo distinto
do corpo. Este não é uma coisa que se
liga exteriormente à consciência; pelo
contrário, é constitutivo da própria
consciência. A consciência é, estrutural-
mente, intencional e, portanto, relação
com o mundo; o corpo exprime a imer-
são no mundo, característica da exis-
tência humana. O corpo é um centro, em
relação ao qual se ordenam as coisas do
mundo e, por isso, constitui uma estru-
tura permancate que torna: possivel a
consciência. Sartre vai mais longe em
sua interpretação, dizendo que o corpo é
a própria condição da liberdade. Não
existe liberdade sem escolha e o corpo é
precisamente a necessidade de que haja
escolha, isto é, de que o homem não seja
imediatamente a totalidade do ser. O
corpo é, por conseguinte, tanto a condi-
ção da consciência como consciência do
mundo, quanto fundamento da cons-
ciência enquanto liberdade.
O drama da liberdade
A teoria sartreana do ser-para-si con-
duz a uma teoria da liberdade. O ser-pa-
ra-si define-se como ação e a primeira
condição da ação é a liberdade. O que
está na base da existência humana é a
livre escolha que cada homem faz de si
mesmo e de sua maneira de ser. O em-si.
sendo simplesmente aquilo que é, não
pode ser livre. A liberdade provém do
nada que obriga o homem a fazer-se, em
lugar de apenas ser. Desse princípio
decorre a doutrina de Sartre, segundo a
qual o homem é inteiramente respon-
sável por aquilo que é; não tem sentido
as pessoas quererem atribuir suas falhas
a fatores externos, como a heredita-
riedade ou a ação do meio ambiente ou a
influência de outras pessoas. Por outro
lado, a autonomia da liberdade, en-
quanto determinação fundamental e ra-
dical do ser-para-si, vale dizer do
homem, faz da doutrina existencialista
uma filosofia que prescinde inteiramente
da idéia de Deus. Sartre tira todas as
consequências desse ateismo, elimi-
nando qualquer fundamento sobrena-
tural para os valores: é o homem que os
cria. À vida não tem sentido algum antes
c independentemente do fato de o homem
892
viver; o valor da vida é o sentido que
cada homem escolhe para si mesmo. Em
sintese, o existencialismo sartreano é
uma radical forma de humanismo, supri-
mindo a necessidade de Deus e colo-
cando o próprio homem como criador de
todos os valores.
Ao lado das análises volumosas e
rigorosamente técnicas de O Ser e o
Nada, nas quais se encontra exposta a
filosofia existencialista, Sartre expres-
sou seu pensamento através de várias
obras literárias, que o colocam como um
dos maiores escritores do século XX.
Nelas encontram-se todos os temas
fundamentais de sua concepção do
homem, realizados no Plano concreto
das personagens, suas ações e suas
situações existenciais.
Antoine Roquentin, personagem prin-
cipal de A Náusea (1938), vive sozinho,
sem amigos, sem amante, nada lhe
importando, nem os outros homens, nem
ele mesmo; o mundo para ele não tem
nenhuma razão de ser e é absurdo por-
que composto de seres em-si: a cidade, o
jardim, as árvores.
Pablo Ibietta, republicano espanhol,
personagem central de O Muro, vive
uma das “situações-lmite” descritas
por Sartre: momentos de intensificação
de conflitos sociais e individuais, quan-
do o homem é obrigado a fazer uma
escolha e afirmar sua liberdade radical.
Pablo Ibietta, preso e torturado pelos
fascistas de Franco, vê postas à prova as
virtudes da coragem, fidelidade e san-
gue-frio. O próprio Sartre viveu uma
dessas “situações-limite”, quando preso
num campo de concentração nazista, em
1940, do qual conseguiu fugir, fazendo
sua escolha: participar da resistência ao
invasor alemão.
O problema da ação e da liberdade
constitui o tema da trilogia de romances
Os Caminhos da Liberdade. No primeiro
da série, 4 Idade da Razão (1945), as
questões individuais predominam, a his-
tória e a política são panos de fundo.
Mathieu Delorme, jovem professor de
filosofia, procura a liberdade pura, sem
compromisso de qualquer especie: Bru-
net, ao contrário, personifica a renúncia
da liberdade pessoal em favor do engaja-
mento político; Daniel ilustra a tese
gideana da liberdade como ato gratuito,
SARTRE
sem qualquer motivo; Jacques abandona
os sonhos juvenis de liberdade para
casar-se, ter um trabalho, viver uma
vida “regular”. No segundo volume da
trilogia, Sursis (1945), os aconteci-
mentos políticos revelam que os projetos
de vida individuais são, na verdade.
determinados pelo curso da história.
tornando-se ilusória a busca da liber-
dade num plano puramente pessoal: a
liberdade é sempre vivida “em situação”
e realizada no engajamento de projetos
voltados para interesses humanos comu-
nitários. Apenas um compromisso com a
história pode dar sentido à existência
individual. Em Com a Morte na Alma
(1949), último romance da trilogia,
Mathieu ilustra a tese do engajamento
gratuito: ele arrisca a própria vida ape-
nas para retardar algumas horas a
investida das tropas alemãs.
Outras obras literárias de Sartre ilus-
tram as teses existencialistas. Canoris.
personagem da peça Mortos sem Sepul-
tura (1946), é um homem de ação, pron-
to para enfrentar a morte pela causa da
liberdade. Hugo, nas Mãos Sujas
(1948), é um intelectual da classe
média, engajado no Partido Comunista,
não por convicção mas para satisfazer
sua necessidade de ação. Na peça O
PARTI COMMUNISTE FRANÇAIS
ALGÉRIE..
FABBR)
Pierre Trotignon: “Sartre nos fez
livres, no momento em que outros nos
faziam escravos”. (O filósofo
participando de manifestação
pró-Argélia e cartaz pela pacificação.)
893
OS PENSADORES
“O quietismo é a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo
que eu não posso fazer. A doutrina que vos apresento é justamente a oposta ao
uletismo, visto que ela declara: só há realidade na ação.” Unindo a teoria a
prática, Sartre participou ativamente da insurreição estudantil ocorrida em maio de
1968, em Paris, e que ameaçou seriamente as autoridades francesas.
Diabo e o Bom Deus (1951), Goetz é um
nobre da Idade Média que abandona
seus privilégios para fazer o bem aos
camponeses. Inspirados nesse exemplo,
os camponeses rebelam-se contra todos
os senhores feudais e empregam a
violência. Goetz acaba por concluir que,
para transformar o mundo, a violência,
às vezes, é necessária; é preciso “ter as
mãos sujas”, para combater a opressão;
o Bem abstrato e sobrenatural nada con-
segue realizar, só o próprio homem é
criador de sua liberdade.
Existencialismo e marxismo
O homem enquanto ser-em-situação, a
necessidade de engajamento, a responsa-
bilidade pessoal por todas as ações e
projetos de vida e, sobretudo, a liber-
dade como raiz fundamental da pessoa
humana são as coordenadas do pensa-
mento existencialista de Sartre. As
obras puramente teóricas expõem seus
894
fundamentos filosóficos, ec o teatro, o
romance e o conto revelam concreta-
mente essas idéias. Por outro lado, a
própria vida do autor, principalmente
depois de 1940, quando passou a parti-
cipar ativamente dos acontecimentos
políticos de seu tempo, também é teste-
munho de suas teses.
As posições filosóficas iniciais de Sar-
tre sofreram transformações, à medida
que o filósofo buscou inserir o existen-
cialismo numa concepção mais ampla.
Essas transformações derivaram, por um
lado, do próprio existencialismo sar-
treano, que constitui uma filosofia
“aberta”, e, por outro, do engajamento
social e político do filósofo. Do ponto de
vista da fundamentação teórica, essa
nova concepção de Sartre encontra-se
em Questão de Método e Crítica da
Razão Dialética, publicadas em 1960.
Nessas obras, o problema funda-
mental colocado pelo autor é saber se é
possível constituir uma antropologia ao
FABBhH
SARTRE
mesmo tempo estrutural e histórica Em
outros termos, o objetivo visado por Sar-
tre é saber se há possibilidade de se
reencontrar uma compreensão unitária
do homem, para além das várias teorias.
das várias técnicas, das várias ciências
que o investigam. Sartre, contudo, não
pretende inventar esse novo saber do
homem. Não se trata de opor à tradição
uma nova filosofia, capaz de fornecer
soluções para os problemas que as anti-
gas doutrinas sobre o homem não conse-
guiram resolver. Esse novo saber Já
existe — segundo Sartre — e circula
anonimamente entre os homens: o mar-
xismo. O marxismo, para Sartre, é a
filosofia insuperável do século XX, “é o
clima de nossas idéias, o meio no qual
estas se nutrem... a totalização do
saber contemporâneo”, porque reflete a
praxis que a engendrou. Na mesma linha
de idéias, Sartre afirma que, depois da
morte do pensamento burguês, o mar-
xismo é, por si só, “a cultura, pois é O
único que permite compreender as
obras, os homens e os acontecimentos”.
Sartre, contudo, não quer se referir ao
marxismo oficial, tampouco pretende
revisar ou superar as obras de Marx.
pois para ele o marxismo supera-se a si
mesmo, sendo uma filosofia que, por
conta própria, se adapta às transforma-
ções sociais. Por outro lado, também
não pretende voltar ao materialismo dia-
lético puro e simples, pois este — pensa
Sartre — não conseguiu dar conta das
ciências, que permanecem ainda no está-
gio positivista. Também não se trata do
materialismo histórico exclusivamente.
Separar o materialismo dialético do
materialismo histórico constituiria uma
divisão artificial dos domínios do saber
e contrariaria o espírito do marxismo.
que pretende ser um projeto de totaliza-
ção do conhecimento.
Dentro da concepção sartreana de que
o marxismo constitui a “filosofia de
nosso tempo”, o existencialismo é conce-
bido como “um território encravado no
próprio marxismo” que, ao mesmo
tempo, o engendra e o recusa. O mar-
xismo de Sartre é, assim, um marxismo
existencialista, dentro do qual o existen-
cialismo seria apenas uma ideologia.
Um segundo aspecto de sua doutrina
consistiria no modo pelo qual Sartre
.
Na revolta estudantil de 1968, Sartre
vislumbrou a possibilidade da
imaginação ascender ao poder.
Cartazes dos insurretos: “O poder
para o povo” e “Iremos até o fim
Rd
895
FABBRI
FABBRI
OS PENSADORES
procura resolver o problema das rela-
ções materiais de produção, através do
projeto existencial. O que não significa
que se trate de um existencialismo tingi-
do de marxismo, posto que o existencia-
lismo esteja “encravado” no marxismo.
Significa antes que, se o saber é marxis-
ta. sua linguagem pode ser a linguagem
do existencialismo. Ao afirmar que o
marxismo “é a filosofia insuperável de
nosso tempo”, Sartre não faz dela uma
filosofia eterna. À rigor — afirma —, o
marxismo deverá ser superado quando
existir “para todos uma margem de
liberdade real além da produção da
vida”. Pode-se imaginar, no futuro, num
universo de abundância, uma filosofia
que seja apenas uma filosofia da liber-
dade; mas a experiência atual não per-
mite sequer imaginá-la.
1905 — Jean-Paul Sartre
nasce em Paris, a 21 de
junho.
1907 — Morte de seu pai.
Muda-se para a casa do avô
materno, em Meudon.
1911 — Retorna a Paris.
1917 — Em novembro, os
revolucionários comunistas
conquistam o poder na Rús-
sia.
1918 — Proclamação da
República austriaca e da
polonesa.
1919 — Fundação do Parti-
do Nacional-Socialista na
Alemanha. É criada, em Pa-
ris, a Liga das Nações.
1922 — Morre o papa Be-
nedito XV. A Câmara dos
Deputados italianos conce-
de plenos poderes ao gover-
CRONOLOGIA
no Mussolini. A Rússia as-
sume a denominação de
União das Repúblicas So-
cialistas Soviéticas. Sir Fre-
derick Benting descobre a
insulina.
1924 — Sartre matricula-se
na Escola Normal Superior,
em Paris. Conhece Simone
de Beauvoir. Einthoven re-
cebe o Prêmio Nobel de Me-
dicina pela invenção do ele-
trocardiógrafo.
1931 Sartre é nomeado
professor de filosofia no Ha-
vre.
1936 — Publica A Imagi-
nação e A Transcendência
do Ego.
1938 — Sartre publica A
Náusea.
1940 — Servindo na guerra,
BIBLIOGRAFIA
é feito prisioneiro pelos ale-
maes e enviado a um campo
de concentração.
[941 — Liberto, volta à
França e entra para a Resis-
tência. Funda o movimento
Socialismo e Liberdade.
1943 — Publica O Ser co
Nada.
1952 — Sartre ingressa no
Partido Comunista.
1953 — Morre Stálin.
1956 — Sartre rompe com
o Partido Comunista. Escre-
ve O Fantasma de Stálin.
1960 — Publica a Critica
da Razão Dialética.
1964 — Publica As Pala-
vras. Recusa o Prêmio No-
bel de Literatura.
1971 — Publica LIdiot de
Famille.
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WERNER, €.: La Philosophie Moderne, Payot, Paris, 1954.
896
OS PENSADORES
artn Heidegger, filósofo ale-
mão, nasceu em Messkirch
(Grão-ducado de Baden), a 26 de
“setembro de 1889. Sua formação filosó-
fica foi adquirida na Universidade de
Freiburg-im-Breisgau, onde estudou
com Edmond Husserl (1859-1938),
criador do método fenomenológico, e
com Heinrich Rickert (1863-1936), cul-
turalista neokantiano que se preocupava
com a fundamentação metodológica da
história.
Doutorando-se em 1914, Heidegger
publicou, nesse mesmo ano, um pequeno
trabalho intitulado A Teoria do Juízo no
Psicologismo — Contribuição Crítico-
Positiva à Lógica. Dois anos depois,
habilitou-se para o magistério na Uni-
versidade de Freiburg, com uma aula
sobre O Conceito de Tempo nas Ciências
Históricas e publicou 4 Doutrina das
Categorias e da Significação em Duns
Scot. Em todos esses trabalhos, transpa-
rece a influência do método fenomeno-
lógico de Edmond Husserl.
Em 1923, Heidegger assumiu uma
das cátedras de filosofia da Universi-
dade de Marburg e começou a projetar-
se entre os especialistas, através de
interpretações muito pessoais dos pen-
sadores pré-socráticos, como Heráclito
de Éfeso (séc. VI a.C.) e Parmênides de
Eléia (séc. VIa. G.).
Em 1927, publicou seu maior e mais
conhecido trabalho (embora inacabado),
intitulado Ser e Tempo. Essa obra proje-
tou-o de imediato como o mais famoso
representante da filosofia existencia-
lista, qualificação que ele mais tarde
repudiou.
Em 1928, retornou à Universidade de
Freiburg, sucedendo na cátedra ao anti-
go mestre Husserl. Em 1929, publicou
diversas obras: Que é a Metafísica?
(lição inaugural na cátedra de Frei-
burg), Kant e o Problema da Metafísica
e Sobre a Essência do Fundamento.
Em 1933, ano da ascensão de Adolf
Hitler ao cargo de chanceler da Alema-
nha, Heidegger ligou-se ao Partido
Nacional-Socialista e foi elevado ao
cargo de reitor da Universidade de Frei-
Na página anterior: retrato de
Martin Heidegger. (Foto Fabbri.)
898
burg. No discurso de posse — A Auto-
Afirmação da Universidade Alemã — deu
boas-vindas ao advento do nazismo,
expressando suas esperanças numa
“completa revolução da existência ger-
mânica”. Sua passagem pela reitoria
durou apenas quatro meses, durante os
quais — diz Alasdair Maclntyre, um de
seus intérpretes — não só aplaudiu, como
participou da destruição da liberdade
acadêmica e repudiou seu antigo mestre
Husserl, que era judeu.
Retornando ao magistério, Heidegger
publicou, em 1936, Hólderlin e a Essên-
cia da Poesia e, em 1943, Sobre a Essên-
cia da Verdade. Antes do término da
Segunda Guerra Mundial, passou a viver
quase totalmente isolado em sua casa
nas montanhas da Floresta Negra. De lá
pouco saiu, depois de aposentado como
professor emérito da Universidade de
Freiburg em 1952, comunicando-se ape-
nas com um restrito circulo de amigos e
discípulos. Em 1947, publicou 4 Dou-
trinã Platônica da Verdade, obra à qual
se seguiram, entre outras: Sobre o
Humanismo (1949), O Atalho, (cole-
tânea de diversos trabalhos), O Caminho
do Campo (1953), Introdução à Metafi-
sica (1953), Que Significa Pensar
(1954), Sobre a Experiência do Pensar
(1954), Exposições e Notas (1954), Que
é Isto — A Filosofia? (1956), Sobre a
Questão do Ser (1956), Identidade e
Diferença (1957), O Princípio do Funda-
mento (1957), Serenidade (1959), Pelos
Caminhos da Linguagem (1959), A
Questão da Coisa (1962) e A Tese Kan-
tiana sobre o Ser (1962).
A existência mautêntica
Em várias dessas obras, reaparecem
claramente expressões do espírito nacio-
nalista, manifestadas desde 1933, época
de ascensão do nazismo ao poder. Na
Introdução à Metafísica (1953), por
exemplo, Heidegger convoca o povo ale-
mão, que ele acredita estar esmagado
entre duas gigantescas sociedades de
massa — União Soviética e Estados Uni-
dos —, a recriar o grande “começo” do
pensamento ocidental. Em outros textos,
Heidegger afirma que filosofar só é pos-
sível em grego e alemão.
HEIDEGGER
4
se
i
|
1
t
A
E
Vista geral de Freiburg-im-Breisgau, em cuja universidade Heidegger fez toda
sua carreira, desde os tempos de estudante até sua aposentadoria, em 1952.
A Universidade de Freiburg também é conhecida pelos especialistas em
filosofia porque nela lecionou Husserl, o criador da fenomenologia. Na obra
de Husserl encontram-se os fundamentos metodológicos do existencialismo.
.
Sem se considerarem as primeiras
obras escritas por Heidegger — simples
teses acadêmicas sobre a teoria do juizo,
o conceito de tempo na história e a filo-
sofia de Duns Scot —, seu pensamento
inicia-se através de Ser e Tempo, onde
coloca como problema filosófico funda-
mental o problema do ser, seu sentido,
sua verdade.
A abordagem do problema do ser,
contudo, não é feita por Heidegger como
sempre o fora pela metafísica tradicio-
nal. A metafísica grega — pensa Heideg-
ger — colocou corretamente a temática
do ser e ensaiou respostas, lançando as
sementes para a solução do problema.
No entanto, o signiticado autêntico e as
conquistas profundas dessas primeiras
especulações teriam sido alterados, pos-
teriormente, por razões diversas. Os
principais responsáveis pela degenera-
ção da problemática essencial da filoso-
fia seriam os teólogos escolásticos, que
teriam trivializado a ontologia, pas-
sando a trabalhar com um conceito de
ser vazio e abstrato, dentro dos quadros
899
| - ' ; = É
FABBHI
OS PENSADORES
Considerado, em geral, um filósofo
existencialista, Heidegger repudiou
essa classificação. (Heidegger, alguns
anos depois da publicação de Ser e
Tempo; Biblioteca Alemã, Milão.)
de abordagem sobre a lógica formal.
Em Ser e Tempo, Heidegger aborda o
problema do ser, ernpregando o método
fenomenológico, formulado por seu mes-
tre Edmond Husserl. A fenomenologia
pretende abordar os objetos do conheci-
mento tais como aparecem, isto é, tais
como se apresentam imediatamente à
consciência. Isso implicaria, portanto,
deixar de lado, “colocar entre parênte-
ses” como dizia Husserl — toda e
qualquer pressuposição sobre a natu-
reza desses objetos. Heidegger acha que
as pressuposições, formadas por séculos
de metafísica, distanciaram a filosofia
do verdadeiro conhecimento do ser.
Aplicado ao problema do ser, o méto-
do fenomenológico utilizado por Hei-
degger leva-o a colocar como ponto de
partida de sua reflexão aquele ser que se
dá a conhecer imediatamente, ou seja, O
próprio homem. O caminho que leva ao
ser — pensa Heidegger — passa pelo
homem, na medida em que este está
sozinho para interrogar-se sobre si
mesmo, colocar-se em questão e refletir
900
FABBRI
sobre seu próprio ser. O filósofo deve,
portanto, partir da existência humana
(na linguagem heideggeriana, dasein:
“ser-ar), tal como se dá imediatamente
à consciência, a fim de elevar-se até o
desvendamento do ser em si mesmo, últi-
mo objetivo de toda reflexão filosófica
Nesse propósito, Heidegger distingue-se
dos pensadores existencialistas, para os
quais a reflexão filosófica restringe-se
aos limites do próprio homem e exaure-
se dentro de suas fronteiras. Heidegger
recusou, repetidamente, ser incluído
entre os filósofos existencialistas.
Concebida apenas como via de acesso
para a descoberta do ser, a análise da
existência humana constitui o conteúdo
da primeira parte (a única publicada) de
Ser e Tempo. A primeira seção dessa
parte | é dedicada à descrição da vida
cotidiana do homem, considerada pelo
autor como forma de existência inautên-
tica. Esta seria constituida por três
aspectos fundamentais: a facticidade, a
existencialidade e a ruína.
A facticidade consistiria no fato de o
homem estar Jogado no mundo, sem que
sua vontade tenha participado disso.
Para Heidegger, mundo não significa o
universo físico dos astrônomos, mas o
conjunto de condições geográficas, his-
tóricas, sociais e econômicas, em que
cada pessoa está imersa.
A existencialidade ou transcendência
— na terminologia heideggeriana — é
constituida pelos atos de apropriação
das coisas do mundo, por parte de cada
indivíduo. O termo “existencialidade”
não é empregado no mesmo sentido em
que se diz que uma pedra ou a Lua
“existem”, mas designa a existência
interior e pessoal. Nesse sentido, o ser
humano existiria como antecipação de
suas próprias possibilidades; existiria
na frente de si mesmo e agarraria sua
situação como desafio ao seu próprio
poder de tornar-se o que deseja. Para
Heidegger, o ser humano está sempre
procurando algo além de si mesmo; seu
verdadeiro ser consiste em objetivar
aquilo que ainda não é. O homem seria,
assim, um ser que se projeta para fora de
s1 mesmo, mas jamais pode sair das
fronteiras do mundo em que se encontra
submerso. Trata-se de uma projeção no
mundo, do mundo e com o mundo, de tal
HEIDEGGER
Parte da obra de Martin Heidegger foi concebida e realizada no periodo da
história da Alemanha marcado pela ascensão, apogeu e queda do regime nazista.
O conhecimento das características econômicas, sociais e politicas desse
período permite uma compreensão mais completa do pensamento de Heidegger.
(Tela de Magnus Zeller: “O Estado Hitlerista”;
forma queoeueo mundo são totalmente
inseparáveis
O terceiro aspecto fundamental reve-
lado pela análise da existência humana
— a ruína — significa o desvio de cada
indivíduo de seu projeto essencial, em
favor das preocupações cotidianas, que
o distraem e perturbam. confundindo-o
com a massa coletiva. O eu mdividual
seria sacrificado ao persistente e opres-
sivo eles. O ser humano, em sua vida
cotidiana. seria promiscuamente público
e reduziria sua vida à vida com os outros
e para os outros. alienando-se total-
mente da principal tarefa que seria o tor-
nar-se s-mesmo.
Em suma, para Heidegger, a vida
cotidiana faz do homem um ser pregui-
Ccoso e cansado de st próprio, que. aco-
vardado diante das pressões sociais,
Markisches Museum, Berlim.)
acaba preferindo vegetar na banalidade
e no anonimato. pensando e vivendo por
meio de idéias e sentimentos acabados e
malteráveis. como ente exilado
mesmo e do ser
de si
O homem: um ser
para a morte
A análise da existência inautêntica —
realizada na primeira seção de Ser e
Tempo — constituir a parte negativa da
escalada para a descoberta heidegge-
riana do ser. Para encaminhar-se na
direção do ser seria necessário desven-
dar a existência autêntica do homem.
aquela que o faz o verdadeiro revelador
do ser. Esse é o cbjetivo da segunda
seção da obra, que tem seu Rúcico no
conceito de angústia.
901
ET TT
FABBRI
ES Ss SEJ asa
OS PENSADORES
A angústia — segundo Heidegger — é,
dentre todos os sentimentos e modos da
existência humana, aquele que pode
reconduzir o homem ao encontro de sua
totalidade como ser e Juntar os pedaços
a que é reduzido pela imersão na mono-
tonia e na indiferenciação da vida coti-
diana. A angústia faria o homem elevar-
se da traição cometida contra si mesmo,
quando se deixa dominar pelas mesqui-
nharias do dia-a-dia, até o autoconheci-
mento em sua dimensão mais profunda.
Ao contrário de todos os demais estados
de consciência, a angústia Jamais seria
provocada por qualquer coisa existente,
determinada ou determinável. Para Hei-
degger, o angustiado não somente igno-
ra a razão de seu estado de consciência
como também tem certeza de que coisa
alguma do mundo está implicada nesse
estado. Isso se comprovaria pelo fato de
que, na angústia, todas as coisas do
mundo aparecem bruscamente como
desprovidas de qualquer importância,
tornam-se despreziveis e dissolvem-se
em nulidade absoluta. O próprio angus-
tiado desapareceria de cena, na medida
em que seu cu habitual, composto pelas
preocupações, desejos e ambições coti-
dianos e vulgares, passa a ser conside-
rado como insignificante. A própria
dissolução do eu nas coisas do mundo e
nas trivialidades impede-o de localizar a
causa de sua angústia. O que ameaça o
angustiado — diz Heidegger — está em
tudo e em lugar algum, ao mesmo
tempo. Não se pode dizer que a angústia
se aproxima ou se distancia; ela é
onipresente. Por isso, envolve o homem
com um sentimento de estranheza radi-
cal. Todos os socorros e todas as prote-
ções são ineficazes para debelá-la; o
homem sente-se completamente perdido
e desvalido.
Não tendo coisa alguma do mundo
como causa, a angústia teria sua fonte
no mundo como um todo e em estado
puro. O mundo surge diante do homem,
aniguilando todas as coisas particulares
que o rodeiam e, portanto, apontando
para o nada. O homem sente-se, assim,
como um ser-para-a-morte.
A partir desse estado de angústia,
abre-se para o homem, segundo Heideg-
ger, uma alternativa: fugir de novo para
o esquecimento de sua dimensão mais
902
profunda, isto é, o ser, e retornar ao coti-
diano; ou superar a própria angústia.
manifestando seu poder de transcen-
dência sobre o mundo e sobre si mesmo.
Aqui surge um dos temas-chaves de Hei-
degger: o homem pode transcender, o
que significa dizer que o homem está
capacitado a atribuir um sentido ao ser.
O homem está naturalmente fora de si
mesmo, sobre o mundo, em relação dire-
ta com o mundo que ele produz e para o
qual ele se projeta incessantemente:
“Produzir diante de si mesmo o mundo é
para o homem projetar originariamente
suas próprias possibilidades”
Entretanto, nesse projetar-se sobre o
mundo, o homem não estaria sozinho.
Ele é um ser-com, um ser-em-comum e
isso se manifesta sobretudo no trabalho,
mas ainda mais profundamente na soli-
cttude por outrem, fato que conduz ao
amor e à comunicação direta. É princi-
palmente em relação a si mesmo e a seu
próprio futuro que o homem não cessa
de transcender-se. O ser humano | Jamais
seria um ser acabado e nunca seria tudo
aquilo que pode ser; estaria sempre
diante de uma série infinita de possibili-
dades, sobre as quais se projeta. Estabe-
lecendo um estado de permanente tensão
entre aquilo que o homem é e aquilo que
virá a ser, essa projeção constituiria a
inquietação. A inquietação estrutura o
ser do homem dentro da temporalidade,
prendendo-o ao passado, mas, ao mesmo
tempo, lançando-o para o futuro. Assu-
mindo seu passado e, ao mesmo tempo,
seu projeto de ser, o homem afirma sua
presença no mundo. Ultrapassa então o
estágio da angústia e toma o destino nas
próprias mãos.
A temporalidade constitui, assim, a
dimensão fundamental da existência
humana, segundo Heidegger. E o filó-
sofo concluiu a segunda seção da pri-
meira parte de Ser e Tempo com a per-
gunta: haverá algum caminho que possa
levar do tempo existencial ao sentido do
ser? Em outros termos, o tempo se reve-
laria também como o horizonte do ser?
Que é o ser?
As questões colocadas no final da
parte publicada de Ser e Tempo deve-
riam ser respondidas noutras seções,
HEIDEGGER
planejadas por Heidegger para compor
uma obra inteira, que constituísse solu-
ção para O problema filosófico funda-
mental, proposto inicialmente: que é o
ser. qual seu sentido e sua verdade?
lissas seções, no entanto, jamais foram
publicadas, fato que tem levado seus
intérpretes a falar de um primeiro e de
um segundo Heidegger, bastante dife-
rentes entre si.
O próprio Heidegger recusou a inter-
pretação de que sua suposta segunda
fase tenha representado um abandono
das propostas contidas em Ser e Tempo.
Tratar-sea. antes. de uma reversão ou
conversão. de tal forma que. nas últimas
obras. não é a existência humana a porta
de entrada para o ser. mas é este mesmo
que torna possível a abertura para a
compreensão da existência humana.
Heidegger desloca-se, desse modo. da
problemática imediata da existência
humana. que o ocupou em Ser e Tempo,
e dirige todas as suas reflexões para o
próprio ser. O traço marcante dessas
reflexões ontológi 'as é constituído pela
penetração cada vez maior no universo
da linguagem, que passa a ser o hori-
zonte no qual se poderia divisar o ser. O
ser do “segundo” Heidegger é uma espé-
cie de iluminação da linguagem: não da
linguagem cienúfica, que constitul a
realidade como objeto, nem da lingua-
gem técnica, que modifica a realidade
para aproveitar-se dela. O ser “habita”
antes a linguagem poética e criadora. na
qual se pode “comemorá-lo”. isto é, lem-
brá-lo conjuntamente, a fim de não se
cair no esquecimento. Elevar-se até o ser
não seria, portanto, conhecê-lo pela aná-
lise metafísica, nem explicá-lo ou inter-
pretá-lo através da linguagem cientfica.
Seria “habitar” nele, através da poesia.
Por outro lado, o ser é — para Pe
— a“casa” que o homem pode habitar,
a “elareira” no meio de um pao
cujos caminhos não levam a parte algu-
ma. O ser pode aparecer e pode ocultar-
+ porém em caso algum é mera aparên-
cia: é presença permanente, o horizonte
luminoso, no qual todos os entes encon-
trariam sua verdade. Não é o conjunto
dos entes, nem um ente especial, é é o“ha-
bitar” de todos os entes.
Apesar de envolver o ser na linguagem
poética, o “segundo” Heidegger não dei-
Depois de aposentado de suas funções
como professor universitário, Martin
Redondo recolheu-se à solidão da
Floresta Negra. (Retrato do filósofo
e casa de campo na Floresta Negra.)
903
OS PENSADORES
xou inteiramente de lado a ontologia. É
possivel ver no pensamento e na lingua-
gem “comemorativos” do filósofo uma
ontologia, ainda que negativa, isto é,
que diz o que o ser não é. Nas últimas
obras escritas por Heidegger, o ser não é
apresentado como ente algum, nem o
principio dos entes, nem o fundo da rea-
lidade. Não é também algo inefável, pois
é aquilo que torna possível a linguagem,
sendo o responsável por o homem falar
sobre as coisas. Não sendo ente algum,
nem princípio dos entes, o ser, de certa
forma, identifica-se com o nada, mas,
apesar disso, ele é. O ser é um mistério,
no sentido de que não pode ser com-
preendido através de nenhum ente. O ser
do qual se fala é, até certo ponto, a pró-
pria realidade; não está oculto atrás dos
entes, sendo os próprios entes enquanto
presentes. Essa presença transcorreria
dentro da história e teria um destino,
que se confundiria com a história e o
destino do pensar essencial, enquanto
pensamento e linguagem ““comemorati-
vos”. O pensar essencial seria o pensar
que “joga” com o ser e se reflete nele,
1889 — Martin Heidegger
nasce em Messkirch, a 26 de
setembro.
1891 — É publicada a enct-
clica Rerum Novarum.
1907 — Lumiêre inventa a
fotografia em cores
1914 — Início da Primeira
Guerra Mundial. Heidegger
torna-se livre docente na
Universidade de Freiburg.
1918 — Término da Primei-
ra Guerra Mundial.
1919 — Rutherford realiza,
pela primeira vez, a desinte-
gração do átomo.
1923 — Heidegger torna-se
professor em Marburg.
CRONOLOGIA
1927 — Publica a primeira
parte de Ser e Tempo.
1928 — Torna-se professor
na Universidade de Frei-
burg. Trotsky é deportado
para a Sibéria.
1929 — Heidegger publica
Kant e o Problema da Meta-
física.
1933 — Heidegger torna-se
o primeiro reitor nacional-
socialista da Universidade
de Freiburg. Adolf Hitler é
eleito chanceler da Alema-
nha. Em Portugal, promul-
ga-se uma nova constituição
que estabiliza a ditadura
fascista de Salazar.
BIBLIOGRAFIA
fazendo-o, ao mesmo tempo, surgir.
1939 — Inicia-se a Segunda
Guerra Mundial. Morte do
papa Pio XI.
1945 — Fim da Segunda
Guerra Mundial. Em Ala-
mogordo, realiza-se a pri-
meira experiência com a
bomba atômica.
1949 — Mao Tsé-tung fun-
da a República Popular da
China.
1953 — Heidegger publica
a Introdução à Metafísica.
1956 — E editado Que é Is-
to — A Filosofia? de Hei-
degger.
1962 — Publica a Questão
da Coisa.
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904
O
O
E
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Q
OS PENSADORES
m tratos de Memória, o filósofo
Be rand Russell (1872-1970)
ec ta que, por volta de 1913, ti-
nha entre seus alunos da Universidade
de Cambridge um tão esquisito, a ponto
de, após todo um período letivo, o filóso-
fo não saber dizer se se tratava apenas
de um excêntrico ou de um homem de
gênio. Sua perplexidade aumentou ainda
mais quando foi procurado pelo estranho
aluno, que lhe fez uma asólita per-
gunta: “O senhor poderia fazer a fineza
de me dizer se sou ou não um completo
idiota?”. Russell respondeu que não sa-
bia e perguntou-lhe das razões de sua
dúvida. O aluno replicou: “Caso seja um
completo idiota, me dedicarei à aeronáu-
tica; caso contrário, tornar-me-ei filó-
sofo”. Russell não encontrou outra saida
para se desfazer da embaraçosa questão,
a não ser pedindo-lhe que escrevesse um
assunto filosófico qualquer, e depois lhe
mostrasse. Passado algum tempo, o
aluno retornou com o trabalho e o filó-
sofo, depois de ler apenas uma linha,
sentenciou: “Não, você não deve se tor-
nar um aeronauta”
A partir daí, Wittgenstein, o aluno ex-
cêntrico abandonou totalmente qualquer
preocupação com engenharia de aviões,
tornando-se não apenas mais um filósofo
entre outros, mas uma das principais fi-
guras da filosofia do século XX.
De inventor a filósofo
Ludwig Josef Johann Wittgenstein
nasceu em Viena, a 26 de abril de 1889.
Sua família havia emigrado da Saxônia
para a Áustria, e sua ascendência ju-
daica cessou com o avô paterno, que se
convertera ao protestantismo. Seu pai
era diretor de uma grande siderúrgica e
organizou o primeiro cartel do aço na in-
dústria austríaca. Sua mãe, filha de um
banqueiro vienense, era extremamente
devotada à música. Entre os frequenta-
dores da familia Wittgenstein, encontra-
va-se Johannes Brahms (1833-1897);
um de seus irmãos, Paul, tornou-se co-
nhecido pianista.
A educação de Wittgenstein, até os ca-
torze anos, processou-se totalmente em
Na página anterior: Fotografia de
Ludwig Wittgenstein (Foto Fabbri)
906
casa; era um estudante indiferente, mas
demonstrava grande interesse por enge-
nhos mecânicos, a ponto de construir
uma máquina de costura, que provocou
grande admiração. Seus pais resolve-
ram, então, enviá-lo a uma escola em
Linz, na região montanhosa da Áustria,
onde a ênfase era colocada no estudo da
matemática e da fisica, dando-se pouca
atenção à educação clássica. Após três
anos em Linz, Wittgenstein ingressou na
Escola Técnica Superior, em Charlotten-
burg, Berlim. Na primavera de 1908,
deixou essa escola, onde estudava enge-
nharia mecânica, e mudou-se para a In-
glaterra, registrando-se como estudante
de engenharia na Universidade de Man-
chester. Durante três anos, dedicou-se a
pesquisas aeronáuticas, tendo projetado
um motor acionado a jato e um propul-
sor. Seus interesses, porém, começaram
a afastar-se dessa área, orientando-se
para a matemática pura e, em seguida,
para os fundamentos da matemática.
Nessa época, Wittgenstein encontrou por
acaso os Princípios de Matemática, de
Bertrand Russell que lhe despertou
grande entusiasmo. Como resultado, de-
cidiu abandonar a engenharia e, em
1912, ingressou no Trinity College, a
fim de estudar com Russell. Sob sua
orientação, dedicou-se à lógica, reali-
zando progressos surpreendentes.
Em busca da pureza
Norman Malcolm, um dos principais
biógrafos e comentadores de Wittgens-
ten, conta que os anos de Cambridge, do
ponto de vista afetivo, foram marcados
pela intima amizade que o ligou a David
Pinsent, seu colega de estudos. A ligação
entre os dois envolvia outras afinidades
além da lógica. O interesse pela música
foi uma delas. Ambos possuiam um re-
pertório de mais de quarenta (ieder de
Schubert que Wittgenstein sabia asso-
biar, enquanto Pinsent acompanhava ao
piano. Além disso, faziam piqueniques
na Islândia e na Noruega, correndo as
despesas por conta de Wittgenstein. Em-
bora considerasse Wittgensten uma
companhia dificil, irritável e por vezes
deprimente, Pinsent dizia que, quando
alegre, ele se tornava encantador.
Um dos motivos principais de suas de-
WITTGENSTEIN
Na passagem dos séculos XIX e XX, Viena era uma das mais importantes cidades
da Europa e capital do Império Austro-Húngaro. Wittgenstein ali nasceu, filho
de uma família muito rica. Seus antepassados eram judeus alemães, mas desde
seu avô paterno a família se convertera ao protestantismo. (A foto mostra uma
rua do centro de Viena em 1910; Civica Raccolta Stampe Bertarelli, Milão.)
907
OS PENSADORES
Depois de concluir os estudos secundários na Áustria, Wittgenstein passou
a estudar mecánica em Berlim. Em 1908, com dezenove anos de idáde,
transferiu-se para Manchester, na Inglaterra, onde desenvolveu diversos
projetos ligados à aeronáutica; nessa época, a filosofia ainda não o
preocupava. (Wittgenstein em 1908; foto de propriedade do Prof. W. Mays.)
908
WITTGENSTEIN
pressões decorria de um sentimento de
proximidade da morte que viria a impe-
di-lo de aperfeiçoar suas idéias no ter-
reno da lógica. Durante muitos anos, an-
tes de ir para Cambridge, raros eram os
dias em que não pensava em suicídio.
Assim, ir para Carnbridge a fim de estu-
dar filosofia com Russell, adquiriu para
Wittgenstein o caráter de salvação.
Durante a primavera de 1913, inten-
samente envolvido por seu trabalho em
lógica, Wittgenstein submeteu-se a vá-
rias sessões de hipnose, tentando, com
esse recurso, obter respostas mais claras
e definidas acerca das questões lógicas
extremamente intrincadas com as quais
se defrontava. No decorrer desse pe-
riodo, correspondeu-se frequentemente
com Russell: suas cartas retratam um
Wittgenstein muito afetivo, entusias-
mado com suas descobertas lógicas,
mas, ao mesmo tempo, manifestam sua
convicção de que jamais poderia tor-
nar-se amigo de Russell, pois a seu ver,
os ideais diferentes dos dois filósofos
impediam uma verdadeira amizade.
Wittgenstem considerava possível a
amizade entre duas pessoas, desde que
ambas fossem “puras”. podendo, assim,
existir um relacionamento aberto entre
elas, sem causar a menor ofensa. Ele
mesmo, contudo, não se considerava um
puro, e escrevia para Russell: “Minha
vida está cheia dos mais odiosos e mes-
quinhos pensamentos (isso não é exa-
gero). Talvez você pense que seja uma
perda de tempo. para mim, pensar
acerca de mim mesmo; mas como posso
tornar-me um lógico se não sou sequer
um homem! Antes de mais nada, devo
tornar-me puro”
Quando eclodiu a Primeira Guerra
Mundial, Wittgenstein alistou-se na
exército austríaco como voluntário. Du-
rante os anos de caserna, trabalhou in-
tensamente, redigindo o Tratactus Logi-
co-Philosophicus, que viria a ser sua
obra mais conhecida. Em agosto de
1918, terminou-o e dois meses depois foi
aprisionado pelas tropas italianas. Re-
tornando à vida civil, publicou o Tratac-
tus, em 1921, nos Anais de Filosofia Na-
tural, dirigido por Wilhelm Ostwald
(1853-1932); no ano seguinte, veio à luz
a tradução inglesa com o título latino,
sob o qual a obra ficaria consagrada.
Por volta da mesma época, Wittgens-
ten doou toda sua fortuna pessoal a
duas irmãs. Em parte, isso foi devido ao
fato de que não queria ter amigos atrai-
dos .por seu dinheiro. Por outro lado, a
razão dessa atitude decorria de sua pre-
disposição para uma vida simples e fru-
gal e da idéia de que o dinheiro poderia
ser apenas uma amolação para o filó-
sofo. Em consequência, Wittgenstein, a
partir de 1920, passou a ser um simples
mestre-escola, lecionando para crianças
de 9 a 10 anos de idade. Em 1924, dois
anos antes de renunciar a seu cargo de
professor, elaborou um dicionário, com
cerca de seis mil palavras, para uso dos
alunos das escolas primárias das aldeias
austriacas. Esse pequeno livro foi publi-
cado em 1926.
Em 1923, Wittgenstein recebeu a vi-
sita de um jovem matemático de Cam-
bridge, Frank Ramsey, que estivera
ENE LRDR o Tratactus e ansiava por dis-
cuti-lo com o autor. Nessa época, o filó-
sofo continuava vivendo em extrema
simplicidade e declarou ao matemático
ue não pretendia realizar mais nada em
filosofia. pois sua mente “já não era
mais flexível”.
Em 1926, após abandonar o magisté-
rio, pensou em entrar para a vida monás-
tica, mas foi desencorajado pelo abade
do mosteiro no qual pretendia viver. No
verão do mesmo ano, trabalhou para os
monges de Hiitteldorf, na qualidade de
ajudante do Jardineiro. Depois de traba-
lhar no projeto de uma casa para sua
irmã e ter-se dedicado à escultura du
rante certo tempo, retornou a Cam-
bridge, em 1929, quando passou a dedi-
car-se novamente à filosofia. Não se sabe
ao certo o que foi que o levou a retomar
tal interesse. Em junho daquele ano, ob-
teve o doutoramento com o Tratactus.
Seus examinadores foram Russell e G.E.
Moore (1873-1958), a quem, aliás, é de-
vido o título latino da tradução inglesa
de 1922. Nessa época, publicou um
breve ensaio intitulado Algumas Obser-
vações sobre Forma Lógica que, junta-
mente com o Tratactus, constituiu a to-
talidade dos escritos filosóficos
publicados durante sua vida. Permane-
ceu em Cambridge até 1936, quando se
retirou para a Noruega, onde começou a
escrever as Investigações Filosóficas. No
909
OS PENSADORES
Em 1913, Wittgenstein herdou grande
fortuna, e criou um fundo de auxílio
a poetas. George Trakl, por quem
nutria grande admiração, foi um dos
beneficiados. (Arquivo Brenner.)
ano seguinte, retomou a Cambridge, e
dois anos depois sucedeu a Moore na ca-
deira de filosofia. Em 1941, durante a
Segunda Guerra Mundial, não querendo
permanecer como simples espectador,
Wittgenstein conseguiu trabalho no
Guy's Hospital; e, até 1943, desempe-
nhou as funções de simples porteiro. Foi
transferido então para Newcastle, traba-
lhando como simples ajudante no labo-
ratório de pesquisas clínicas, onde ficou
até a primavera de 1944. Três anos de-
pois, renunciou à sua cátedra de filoso-
fia: buscava isolamento e tranquilidade
para que pudesse terminar as Investiga-
ções. Na medida em que sua saúde per-
mitia. trabalhava com afinco na obra.
Depois de viver na Irlanda. durante al-
gum tempo. viajou para os Estados Uni-
dos. aí permanecendo três meses. após
os quais retomou à Inglaterra. Desco-
briu então que estava com câncer, mas
910
não se surpreendeu nem ficou deprimido,
declarando que isso não o chocava. pois
não queria continuar vivendo. Em 1950,
viajou para Viena. onde reencontrou a
familia e, no mesmo ano, morou durante
certo tempo com um amigo em Oxford.
No ano seguinte, mudou-se para a casa
de seu médico. em Cambridge, pois a
idéia de passar seus últimos dias em um
hospital causava-lhe aversão. Sabendo
da iminência da morte, dedicou-se inte-
gralmente a seu trabalho. Os escritos fi-
losóficos de então são da mais alta qua-
hdade.
A 27 de abril de 1951, sua enfermi-
dade agravou-se subitamente, e quando
o médico informou que seu fim chegara.
respondeu: “Otimo!”. Suas últimas pa-
lavras, antes de perder a consciência fo-
ram: “Diga-lhes que eu tive uma vida
maravilhosa”. Morreu dois dias depois.
A teoria da figuração
Além do Tratactus Logico-Philosophi-
cus e das Investigações Lógicas, Witt-
genstein deixou outras obras, das quais
as mais representativas são as Observa-
çõesFilosóficas,os Cadernos Azul e Mar-
rom, redigidos entre 1933 e 1935. e
Conferências e Discussões sobre Esté-
tica, Psicologia e Crença Religiosa, livro
constituído por uma série de notas reuni-
das por alguns de seus amigos, a partir
de conversas ocasionais e apontamentos
de aula.
O conjunto de sua obra é dividido,
los intérpretes, em duas fases bem dis-
tintas, de tal forma que se pode falar de
um “primeiro Wittgenstein” e de um
“segundo Wittgenstein”. “primeiro”
corresponde ao Tratactus, e o “segundo”
encontra-se nas demais obras.
Os temas do Tratactus estão agrupa-
dos em proposições que vão de 1 a 7, se-
ndo um nível crescente de complexi-
ade na argumentação. Essas
proposições básicas são como teses de
que as proposições subsequentes. nume-
radas decimalmente, constituem um co-
mentário ou esclarecimento. A primeira
proposição diz que “o mundo é tudo o
que ocorre”; a segunda. que “o que
ocorre, o fato, é o subsistir de estados de
coisas”; a terceira, que “pensamento é a
figuração lógica dos fatos”; a quarta.
WITTGENSTEIN
Wittgenstein começou a interessar-se por filosofia no começo da segunda
década do século XX, des de ter lido os Princípios de Matemática
de Russell. Como voluntário
o exército austríaco durante a I Guerra Mundial,
Waittgenstem escreveu, em plena frente de batalha, sua obra mais conhecida,
o Tratactus Logico-Philosophicus. (Prisioneiros austríacos em Val di Sole.)
ue “o pensamento é a proposição signi-
cativa “; a quinta, que “a proposição é
uma função de verdade das proposições
elementares”; a sexta, que “a forma ge-
ral da função de verdade é [p, é, N(J ; e
a sétima sentencia: “o que não se pode
falar, deve-se calar”.
Essas sete teses principais compõem
toda a estrutura do Tratactus, o qual é
uma explicitação das mesmas. Witt-
genstein deixa claro, assim, todo o obje-
tivo filosófico que propôs a si mesmo.
Segundo suas próprias palavras. “todo
meu trabalho consiste em explicar a na-
tureza das sentenças”.
A explicação de Wittgenstein tem
como centro a idéia de que uma sentença
é uma figuração (picture, em inglês;
Bild, em alemão). O Tratactus afirma
ue as sentenças figuram mesmo a reali-
ade, não se tratando apenas de um
“como se”. Conforme assinala o próprio
autor, “um nome representa uma coisa.
outro, outra coisa. e estão ligados entre
si de tal modo que o todo, como quadro
vivo, representa o estado de coisas”. Em
outros termos. haveria um paralelismo
completo entre o mundo dos fatos reais
e as estruturas da linguagem. Nesse sen-
tido, ou seja, na medida em que uma
proposição é uma figuração da reali-
dade, deve haver nela tantos elementos
a serem distinguidos quantos os que
existem no estado de coisas afigurado;
deve haver uma mesma multiplicidade
lógica ou matemática entre a O ENracão
e aquilo que é afigurado. Dessa forma,
define-se como forma de representação
aquilo que existe de comum entre a figu-
ração e o afigurado, e a possibilidade de
que as coisas no mundo estejam relacio-
nadas, como o estão os elementos da fi-
guração, & denominada forma da reali-
dade. Desse modo, uma vez que são
911
E E
FABBRI
OS PENSADORES
figurações, as sentenças possuem a
mesma forma da realidade que afigu-
ram.
Mas, embora uma sentença possa afi-
gurar a realidade, ela não é capaz, no
entanto, de fazê-lo no que respeita à sua
rópria forma de representação. Se deve
RA algo de idêntico na figuração e no
afigurado a fim de que uma possa ser a
figuração do outro, então a E bad lógica
(ao mesmo tempo forma da realidade)
que todas as figurações devem possuir,
não pode ser afigurada por nenhuma fi-
guração. Caso contrário, cair-se-ia em
uma regressão ao infinito, ou seja, seria
necessário supor uma segunda lingua-
gem que representaria a primeira, e as-
sim sucessivamente. Por essa razão,
Wittgenstein conclui que todo o pro-
blema da filosofia reduz-se apenas à dis-
tinção entre o que pode ser dito por meio
de proposições, isto é. mediante a única
linguagem que existe, e o que não pode
ser dito, mas apenas mostrado.
As coisas e os nomes
No Tratactus, as proposições e a lin-
guagem em geral repousam na noção de
“nome”, o qual é definido pelo autor
como um signo simples empregado nas
sentenças. O signo simples não é com-
posto por outros signos. como é o caso,
por exemplo, da expressão “as ruas da
capital da Inglaterra”; a palavra “Lon-
dres”, ao contrário, satisfaz a exigência
de simplicidade. Além de dever ser um
signo simples, o nome, para Wittgens-
ten, deve satisfazer a uma outra exigên-
cia, qual seja, a de representar uma
coisa simples, que ele chama “objeto”.
No Tratactus, os objetos são concebidos
como absolutamente simples, e não sim-
ples apenas em relação com algum sis-
tema de notação. Segundo o filósofo, os
objetos formam a bEiência do mundo,
e por isso mesmo não podem ser compos-
tos; a substância é o que subsiste inde-
pendentemente do que ocorre; o fixo, o
subsistente e o objeto são um só, en-
quanto que a configuração constitui o
mutável, o instável.
Por si só, o nome não é, para Witt-
genstein, uma figuração do objeto e, por-
tanto, sozinho nada diz. Somente atra-
vês da combinação de nomes é possível
912
figurar a realidade; em outros termos,
isso significa que o centro da teoria da
linguagem como figuração encontra-se
nas sentenças. Nota Wittgenstein que a
maior parte das proposições da lingua-
gem corrente não parecem ser figurações
da realidade; somente a análise delas
permite tornar manifesto o caráter figu-
rativo. Como resultado dessa análise,
surgem as proposições elementares, que
se definem como proposições que consis-
tem de nomes em vinculação imediata.
Somente as proposições elementares re-
presentam uma configuração de objetos
simples. Para Wittgenstein, por outro
lado, mesmo que cada fato consista em
muitos estados de coisas, e que cada es-
tado de coisas seja constituído por mui-
tos objetos simples (podendo, tanto os
objetos, como os estados de coisas, ten-
derem ao infinito). uma proposição ad-
mite uma, e somente uma, análise em
proposições elementares. Uma vez anali-
sada completamente, a proposição será
composta de nomes RBDIES. cujo signifi-
cado será um objeto simples. Desse
modo, a compreensão de uma proposi-
ção exige apenas a compreensão de seus
constituintes.
Linguagem e verdade
Na filosofia do “primeiro Wittgens-
ten”, a idéia da existência de proposi-
ções elementares não é arbitrária, ao
contrário, decorre diretamente de suas
preocupações acerca da relação entre o
pensamento e a linguagem, de um lado,
e a realidade, de outro. Sua teoria ba-
seia-se na idéia de que a realidade é afi-
gurada pela linguagem, e nesse caso se-
ria necessário admitir-se a existência de
proposições, cujo sentido evidencie-se
imediatamente. Entretanto, não se deve
inferir daí que tais proposições apresen-
tem uma verdade auto-evidente. Assim,
das proposições elementares depende-
riam todas as outras proposições. Em
outras palavras, as proposições (cujo
sentido é imediatamente evidente) não-
elementares seriam funções de verdade
de proposições elementares; não fosse
assim, nenhuma sentença poderia dizer
alguma coisa ou ser entendida.
A função de verdade de uma única
proposição p é uma proposição cuja ver-
dade ou falsidade é determinada, exclu-
sivamente, pela verdade ou falsidade de
WITTGENSTEIN
FABBRI
Um dos poetas preferidos de Wittgenstein foi Rainer Maria Rilke, considerado
pela maioria dos historiadores como o maior poeta da a
alemã do século XX. Rilke foi um dos beneficiados pelo fundo de auxílio,
criado pelo filósofo com parte da fortuna herdada de seu pai. (Retrato de
Rainer Maria Rilke, por Paula Modersohn Becker; Bremer Werkchau Bremen.)
913
OS PENSADORES
Pp; por exemplo, não-p (se p é falso) é
uma função de verdade de p. Uma função
de verdade de duas proposições pe des
uma proposição cuja verdade ou falsi-
dade é unicamente determinada pela ver-
dade ou falsidade de p, q; por exemplo,
“P, q são ambas verdadeiras” é uma fun-
ção da verdade de p, q. Se duas proposi-
ções não-elementares r e s, são funções
de verdade de proposições elementares:
então r e s estarão relacionadas interna-
mente: por exemplo, uma delas pode de-
correr logicamente da outra, ou podem
ser contraditórias. Para Wi ittgenstein,
conhecendo-se a estrutura interna de
duas proposições, pode-se saber quais as
relações lógicas que, elas mantêm entre
si. Não se faz necessário, para tanto, um
conhecimento de princípios lógicos; e.
dai. ser possível viver sem as proposi-
ções lógicas, Já que se pode reconhecer,
graças à mera inspeção dessas proposi-
ções. suas propriedades formais em uma
notação correspondente.
Para tornar manifestas as condições
de verdade de uma proposição, Witt-
genstein empregou o método das tábuas
de verdade. Uma vez que a proposição
em questão é função de verdade de ou-
tras proposições, o objetivo seria mos-
trar a relação entre a verdade (ou falsi-
dade) das últimas e a verdade (ou
falsidade) da primeira.
Dois são os casos limites entre os
possiveis grupos de condições de ver-
dade das proposições. Um deles ocorre-
ria quando uma proposição fosse verda-
deira para todas as possibilidades de
verdade das proposições elementares:
tal proposição é chamada tautologia. O
outro caso diz respeito à proposição que
seja falsa para todas as possibilidades
de verdade: essa proposição é denomi-
nada contradição. Conquanto seja conve-
mente referir-se tanto às contradições. q y
como as tautologias. como “proposi- ; ai 28 7
ções . ambas para W ittgenstein não são. á
a rigor. proposições. pois. além de não
determinarem qualquer realidade. não
possuem condições de verdade. já que
NS É
, :
á t
Dar rlanéd ca 25
- um .
- 33 egipro
Wittgenstein aliou lucidez intelectual
e sensibilidade; durante a
HI Guerra Mundial, trabalhou como
simples auxiliar em um hospital.
(Desenho de Henry Moore; Gal. Tate.)
914
WITTGENSTEIN
FABBR:
915
OS PENSADORES
FABBRI
Quando Wittgenstein começou a se interessar por filosofia, procurou
a Universidade de Cambridge, a fim de estudar com Bertrand Russell. A essa
escola, o filósofo voltaria no fim dos anos vinte para se doutorar
e exercer um cargo de pac no Trinity College. (Edificio da biblioteca
da Universidade de Cambridge, projetado pelo arquiteto Martin Leslie.)
916
WITTGENSTEIN
uma é incondicionalmente verdadeira
(tautologia), e outra é incondicional-
mente falsa (contradição). Assim, para
Wittgenstein, as proposições mostram o
que dizem, mas se forem tautológicas ou
contraditórias são vazias de sentido. Em
outros termos, a tautologia e a contradi-
ção não são figurações da realidade, não
representam nenhuma situação possível,
porquanto a pr imeira permite todas as
situações possiveis, enquanto a segunda,
nenhuma.
Por outro lado, diz anda Wittgens-
tein, “a proposição, a figuração, o mode-
lo são, num sentido negativo, como um
corpo sólido que limita a liberdade de
movimento do outro; no sentido positivo,
como um espaço limitado por uma subs-
tância sólida onde um corpo pode ter
lugar”. Nessa ordem de idéias, pode-se
dizer que, enquanto a verdade de uma
proposição não é certa, mas apenas pos-
sivel, a da tautologia é tida como certa, e
a da contradição como impossível.
De acordo com o Tratactus, os assim
chamados princípios de lógica, proposi-
ções de lógica ou verdades lógicas, são
todos simples tautologias, não expres-
sam pensamentos, nada dizem. Não se
pode afirmar, contudo, que não possuam
qualquer sentido: o simples fato de uma
dada combinação de proposições exibir
uma tautologia revela algo acerca das
estruturas das proposições constituintes.
Nas palavras do próprio Wittgenstein:
“As proposições da lógica são tautolo-
gias; isso mostra as propriedades (lógi-
cas) formais da linguagem, do mundo”
A metafísica é vazia
A teoria da figuração que se encontra
no Tratactus e sua explicação de verdade
lógica conduziram a uma interessante
doutrina sobre a necessidade, e também
a uma negação de qualquer conheci-
mento do a Segundo o filósofo, as
proposições genuínas dizem apenas
como as coisas são, não como elas devem
ser. A única necessidade que pode existir
é a necessidade lógica expressa pelas
tautologias ou por equações matemáti-
cas. No entanto, nem as tautologias, nem
as equações matemáticas dizem coisa al-
guma sobre o mundo. Por conseguinte,
no mundo, não existe necessidade. Para
Wittgenstein, tudo é acidental. Desen-
volvendo essa tese, o autor do Tratactus
Es gibi feine
Chre ohne
oreibeil!
tinto asa!
it
ornuTávaa
fit
Seteccelos
Depois da anexação da Áustria pela
Alemanha nazista, Wittgenstein
repudiou a cidadania austríaca e
naturalizou-se inglés. (Cartaz contra
o plebiscito de anexação, em 1936.)
917
FABBRI
OS PENSADORES
A foto acima retrata Adolf Loos,
um dos grandes amigos do filósofo.
Loos foi um dos maiores
responsáveis pela introdução da
arquitetura moderna na Austria.
918
FABBRI
mostra que, embora uma proposição
possa ser inferida de outra dede que
haja uma conexão interna e estrutural
entre elas), tal não ocorre entre o estado
de coisas, cuja existência não pode ser
anferida a partir de um outro estado de
coisas, completamente diferente. Em
suas próprias palavras, “de modo algum
é possivel inferir. da subsistência de uma
situação. a subsistência de uma situação
inteiramente diferente dela”. Se isso
fosse possivel, tratar-se-ia de uma infe-
rência daquilo que constituiria uma futu-
ra situação, um futuro estado de coisas.
“Que o sol se levante amanha” — diz
Wittgenstein — “é uma hipótese, e isso
quer dizer: não sabemos se realmente se
levantará.”
A partir dessas concepções, o ato de
vontade e a realização daquilo que é
desejado passam a ser considerados
como duas ocorrências inteiramente di-
ferentes. Nesse sentido, a relação entre a
vontade e aquilo que acontece no mundo
só pode ser acidental. O homem não pode
fazer nada acontecer, nem mesmo um
movimento de seu corpo. Nas palavras
do filósofo: “Não posso subjugar os
acontecimentos do mundo à minha von-
tade: sou completamente impotente”
Por outro lado, na medida em que,
segundo a teoria da figuração, tanto uma
proposição como a sua negação são
ambas possíveis, a proposição verda-
deira é meramente acidental. Dai Witt-
genstein retira a conclusão de que não
odem haver proposições em ética. Com
isso, ele queria dizer que se alguma
coisa possui valor, tal fato não pode ser
acidental: a coisa tem de-possuir aquele
valor. No mundo, entretanto, tudo é aci-
dental; consequentemente, não existe
valor no mundo: “No mundo, tudo é
como é e acontece como acontece: nele
não há valor, e se houvesse, o valor não
teria valor”. Se houver um valor que
tenha valor, ele deve permanecer fora de
todos os acontecimentos, pois todos os
acontecimentos são acidentais. Em ou-
tros termos, o sentido do mundo deve
estar fora dele; o que o faz não-acidental
não pode estar no mundo pois, no caso
contrário, isso seria de novo acidental.
Essa concepção não constitui uma nega-
ção absoluta da existência do valor, mas
da existência de valor no mundo. Uma
WITTGENSTEIN
Personalidade pouco comum, Wittgenstein sempre demonstrou possuir
exacerbada sensibilidade e, frequentemente, deixava-se dominar por
estados depressivos. Nessas ocasiões, o fi lósofo procurava refúgio nas
belezas naturais da Noruega, onde possuia uma casa na qual
passava longas temporadas. (Soguefjord, Noruega; Foto Ostuni.)
vez que as proposições se pronunciam
apenas acerca do que está no mundo,
tudo aquilo que diz respeito à ética não
pode ser expresso por proposições, pois
estas, diz Wittgenstein, “não podem
exprimir nada alem”. e acrescenta: “é
claro que a ética não se deixa exprimir.
A ética é transcendental”. Assim, o
mundo, e o que está nele, não é nem bom,
nem mau. Bem e mal existem apenas em
relação ao sujeito, e este também é con-
cebido por Wittgenstein como transcen-
dental: “o sujeito não pertence ao
mundo, mas é limite do mundo”.
A ética, todavia, não constitul o único
assunto que não pode ser expresso pelas
proposições. À ela acrescentam-se outras
áreas, como a forma de representação
das proposições, a existência de objetos
simples que constituiriam a substância
do mundo, a existência de um sujeito
metafísico, a existência do bem e do mal,
e muitos outros igualmente indizíveis.
Wittgenstein parece ter acreditado que o
homem tem pensamentos sobre essas
questões apenas quando considera o
mundo como um todo limitado. Em suas
próprias palavras, “a intuição do mundo
sub specie aeternitatis é a intuição dele
como um todo limitado”. Para ele, essa
intuição é de natureza mística; além
disso, ele afirma que “o que é místico
não é como o mundo é, mas que ele seja”.
Por outro lado, conquanto se possa
dizer o que se queira a respeito daqueles
tópicos metafísicos, isso não significa
que eles sejam absurdos, mas sim que se
situam além do alcance da linguagem.
Diz o próprio Wittgenstein que “existe
com certeza o indizivel”. Essa afirmação
99
FABBRI
OS PENSADORES
constituiria um exemplo do que é indizi-
vel, mas pode produzir uma certa com-
preensão filosófica. No fim do Tratactus,
o autor explica: “minhas proposições se
elucidam do seguinte modo: quem me
entende, por fim as reconhecerá como
absurdas, quando graças a elas — por
elas — tiver calado para além delas. É
reciso, por assim dizer, jogar a escada
EA depois de ter subido por ela”. A pro-
posição final do Tratactus (“ O que não
se pode falar, deve-se calar.”) não cons-
titui apenas um turuísmo, mas traduz a
existência de um terreno a respeito do
qual nada se pode dizer.
O resto é silêncio?
Para muitos intérpretes do desenvolvi-
mento filosófico do autor do Tratactus
Logico-Philosophicus, o próprio Witt-
genstein encarregou-se de jogar fora a
escada que ele mesmo utilizara. Segundo
esses intérpretes, depois da publicação
do Tratactus, Wittgenstein modificou
radicalmente a orientação de sua filoso-
fia, abandonando a perspectiva logicista
que caracteriza essa obra. No Caderno
Azul, no Caderno Marrom e, sobretudo,
nas Investigações Filosóficas, publica-
dos após sua morte, o filósofo passou a
trilhar um novo caminho, afirmando ser
extremamente insatisfatório o Tratactus.
Isso, no entanto, não significa que tenha
passado a considerar suas primeiras
reflexões pura e simplesmente como
errôneas, mas sim como incapazes de
elucidar todos os problemas da Imgua-
gem em virtude de resultarem de uma
maneira “supersticiosa” de abordagem.
A linguagem — diz o “segundo Wittgens-
ten” — engendra ela mesma superstições
das quais é preciso desfazer-se, e a filo-
sofia deve ter como tarefa primordial o
esclarecimento que permita neutralizar
os efeitos enfeitiçadores da linguagem
sobre o pensamento. O centro desse
enfeitiçamento da linguagem sobre a
inteligência encontra-se nas tentativas
para se descobrir a essência da lingua-
gem; é necessário, ao contrário, não que-
rer descobrir o que supostamente esteja
oculto sob a linguagem, mas abrir os
olhos para ver e desvendar como ela fun-
ciona. A atitude metafísica deve ser
substituída pela atitude prática.
A linguagem — diz o segundo Witt-
genstem — funciona em seus usos, não
920
cabendo, portanto, indagar sobre os sig-
nificados das palavras, mas sobre suas
funções práticas. Estas são múltiplas e
variadas, constituindo múltiplas lingua-
gens que são verdadeiras formas de vida.
Em outros termos. poder-se-ia dizer que
o correntemente chamado linguagem é,
na verdade, um conjunto de “jogos de
linguagem”, entre os quais poderiam ser
citados seus empregos para indagar,
consolar, indignar-se, ou descrever.
Wittgenstein compara os jogos de lin-
guagem a ferramentas utilizadas pelo
operário, que usa o martelo para marte-
lar, o serrote para serrar, e assim por
diante. Da mesma forma, não há, para
Wittgenstein, uma única função comum
das expressões da linguagem, nem
mesmo algo que possa ser considerado
como o jogo de linguagem. O que se
ode dizer que existe são certas seme-
faia ou, nas palavras do próprio
Wittgenstein, certo “ar de família”, cer-
tos parentescos que se combinam, se en-
trecruzam, se permutam.
Em termos rigorosamente técnicos,
poder-se-ia dizer que, para o “segundo
Wittgenstein”, a linguagem não pode ser
unificada segundo uma única estrutura
lógica e formal. Diferentemente da tese:
exposta no Tratactus, Wittgenstem
afirma nas Investigações Eiloróftcas que
uma proposição não traz em si o todo da
linguagem. Esta procede através de pe-
quenos segmentos, que são diferentes,
múltiplos e parcelados. A única seme-
lhança gue tais segmentos possuem en-
tre si é “um certo ar de familia” . consti-
tundo cada um deles um “jogo de
linguagem”. Não se pode definir exata-
mente o que seja “um jogo de lingua-
gem”, a não ser através da comparação
entre os traços semelhantes e distintivos
de uma série de jogos. Com essa coloca-
ção do problema, Wittgenstein aproxi-
ma-se muito do estruturalismo desenvol-
vido por Saussure (1857-1913).
Essa nova maneira de colocar o
problema da linguagem (que é tão alheia
à metafísica quanto a teoria exposta no
Tratactus, mas que consegue, no en-
tanto, evitar o formalismo lógico de Ber-
trand Russell e do Circulo de Viena) traz
consigo profundas consequências no que
diz respeito à filosofia em geral. Para o
“segundo Wittgenstem”, os filósofos
WITTGENSTEIN
-
A obra de Wittgenstein tem duas faces diversas; a primeira corresponde
ao Tratactus Logico-Philosophicus, publicado em 1921; a segunda é marcada,
sobretudo, pelas Investigações Filosóficas, escritas em 1948, em Dublin
(foto acima). Para alguns intérpretes, trata-se de filosofias totalmente
opostas; para outros, são apenas 0 verso e o reverso da mesma moeda.
OS PENSADORES
deixaram-se enredar nas teias dos cha-
mados “problemas filosóficos” porque
se iludiram procurando descobrir a es-
sência da linguagem, algo que estivesse
oculto atrás e Na verdade, não exis-
tem “problemas” filosóficos, mas tão so-
mente “perplexidades”. Com isso, Witt-
genstein quer dizer que de nada adianta
ao filósofo tentar encontrar soluções,
procurando uma suposta realidade es-
condida; em filosofia nada existiria de
oculto e todos os dados dos chamados
“problemas” estão sempre ao alcance da
inteligência. Quando esses dados não
possibilitam qualquer solução, se está
diante de um beco sem saída, e nada
mais. Perguntar- se, por exemplo, “que
horas são?”, constitui um problema e,
como tal, pode perfeitamente ser solu-
cionado; mas inquirir sobre a natureza
última do tempo é colocar-se num labi-
rinto, aparentemente sem saida. A saida,
contudo, é possivel, e consiste, segundo
Wittgenstein, simplesmente em se liber-
tar da idéia de que existam labirintos.
Apesar disso, não se deve concluir que
para Wittgenstein as questões filosófi-
cas sejam destituídas de sentido. Pelo
contrário, a filosofia tem um sentido
profundo, o qual consiste em mostrar as
raizes da perplexidade e como elas se
acham vincadas no pensamento humano.
Haverá uma razão que explique a fasci-
nação dos homens pelas questões filosó-
ficas, a ponto de alêuds eles terem de-
dicado toda sua vida a elas. Para
Wittgenstein, na verdade, essas questões
são “fascinantes” e seu “enfeitiçamento”
decorre das investidas feitas pelo ho-
mem contra as limitações da linguagem.
Porém não cabe mais continuar essa luta
inglória. A filosofia deve ensinar ao ho-
mem apenas como “ver” as questões; ela
não pode explicar, inferir ou deduzir
coisa alguma, mas somente “pôr à vista”
as perplexidades resultantes do esqueci-
mento das razões pelas quais sê utilizam
certos conceitos. Em suma, a filosofia é
uma permanente “luta contra o enfeiti-
camento da linguagem”
Wittgenstein e seu legado
Tanto a filosofia formulada no Tratac-
tus Logico-Philosophicus (correspon-
dente ao “primeiro Wittgenstein”),
YZ
quanto a que se encontra nas obras pós-
tumas, sobretudo nas Investigações Fi-
losóficas e nos Cadernos . 4zui e Marrom,
exerceram profunda influência no pensa-
mento do século XX. Muitas das teses
fundamentais dos filósofos do chamado
Circulo de Viena foram desenvolvidas a
partir da interpretação empirista que fi-
zeram do. Tratactus. Entre outras dessas
teses do Circulo de Viena, encontra-se o
princípio da verificabilidade, segundo o
qual, o significado de uma proposição
reduz-se ao conjunto de dados empíricos
imediatos, cuja ocorrência confere vera-
cidade à mesma, e cuja não-ocorrência a
tona falsa. O Círculo de Viena retirou
também do Tratactus a idéia de que as
proposições matemáticas são tautolo-
Rs e. portanto, despidas de significado
atual.
Mas, não obstante esses e outros pon-
tos de convergência, é excessivo di-
zer-se, como o fazem alguns admirado-
res de Wittgenstein, que ele tenha sido
o “pai do positivismo lógico + desenvol-
vido pelo Circulo de Viena. Algumas di-
vergências ponderáveis separam o autor
do Tratactus dos positivistas lógicos. A
teoria da figuração, por exemplo, não foi
adotada pelo Circulo de Viena. Outro as-
pecto que os separa é a posição diante
da metafísica; enquanto os positivistas
lógicos rejeitam totalmente as proposi-
ções metafisicas, Wittgenstein admite a
possibilidade de apreensões intuitivas
no terreno da linguagem, do pensamento
ou da realidade, embora ressalvando que
tais intuições não podem ser expressas
pela linguagem.
Por outro lado, a filosofia do “'se-
gundo Wittgenstein” influenciou consi-
deravelmente a “filosofia linguistica”,
desenvolvida pelo Grupo de Oxford.
Também nesse caso, os admiradores de
Wittgenstein chegam a considerá-lo “o
ai da filosofia linguística”, muito em-
ora os filósofos do Grupo de Oxford de-
vam parte de seu pensamento a outras
fontes, como a filosofia de G. E. Moore.
Ao lado do Grupo de Oxford e do Circulo
de Viena, mais importante foram as in-
fluências que Wittgenstein deixou em
discípulos propriamente ditos, como é o
caso de John Wisdom (1904- ). perten-
cente à corrente da “filosofia analítica”,
desenvolvida na Inglaterra.
WITTGENSTEIN
Wittgenstein dA dA grande parte da filosofia do século XX. Para
alguns historiadores, ele foi “o pai do positivismo e do Círculo de
Viena, para outros, foi o “pai da filosofia analítica” do Grupo de Oxford.
O inglês John Wisdom (acima) é um dos mais importantes continuadores da
linha de pensamento iniciada pelo autor do Tratactus Logico-Philosophicus.
923
E SM E ta A
1889 — A 26 de abril, em
Viena, nasce Ludwig Josef
Johann Wittgenstein.
1904 — Nasce John
Arthur Terence Dibben
Wisdom, em Londres.
1912 Wittgenstein | in-
gressa no Trinity College.
1913 — Submete-se a
hipnose, visando esclarecer
intrincadas questões lógicas.
1914 — Inicia-se a Pri-
meira Guerra Mundial.
Wittgenstein alista-se, vo-
luntariamente, no exército
austríaco.
1918 — Como colapso do
Império Austro-Húngaro, é
aprisionado pelos italianos.
1921 — A revista de Wi
lhelm Ostwald, Annalen der
Naturphilosophie, publica o
Tratactus Logico-Philoso-
phicus, de Wittgenstein.
1924 Wisdom
dua-se em Cambridge.
&ra-
CRONOLOGIA
1926 — Wittgenstein tra-
balha como ajudante de
jardineiro do mosteiro de
Hiitteldorf.
1929 — Wittgenstein
retorna a Cambridge, onde,
em junho, doutora-se com o
Tratactus.
1930 — Redige as Obser-
vações Filosóficas.
1931 — Wisdom publica
Interpretação e Análise.
1933 - 1935 — Wittgens-
tein escreve os Cadernos
Azule Marrom. .
1934 — Wisdom obtém o
mestrado na Universidade
de Cambridge.
1936 — Wittgenstein reti-
ra-se para a Noruega, onde
inicia as Investigações Filo-
sóficas.
1938 — Elabora as Confe-
rências e Discussões sobre
Estética, Psicologia e
Crença Religiosa.
BIBLIOGRAFIA
1939 — Estoura a Se-
gunda Guerra Mundial. Su-
cedendo a G. E. Moore,
Wittgenstein assume a ca-
deira de filosofia da Univer-
sidade de Cambridge.
1941 - 1943 — Trabalha
como porteiro do Guy's
Hospital.
1943 - 1944 — Trabalha
como simples ajudante no
Clinical Research Labora-
tory, em Newcastle.
1947 — Renuncia à ca-
deira de filosofia.
1951 — A 29 de abril,
morre Wittgenstein.
1952 — Wisdom torna-se
professor de filosofia em
Cambridge.
1953 — Publica Filosofia
e Psicanálise. Publicação
das Investigações Filosófi-
cas, de Wittgenstein.
1965 — Wisdom publica
Paradoxo e Descoberta.
MaALCOLM, N.: Wittgenstein, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The Macmillan
Company & The Free Press, Nova York, 1967.
THOMSON, J. J.: Wisdom, in The Encyclopedia of Philosophy, 8 vols., The Macmillan Com-
pany & The Free Press, Nova York, 1967.
PEARS, D.: Wittgenstein, Fontana Books, Londres, 1971.
PrrcHER, G.: The Philosophy of Wittgenstein, Prentice-Hall, Englewoods Cliffs, 1964.
WAHL, J.: Prefácio a Le Cahier Bleu et le Cahier Brun, de Wittgenstein, Éditions Gallimard,
Paris, 1965.
RusseLL, MOORE, CARNAP € outros: Ludwig Wittgenstein: The Man and His Philosophy,
editado por K. T. Fann, Dell Publishing Company, Nova York, 1967.
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1959.
STENIUS, E.: Wittgenstein s “Tratactus ”, Blackwell, Oxford, 1960.
GRIFFIN, J.: Wittgenstein 's Logical Atomism, Oxford University Press, Londres, 1964.
HARTNACK,J.: Wittgenstein and Modern Philosophy, Anchor Books, Nova York, 1965.
FAavrHOLDT, D.: An Interpretation and Critique of Wittgenstein 's Tratactus, Munksgaard,
Copenhague, 1964.
924
“CAMUO ato
e A SR CR SE
OS PENSADORES
o período anterior à Revolução
IN temesiana — dos fins do século
passado até os anos trinta deste —,
o pensamento econômico estava rigida-
mente dividido em duas ortodoxias
igualmente bem estabelecidas e consa-
adas. De um lado, havia os que preten-
iam fazer ciência econômica, inteira-
mente livre de julgamentos de valor,
cujas conclusões baia — de que o “ho-
mem econômico” deixado a si mesmo
encontraria sempre uma situação de
equilíbrio que proporcionaria respostas
“ótimas” a todas as demandas — resulta-
riam da mera lógica dedutiva, aplicada
a um pequeno número de postulados evi-
dentes por si mesmos. De outro, estavam
os que pretendiam perscrutar o capita-
lismo com olhos críticos, à procura de
suas contradições inevitáveis, cujo agu-
çamento progressivo — sob a forma de
crises cada vez mais frequentes, longas
e profundas — provocaria a queda defini-
tiva do sistema e sua substituição por
outro mais justo e mais eficiente.
A falta de diálogo entre as duas cor-
rentes era absoluta, fundada em diver-
gências semânticas irreconciliáveis. O
capitalismo, que uns queriam abolir, se-
quer existia para os outros. Para o mar-
ginalismo — ortodoxia que imperava em
todas as academias do mundo ocidental
—, em lugar do capitalismo o que havia
era uma economia de mercado, cujo fun-
cionamento se desviava um pouco dos
preceitos da teoria do equilíbrio: apenas
na medida em que apresentava “imper-
feições”, face ao modelo da concorrência
perfeita. O mesmo modelo permitiria
aferir o funcionamento das economias de
mercado que existiram durante a Idade
Média ou na Roma da Antiguidade ou
ainda das que podem ser observadas em
povos primitivos.
O conceito de “exploração”, básico
para os marxistas, era literalmente in-
concebível para os marginalistas. Para
os primeiros, o monopólio dos meios de
produção, usufruídos por uma parte da
sociedade, obrigaria os restantes a alie-
nar sua capacidade de trabalho por um
valor menor do que aquela capacidade
Na página anterior: foto de John
Maynard Keynes (Bettmann Archive).
926
em funcionamento era capaz de criar.
Dai a essência da exploração. Para os
marginalistas, não havia monopólio dos
meios de produção, porém dotação dife-
renciada de fatores de produção: se uns
possuíam terras, outros possuíam capi-
tais e outros possuíam capacidade de
trabalhar, todos esses fatores eram
igualmente necessários ao processo pro-
dutivo. E não havia razão para supor
ue a colaboração entre os “titulares”
pad fatores tivesse que implicar qual-
quer relação de exploração, desde que
sua liberdade enquanto “homens econô-
micos” fosse devidamente respeitada.
É claro que a recíproca também era
verdadeira. Conceitos básicos para os
marginalistas, como “utilidade margi-
nal” por exemplo, eram completamente
destituídos de sentido para os marxis-
tas. Os marginalistas concebiam a eco-
nomia como o resultado das interações
de inúmeros indivíduos, que produzem e
consomem, conforme determinadas in-
clnações subjetivas que poderiam ser
traduzidas em leis explicativas dos pre-
cos relativos, da alocação de recursos
em diferentes ramos de produção, etc.
Tais leis eram todas derivadas do princi-
pio da utilidade marginal decrescente,
ou seja, de que cada bocado adicional de
determinado bem ou serviço apresenta,
para o mesmo consumidor, uma utili-
dade menor que o anterior. No fundo, era
a explicação do velho paradoxo: coisas
essenciais à vida, como o ar ou a água,
são destituidas de valor de troca
quando disponíveis em abundância, en-
quanto coisas bem menos -essenciais,
como brilhantes, por exemplo, têm ele-
vado valor de troca, só por serem escas-
sas. Para os marxistas, acostumados a
pensar a sociedade capitalista em ter-
mos de classes, as inclinações subjetivas
dos indivíduos são de tal maneira enqua-
dradas pela estrutura social, que jamais
poderiam servir de princípio explicativo
do funcionamento da economia.
É interessante notar que a ausência de
diálogo entre marginalistas e marxistas
foi se agravando na medida em que uma
e outra doutrina iam se consolidando en-
quanto ortodoxias. Ainda no fim do sê-
culo XIX, a publicação do 3.º volume de
O Capital de Marx, por Engels, deu azo
a uma importante polêmica entre Bôhm-
KEYNES
Desde meados do século XVIII, quando começou a Revolução Industrial, a análise
dos problemas econômicos passou a ocupar a atenção dos pensadores.
A partir de então, a Economia Política, cuja fundação seatribui
a Adam Smith, ganhou importância cada vez maior entre as ciências humanas.
(A foto acima mostra um aspecto do intenso movimento da Bolsa de Londres.)
Bawerk, um dos mais importantes ex-
poentes do marginalismo, e Hilferding,
que se iria revelar pouco depois como
um teórico marxista dos mais destaca-
dos. Dai em diante, no entanto, cada
uma das correntes iria se fechar cada
vez mais em seu próprio campo.
O MALOGRO DO
MARGINALISMO
Essa progressiva cessação do diálogo
foi acompanhada também pelo relativo
esgotamento da criatividade teórica, na
medida em que a realidade econômica
que tinha inspirado tanto uma como a
outra doutrina — o capitalismo indus-
trial europeu da segunda metade do sê-
culo XIX — estava se alterando. A forma
como isso se deu foi naturalmente dife-
rente num caso e no outro. O margina-
lismo foi perdendo contato com a reali-
dade na medida em que o capitalismo se
foi tomando mais monopolista e por-
tanto cada vez mais afastado dos mode-
los de concorrência perfeita com os
quais a análise marginalista lidava. Já
PE a Primeira Guerra Mundial, o
“laissez faire” teve que ser abandonado
por uma política econômica de planeja-
mento centralizado em todas as nações
beligerantes, ou seja, em todas as potên-
cias industriais. Após a Guerra. houve
um curto período, durante os anos vinte,
927
OS PENSADORES
em que se tentou voltar ao liberalismo.
Tais tentativas desembocaram, no en-
tanto, na crise de 1929 e na profunda e
prolongada depressão, que se estendeu
até o fim da década seguinte. Nessa si-
tuação, em que de 15 a 20% do proleta-
riado das principais nações industriais
estavam desempregados, os economistas
oficiais, presos aos esquemas de pensa-
mento marginalista, só tinham a ofere-
cer conselhos no sentido de que a econo-
mia deveria ser deixada a si mesma para
reencontrar seu equilibrio. Politica-
mente, tais conselhos equivaliam a um
convite ao suicídio.
O malogro do marginalismo não se
deu, porém, apenas no plano político:
ocorreu também no intelectual. Toda
análise baseada na utilidade marginal
supunha que a existência de desempre-
ados só podia se explicar pela recusa
des mesmos em trabalhar por níveis de
salário compatíveis com produtividade
marginal. Já era dificil de se crer nesse
tipo de explicação mesmo em épocas
normais; mas num periodo de desem-
prego em massa, em que era óbvio que
milhões de homens e mulheres aceita-
riam trabalho por qualquer remunera-
ção maior que o miserável seguro contra
o desemprego que recebiam, ela era sim-
plesmente ridícula. O ni Raja no
entanto, não podia formular qualquer
outra explicação sem negar os postula-
dos em que se baseava.
Quanto ao marxismo, o periodo ante-
rior à Primeira Guerra Mundial anda
foi relativamente fértil, marcado pelas
análises do imperialismo e do capita-
lismo monopolista por parte de Hilfer-
dng, Rosa Luxemburgo, Lenin e Bukha-
rm — estes dois últimos escrevendo já
durante a Guerra. Em 1917, no entanto,
a vitória da Revolução de Outubro torna
o marxismo ortodoxia oficial no antigo
império russo. Com o passar dos anos,
a interpretação lenmista torna-se a
única aceita, sendo as demais banidas
não apenas da União Soviética mas tam-
bém dos Partidos Comunistas agrupados
na 3.º Internacional. Com a consolida-
ção de Stalin no poder, a partir de 1929,
a polêmica no próprio seio do marxismo
é reprimida e em seu lugar surge um
dogmatismo cada vez mais estéril.
É, sem dúvida, a ascensão do Stali-
928
nismo o principal fator da relativa este-
rilidade da economia política marxista
durante o período de entre- -guerras, mas
não se deve deixar de mencionar também
o abandono, após 1914, de qualquer
perspectiva revolucionária por parte dos
partidos ligados à 2.º Internacional, e a
destruição do movimento operário pelo
fascismo em uma série de países (Hun-
gria, Polônia, Itália, Alemanha, Áustria,
Espanha, etc.), cuja intelectualidade
marxista foi morta, presa ou exilada.
Foi um periodo de derrotas para a
esquerda, durante o qual, com raras
exceções, O pensamento marxista se
refugiou na repetição de velhas fórmulas
consagradas e em sua aplicação mecã-
nica à realidade. Com exceção da polê-
mica sobre a industrialização e o papel
da economia camponesa — que se travou
na União Soviética, durante os anos vinte
—, O pensamento econômico marxista
não apresentou avanços significativos
antes que se abrisse a nova fase, inaugu-
rada pela Revolução Keynesiana.
Essa Revolução está ligada ao nome
de Keynes, por ser este o autor mais
conhecido entre os que se dedicaram a
demolir os preceitos envelhecidos das
ortodoxias. Sua celebridade contribuiu
para que certas idéias novas chamassem
a atenção de todos e ganhassem a adesão
de grande parte da nova geração de
economistas. Mas, como o mostra Joan
Robinson, em Liberdade e Necessidade,
as principais teses da Teoria Geral do
Emprego, do Juro e da Moeda, que Ke
nes publicou em 1936, já tinham sido
antecipadas por Gunnar Myrdal e Mi-
chael Kalecki, embora Keynes não o
soubesse.
COMBATE À ORTODOXIA
Na realidade, a revolta contra o orto-
doxia marginalista no seio mesmo de
uma de suas fortalezas mais importan-
tes, a Universidade de Cambridge, come-
çou em 1926, quando Piero Sraffo, então
um jovem refugiado da Itália, publicou
um artigo que fez furor. Chamava-se
“The Laws of Returns under Competitive
Conditions” e saiu no prestigioso Econo-
mico Journal. Nesse artigo, de apenas
quinze páginas, Sraffa mostrava que o
pressuposto da concorrência perfeita
KEYNES
Nas primeiras décadas do século XX, a Economia Política foi palco de lutas
teóricas entre duas correntes divergentes: o marginalismo eo marxismo.
Apesar de lecionar no reduto dos mar. ginalistas, o economista John Maynard
Keynes foi um dos principais responsáveis pela superação desses pontos
de vista opostos. (King's College, Cambridge, onde Keynes foi estudante.)
uase não se aplicava a qualquer merca-
dE real e que se deveria reconstruir a teo-
ria dos preços a partir da constatação de
que a maioria das empresas industriais
podia usufruir de ganhos de escala e que
portanto lhes convinha crescer até o
ponto em que tais ganhos são compensa-
dores — donde resulta que a maior parte
dos mercados são regidos por “concor-
rência imperfeita” ou “concorrência mo-
nopolística”. Nesse ponto, explicita-
mente ou não, Sraffa dava razão a Marx,
que já tinha mostrado que os ganhos de
escala eram um dos principais fatores da
concentração do capital.
O artigo de Sraffa desencadeou forte
polêmica, provocando uma série de
obras a respeito da economia monopolis-
tica, entre as quais se destacava a obra
de estréia de Joan Robinson, The Econo-
mics of Imperfect Competition, publi-
cada em 1933. Um dos mais importantes
dogmas do marginalismo acabava de
cair e, ao mesmo tempo, as teses marxis-
tas sobre o capitalismo monopolista, or
muladas principalmente por Hilferdin
Lenin, começaram a ser complementadas
por um tratamento mais detalhado de
como diferentes tipos de monopólios se
comportam no mercado. E preciso dizer
que os novos teóricos do monopólio —
como Joan Robinson, E. A. G. Robinson
e E. H. Chamberln — provavelmente
ignoravam que estavam tratando de um
929
TE TT TE ETTA TITO EEE
Fabbri
OS PENSADORES
assunto já amplamente debatido por
autores marxistas. Não obstante, o seu
trabalho começou a arrasar o muro que
separava uma corrente da outra.
Nesse meio tempo, John Maynard
Keynes já era uma figura amplamente
conhecida. Bem mais velho que os de-
mais autores — Sraffa nasceu em 1898,
Kalecki em 1899 e J. Robinson em 1903
Keynes já era consagrado como teó-
rico e político. Filho de um professor de
Cambridge, nasceu em 1883 e se formou
na mesma universidade, tornando-se
professor dela em 1909. Protegido o
célebre economista Alfred Marshall,
apa da ortodoxia marginalista, Kms
oi nomeado redator do Economic Jour-
nal em 1911; dois anos depois tomou-se
secretário e redator da Sociedade Real
de Economia. Ao mesmo tempo que obti-
nha sucessos em sua carreira acadêmica,
Keynes trabalha no serviço público,
ingressando no Tesouro em 1915, onde
ocupou elevados cargos. Foi o represen-
tante financeiro do Tesouro britânico na
Conferência de Paz, em 1919.
REVOLUÇÃO KEYNESIANA
As obras de Keynes mostram bem
uais eram suas preocupações, sempre
ligadas a problemas práticos do momen-
to. Ele não estava interessado em recons-
truir a teoria econômica a partir da teo-
ria do valor, mas em verificar por que as
teses marginalistas, nas quais ele fora
educado, levavam a receitas de política
econômica totalmente irrelevantes. Foi
essa atitude que o levou a escrever em
1930 o Treatise on Money (Tratado
sobre a Moeda), no qual, segundo Joan
Robinson, sob o pretexto de tratar da
moeda e do nivel de preços, ele estava
lançando as bases da análise do nível
geral de produção. Tais bases acabaram
sendo definitivamente constituídas na
Teoria Geral do Emprego, do Juro e da
Moeda e abriram uma brecha enorme no
conjunto de dogmas sobre os quais se
assentava o marginalismo.
Supunha-se então, nos meios econô-
micos “respeitáveis” de todos os países
capitalistas, que uma economia de mer-
cado encontrava naturalmente seu equi-
líbrio numa situação em que todos que
desejassem trabalhar por uma remunera-
930
ção correspondente à sua produtividade
marginal poderiam fazê-lo. Em determi-
nadas circunstâncias essa remuneração
poderia ser baixa, por exemplo, devido
aos rendimentos decrescentes resultantes
do desequilíbrio. entre população e recur-
sos naturais, oO que acarretaria uma
rodutividade reduzida do “último tra-
alhador”. Como o empresário não pode,
racionalmente, pagar mais do que a
produtividade marginal, é possível que
certo número de pessoas preferisse ficar
fora do mercado de trabalho, isto é,
como desempregados voluntários. Porém
não poderia haver desempregados invo-
luntários, isto é, pessoas que querem tra-
balhar pelo salário corrente e não encon-
tram quem queira empregá-las, a não ser
que por algum fator extra-econômico —
pressão sindical por exemplo — o nível
salarial não pudesse baixar ao nível da
produtividade marginal de pleno empre-
go. Em tais circunstâncias, qualquer
política destinada a promover o e po
seria inútil quando não prejudicial
Supunha-se também que numa economia
de mercado ) Jamais poderia haver super-
produção, já que a cada venda corres-
ponde uma compra. Esse postulado, que
se deve ao economista Seara Say, é
“evidente por si mesmo” num mercado
não-monetário, onde se dá o escambo,
isto é, a troca direta de mercadoria por
mercadoria. Admitia-se que as econo-
mias industriais comportam-se atual-
mente da mesma maneira, sendo o seu
funcionamento apenas menos evidente
por se encontrar encoberto pelo “véu
monetário”. Em suma, a crise que sacu-
dia as nações capitalistas durante meia
dúzia de anos simplesmente não existia
para os marginalistas, ou não passaria
de um desajustamento temporário, que
se corrigiria por si mesmo.
Keynes critica este conjunto de cren-
ças, mostrando que, a cada momento, o
nível de emprego, numa economia capi-
talista, depende da demanda efetiva, ou
seja, da proporção da renda que é gasta
em consumo ou investimento. Ao contrá-
rio da Lei de Say, numa economia mone-
tária é possivel receber sem imediata-
mente gastar o dinheiro, ou seja, é
“possível vender sem comprar.
Uma das inovações de Keynes foi mos-
trar que, numa economia capitalista,
KEYNES
MEM:
E
a
y
M
Keynes casou-se em 1925, aos 42 anos de idade, com a dançarina soviética
Lídia Lopokova. Nessa época, o economista ocupava o cargo de primeiro
tesoureiro do King's College da Universidade de Cambridge, colaborando
regularmente no Economic Journal, uma das mais importantes publicações
especializadas em Economia Política. (Keynes e a esposa, após o casamento.)
931
Bettmann Archive
OS PENSADORES
qualquer quantia de dinheiro é suscetível
de ser aplicada lucrativamente, mas que,
conforme o “estado das expectativas”
pode haver vantagem em reter o dinhei-
ro, isto é, em entesourá-lo. Quando o
entesouraménto aumenta, em virtude de
uma elevação da “preferência pela liqui-
dez”, é claro que o volume de vendas su-
pera o de compras, ou em outras pala-
vras, a demanda efetiva por mercadorias
cai. O que acontece, nesse caso, é que há
um crescimento de estoques invendáveis,
caracterizando uma situação de super-
produção. Para resolvê-la, o nível de ati-
vidade diminui, o que reduz a renda,
ajustando-a ao nível (agora mais baixo)
da demanda efetiva.
RENDA E CONSUMO
Keynes sugeriu também que o nivel de
consumo dos indivíduos depende da
renda, mas varia muito menos do que
esta. Assim, quando a renda sobe, o con-
sumo individual cresce em menor pro-
porção, havendo portanto um aumento
mais que proporcional da diferença entre
renda e consumo, isto é, da poupança.
Ora, a poupança é constituída por recur-
sos que podem ser investidos, mas para
que o sejam é preciso que os empresários
assumam o risco de. fazê-lo. Keynes tem
plena consciência da separação entre o
capitalista monetário ou rentista e o ca-
pitalista industrial ou empreendedor. Ê
este que assume os riscos do negócio e
toma dinheiro emprestado do primeiro,
comprometendo- se a pagar uma taxa de
Juros prê-fixada. É claro que ele só o
fará se essa taxa de juros for convenien-
temente inferior à sua perspectiva de lu-
cros ou, como a chamou Keynes, da “efi-
ciência marginal do capital”. Sendo os
Juros Sado: demais, a inversão não
absorve toda a renda poupada e a dife-
rença permanece entesourada, com a
consequente queda da demanda efetiva,
do nível de atividade, etc.
Dessa maneira, Keynes mostrou que
uma economia capitalista pode encon-
trar seu nível de equilibrio — no qual a
oupança corresponde à inversão “deli-
bsradas sem que se formem estoques
não desejados — em situações que de
modo algum permitem o pleno emprego
de todos os seus recursos, sobretudo dos
932
humanos. Para que tais economias atin-
Jam o pleno emprego e nele permaneçam,
é preciso que políticas adequadas sus-
tentem a demanda efetiva, de modo que,
a cada elevação da renda, o consumo e a
inversão também cresçam. preciso,
portanto, dotar o Estado de instrumentos
efetivos de política econômica, que lhe
permitam regular a taxa de juros de
modo a mantê-la abaixo da “eficiência
marginal do capital”, incrementar o con-
sumo mediante a expansão dos gastos
públicos e expandir a inversão por meio
de empréstimos públicos capazes de
absorver Os recursos ociosos.
Keynes defendeu muitas dessas idéias
mesmo antes da grande crise de 1929,
mas ele só as reuniu num corpo teórico
consistente na Teoria Geral, em 1936.
Seu impacto intelectual foi enorme, pois
ele removia do terreno a maior parte dos
obstáculos que impediam que os econo-
mistas acadêmicos pudessem oferecer
soluções concretas aos problemas econô-
micos da conjuntura. O impacto político
não foi menor, mas algo retardado.
Enquanto os efeitos do livro ainda rever-
beravam, a Segunda Guerra Mundial
lançava todas as nações industriais em
frenética corrida armamentista, liqui-
dando os efeitos da grande depressão.
Foi só no após-guerra que a lição Keyne-
siana foi aprendida e cuidadosamente
aplicada pelos governos das nações capi-
talistas: o pleno emprego tornou-se um
objetivo explícito da mais alta priori-
dade e os instrumentos de política econô-
mica foram postos em ação, com resulta-
dos tão notáveis que podem ter
inaugurado uma nova fase da história do
capitalismo. É dificil i imaginar que outro
tratado teórico de economia exceto O
Capital, tenha tido impacto análogo na
conduta dos homens.
A DINÂMICA DO
CAPITALISMO
O sistema de Keynes, sem que ele o
soubesse, tinha sido antecipado por ou-
tros autores, entre os quais Michal
Kalecki. Nascido na Polônia, Kalecki
estudou em Varsóvia e em Lodz e, após
um longo periodo em que se sustentou
com empregos precários, conseguiu ser
admitido, em 1929, no Instituto de Pes-
E CDS =
KEYNES
quisa da Conjuntura e dos Preços, em
Varsóvia. Foi enquanto trabalhava nesse
Instituto que Kalecki desenvolveu sua
teoria de dinâmica econômica capita-
lista, cuja primeira visão apareceu em
1933, sob o título de Proba Teorii
Koniunktury (Tentativa de Teoria da
Conjuntura). No mesmo ano, Kalecki
apresentou sua teoria numa conferência
da Sociedade Internacional de Econome-
tria, que teve lugar em Leyden, na
Holanda, sendo o trabalho publicado na
revista Econometria, em 1935. Apesar
disso, sua teoria não chamou a atenção
aquela época e foi co ed ofus-
cada pela Teoria Geral de Keynes, que
veio a lume no ano seguinte. Kalecki
tinha recebido uma bolsa da Fundação
Rockefeller e foi à Suécia para entrar em
contato com Gunnar Myrdal e outros
economistas. Ah ele iniciou um outro
livro, mas o abandonou quando soube da
aparição do livro de Keynes em que solu-
ções análogas às suas tinham sido pro-
postas. Dirigiu- se então a Londres e a
Cambridge, onde conheceu Joan Robin-
son e Piero Sraffa, e, através destes,
Keynes. Este o convidou a trabalhar em
Cambridge. onde ele ficou até 1940,
uando se transferiu para Oxford, onde
icou quase até o fim da guerra. Em
Cambridge, Kalecki E um livro
em que expôs, de modo mais amplo, sua
teoria: Essays in the Theory of Economic
Fluctuations (Ensaios sobre a Teoria das
Flutuações Econômicas), que saiu em
1939. Enquanto trabalhava em Oxford,
Kalecki prosseguiu em seus estudos teó-
ricos e em 1943 apareceram seus Stu-
dies in Economic Dynamics.
Após breves interlúdios em Paris,
Montreal e Varsóvia, Kalecki assumiu
em 1946 um posto no Secretariado das
Nações Unidas, onde se encarregou da
confecção dos “Relatórios sobre a Eco-
nomia Mundial”. Essa série de publica-
ções anuais de elevado nível esteve sob
responsabilidade de Kalecki até 1954,
quando sob pressão política, ao que pa-
rece sobretudo dos americanos, foi leva-
do a pedir sua demissão.
Bettmann Archive
Na época de seus primeiros anos de
casamento, Keynes trabalhou no O CAPITALISMO
Comitê Governamental das Finanças e VISTO POR KALECKI
Indústria, órgão da Coroa Britânica (O
economista e Lídia Lopokova). Kalecki, ao contrário de Keynes,
933
OS PENSADORES
inspirou-se muito mais na economia
marxista do que no marginalismo. Seu
objetivo não era, como o E Keynes, sal-
var o capitalismo das consegiências de
suas contradições, mas sobretudo anali-
sá-la com todo o rigor. É claro que para
os marxistas, as crises do capitalismo,
como a de 1929, não somente eram reais
como também necessárias. O mecanismo
que as produzia, no entanto, permanecia
obscuro, embora haja inúmeras indica-
ções na obra de Marx a esse respeito.
Quem, depois de Marx, mais se ocupou
do assunto foi Rosa Luxemburgo, que
punha em dúvida a motivação dos capi-
talistas de investirem a mais valia acu-
mulada a não ser que houvesse uma pré-
via expansão do consumo. Dessa
maneira ela colocou um problema que,
de outro prisma, Keynes esignou como
o da “demanda efetiva”
Kalecki não dividia o mundo em con-
sumidores-poupadores de um lado e em-
preendedores do outro, mas em traba-
lhadores e capitalistas. Os primeiros
ganham salários apenas suficientes para
sua sobrevivência e portanto têm que
dispendê-los em bens de consumo. Só
aos capitalistas resta a opção de gastar
em consumo ou em inversão uma pro-
porção maior ou menor de seus lucros.
Havendo capacidade ociosa e desem-
prego, o nível de atividade depende, em
última análise, dos gastos dos trabalha-
dores, que já são dados, e dos capitalis-
tas, que podem ser maiores ou menores.
Se os gastos dos capitalistas aumentam,
haverá maior demanda por bens de con-
sumo e/ou de produção, o nível de ativi-
dade e de emprego vai subir e no fim os
lucros dos capitalistas também serão
maiores. É por isso que Kalecki diz que
“os trabalhadores gastam o que ganham
e os capitalistas ganham o que gastam”.
É claro que além de trabalhadores e ca-
pitalistas há outros setores que integram
a demanda efetiva: o Estado e o resto do
mundo (exportações). A demanda efetiva
também crescerá se o Estado gastar
mais do que arrecada sob a forma de tri-
Fato fundamental na história
econômica do século XX foi o crack
da Bolsa de Valores de Nova York,
em 1929. (Wall Street em um de seus
dias de desespero, em 1929.)
934
T-—w————"n-—-—--oo—hm
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KALECKI
. ms e cu
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Ao ENA AM
«vasênsos séúseshs: ef
a E niónnho.,
OS PENSADORES
As sucessivas crises económicas, depressão e ds A comuns nos países
capitalistas, levou Keynes a investigar os motivos
as variações de produção
e emprego. O economista concluiu que o fator responsável pela alteração
do emprego é a procura de mão-de-obra e não a oferta, contrapondo-se,
assim, aos marginalistas (Londres, 1932: manifestação de desempregados.)
butos (deficit orçamentário) e se o pais
conseguir exportar mais do que importa
(excedente na balança comercial). A de-
cisão crucial, no entanto, é dos capitalis-
tas quanto a investir. Na medida em que
o fazem, a produção e os lucros sobem
até o ponto em que os lucros acumulados
(poupança) são equivalentes ao valor da
inversão. A relação entre produto e lu-
cros depende de fatores de distribuição
da renda, que por sua vez dependem do
grau de monopólio das empresas.
O mundo capitalista, visto por Kale-
cki, é regido por decisões dos capitalis-
tas quanto à inversão, por decisões do
Estado quanto ao equilí rio orçamentá-
rio e pelo comércio internacional. Nesse
mundo os ciclos de conjuntura são inevi-
táveis mas a profundidade das crises e
sua duração dependem de decisões poli-
ticas e não apenas das forças cegas do
mercado. Essa observação póde parecer
óbvia hoje, após mais de vinte anos de
política keynesiana em quase todos os
países capitalistas, mas era certamente
heterodoxa nos meios marxistas, da-
quela época, que esperavam com abso-
luta fé que a crise dos anos trinta reco-
meçaria tão logo os efeitos da guerra se
desvanecessem. Nesse sentido, Kalecki
desempenhou no lado marxista um papel
análogo ao de Keynes entre os margina-
936
.
listas, embora com impacto e êxito
muito menores: o de sacudir a compla-
cência com que se esperava que a adesão
irrestrita dos estados capitalistas ao
“laissez-faire” levasse a classe domi-
nante a cavar sua própria sepultura. Ka-
lecki ainda durante a guerra, em 1943,
escreveu um artigo profético “The Poli-
tical Aspects of Full Employment” no
Political Quarterly, no qual prevê que o
andamento da conjuntura dependerá
cada vez mais de decisões políticas, do
que resultaria o “ciclo de conjuntura
político” — o que permite entender as
contradições que o capitalismo contem-
porâneo apresenta.
JOAN ROBINSON
Como se vê, não se limitou a Revolu-
ção Keynesiana à corrente marginalista.
Com Kalecki, a ortodoxia marxista tam-
bém foi atingida, embora seus efeitos se
tenham feito sentir algo mais tarde. Mas
não há dúvida de que o grande debate
que surgiu nos meios marxistas, a partir
dos anos sessenta, sobre o caráter do es-
tado capitalista contemporâneo e da
etapa atual do sistema é prova que o
imobilismo foi mesmo abandonado.
Se a presença de Sraffa e Kalecki em
Cambridge serviu para que o intercâm-
42. :
Fabbri
ee crer tr tetas Ee Ea Ee errar a —— o ——————
E SS SS = es
KALECKI- ROBINSON
IGHT THE BATTLE
FOR BREAD
atan ums
Agricultural Camp
ASK AT THE COUNTER FOR LEAFLET
Segundo Keynes, somente o Estado tem capacidade ara conferir
Fabbri
equilíbrio ao sistema econômico de uma nação. Isso deveria ser feito
através de medidas para incrementar o pleno emprego e para desencorajar o
entesouramento individual. (Cartaz inglês de propaganda para
aumento da produção de trigo e pão; Museu Cívico do Ressurgimento, Milão.)
937
e Ties
OS PENSADORES
Keynes destruiu grande parte dos pressupostos da Economia clássica,
utilizando muitos dos argumentos de Marx, embora menosprezasse o marxismo
como ciência. Joan Robinson, sua discípula, foi além, fazendo uma
crítica radical da economia capitalista, para a qual se valeu abundantemente
das teses marxistas. (Joan Robinson; Ramsey & Muspratt, Cambridge.)
938
ROBINSON
bio de idéias entre marginalistas e mar-
xistas recomeçasse pelo menos no plano
pessoal, não há dúvida de que foi Joan
Robinson, mais do que ninguém, que fez
com que as últimas barreiras da incomu-
nicação caissem. Educada na ortodoxia
marginalista, Joan Robinson começou,
como já foi visto, por desafiar o pressu-
posto da livre concorrência. Em seguida
uniu-se a Keynes como um de seus mais
destacados seipulos e ajudou a divul-
gar e interpretar o novo evangelho.
Embora Keynes tenha destruído
grande arte da consagrada doutrina
marginalista, inclusive com argumentos,
em parte ao menos, análogos aos de
Marx, ele menosprezava completamente
a economia marxista como ciência. Joan
Robinson, no entanto, tinha menos
apego ao capitalismo como sistema e,
uma vez verificada a fragilidade do
mesmo, passou a interessar-se por sua
critica mais radical. Em 1944, no livro
intitulado Economia Marxista, ela tenta
tornar compreensíveis para o economista
acadêmico as principais teses de O Capi-
tal. Ao fazer isso, no entanto, rompe com
o margimalismo sem aderir ao mar-
xismo. À sua posição é definida, nessa
altura, do seguinte modo: “Os economis-
tas ortodoxos, como um todo, identifica-
ram-se com o sistema e assumiram o pa-
pel de seus apologistas, enquanto Marx
se pro ôs a entender o funcionamento do
capitalismo a fim de apressar sua derru-
bada. Marx estava consciente desse pro-
pósito. Os economistas, numa incons-
ciência total”. E mais adiante: “Neste
interim, os economistas acadêmicos,
sem prestar muita atenção a Marx, fo-
ram forçados pelas experiências dos
tempos modernos a questionar muito da
apologética ortodoxa, e os progressos
recentes da teoria acadêmica levaram-
nos a uma posição que, em algum sen-
tido, assemelha-se muito mais à posição
de Marx do que à de seus antecessores”
Joan Robinson estava rompendo poli-
ticamente com o marginalismo, sem se
desligar metodologicamente do mesmo.
Esse desligamento se dá nos anos se-
uintes, sendo marcado pela publicação
de 4 Acumulação do Capital, em 1956,
no qual ela empreende uma incursão na
análise do desenvolvimento geral de uma
economia capitalista, tema querido aos
No. 175 SEPTEMBER 1934
ECONOMIC
JOURNAL
Tue Quartraiy Jovasar or
The Ropal Economic Society
Evite py
Jo M. KEYNES assiste uy E. À. G. ROBINSON
VoL. XLIV
1. Articles—
race
BRITISH OVERSEAS INVESTMENTS IN 1937 AND cosa
SIR RB KINDERSLEY ás
FURTHER DATA ON THE NATIONAL INCOME - COLIN CLARK jm
EULER'S IHÉOREM AND THE PROBLEM OE DIESTRIBUTION
JOAN ROBINSON 39%
THE PROFIT$S OF PROFESSIONAL SPECULATORS BLAIR STEWART 43
AGRICULTURAL REORGAXISATION AND PRICE CONTKOL.
RUTH COHEN 4,4
THE PURCHASING-POWER GF IRISH FREE STATE FARMERS IN 1033
JOSEPH JORNSTOM 453
II. Revicews—For list of Books Keviewed see inside cover) ... Er 460
Jil. Notes and Memoranda—
ADAM SMITH AND THE GLASGUW MERCHANTO E at — PROF. W. R. SCOTT E]
TRE STADILISATICA OF THE FRANC AND IRENCH PORLIGA TRADE. P. A. SCEWOD Sm
THE NEW CENTRAL DANK LEGILATION IX CANADA ... . PROF.C. A CURTIS 314
THE RXHOKT OP THE BIS. a o JL E REVNES S16
OFFICIAL PAPERS ui o e ai mr ae e a am SI
CURRENT:TOMICS) Cia one crias caso niies pesgoo mto Vaio centeio Pano ig ue ASIM
IV. Recent Periodicals and New Books ... PRF aos .. 3
Zondon
MACMILLAN AND CO, Limitreu
NEW YORK: THE MACMILLAN COMPANY
Price Six Shslings net
All communuutions respecting Adrertizaments to de sent to
Tuz Abvenrisguaxt Maxacks, q, Adelphi Terrace, Strand, W.C.2,
Uma das mais. importantes publicações
sobre Economia Política, em todo
o mundo, Economic Journal, foi
dirigido por John Maynard Keynes
durante muitos anos, desde 191 Fa
clássicos de A. Smith a Marx, mas que
tinha sido abandonado pelos marginalis-
tas. Realiza a análise sem aderir a ne-
nhuma teoria do valor, o que evidente-
mente lhe impede de formular leis que
regem a acumulação do capital, sendo
obrigada a se limitar a uma certa casuís-
tica de modelos. Nos Ensaios sobre a
Teoria do Crescimento, esse tipo de aná-
lise está bem representado. Ela constitui
parte integrante da macro-economia mo-
derna, que tenta entender o funciona-
mento do capitalismo usando indistinta-
mente conceitos e teses tiradas do
marginalismo (ao menos em sua versão
keynesiana) e do marxismo.
939
OS PENSADORES
O grande mérito das análises da diná-
mica econômica de Joan Robinson está
na crítica aguda e mordaz do preten-
sioso edificio lógico construído pelos
marginalistas e que, apesar de capenga,
continua sendo apresentado como o
único corpo “científico” de conhecimen-
tos econômicos. Joan Robinson em lugar
de efetuar a crítica “de fora”, como o fa-
zem usualmente os marxistas denun-
ciando as intenções apologéticas e os
conceitos inadequados, examina as pro-
posições marginalistas a partir “de den-
tro”, de seus próprios pressupostos lógi-
cos, denunciando suas inconsistências e
sobretudo suas pretensões injustificadas
de dizer algo ore o mundo real.
Joan Robinson abriu caminho para
um tipo de pensamento econômico que,
por se recusar a qualquer ortodoxia,
pode ser tido como eclético. Ele tem se
adaptado bem à política amorfa das ins-
tituições internacionais, particularmente
dos órgãos intergovernamentais ligados
à ONU, que têm que conciliar as posi-
ções divergentes de seus integrantes. Os
trabalhos de análise econômica produzi-
dos pela CEPAL são um bom exemplo de
como esse tipo de pensamento consegue
produzir resultados significativos.
Em Liberdade e Necessidade, um dos
seus últimos livros, Joan Robinson traça
um grande panorama, das origens da so-
ciedade até os dias de hoje. Trata-se de
uma interpretação da história da huma-
nidade e não de uma história da econo-
mia e seu maior significado está nisso:
mostra a necessidade de reintegrar a
chamada ciência econômica no conjunto
das ciências do homem e, ao mesmo
tempo, de que estas estejam solidamente
ancoradas nas ciências da natureza. Sua
fraqueza metodológica revela-se à me-
dida que a obra avança em direção ao
mundo contemporâneo; seu tom torna-se
cada vez mais opinativo e as análises
perdem em profundidade.
A grande contribuição de Joan Robin-
son para o pensamento econômico está
na sua própria trajetória intelectual, que
abriu vastos horizontes a toda uma nova
geração de economistas, que, graças a
ela e a alguns de seus companheiros,
pôde lançar mão de um acervo de conhe-
cimento muito mais rico do que na época
em que todos estavam quase que obriga-
940
toriamente filados a uma ou outra cor-
rente doutrinária, cada quai paralisada
em seu próprio dogmatismo.
SRAFFA: :
A MERCADORIA-PADRAO
Piero Sraffa escreveu relativamente
pouco. Além do celebrado artigo, já
mencionado, ele apenas editou as obras
de Ricardo, para as quais escreveu um
importante prefácio, e publicou, em
1960, A Produção de Mercadorias por
meio de Mercadorias. Constitui esse
livro a obra de toda uma vida, pois,
como Sraffa mesmo indica no prefácio,
ele o começou em 1925, tendo levado
“um tempo desproporcionado para um
trabalho tão curto”. Na verdade, o autor
está sendo muito modesto: seu livro de
reduzido tamanho já teve uma enorme
repercussão no pensamento econômico
contemporâneo e é fácil prever que terá
repercussão ainda maior no futuro.
Apesar de fácil leitura, 4 Produção de
Mercadorias por meio de Mercadorias é
de dificil absorção, pois os muitos pro-
blemas que aborda não estão explicita-
dos, ocultando-se sob uma simplicidade
enganadora. É isso que explica que a
repercussão inicial da obra tenha sido
modesta. Levou mais de dez anos para
que seu significado tenha penetrado nas
consciências e passado a fecundar um
crescente número de estudos e análises.
Não é exagero dizer que Sraffa possivel-
mente tenha proporcionado um novo
ponto de partida lógico para a análise do
capitalismo, estando a maior parte dos
seus frutos ainda por vir.
A Produção de Mercadorias começa
por construir um quadro do tipo insu-
mo-produto no qual as relações de troca
entre diferentes valores de uso são deter-
minadas por coeficientes técnicos e pela
estrutura da demanda. Mostra a seguir
que, havendo um excedente, mesmo que
se suponha a mesma taxa de lucro em
todos os setores, os preços relativos e
essa taxa de lucro se determinam mutua-
mente. Quando se adiciona o salário ao
sistema, o número de equações é menor
que o de incógnitas, o que significa que
apenas quando é fixado seja o salário
seja o lucro é que os preços relativos se
determinam.
ROBINSON SRAFFA
Na Conferência Internacional de Bretton Woods, em 1944, Keynes apresentou um
plano que propunha o abandono do padrão-ouro, a estabilização internacional
moeda e a criação do Fundo Monetário Internacional, presidido por ele, em
1946. Contudo, o apego dos Estados Unidos ao padrão-ouro tornou impossível
a aplicação de suas sugestões. (Com Henry Morgethau, em Bretton Woods.)
Para demonstrar que, num sistema
abstrato que apresenta as principais
caracteristicas da economia capitalista,
existe um conjunto de relações que
determinam os preços relativos, os salá-
rios e os lucros, Sraffa precisava de-
monstrar que tais quantias são comensu-
ráveis, ou seja, que podem ser reduzidas
ao mesmo denominador. Para resolver
esse problema, Sraffa utilizou um
[aa E LAS :
construto teórico — a mercadoria-
padrão — que se compõe de todas as
mercadorias básicas (isto é, as que en-
tram na produção de outras mercado-
rias) em tal proporção que * 'o produto e
os meios de produção são quantidades
da própria mercadoria composta”. A
mercadoria-padrão tem por caracte-
rística conservar o mesmo preço face a
qualquer variação dos salários ou lu-
cros, o que não se dá com nenhuma mer-
cadoria simples. Esta terá não só seu
custo de trabalho acrescido, se o salário
aumenta, mas os seus eos também
sofrerão aumentos em proporções variá-
veis, conforme a proporção do custo do
trabalho em seus custos totais.
Como essas proporções variam entre
as diversas indústrias, cada mercadoria
será afetada de modo diferente por um
aumento de salários, de modo que no fim
— depois que a alteração salarial tiver
reajustado os preços — mercadorias que
eram mais baratas que outras podem ter
941
Fabbr
OS PENSADORES
As principais teses da revolução
keynesiana foram antecipadas pelo
economista polonês Michael Kalecki,
ue desenvolveu uma teoria da
núâmica económica capitalista.
ficado mais caras, e sucessivamente.
Com a mercadoria-padrão Sraffa des-
cobriu uma espécie de pedra filosofal da
economia, à cuja procura estiveram
Ricardo, Marx e muitos outros: a de
uma medida mvariante do valor. Com
esta sua descoberta, Sraffa mostrou que
uma teoria objetiva do valor é perfeita-
mente possível e se pode, a partir dela,
construir uma visão coerente — embora
complexa — do movimento dos grandes
agregados econômicos e das leis que os
regem. Ele mesmo inicia a aplicação
desta sua teoria ao problema da depre-
ciação do capital fixo, da renda da terra
e do deslocamento dos métodos de
produção.
942
P.A. Interpress Photos
O VALOR-TRABALHO
Na verdade, para Sraffa o “construto”
teórico da mercadoria-padrão é “pura-
mente auxilhar”. Ela lhe serve apenas
para mostrar que a comensurabilidade
das quantias é logicamente possível em
termos de valor, mas este tem como “me-
dida mais tangível” o trabalho. Na ver-
dade, o que Sraffa precisa é de uma me-
dida do valor que permita descontar
preços passados, transformando-os em
valores presentes, já que cada mercado-
ria incorpora uma longa série de outras
mercadorias, que ajudaram a produzi-la.
É preciso pois reduzir essas outras
mercadorias a um valor atual e nesse
processo de redução as mercadorias vão
se dissolvendo até que somente resta
“trabalho datado”. Demonstra Sraffa,
desse modo, que, num sistema em que
mercadorias são produzidas por meio de
mercadorias, os preços relativos, os
salários e os lucros são determinados,
em última análise, pelo tempo de traba-
lho que é gasto na produção dessas
mercadorias.
Verifica-se, pois, que a Teoria do
Valor-Trabalho é a base necessária para
se poder formular teorias consistentes
sobre a alocação de recursos entre os
diferentes ramos de produção sobre a
repartição da renda entre as diferentes
classes sociais, sobre o Nro gresso técnico
e os demais temas cardiais da economia
política. É bom que se diga, no entanto,
que essa reabilitação da teoria do valor-
trabalho não se dá nos termos simplistas
em que seus próprios partidários em
geral a compreendiam e aplicavam. O
cálculo matricial mesmo quando apli-
cado a casos extremamente simplifi-
cados mediante pressupostos heróicos —
a mesma taxa de lucros e o mesmo salá-
rio em todos os ramos — dá resultados
surpreendentes do ponto de vista do
senso comum. O que não dizer de análi-
ses que relaxem esses pressupostos e
tentem realmente penetrar nos meandros
de um sistema capitalista monopólico,
cuja característica é a heterogeneidade
estrutural? Apesar da complexidade da
tarefa, campos fascinantes se abrem ao
pensamento teórico, armado, a partir de
agora, com instrumentos conceituais
muito poderosos.
SRAFFA
Keynes é geralmente considerado como o iniciador de uma revolução contra as
teses da corrente marginalista, mas, na verdade, essa revolta começou em 1926, na
Universidade de Cambridge, com os trabalhos do economista italiano Piero Srafãa.
Suas obras contêm um novo ponto de partida lógico para a análise do
capitalismo. (Srafja, a esquerda, com o primeiro ministro Segni, no centro.)
É interessante considerar que o livro
de Sraffa não somente veio desencadear
olêmicas nos meios marxistas mas tam-
ém animou o diálogo polêmico entre as
duas correntes. A chamada “Contro-
vérsia sobre o capital”, que contrapôs os
autores da escola de Cambridge aos teó-
ricos do Instituto de Tecnologia de
Massachussetts, foi provocada pelo livro
de Sraffa, principalmente quando ele
demonstra que um método de produção
mais intensivo em capital pode substi-
tuir um menos intensivo, mesmo que o
novo sistema implique em um salário
mais elevado. Tal possibilidade parecia
impossível do ponto de vista margina-
lista e levou à descoberta de inconsis-
tências lógicas na própria formulação do
conceito de nal or parte dos margi-
nalistas.
Como se pode ver, a relativa estagna-
ção teórica provocada pelo enrijecimento
doutrinário das duas grandes ortodoxias
acabou sendo superada em boa medida
graças a Keynes, Sraffa, Kalecki e
Robinson. Atualmente a economia polí-
tica está em crise, mas é uma crise muito
saudável, de renascimento, desenca-
deada por uma renovação profunda das
bases do pensamento teórico. Keynes,
Kalecki, Robinson e Sraffa varreram os
escombros do campo e lançaram novos
alicerces, sobre os quais será possíve)
voltar a construir.
943
Adel-Kuptone
1883 - Nasce John Maynard
Keynes, em Cambridge.
1898 - Nasce Piero Srafja.'
1899 - Nasce Michael Ka-
lecki.
1903 - Nasce Joan Robin-
son.
1911 - Keynes passa a diri-
gir o Economic Journal.
1914 - Inicia-se a 1 Guerra
Mundial. O “laissez faire”
econômico é substituído pe-
los planejamentos.
1917 - Estoura a Revolução
Comunista na Rússia e o
marxismo torna-se doutrina
econômica oficial nesse
pais.
1918 - Termina a I Guerra
Mundial e os países capita-
listas tentam voltar ao libe-
ralismo econômico.
1919 - Keynes representa o
Tesouro Britânico na Confe-
rência Internacional de Paz.
1924 - Inicia-se a Nova Po-
litica Econômica na URSS.
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
1926 - Srafja publica um ar-
tigo que sacode os meios
acadêmicos da Economia,
nos países capitalistas.
1929 -“Crack” da Bolsa de
Valores de Nova York cria
pânico nos países capitalis-
tas.
1930 - Surge Treatise on
Money, de Keynes.
1933 - Joan Robinson publi-
ca The Economics of Imper-
fect Competition. Vem à luz
Tentativa de Teoria da Con-
Juntura, de Michael Kalecki.
1934 - Inicia-se nos Estados
Unidos o “New Deal” de
Roosevelt, para fazer frente
à crise econômica.
1936 - Keynes publica Teo-
ria Geral do Emprego, do
Juro e da Moeda.
1939 - Começa a II Guerra
Mundial. Surge Ensaios So-
bre a Teoria das Flutuações
Econômicas, de Michael
Kalecki.
BIBLIOGRAFIA
1940 - Kalecki transfere-se
para Oxford.
1943 - Michael Kalecki pu-
blica Aspectos Políticos do
Pleno Emprego.
1944 - Surge Economia
Marxista de Joan Robinson.
Keynes participa da Confe-
rência Internacional de Bret-
ton Woods.
1945 - Termina a Segunda
Guerra Mundial.
1946 - Kalecki trabalha no
Secretariado da Organiza-
ção das Nações Unidas. O
Fundo Monetário Interna-
cional é presidido por Key-
nes. ;
1956 - Vem à luz Acumula-
ção do Capital de Joan
Robinson.
1960 - Sraffa proporciona
um novo ponto de partida
para a andlise do capitalis-
mo com A Produção de
Mercadorias por Meio de
Mercadorias.
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OS PENSADORES
um dia qua quer de 1940, no lado
espanhol da fronteira entre a Fran-
ça e a Espanha, um funcionário da
alfândega, cumprindo ordens superiores,
impediu a entrada de um grupo de inte-
lectuais alemães que fugia da Gestapo, a
temível corporação nazista. Um dos inte-
grantes do grupo, homem de quarenta e
oito anos de idade, que estampava no
rosto sinais de profunda melancolia, mas
ao mesmo tempo transmitia a Impressão
de um intelecto privilegiado, não resistiu
à tensão psicológica e suicidou-se.
O fato poderia ser visto apenas à luz
da psicologia individual, mas na verdade
transcende esses limites e adquire di-
mensão social e cultural mais ampla. O
intelectual em questão era Walter Benja-
min, um dos principais representantes da
chamada Escola de Frankfurt.
As idéias dessa corrente de pensa-
mento encontram-se, em grande parte, nas
páginas da Revista de Pesquisa Social,
um dos documentos mais importantes
para a compreensão do espírito europeu
do século XX. Seus colaboradores estive-
ram sempre na primeira linha da refle-
xão crítica sobre os principais aspectos
da economia, da sociedade e da cultura
de seu tempo; em alguns casos chegaram
mesmo a participar da militança políti-
ca. Por tudo isso, foram alvo de perse-
guição dos meios conservadores, respon-
sáveis pela ascensão e apogeu dos
totalitários europeus da época.
Fundado em 1924, o Instituto de Pes-
quisas Sociais de Frankfurt, do qual a
Revista era porta-voz, foi obrigado, com
a ascensão ao poder na Alemanha do
nacional-socialismo, em 1933, a transfe-
rir-se para Genebra, depois para Paris,
e, finalmente, para Nova York. Nesta ci-
dade a revista passou a ser publicada
com o título de Estudos de Filosofia e
Ciências Sociais. Com a vitória dos alia-
dos na Segunda Guerra Mundial, os prin-
cipais diretores da revista puderam
regressar à Alemanha e reorganizar o
Instituto em 1950.
Alfred Schmidt, que se dedicou à
investigação da importância e da in-
fluência da Revista de Pesquisa Social,
afirma que nela se fundem, de maneira
Na página anterior: foto do
filósofo Max Horkheimer. (Ullstein).
946
Pd
única, a autonomia intelectual, a análise
crítica e o protesto humanístico. Os cola-
boradores da revista opunham-se aos
periódicos e instituições de caráter aca-
dêmico, desenvolvendo um pensamento
comum nesse sentido, sem que isso, con-
tudo, anulasse interesses e orientações
individuais e, sobretudo, sem que fossem
postas de lado as exigências de rigor
científico. Gian Enrico Rusconi, outro
estudioso da Escola de Frankfurt, chama
a atenção para o fato de que o pensa-
mento desse grupo não pode ser com-
preendido sem ser vinculado à tradição
da esquerda alemã. Para Rusconi, o
significado histórico e político das refle-
x0es encontradas na Revista de Pesquisa
Social reside em sua continuidade em
relação ao marxismo e à ciência social
anticapitalista. Essa posição teórica foi
desenvolvida tendo como pano de fundo
as experiências terríveis e contraditórias
da república de Weimar, do nazismo, do
estalinismo e da guerra fria. Ainda
segundo Rusconi, a “teoria crítica” —
como costuma ser chamado o conjunto
dos trabalhos da Escola de Frankfurt — é
uma expressão da crise teórica e politica
do século XX, refletindo sobre os seus
problemas com uma radicalidade sem
paralelo. Por isso, os trabalhos de seus
pensadores exerceram grande influência,
direta em alguns casos, indireta noutros,
sobre os movimentos estudantis, sobre-
tudo na Alemanha e nos Estados Unidos,
nos fins da década de 60.
A história desse grupo de pensadores
pode ser iniciada com a fundação do Ins-
tituto de Pesquisa Social de Frankfurt,
sob direção de Carl Griinberg, que per-
maneceu no cargo até 1927. Griinberg
abria o primeiro número do Arquivo de
História do Socialismo e do Movimento
Operário (publicação que fundou em
1911), salientando a necessidade de não
se estabelecer privilégio especial para
esta ou aquela concepção, orientação
científica ou opinião de partido. Griún-
berg estava convencido de que qualquer
unidade de pontos de vista entre os cola-
boradores prejudicaria os fins críticos e
intelectuais da própria iniciativa. Poste-
riormente, já na direção da Revista de
Pesquisa Social, ele próprio se conside-
raria um marxista, mas entendendo essa
posição, não em seu sentido apenas
BENJAMIN
PEER Os
pa o TIO ;
=
Samuel Yavelberg
Frankfurt-sobre-o-Meno, na Alemanha, foi sede de um dos mais importantes
dd do século XX. Em torno do Instituto de Pesquisas
Sociais, fundado nessa cidade, em 1924, esse movimento, conhecido como
Escola de Frankfurt, realizou relevantes trabalhos de sociologia, psicologia
social e filosofia. (Edificio central da Universidade de Frankfurt.)
político-partidário, mas em seu signifi-
cado científico; o conceito “marxismo”
servia-lhe para descrição de um sistema
econômico, de uma determinada cosno-
visão e de um método de pesquisa bem
definido. Essa postura inicial de Grún-
berg — vinculada a uma “escola” de
pensamento, mas ao mesmo tempo,
entendendo-a em sua dimensão crítica e
como perspectiva aberta — constitui, de
modo geral, a tônica do pensamento dos
elementos do grupo de Frankfurt.
Entre os colaboradores da Revista,
contam-se figuras muito conhecidas de
um público mais amplo, como Herbert
Marcuse (1898- ), autor de Eros e
Civilização e O Homem Unidimensional
(ou Ideologia da Sociedade Industrial), e
Erich Fromm (1900- ). que se dedi-
cou a estudos de psicologia social, nos
quais procura vincular a psicanálise
criada por Freud (1856-1939) às idéias
marxistas. Outros são menos conheci-
Eai eenet|Ra
dos, como Siegfried Kracauer, autor de
um clássico estudo sobre o cinema ale-
mão (De Caligari a Hitler), ou Leo
Lówenthal, que se dedicou a reflexões
estéticas e de sociologia da arte. Ao
grupo da Revista pertenceram também
Wittfogel, F. Pollock e Grossmann, auto-
res de importantes estudos de economia
política.
Os homens e as obras
Entre todos os elementos vinculados
ao grupo de Frankfurt, salientam-se, por
razões diversas, os nomes de Walter
Benjamin, Theodor Wiesengrund-
Adorno e Max Horkheimer, aos quais se
pode ligar o pensamento de Júrgen
Habermas. Esses autores formaram um
grupo mais coeso e em suas obras encon-
tra-se um pensamento dotado de maior
unidade teórica.
Os traços biográficos e o perfil huma-
947
OS PENSADORES
As obras de Herbert Marcuse (esquerda), um dos integrantes da Escola de
Frankfurt, influenciaram profundamente os movimentos estudantis de
contestação, nos anos sessenta, nos Estados Unidos. Gyórgy Lukács não
pertenceu ao grupo de Frankfurt, mas muitas de suas reformulações do
marxismo foram retomadas pelo pensamento de Benjamin e de Adorno.
no de Walter Benjamin são os mais
conhecidos entre esses quatro pensado-
res de Frankfurt; sua morte, quando era
ainda relativamente moço (48 anos) e em
circunstâncias trágicas, deixou marca
indelével entre os amigos, fazendo com
que surgissem muitos depoimentos sobre
sua vida e sobre sua personalidade. Para
Adorno, Walter Benjamin era a persona-
lidade mais enigmática do grupo, seus
interesses eram frequentemente contra-
ditórios e sua conduta oscilava entre a
intransigência quase ríspida e a polidez
oriental. Essa maneira de ser aparentava
mais o temperamento vibrante de um
artista do que a tranquilidade e a frieza
racional, normalmerite esperadas de um
filósofo. Seu pensamento parecia nascer
de um impulso de natureza artística,
que, transformado em teoria — como diz
ainda Adorno — “liberta-se da aparência
e adquire incomparável dignidade: a
promessa de felicidade”.
Outro depoimento que enriquece de
significados o perfil ntelectual e huma-
no de Walter Benjamin é o de Gerschom
948
Scholem, seu companheiro desde a ju-
ventude. Scholem o conheceu na prima-
vera de 1915, quase um ano após o co-
meço da Primeira Guerra Mundial, e
relata que nessa época ficou impressio-
nado com a profunda sensação de melan-
colia de que o amigo parecia estar
permanentemente possuído.
Walter Benjamin nasceu em Berlim,
em 1892, de ascendência israelita. Seus
estudos superiores foram iniciados em
1913 e realizados em várias universi-
dades, nas quais sempre exerceu intensa
atividade política e cultural entre os
colegas. Em 1917, casou-se e passou a
viver em Berna (Suiça), em cuja universi-
dade apresentou uma dissertação acadê-
mica, intitulada O Conceito de Crítica de
Arte no Romantismo Alemão. Em 1921,
publicou uma tradução dos Quadros
Parisienses de Baudelaire (1821-1867)
e no ano seguinte o poeta e dramaturgo
Hugo von Hofmannsthal (1874-1929) o
convidou para publicar na revista que
dirigia (Novas Contribuições Alemãs)
seu primeiro grande ensaio, As “Afini-
E e a SE TD mp rt PO A rei rerr a aarier R TP y ET a 1 A T n Ta m mt A rair ESA a em e a a aa A Ri Fe r a e NE aa mm m A
BENJAMIN
É possível estabelecer uma relação entre a “teoria crítica” de Horkheimer,
um dos principais componentes do grupo de Frankfurt, e a revolução teatral
realizada por Brecht. Tanto uma quanto outra procura elaborar uma forma
superior de apreensão da realidade e, sobretudo, um instrumento de mudança
social. (Brecht, por Rudolph Schlichter; Galeria Municipal de Mônaco.)
949
Es EM ES So SAS ES
OS PENSADORES
Durante algum tempo, Walter Benjamin
viveu em Berna, Suíça, em cuja
universidade apresentou sua tese de
graduação sobre a Noção de Critica
de Arte no Primeiro Romantismo.
dades Eletivas” de Goethe. Em 1928,
Walter Benjamin viu truncadas suas
esperanças de uma carreira universi-
tária, quando a universidade de Frank-
furt recusou sua tese As Origens da Tra-
gédia Barroca na Alemanha. Para
assegurar a sobrevivência, passou então
a dedicar-se à crítica jornalística e a
traduções escrevendo, ao lado dessas
atividades, numerosos ensaios, Nessa
época, fez uma das mais perfeitas tradu-
ções em lingua alemã que se conhecem:
À Procura do Tempo Perdido, de Proust
(1871-1922). Além disso, projetou uma
grande obra de filosofia da história, cujo
título deveria ser Paris, Capital do Sécu-
lo XIX, obra que ficou incompleta. A dé-
ada de 1930 trouxe-lhe outros infortú-
nios: seus pais faleceram, teve que
divorciar-se da esposa e viu ascender o
totalitarismo nazista. Sob a ditadura de
Hitler, ainda conseguiu publicar alguns
trabalhos menores, recorrendo ao dis-
950
Fabbri
farce de pseudônimos. Em 1935, foi
obrigado a refugiar-se em Paris, onde os
dirigentes emigrados do Instituto de
Pesquisas Sociais de Frankfurt recebe-
ram-no como um dos seus colaboradores
e deram-lhe condições para escrever al-
guns de seus mais importantes traba-
lhos: 4 Obra de Arte na Época de suas
Técnicas de Reprodução, Alguns Temas
Baudelairianos, O Narrador, Homens
Alemães. Finalmente veio a falecer na
fronteira entre Espanha e França, em
circunstâncias dramáticas.
Theodor Wiesengrund-Adorno nasceu
em 1903, em Frankfurt, cidade onde fez
seus primeiros estudos e em cuja univer-
sidade se graduou em filosofia. Em
Viena, estudou composição musical com
Alban Berg (1885-1935), um dos maio-
res expoentes da revolução musical do
século XX. Em 1932, escreveu o ensaio 4
Situação Social da Música, tema de imú-
meros outros estudos: Sobre o Jazz
(1936), Sobre o Caráter Fetichista da
Música e a Regressão da Audição
(1938), Fragmentos Sobre Wagner
(1939) e Sobre Música Popular
(1940-1941). Em 1933, com a tomada
do poder pelos nazistas, Adorno foi obri-
gado a refugiar-se na Inglaterra, onde
passou a lecionar na Universidade Ox-
ford, ali permanecendo até 1937. Nesse
ano, transferiu-se para os Estados Uni-
dos, onde escreveria, em colaboração
com Horkheimer, a obra Dialética do
Huminismo (1947). Foi também nos
Estados Unidos que Adorno realizou, em
colaboração com outros pesquisadores,
um estudo considerado posteriormente
como um modelo de sociologia empírica:
A Personalidade Autoritária. Esta obra
foi publicada em 1950, ano em que
Adorno pôde regressar à terra natal e
reorganizar o Instituto de Pesquisas
Sociais de Frankfurt. Entre outras obras
publicadas por Adorno, antes de sua
morte ocorrida em 1969, salientam-se
anda Para a Metacrítica da Teoria do
Conhecimento - Estudos Sobre Husserle
as Antinomias Fenomenológicas (1956),
Dissonâncias (1956), Ensaios de Litera-
tura 1, Ile III (1958 a 1965), Dialética
Negativa (1966), Teoria Estética (1968)
e Três Estudos Sobre Hegel (1969).
Max Horkheimer, o principal diretor
da Revista de Pesquisa Social, desde o
ADORNO - HORKHEIMER -HABERMAS
Samuel Yavelbera
Característico da Escola de Frankfurt é o fato de considerável parte de seus
trabalhos terem sido feitos coletivamente. Essa característica encontra-se,
particularmente, em Theodor Adorno e Max Horkheimer, que escreveram juntos,
entre outras obras, Dialética do Iluminismo. (Retrato de Adorno, à esquerda,
e de Horkheimer, desenhados por Hans Scheil; Museu Histórico de Frankfurt.)
afastamento de Griúnberg nos fins da dé-
cada de 20, nasceu em Stuttgart, a 114 de
fevereiro de 1895 e faleceu em Nurem-
berg, a 9 de julho de 1973. Em 1930,
tornou-se professor em Frankfurt, onde
permaneceu até 1934, quando teve que
se refugiar, como os demais companhei-
ros. Nesse ano transferiu-se para os
Estados Unidos, passando a lecionar na
Universidade de Colúmbia. Nos Estados
Unidos, Horkheimer permaneceu até
1949, ano em que pôde regressar a
Frankfurt e reorganizar o Instituto de
Pesquisas Sociais, com Adorno.
A maior parte dos escritos de Hork-
heimer encontra-se nas páginas da Re-
vista de Pesquisa Social. Entre os mais
importantes contam-se: Ínícios da Filo-
sofia Burguesa da História (1930), Um
Novo Conceito de Ideologia (1930),
Materialismo e Metafísica (1933), Mate-
rialismo e Moral (1933), Sobre a Polêé-
mica do Racionalismo na Filosofia Atual
(1934), O Problema da Verdade (1935),
O Ultimo Ataque à Metafisica (1937), e
Teoria Tradicional e Teoria Crítica
(1937).
Jiúrgen Habermas é considerado um
herdeiro direto da escola de Frankfurt.
Nascido em 1929, em Gummersbach,
Habermas licenciou-se em 1954, com
um trabalho sobre Schelling
(1775-1854), intitulado O Absoluto e a
História. De 1956 a 1959, colaborou
estreitamente com Adorno no Instituto
de Pesquisa Social de Frankfurt. Em
1968, transferiu-se para Nova York, pas-
sando a lecionar na New Yorker New
School for Social Research. Entre suas
obras principais, contam-se Entre a Filo-
sofia e a Ciência - O Marxismo como Crí-
tica (1960), Reflexões Sobre o Conceito
de Participação Pública (publicado em
1961, juntamente com trabalhos de ou-
tros autores, com o título geral de O
Estudante e a Política), Evolução Estru-
951
Samuel Yavelberg
OS PENSADORES
Adorno é considerado um dos grandes musicólogos do século XX, tendo escrito
inúmeras obras, tanto sobre música erudita quanto sobre música nas
Aluno de Alban Berg, um dos maiores expoentes da música atona
Adorno
chegou mesmo a compor algumas partituras. No desenho acima, de B. F. Doblin,
véem-se Alban Berg e Arnold Schônberg, num ensaio do Quarteto Kolisch.
tural da Vida Pública (1962), Teoria e
Práxis (1963), Lógica das Ciências
Sociais (1967), Técnica e Ciência como
Ideologia (1968), e Conhecimento e Inte-
resse (1968).
Cinema e revolução
Os múltiplos interesses dos pensado-
res de Frankfurt e o fato de não consti-
tuírem uma escola no sentido tradicional
do termo, mas uma postura de análise
crítica e uma perspectiva aberta para
todos os problemas da cultura do século
XX, torna dificil a sistematização de seu
pensamento. Pode-se, no entanto, salien-
tar alguns de seus temas, chegando-se a
compor um quadro de suas principais
idéias. De Walter Benjamin, devem-se
destacar reflexões sobre as técnicas de
reprodução da obra de arte, particular-
952
mente do cinema, e as consequências
sociais e políticas resultantes; de Ador-
no, o conceito de “indústria cultural” e a
função da obra de arte; de Horkheimer,
os fundamentos epistemológicos da posi-
ção filosófica de todo o grupo de Frank-
furt, tal como se encontram formulados
em sua “teoria critica”; e, finalmente, de
Habermas, as idéias sobre a ciência e a
técnica como ideologia.
Walter Benjamin tinha seu ensaio 4
Obra na Epoca de suas Técnicas de
Reprodução na conta de primeira grande
teoria materialista da arte. O ponto cen-
tral desse estudo encontra-se na análise
das causas e consequências da destrui-
ção da “aura” que envolve as obras de
arte, enquanto objetos individualizados
e únicos. Com o progresso das técnicas
de reprodução, sobretudo do cinema, a
aura, dissolvendo-se nas várias reprodu-
Fabbri
HABERMAS
Fabbri
Para Brecht. “a primeira perda real que Hitler inflingiu à cultura alemã”
foia morte de Walter Benjamin, que se suicidou por temor de ser
encarcerado pela Gestapo. Para Ps Scholen, a qualidade do estilo de
Benjamin, aliada a um pensamento profundo, “fazia de seus escritos
verdadeiras obras primas”. (Foto de Benjamin: Biblioteca Estadual, Berlim.)
953
OS PENSADORES
ções do original, destituiria a obra de
arte de seu status de raridade. Para Ben-
jamin, a partir do momento em que a
obra fica excluída da atmosfera aristo-
crática e religiosa, que fazem dela uma
coisa para poucos e um objeto de culto, a
dissolução da aura atinge dimensões
sociais. Essas dimensões seriam resul-
tantes da estreita relação existente entre
as transformações técnicas da sociedade
e as modificações da percepção estética.
A perda da aura e as consequências
sociais resultantes desse fato são parti-
cularrhente sensíveis no cinema, no qual
a reprodução de uma obra de arte carre-
ga consigo a possibilidade de uma radi-
cal mudança qualitativa na relação das
massas com a arte. Embora o cinema —
diz Walter Benjamin — exija o uso de
toda a personalidade viva do homem,
este priva-se de sua aura. Se, no teatro, a
aura de um Macbeth, por exemplo, liga-
se indissoluvelmente à aura do ator que
o representa, tal como essa aura € senti-
da pelo público, o mesmo não acontece
no cinema, no qual a aura dos intérpretes
desaparece com a substituição do pú-
blico pelo aparelho. Na medida em que o
ator se torna acessório da cena, não é
raro que os próprios acessórios desem-
penhem o papel de atores.
Benjamin considera ainda que a natu-
reza vista pelos olhos difere da natureza
vista pela câmara, e esta, ao substituir o
espaço onde o homem age consciente-
mente por outro onde sua ação é incons-
ciente, possibilita a experiência do in-
consciente visual, do mesmo modo que a
prática psicanalítica possibilita a expe-
riência do inconsciente instintivo. Exi-
bindo, assim, a reciprocidade de ação
entre a matéria e o homem, o cinema
seria de grande valia para um pensa-
mento materialista. Adaptado adequada-
mente ao proletariado que se prepararia
para tomar o poder, o cinema tornar-se-
ia, em consegiiência, portador de uma
extraordinária esperança histórica.
Em suma, a análise de Benjamin mos-
tra que as técnicas de reprodução das
obras de arte, provocando a queda da
aura, promovem a liquidação do ele-
mento tradicional da herança cultural;
mas, por outro lado, esse processo con-
tém um germe positivo, na medida em
que possibilita um outro relacionamento
954
das massas com a arte, dotando-as de
um instrumento eficaz de renovação das
estruturas. Trata-se de uma postura oti-
mista, que foi objeto de reflexão crítica
por parte de Adorno.
A indústria cultural
Para Adorno, a postura otimista de
Benjamin no que diz respeito à função
possivelmente revolucionária do cinema
desconsidera certos elementos funda-
mentais, que desviam sua argumentação
para conclusões ingênuas. Embora de-
vendo a maior parte de suas reflexões a
Benjamin, Adorno procura mostrar a
falta de sustentação de suas teses, na
medida em que elas não trazem à luz o
antagonismo que reside no próprio inte-
rior do conceito de “técnica”. Segundo
Adorno, passou despercebido a Benja-
min que a técnica se define em dois ni-
veis: primeiro “enquanto qualquer coisa
determinada intra-esteticamente” e, se-
gundo, “enquanto desenvolvimento exte-
rior às obras de arte”. O conceito de téc-
nica não deve ser pensado de maneira
absoluta: ele possui uma origem histó-
rica e pode desaparecer. Ao visarem à
produção em série e à homogeneização,
as técnicas de reprodução sacrificam a
distinção entre o caráter da própria obra
de arte e o do sistema social. Por conse-
guinte, se a técnica passa a exercer
imenso poder sobre a sociedade, tal
ocorre, segundo Adorno, graças, em
grande parte, ao fato de que as
circunstâncias que favorecem tal poder
são arquitetadas pelo poder dos econo-
micamente mais fortes sobre a própria
sociedade. Em decorrência, a racionali-
dade da técnica identifica-se com a
racionalidade do próprio dominio. Essas
considerações evidenciariam que, não só
o cinema, como também o rádio, não
devem ser tomados como arte. “O fato de
não serem mais que negócios — escreve
Adorno — basta-lhes como ideologia.”
Enquanto negócios, seus fins comerciais
são realizados por meio da sistemática e
programada exploração de bens conside-
rados culturais. Tal exploração Adorno
chama de “indústria cultural”.
O termo, foi empregado pela primeira
vez em 1947, quando da publicação da
Dialética do Iluminismo, de Horkheimer
E = a cê
HABERMAS-ADORNO
Em Dialética do Iluminismo, Adorno, de parceria com Horkheimer, desenvolve
a tese de que a ciência e a tecnologia dela resultante fizeram supor que
as mesmas pudessem contribuir para a felicidade humana, mas o que ocorreu
realmente foi o aparecimento de uma nova forma de mistificação, um verdadeiro
“antiluminismo”. (Retrato de Adorno; Interfoto Friedrich Ranch, Mônaco.)
955
MES =
OS PENSADORES
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E E mato:
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Mais do gu disque outros pensadores do século XX, os colaboradores do
e
Instituto
Pesquisas Sociais de Frankfurt endereçaram suas reflexões
a um dos aspectos mais típicos da cultura contemporânea: a chamada
“cultura de massa”. Principalmente Adorno e Horkheimer dedicaram inúmeros
escritos a esse tema. (Edifício do Instituto de Pesquisas Sociais.)
e Adorno. Este último, numa série de
conferências radiofônicas, pronunciadas
em 1962, explicou que a expressão “in-
dústria cultural” visa a substituir “cul-
tura de massa”, pois esta induz ao engo-
do que satisfaz os interesses dos
detentores dos veículos de comunicação
de massa. Os defensores da expressão
“cultura de massa” querem dar a enten-
der que se trata de algo como uma cultu-
ra surgindo espontaneamente das pró-
prias massas. Para Adorno, que diverge
frontalmente dessa interpretação, a in-
dústria cultural, ao aspirar à integração
vertical de seus consumidores, não ape-
nas adapta seus produtos ao consumo
das massas, mas, em larga medida,
determina o próprio consumo. Interes-
sada nos homens apenas enquanto consu-
midores ou empregados, a indústria cul-
tural reduz a humanidade, em seu
conjunto, assim como cada um de seus
elementos, às condições que representam
956
seus Interesses. A indústria cultural traz
em seu bojo todos os elementos caracte-
rísticos do mundo industrial moderno e
nele exerce um papel específico, qual
seja, o de portadora da ideologia domi-
nante, a qual outorga sentido a todo o
sistema. Aliada à ideologia capitalista, e
sua cúmplice, a indústria cultural contri-
bui eficazmente para falsificar as rela-
ções entre os homens, bem como dos ho-
mens com a natureza, de tal forma que o
resultado final constitui uma espécie de
antiluminismo. Considerando-se — diz
Adorno — que o iluminismo tem como
finalidade libertar os homens do medo,
tornando-os senhores e liberando o
mundo da magia e do mito, e admitindo-
se que essa finalidade pode ser atingida
por meio da ciência e da tecnologia, tudo
levaria a crer que o iluminismo instau-
raria o poder do homem sobre a ciência e
sobre a técnica. Mas ao invês disso,
liberto do medo mágico, o homem tor-
Samuel Yavelberq
ADORNO
Em Dialética Negativa, Theodor Adorno afirma: “Sem o pensamento da liberdade,
seria impossível justificar teoricamente a sociedade organizada”. Em larga
medida, essa frase sintetiza o pensamento que orientou todas as suas
reflexões, desde seus trabalhos como musicólogo até suas teses políticas.
(Escritório de Adorno, no Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt.)
nou-se vítima de um novo engodo: o pro-
gresso da dominação técnica. Esse pro-
gresso transformou-se em poderoso
instrumento utilizado pela indústria cul-
tural para conter o desenvolvimento da
consciência das massas. A indústria cul-
tural — nas palavras do próprio Adorno
“impede a formação de indivíduos
autônomos, independentes, capazes de
Julgar e de decidir conscientemente”. O
róprio ócio do homem é utilizado pela
indústria cultural com o fito de mecani-
zá-lo, de tal modo que, sob o capita-
lismo, em suas formas mais avançadas, a
diversão e o lazer tornam-se um prolon-
gamento do trabalho. Para Adorno, a
diversão é buscada pelos que desejam
esquivar-se ao processo de trabalho
mecanizado para colocar-se, novamente,
em condições de se submeterem a ele. A
mecanização conquistou tamanho poder
sobre o homem, durante o tempo livre, e
sobre sua felicidade. determinando tão
completamente a fabricação dos produ-
tos para a distração, que o homem não
tem acesso senão a cópias e reproduções
do próprio trabalho. O suposto conteúdo
não é mais que uma pálida fachada; o
que realmente lhe é dado é a sucessão
automática de operações reguladas. Em
suma, diz Adorno, “só se pode escapar
ao processo de trabalho na fábrica e na
oficina, adequando-se a ele no ócio”.
Tolhendo a consciência das massas e
instaurando o poder da mecanização
sobre o homem, a indústria cultural cria
condições cada vez mais favoráveis para
a implantação de seu comércio fraudu-
lento, no qual os consumidores são conti-
nuamente enganados em relação ao que
lhes é prometido mas não cumprido.
Exemplo disso encontra-se nas situações
eróticas apresentadas pelo cinema.
Nelas, o desejo suscitado ou sugerido
pelas imagens, ao invés de encontrar
uma satisfação correspondente à pro-
9571
Samuel! Yavelberg
OS PENSADORES
messa nelas envolvida, acaba sendo
satisfeito com o simples elogio da rotina.
Não conseguindo, como pretendia, esca-
par a esta última, o desejo divorcia-se de
sua realização, que sufocada e transfor-
mada em negação converte o próprio de-
sejo em privação. A indústria cultural
não sublima o a sexual, como nas
verdadeiras obras de arte, mas o reprime
e sufoca. Ao expor sempre como novo o
objeto do desejo (o seio sob o suéter ou o
dorso nu do herói desportivo), a indús-
tria cultural não faz mais que excitar o
prazer preliminar não sublimado que,
pelo hábito da privação, converte-se em
conduta masoquista. Assim, prometer e
não cumprir, ou seja, oferecer e privar,
são um único e mesmo ato da indústria
cultural. A situação erótica, conclui
Adorno, une “à alusão e à excitação, a
advertência precisa de que não se deve,
Jamais, chegar a esse ponto”. Tal adver-
tência evidencia como a dusteia cultu-
ral administra o mundo social.
Criando “necessidades” ao consumi-
dor (que deve contentar-se com o que lhe
é oferecido), a indústria cultural organi-
za-se para que ele compreenda sua con-
dição de mero consumidor, ou seja, ele é
apenas e tão-somente um objeto daquela
indústria. Desse modo, instaura-se a
dominação natural e ideológica. Tal
dominação, como diz Max Jiménez,
comentador de Adorno, tem sua mola
motora no desejo de posse constante-
mente renovado pelo progresso técnico e
científico, e sabiamente controlado pela
indústria cultural. Nesse sentido, o uni-
verso social, além de configurar-se como
um universo de “coisas”, constituiria um
espaço hermeticamente fechado. Nele,
todas as tentativas de liberação estão
condenadas ao fracasso.
Contudo, Adorno não desemboca
numa visão inteiramente pessimista, e
procura mostrar que é possível encon-
trar-se uma via de salvação. Esse tema
aparece desenvolvido em sua última
ra, intitulada Teoria Estética.
Arte e práxis
Em Teoria Estética — nas palavras do
comentador Kothe — “Adorno oscila
entre negar a possibilidade de produzir
arte depois de Auschwitz e buscar nela
958
refúgio ante um mundo que o chocava,
mas que ele não podia deixar de olhar e
denominar”. Essa postura foi extrema-
mente criticada pelos movimentos de
contestação radical, que o acusavam de
buscar refúgio na pura teoria ou na cria-
ção artística, esquivando-se assim da
práxis política. A seus detratores, Ador-
no responde que, embora plausível para
muitos, o argumento de que contra a
totalidade bárbara não surtem efeito
senão os meios bárbaros, na verdade não
releva que, apesar disso, atinge-se um
valor limite. A violência que há cin-
quenta anos podia parecer legítima
aqueles que nutrissem a esperança abs-
trata e a ilusão de uma transformação
total, está, após a experiência do nazis-
mo e do horror estalinista, Inextrica-
velmente imbricada naquilo que deveria
ser modificado: “ou a humanidade re-
nuncia à violência da le: de talião, ou a
pretendida práxis política radical renova
o terror do passado”
Criticando a práxis brutal da sobrevi-
vência, a obra de arte, para Adorno,
apresenta-se, socialmente, como antitese
da sociedade, cujas antinomias e antago-
nismos nela reaparecem como problemas
internos da sua forma. Por outro lado,
entre autor, obra e público, a obra
adquire prioridade epistemológica, afir-
mando-se como ente autônomo. Esse
duplo caráter vincula-se à própria natu-
reza desdobrada da arte, que se constitui
como aparência. Ela é aparência por sua
diferença em relação à realidade, pelo
caráter aparente da realidade que pre-
tende retratar, pelo caráter aparente do
espírito do qual ela é uma manifestação; a
arte é até mesmo aparência de si própria
na medida em que pretende ser o que não
pode ser: algo perfeito num mundo
imperfeito, por se apresentar como um
ente definitivo, quando na verdade é algo
feito e tornado como é.
Ciência e totalitarismo
A expressão “teoria crítica” é empre-
gada para designar o conjunto das
concepções da Escola de Frankfurt.
Horkheimer delineia seus traços princi-
pais, tomando como ponto de partida o
marxismo e opondo-se Aquilo que ele
designa pela expressão “teoria tradicio-
E
ADORNO - HORK HE IMER
nal”. Para Horkheimer, o típico da teo- LS a
ria marxista é, por um lado, não preten- Srta: j
der. qualquer visão concludente da PSA qua e
totalidade, e, por outro, preocupar-se =
com o desenvolvimento concreto do té
pensamento. Desse modo, as categorias
=
marxistas não são entendidas como con- & THEODOR W. ADOR NO
4
“q
ceitos definitivos, mas como indicações ? U.SEPTEMBER 1903
para investigações ulteriores, cujos re- e
sultados retroajam sobre elas próprias. - AUGUST 1969
Quando se vale, nos mais diversos con- o =.
textos, da expressão “materialismo” | MARGARETE ADORNO
Horkheimer não repete ou transcreve GEBKARPLUS
simplesmente o material codificado nas
obras de Marx e Engels, mas reflete esse
materialismo segundo a óptica dos mo-
mentos subjetivos e objetivos que devem
entrar na interpretação desses autores.
Por teoria tradicional Horkheimer
entende uma certa concepção de ciência,
resultante de um longo processo de
desenvolvimento que remonta ao Dis-
curso do Método de Descartes
(1596-1650). Descartes — diz Horkhei-
mer — fundamentou o ideal de ciência
como sistema dedutivo, no qual todas as
proposições referentes a determinado
campo deveriam ser ligadas de tal modo
ue a maior parte delas pudesse ser deri-
vada de algumas poucas. Estas forma-
riam os princípios gerais que tornariam
mais completa a teoria, quanto menor
fosse seu número. À exigência funda-
mental dos sistemas teóricos construidos
dessa maneira seria a de que todos os
elementos assim ligados o fossem de
modo direto e não contraditório, trans-
formando-se em um puro sistema mate-
mático de signos. Por outro lado, a teo-
ria tradicional | encontrou amplas
justificativas para um tal tipo de ciência
no fato de que os sistemas assim cons-
truídos são extremamente aptos à utili-
zação operativa, isto é, sua aplicabi-
lidade prática é muito vasta.
Horkheimer adrnite a legitimidade e a
validez de uma tal concepção, reconhe-
cendo o quanto ela contribuiu para o
controle técnico da natureza, transfor-
mando-se, como diz Marx, em “força
produtiva imediata”. Mas o reverso da
fo. 3UNI 1962 ;
moeda é negativo. Para Horkheimer, o Theodor Wiesengrund-Adorno faleceu
trabalho do especialista, dentro dos mol- em 1969, aos sessenta e trés anos de
des da teoria tradicional, realiza-se idade. Seus restos mortais jazem, ao
desvinculado dos demais, permanecendo lado dos de sua mãe, no Cemitério
alheio à conexão global dos setores da Central de Frankfurt-sobre-o-Meno.
959
OS PENSADORES
Nascido em 1929, Júrgen Habermas realizou sua formação universitária no
período de redemocratização da Alemanha, logo ana o término da Segunda
e
Guerra Mundial. Dentro do espírito da escola
Frankfurt, suas obras
analisam, sobretudo, os problemas decorrentes das vinculações entre ciência,
técnica e economia política. (Habermas em seu gabinete de estudos nos E.U.A.)
produção. Nasce assim a aparência ideo-
lógica de uma autonomia dos processos
de trabalho, cuja direção deve ser dedu-
zida de uma natureza interna de seu
objeto. O pensamento cientifista conten-
ta-se com a organização da experiência,
a qual se dá sobre a base de determi-
nadas atuações sociais, mas 0 que estas
significam para o todo social não entra
nas categorias da “teoria tradicional”.
Em outros termos, a teoria tradicional
não se ocupa da gênese social dos pro-
blemas, das situações reais nas quais a
ciência é usada e dos escopos para os
uais é usada. Chega-se, assim, ao para-
à de que a ciência tradicional, exata-
mente porque pretende o maior rigor —
para que seus resultados alcancem a
maior aplicabilidade prática — acaba
por se tornar muito mais abstrata, muito
mais estranha à realidade (enquanto
conexão mediatizada da práxis global
de uma época) do que a teoria crítica.
960
Esta, dando relevância social à ciência,
não conclui que o conhecimento deva ser
pragmático; ao contrário, favorece a
reflexão autônoma, segundo a qual a
verificação prática de uma idéia e sua
verdade não são coisas idênticas.
A teoria crítica ultrapassa, assim, o
subjetivismo e o realismo da concepção
positivista, expressão mais acabada da
teoria tradicional. O subjetivismo, se-
gundo Horkheimer, apresenta-se nitida-
mente quando os positivistas conferem
preponderância explicita ao meêtodo,
desprezando os dados em favor de uma
estrutura anterior que os enquadraria.
Por outro lado, mesmo quando os positi-
vistas atribuem maior peso aos dados,
estes acabam sendo selecionados pela
metodologia utilizada. E esta atribui
maior Re a determinados aspectos
dos dados, em detrimento de outros.
A teoria crítica, ao contrário, pretende
ultrapassar tal subjetivismo, visando a
Associated Press
E E E
HORKHEIMER
arm
Habermas considera uma ilusão pretender-se elaborar uma ciência pura. Nesse
sentido, suas obras procuram mostrar as raízes humanas mais profundas do
trabalho cientifico, trazendo à tona os interesses que subjazem ao
desenvolvimento das ciências. Suas teses têm exercido considerável
influência junto aos universitários norte-americanos. (Habermas e alunos.)
descobrir o conteúdo cognoscitivo da
práxis histórica. Os fatos sensíveis, por
exemplo, vistos pelos positivistas como
possuidores de um valor irredutível, são,
para Horkheimer, “prê-formados social-
mente de dois modos: pelo caráter histó-
rico do objeto percebido e pelo caráter
histórico do órgão que percebe”.
Outros elementos de critica ao positi-
vismo, sobretudo os aspectos políticos
nele envolvidos, encontram-se em uma
conferência de Horkheimer, em 1951,
com o título Sobre o Conceito de Razão.
Nessa conferência, ele afirma que o posi-
tivismo caracteriza-se por conceber um
tipo de razão subjetiva, formal e instru-
mental, cujo único critério de verdade é
seu valor operativo, ou seja, seu papel na
dominação do homem e da natureza.
Desse ponto de vista, os conceitos não
mais expressam, como tais, qualidades
das coisas, mas servem apenas para a
organização de um material do saber
para aqueles que podem dispor habitual-
mente dele; assim, os conceitos: são
considerados como meras abreviaturas
de muitas coisas singulares, como fic-
ções destinadas a melhor sujeitá-las: já
não são subjugados mediante um duro
trabalho concreto, teórico e político, mas
explicados abstrata e sumariamente,
através daquilo que se poderia chamar
um decreto filosófico. Dentro dessas
coordenadas, a razão desembaraça-se da
reflexão sobre os fins e torna-se incapaz
de dizer que um sistema político ou eco-
nômico é irracional. Por cruel e despó-
tico que ele possa ser, contanto que fun-
clone, a razão positivista o aceita e não
deixa ao homem outra escolha a não ser
a resignação. A teoria justa, ao contrário
— escreve Horkheimer -—, “nasce da
consideração dos homens, de tempos em
tempos, vivendo sob condições determi-
nadas e que conservam sua própria vida
com a ajuda dos instrumentos de traba-
961
| E ES
Associated Press
OS PENSADORES
lho”. Ao considerar que a existência so-
cial age como determinante da consciên-
cia, a teoria critica não está anunciando
sua visão do mundo, mas diagnosticando
uma situação que deveria ser superada.
Em suma, a teoria crítica de Horkheia-
mer pretende que os homens protestem
contra a aceitação resignada da ordem
totalitária. A “razão polêmica” de Hork-
heimer, ao se opor à razão instrumental e
subjetiva dos positivistas, não evidencia
somente uma divergência de ordem teó-
rica. Ao tentar superar a razão formal
positivista, Horkheimer não visa a supri-
mir a discórdia entre razão subjetiva e
objetiva através de um processo pura-
mente teórico. Essa dissociação somente
desaparecerá quando as relações entre
os seres humanos, e destes com a nature-
za, vierem a configurar-se de maneira
diversa da que se instaura na dominação.
A união das duas razões exige o trabalho
da totalidade social, ou seja, a práxis
histórica.
Tecnicismo e ideologia
Júrgen Habermas desenvolve sua teo-
ria no mesmo sentido de Horkheimer.
Para ele, a teoria deve ser crítica, enga-
jada nas lutas políticas do presente, e
construir-se em nome do futuro revolu-
cionário para o qual trabalha; é exame
teórico e crítico da ideologia, mas tam-
bém crítica revolucionária do presente.
O projeto filosófico de Habermas pode
ser sintetizado em termos de uma crítica
do positivismo e, sobretudo, da ideolo-
gia dele resultante, ou seja, o tecnicismo.
Para Habermas, o tecnicismo é a ideolo-
gia que consiste na tentativa de fazer
funcionar na prática, e a qualquer custo,
o saber científico e a técnica que dele
possa resultar. Nesse sentido, pode-se
falar de um imbricamento entre ciência e
técnica, pois esta, embora dependa da
primeira, retroage sobre ela, determi-
nando seus rumos. Essa vinculação, mos-
tra Habermas, é particularmente sensi-
vel nos Estados Unidos (na URSS, por
suposição ocorreria algo análogo), onde
a Secretaria de Defesa e a NASA são os
mais importantes comanditários em ma-
téria de pesquisa científica. Na medida
em que se considera o complexo militar-
industrial, particularmente observável
962
nos Estados Unidos, e na medida em que
se releva aquela comandita, tem-se como
consequência um novo complexo que
poderia ser referido como complexo
ciência-têcnica-indústria-exêrcito- admi-
nistração. Nesse complexo, o pro-
cesso de mútua vinculação entre ciência
e técnica amplia-se, tornando-se um pro-
cesso generalizado de realimentação
reciproca que Habermas compara a um
sistema de vasos comunicantes. Desse
modo, ciência e técnica tornam-se a pri-
meira força produtiva, subordinando
todas as demais. Para Habermas, “são
os cientistas e os técnicos que, graças a
seu saber daquilo que ocorre num mundo
não vivido de abstrações e de deduções,
adquiriram imensa e crescente potência
(...), dirigindo e modificando o mundo
no qual os homens possuem, simultanea-
mente, o privilégio e a obrigação de vive-
rem”. Assim, esse contexto, não apenas
Ee enicos -científico, mas também econômi-
co-político, passa a ser a conotação da
técnica. Nesse sentido, o autor ataca a
ilusão objetivista das ciências. Contra a
ilusão da teoria pura, Habermas procura
trazer à tona as raizes antropológicas da
prática teórico-científica e evidenciar os
mteresses, que estão no princípio do
conhecimento, particularmente do co-
nhecimento científico.
No plano da filosofia social, Haber-
mas critica o objetivismo ontológico e
contemplativo da filosofia teórica tradi-
cional. Para ele, em nenhum caso a filo-
sofia poderia ser propriamente uma ciên-
cia exata, e as pretensões que ela pode (e
poderá) manifestar nesse sentido não
fazem senão testemunhar sua contami-
nação pelo objetivismo positivista das
ciências; nesse contexto ela não é mais
que uma especialidade entre outras, no
seio da instituição universitária, colo-
cando-se “junto às ciências” e afastada
das preocupações de um público leigo,
devido a seus refinamentos teóricos.
A crítica do positivismo científico e
filosófico, empreendida por Habermas, é
inseparável de sua luta contra o objeti-
vismo tecnocrático. O positivismo e o
tecnicismo não passam, para ele, de duas
faces de uma mesma e ilusória moeda
ideológica: tanto um, como outro, não
seriam mais que “manchas turvas no
horizonte da racionalidade”
HORKHEIMER-HABERMAS
A
Eu
»
a
o
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Ns
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«4
Habermas procura mostrar como nos Estados Unidos, na maioria dos
casos, a pesquisa científica subordina-se, direta ou indiretamente, a duas
instituições: a NASA e à Secretaria de Defesa. Como resultado, constitui-se
o que ele chama “complexo ciência-técnica-indústria-exército-administração”.
(Habermas, fotografado na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.)
963
1892 — Em Berlim, nasce
Walter Benjamin.
1914 — Tem início a Pri-
meira Guerra Mundial.
1918 — Benjamin gradua-
se na Universidade de Berna
com a dissertação sobre a
Noção de Critica de Arte no
Primeiro Romantismo.
1921 — Adorno conhece
Max Horkheimer, ao qual se
liga por profunda amizade.
1924 —- Fundação do Insti-
tuto de Pesquisas Sociais de
Frankfurt.
1928 — Benjamin vê rejei-
tada sua tese sobre As Ori-
gens da Tragédia Barroca
na Alemanha.
1929 — Nasce Júrgen Ha-
bermas.
1933 — O Instituto de Pes-
quisas Sociais transfere-se
para Genebra.
1936 — Benjamin publica,
em francês, A Obra de Arte
na Era de sua Reprodutibili-
dade Técnica.
1938 — Adorno viaja para
os Estados Unidos.
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
1939 — Publica Fragmen-
tos sobre Wagner. Eclode a
Segunda Guerra Mundial.
1940 — Benjamin suicida-
se. No mesmo ano, são pu-
blicadas suas Teses sobre a
Filosofia da História.
1947 — Adorno e Horkhei-
mer empregam pela primei-
ra vez o termo indústria
cultural.
1950 — Reorganização do
Instituto de Pesquisas So-
ciais, na Alemanha. Adorno
publica seu estudo sobre a
Personalidade Autoritária.
1951 — Horkheimer pro-
nuncia conferências Sobre o
Conceito de Razão.
1954 — Habermas licencia-
se com uma tese sobre
Schelling: O Absoluto e a
História.
1955 — Publicação do ori-
ginal alemão de A Obra de
Arte na Era de sua Repro-
dutibilidade Técnica, de
Benjamin.
1956 - 1959 — Habermas
colabora com Adorno.
BIBLIOGRAFIA
1956 — Adorno publica Pa-
ra a Metacrítica da Teoria
do Conhecimento — Estu-
dos sobre Husserl e as Anti-
nomias Fenomenológicas.
1958 - 1965 — Publica os
Ensaios de Literatura I, Il e
HI.
1961 — micia a Teoria
Estética.
1962 — Publicação de Evo-
lução Estrutural da Vida
Pública, tese de doutora-
mento de Habermas.
1963 — Habermas publica
Teoria e Práxis.
1966 — Adorno publica a
Dialética Negativa.
1968 — Conclui a primeira
versão da Teoria Estética.
Habermas publica Técnica e
Ciência como “Ideologia”, e
transferese para Nova
York.
1969 — A 6 de agosto, con-
tando 66 anos, falece Theo-
dor Wiesengrund-A dorno.
1973 — A 9 de julho, com
78 anos de idade, morre
Max Horkheimer.
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964
PN E qua
e: COPYRIGHT MUNDIAL, 1974 — ABRIL S.A, CULTURAL E INDUSTRIAL — SÃO PAULO — BRASIL,
PITULO 73
El
E
OS PENSADORES
efinida como “'ciência que estuda a
D linguagem com métodos pró-
prios”, a Linguistica moderna
visa, como objetivo principal, à constru-
ção de uma teoria geral capaz de descre-
ver todas as línguas. Para os lingiiistas,
tal construção deve superar os limites da
gramática tradicional, pois esta, basean-
do-se no grego e no latim, desconsidera
numerosas línguas, nitidamente diferen-
tes dos dois idiomas clássicos, sob os
mais diversos ângulos.
Por outro lado, embora seus interesses
não excluam eventuais convergências
com a filosofia ou a psicologia, a
Lingiística se apresenta como ciência
autônoma e desvinculada de qualquer
outra disciplina que possa se ocupar da
linguagem. A gramática tradicional, ao
contrário, não possuindo independência
equivalente, sempre esteve ligada à filo-
sofia e à crítica literária. Por essa razão,
a gramática tradicional é responsável
pela, maior valorização da linguagem
escrita, chegando a ponto de ignorar, e
até mesmo desprezar, a diferença entre
lingua escrita e lingua falada. Colocan-
do-se noutra perspectiva, os lingiistas
conferem primazia à lingua falada, e jus-
tificam essa posição com o argumento de
que as línguas só passaram a ser escritas
muitos séculos depois de faladas; além
desse argumento, apontam para o fato de
que a criança primeiro fala, depois
escreve. Os gramáticos tradicionais não
se deram conta desses fatos e também
não perceberam que, desde uma perspec-
tiva histórica, a lingua “correta” é ape-
nas o falar próprio de uma região ou de
uma classe que, tendo adquirido certo
prestígio, tornou-se instrumento da ad-
ministração, da educação e da literatura.
Os lingiistas modernos admitem que a
“lingua comum”, culta e erudita, possa
dispor de vocabulário mais rico que
qualquer dos dialetos coexistentes, mas,
intrinsecamente, a “lingua comum” não
é mais “correta”. A própria distinção
entre “lingua” e “dialeto” habitualmente
resulta de critérios políticos. Os lin-
guistas mostram, por exemplo, como
Na página anterior: Saussure;
Foto Julien, Bibl. Pública
e Un. de Genebra. (Jean Arland)
966
existem menores diferenças entre o
sueco, o dinamarquês e o norueguês —
considerados como línguas distintas —,
do que entre muitos dos chamados “dia-
letos” chineses. Deve-se ressaltar ainda
que, considerando-se o vocabulário de
certa lingua como reflexo das atividades
e dos interesses de determinada socieda-
de, torna-se carente de sentido afirmar
que uma certa língua possui vocabulário
mais rico do que uma outra qualquer.
Nesse sentido, os lingiúistas mostram
como, seja qual for a língua em questão,
seu vocabulário é rico o suficiente para
exprimir as distinções consideradas im-
portantes pela sociedade que a utiliza.
As posições defendidas pela gramática
tradicional constituíram caracteristicas
marcantes dos chamados comparatistas
e neogramáticos do século XIX. Tanto
uns quanto outros tinham como certo
que a Linguística deveria ser conduzida
por uma trilha essencialmente histórica
e comparativa, de tal modo que os fatos
linguísticos não teriam qualquer valor
descritivo.
Uma nova perspectiva
A posição defendida pelos compara-
tistas e neogramáticos do século XIX
encontrou oposição das mais enérgicas
no lingúista suíço Ferdinand de Saussu-
re, nascido no castelo de Vuflens, Gene-
bra, em 1857, e falecido em 1913 no
cantão suíço de Vand. Sua obra mais
importante, Curso de Linguística Geral,
só foi publicada postumamente em
1916, graças aos esforços de dois disci-
pao Charles Bally (1865-1947) e AI-
ert Séchehaye, que recolheram anota-
ções de aulas dadas pelo mestre entre
1906 e 1911.
Especializando-se inicialmente no
grupo lingiúístico indo-europeu, Saussu-
re, em vida, publicou apenas o livro Tra-
balho Sobre o Sistema Primitivo das Vo-
gais Indo-Européias (1879) e sua tese de
doutoramento, intitulada Sobre o Em-
prego do Genitivo Absoluto em Sânscrito
(1880). Ao que tudo indica, Saussure
teria deixado de publicar o Curso devido
à inquietação que suas idéias poderiam
provocar, como já ocorrera, até certo
ponto, entre os participantes de suas
aulas.
SAUSSURE
Considerada como o marco inicial da
Lingúística moderna, a obra teve intensa
repercussão nos meios acadêmicos e
constituiu verdadeira revolução na ciên-
cia da linguagem. Nela, Saussure ante-
cipa o conceito de “estrutura”, que viria
a ser um dos conceitos ndamencais: do
ponto de vista metodológico, para o
desenvolvimento dx Linguistica. Como
diz um dos mais conhecidos lingiistas
do século XX, Emile Benveniste
(1902- ). “estrutura é um dos termos
essenciais da Linguística moderna. um
dos que ainda têm valor programático”
O termo tornou-se tão difundido que os
pesquisadores o empregam em diferentes
acepções, e dele tiram conclusões igual-
mente diferentes, no plano metodológico.
Em alguns casos, “estrutura” é enten-
dida como um “sistema que explica O
arranjo do todo em partes, as quais são
solidárias”; em outros casos, fala-se de
“estrutura” como “disposição, num todo
organizado, dos elementos das substân-
cias concretas”. Mas apesar da diversi-
dade de conceituações, é inegável que,
desde a década de 1940, o estrutura-
lismo foi o movimento que mais se impôs
à atenção dos especialistas tornando-se o
motor ativo da Linguística.
A palavra “estrutura” não chega a ser
mencionada explicitamente no Curso
mas a noção de “sistema”, largamente
empregada, contém implícito o mesmo
signific: ido quando S aussure define “lin-
gua” como “um sistema cujos termos são
todos solidários e em que o valor de um
não resulta senão da presença simul-
tânea dos outros”. Saussure mostra que
esse sistema, quando utilizado numa
situação determinada, possibilita o ato
concreto e individual de comunicar-se, €
tal ato define-se como fala. Estabele-
cem-se, assim, dois níveis no estudo da
linguagem: um, essencial, explica o prô-
prio Saussure, “tem por objeto a lingua,
que é social em sua essência e indepen-
dente do individuo”, outro, “secundário,
tem por objeto a parte individual da lin-
guagem, isto é, a fala”. Essa doutrina
dos níveis, pedra de toque do estrutura-
Desde muito cedo, Saussure dedicou-se | lismo, sintetiza-se na dicotomia lin-
Jean Arland
aos estudos lingúísticos. A foto gua/fala. O objeto da Linguística,
mostra o criador da Linguística então, passa a ser o estudo da lingua
moderna quando contava vinte anos. enquanto sistema, e não da fala. Nesse
(Bibl. Pública e Un. de Genebra.) sentido, Saussure propõe que a pesquisa
967
OS PENSADORES
lingúística seja descritiva ou sincrônica,
e não evolutiva ou diacrônica. Essa dico-
tomia sincronia/diacronia tem como
consequência a divisão da ciência da lin-
guagem em duas partes: por um lado, a
Lingúística sincrônica (ou estática ou
descritiva), que estuda a constituição da
lingua, seus sons, suas palavras, sua
gramática, suas regras, etc. num dado
momento: por outro, a Lingúística dia-
crónica (ou evolutiva ou histórica), que
estuda as transformações produzidas na
lingua atravês do tempo. No Curso,
Saussure associa a esses dois tipos de
interpretação um sistema de eixos: um
eixo AB referente à simultaneidade,
(sincronia) e outro CD correspondente à
sucessividade (diacronia).
Saussure nega não só a primazia do
eixo CD sobre o eixo AB (primazia essa
que, antes dele, era admitida sem mais),
mas considera evidente o primado do
aspecto sincrônico sobre o outro, pois,
para a grande maioria das pessoas que
falam, aquele aspecto é a única e verda-
deira realidade. Além disso, Saussure
rejeita toda e qualquer possibilidade de
estudar simultaneamente as relações no
tempo e no sistema. Para ele, “a oposi-
ção entre os dois pontos de vista (sincrô-
nico e diacrônico) é absoluta e não admi-
te compromisso”.
Às dualidades língua/fala e sincro-
nia/diacronia, acrescenta-se uma ter-
ceira dicotomia constituída pelo signo
linguístico, entendido como união de um
sigmficante (imagem acústica de sua
face fônica) e de um significado (o con-
ceito, a classe de realidades não lingúis-
ticas às quais ele remete). Na teoria de
Saussure, o signo possui caráter arbitrá-
rio, pois não há razão alguma para que o
signo “árvore”, por exemplo, seja este e
não outro; em outros termos, não existi-
ria nenhum elo específico entre signifi-
cante e significado. Para Saussure, as
onomatopéias existentes não constituem
acervo suficientemente rico para destruir
a tese da arbitrariedade do signo. Esse
caráter arbitrário comanda a noção de
“sistema”, sendo, portanto, o núcleo das
oposições lingua/fala, sincronia/dia-
cronia. Nesse sentido, pode-se afirmar
ue o signo linguístico encobre duas
aces da mesma moeda. O signo “árvo-
re”, por exemplo. não indica uma árvore,
968
FERDINAND DE SAUSSURE
gem
COURS
DE
LINGUISTIQUE GENERALE
PUBLIÉ PAR
CHARLES BALLY «+ ALBERT SECHEHAVE
Profesecur a NUaiver-u Privat docens a FUniversite
de Geneve de Gentve
AVEC LA COLLABORATION DE
ALBERT RIEOLINGER
Martre au Coullége de Geneve.
LIBRAIRIE PAYOT & C'
LAUSANNE PARIS
1, Rue de Bowg, 1 106, Bd Seint-Germaia, 106
1916
Tos droits ráservês.
Frontispício da primeira edição da
obra de Ferdinand de Saussure, coma
qual nasceu a Lingúística do século XX.
De uma forma ou de outra, toda a
Linguística moderna provém dela.
mas evoca a idéia que se tem de uma ár-
vore, sendo ao mesmo tempo uma ima-
gem sonora. Portanto. significado (ár-
vore real) e significante (palavra árvore)
são duas abstrações.
Saussure confere ao estudo do signo
uma importância que extravasa os limi-
tes do terreno linguístico e considera a
Linguística como um ramo apenas de
uma ciência mais vasta, a Semiologia,
cujo objeto seria “a vida dos signos no
seio da vida social”. Tal preocupação
ilustra a influência que o sociologismo,
corrente na época, e representado por
Emile Durkheim (1858-1917). exerceu
em seu pensamento.
Considerando a língua como um siste-
ma, Saussure realça a importância das
relações que ocorrem entre grupos asso-
ciativos no interior da própria língua.
Fabbri
SAUSSURE
Nascido em Genebra, em 1857, Ferdinand de Saussure iniciou seus estudos
superiores na universidade dessa cidade, passando depois para Leipzig e Berlim.
Especializando-se no grupo lingúístico indo-europeu, em 1881 tornou-se
instrutor na Escola de Altos Estudos de Paris, onde permaneceu até 1891.
(A foto acima mostra a cidade de Paris, vista da Torre Eiffel.)
Tais relações apresentam-se em dois ni-
veis. Em primeiro lugar, existem os gru-
pos associativos in absentia, isto é, as
classes de unidades disponíveis na me-
mória. Nesse sentido, cada elemento
linguístico proveca imagens de outros
elementos, tanto na pessoa que fala,
quanto na que ouve. À palavra “ensino”,
por exemplo, desperta associações como
“ensinar”, “educação”, “aprendiza-
gem”, etc. Saussure chama a essas asso-
ciações de “relações in absentia”, pois
elas vêm à tona na ausência dos signos
evocados. Cada uma dessas classes de
unidades, que formam as relações in
absentia constitui aquilo que o autor
chama eixo paradigmático.
Um segundo nível de relações entre os
signos decorre do fato de que todo ele-
mento da língua está em relação com
outros, formando cadeias de enunciados.
falados ou escritos. Tais relações em ca-
deia formam-se in praesentia, consti-
tuindo os sintagmas, ou seja, unidades
maiores que agrupam outras menores.
Os grupos associativos in praesentia na
cadeia constituem, na terminologia de
Saussure. o eiro sintagmático.
O nascimento da fonologia
Conquanto tivesse indicado que na lin-
gua não existem senão diferenças, Saus-
sure não chegou a assinalar nitidamente
a distinção entre a imagem acústica dos
sons (a qual não é mais que a soma limi-
tada de elementos distintivos) e a subs-
tância material dos sons, com sua infini-
dade de movimentos musculares. Esse
problema seria enfrentado pela Escola
969
Fabbri
OS PENSADORES
Fonológica de Praga, que pode ser consi-
derada um desenvolvimento das teorias
implícitas na obra do criador da Lingúis-
tica moderna.
Entre os principais representantes da
Escola Fonológica de Praga, encontra-se
Roman Jakobson, nascido em 1896, em
Moscou. Jakobson fez seus estudos no
Instituto de Línguas Orientais e, quando
tinha dezoito anos de idade, ligou-se ao
Círculo Lingúístico de Moscou, que
então se formava. Nessa época, Jakobson
participou ativamente do amplo movi-
mento de idéias, conhecido como Forma-
lismo Russo. Esse movimento colocava
como primeira tarefa da crítica a análise
das formas literárias, das mais simples
(recorrências fônicas, por exemplo) às
mais complexas (gêneros literários,
etc.). Para os formalistas russos, o
importante são os procedimentos (procé-
dés, em francês) e não o conteúdo psico-
lógico ou filosófico das obras. “O proce-
dimento, eis o único herói da literatura”
era a palavra de ordem de Jakobson,
durante os anos vinte.
Em 1928, no Congresso Internacional
de Lingúistas, realizado em Haia, Ja-
kobson, juntamente com Nicolas Ser-
gueivitch Troubetzkoi (1890-1938) e
Karcevski apresentou uma tese que se
tornaria famosa como Proposição 22 e
com a qual se marcava o nascimento de
uma nova disciplina, a Fonologia. Embo-
ra o trabalho tivesse sido apresentado
pelos três representantes russos, sua
autoria devia-se a Jakobson.
Em 1929, vieram à luz as Notas Sobre
a Evolução do Russo Comparada à das
Outras Linguas Eslavas; no ano seguin-
te, Jakobson doutorava-se na Universi-
dade de Praga. A partir daí, sua ativi-
dade torna-se cada vez mais intensa,
mantendo rica correspondência científica
com Troubetzkoi e escrevendo inúmeros
trabalhos: Princípios de Fonologia His-
tórica (1931), Sobre a Teoria das Afini-
dades Fonológicas entre as Línguas
(1938), O Desenvolvimento Fonológico
da Linguagem Infantil e as Coerências
Correspondentes nas Linguas do Mundo
(1939). Neste ano, Jakobson foi obri-
gado a deixar a Tchecoslováquia, pois
começou a invasão nazista e ele era
Judeu. Refugiou-se então na Escandi-
návia, lecionando nas universidades de
970
Copenhague, Oslo e Upsala, até se trans-
ferir para os Estados Unidos, onde
desenvolveria, durante a década dos
quarenta, os pontos essenciais de sua
teoria. Em 1947, Jakobson tornou-se
professor de língua e literatura eslavas
na universidade de Colúmbia e, dois
anos depois, transferiu-se para a univer-
sidade de Harvard. Finalmente, em
1957, ligou-se ao Instituto de Tecnolo-
gia de Massachusetts.
Som e significado
O lingiista polonês Jan Niecislaw
Baudouin de Courtenay (1845-1929),
exerceu importante influência sobre o
pensamento de Jakobson, e foi o respon-
sável pela invenção do termo fonema.
Mas foi somente com Jakobson que se
chegou, por exemplo, a afastar o con-
ceito de indivisibilidade unitária do
mesmo. Antes dele, esse fato era admi-
tido de tal modo que, na definição do
termo incluta-se a não suscetibilidade de
dissociação como característica do fone-
ma. Jakobson, juntamente como o lin-
ista americano Leonard Bloomfield
fis 887-1949), afirmou que o fonema é
um feixe de traços distintivos e começou
a operar diretamente com esses traços.
Ao se preocupar com o valor do fone-
na, Jakobson notou que, embora não
EE “uma significação própria
ositiva”, aquele termo poderia contri-
Ea para diferenciar os elementos lexi-
cais significativos entre si, estabele-
cendo, desse modo, o contraste entre
cada palavra (na qual se encontra) e
todas as outras que, em circunstâncias
análogas, encerram outro fonema. Por
outro lado, Jakobson também mostrou
como a caracterização de um som
linguístico como fonema depende de cer-
tos traços, cuja ausência ou presença o
opõe, por sua vez, a todos os demais da
lingua. Esses traços constituiriam as
unidades mínimas e indivisíveis, e Ja-
kobson foi assim levado a estabelecer,
em vez do quadro de fonemas de uma lin-
gua, o dos traços fônicos que funcionam
nessa língua e caracterizam os seus pró-
prios fonemas. Cada fonema é analisado
segundo o critério de presença ou ausên-
cia de um traço. A presença e a ausência
são assinaladas, respectivamente, pelos
SAUSSURE — JAKOBSON
he]
c
o
=
«
c
o
x
E
Revolucionárias para sua época, as principais idéias concebidas por Saussure
não foram por ele próprio sistematizadas em forma de livro. Somente após sua
morte, os discípulos cuidaram de compor um volume com base em apontamentos
de Ro A foto acima foi feita em 1913, ano de seu falecimento,
e pertence ao acervo da Biblioteca Pública e da Universidade de Genebra.
971
OS PENSADORES
Roman Jakobson ampliou consideravelmente as fronteiras da Lingúística,
tornando-a um dos principais campos de pesquisa do século XX. As idéias de
Jakobson repercutiram nas mais diversas áreas das ciências humanas,
particularmente na etnologia, na mitologia e na psicanálise. Acima,
o lingúista russo, quando de sua estada na Universidade de São Paulo.
972
Agência Estado
JAKOBSON
sinais matemáticos de mais (+) e menos
(-). Exemplos de pares de presença e
ausência seriam, em português: sonori-
dade — não sonoridade (como em /b/:
(pildl:ltlilal:!slete.), oclusão — não
oclusão (/p/:/f/, /b/:/v/, [tiis/,
/d/:/z/ etc.), palatização — não palati-
zação (/x/: a /lh/:/1 etc.) e assim
por diante.
Evidencia-se assim, o caráter binário
do traço distintivo — caráter esse que
marcará (ou não), segundo sua presença
(ou ausência), cada um dos termos que
pino das diversas oposições fono-
ógicas, de tal modo que, ao termo carac-
terizado pela presença da marca, Jakob-
son denominou “termo marcado”, e
aquele caracterizado pela ausência,
“termo não marcado”
O binarismo do traço, porém, não se
limita segundo Jakobson, à fonologia; a
oposição “marcado” /“não marcado”
surge também em morfologia, em sinta-
xe, em semântica, e, inclusive, nos estu-
dos sobre os distúrbios característicos
da afasia. Para Jakobson, a afasia
desdobra-se em dois tipos de distúrbios
referentes a dois tipos de anomalias da
linguagem. Um primeiro, proveniente da
deterioração da capacidade de seleção
das unidades linguísticas pertencentes
ao sistema, foi denominado distúrbio
paradigmático. O outro, chamado dis-
túrbio sintagmático, diz respeito à dete-
rioração do poder de combinar tais uni-
dades na cadeia lingúística. Por outro
lado, uma vez que os traços distintivos
são inerentes ao próprio processo, de
comunicações, impõe-se que eles sejam
descritos nos diversos níveis (articula-
tório, acústico, nervoso e perceptivo),
correspondentes às etapas constitumtes
daquele processo. Conquanto tal análise
em vários níveis possa ter a pretensão de
conferir maior consistência teórica ao
“princípio dicotômico” que rege a teoria
de Jakobson, isso não chega a ocorrer.
No entanto, na medida em que a hipótese
binarista organizasse os materiais do
linguista, dentro do possível e da manei-
ra mais simples e mais econômica, ela
passaria a ser de grande valia para os
membros de uma comunidade lingúiís-
tica: facilitando c trabalho de emissão e
recepção dos locutores e ouvintes, per-
mitiria que, em suas operações cotidia-
A importância dada por Jakobson ao
som guarda íntima relação com o
caráter profundamente sonoro da
língua russa, sobretudo com a poesia
de Maiakóvski, seu contemporáneo.
9713
OS PENSADORES
| EERRRRRE
a
ego 2.4 na
A Escola Fonológica de Praga teve Pedi importância no desenvolvimento da
Linguística do século XX, principalm
ente por suas investigações sobre o papel
desempenhado pelas imagens acústicas na formação e no sentido das palavras.
Roman eba o a um dos principais animadores da Escola Fonológica de
Praga, cidade onde se doutorou e viveu uma dezena de anos. (Vista de Praga)
nas de codificação e decodificação, obti-
vessem situações vantajosas de escolha
binária, graças aos recursos informacio-
nais.
Essas idéias constituem o núcleo de
uma nova disciplina, denominada por
Jakobson Teoria da Informação. Nesse
sentido, Jakobson propôs um modelo
para a transmissão da comunicação,
compreendendo um emissor e um recep-
tor, ligados entre si por um canal de
transmissão, através do qual passa uma
mensagem, cuja construção baseia-se
num código, a fim de transmitir um dado
relativo à experiência do emissor a res-
peito do mundo, ou seja, um referente. A
partir daí, Jakobson deduziu que a lin-
guagem apresenta seis funções, cada
uma das quais especificamente orientada
a partir de um dos hômponentes do
974
modelo. Assim, se a comunicação se cen-
traliza essencialmente no referente, tra-
ta-se da função referencial (ou represen-
tativa ou denotativa) da linguagem (ex:
“A Lua é um satélite da Terra”). Se visa
também, ou principalmente, à atitude do
emissor em si diante de sua mensagem,
trata-se da função expressiva ou emotiva
(“Eu te amo”). Se ela visa ao receptor,
para agir sobre ele, trata-se da função
conativa (“Não deixe de assistir à
aula”). Quando a mensagem contém ele-
mentos que procuram verificar o bom
funcionamento do canal ou a atenção do
receptor, trata-se da função fática (' “Está
ouvindo o que estou dizendo?”). Se a
mensagem é utilizada para explicitar o
código, trata-se da função metalin-
guistica (“Chover é verbo defectivo”).
Finalmente, quando a mensagem visa,
HJELMSLEV
Com o desaparecimento da Escola
Formalista Russa, Jakobson mudou-se
para a Tchecoslováquia, onde se tornou
professor de língua boêmia na
Universidade de Brno. (Vista de Brno)
Fabbri
centralmente, à elaboração de sua pró-
pria forma, trata-se da função poética da
linguagem (“Já não queria a maternal
adoração/que afinal nos exaure e res-
plandece em pânico”).
Com suas obras, Jakobson impul-
sionou quase todos os campos da Lin-
guística, desde a teoria geral até a
morfologia, passando pela semântica,
pela poética e pela métrica. Além disso,
contribuiu de forma decisiva para fundar
a fonologia histórica e a tipologia, e
influenciou intensamente outros campos
das ciências humanas, sobretudo a etno-
logia, a mitologia ea psicanálise. No
plano da Lingiúistica propriamente dita,
a importância de seus trabalhos reflete-
se sobretudo na formulação da teoria
glossemática, cuja criação é devida,
principalmente, a Louis Trólle Hjelmslev
(1899-1965), que partiu das teses elabo-
radas por Roman Jakobson no Circulo de
Praga.
Uma teoria dedutiva
Hjelmslev começou sua carreira com a
publicação do livro Princípios de Gra-
mática Geral, em 1928. Três anos
depois, fundava o Círculo Lingúistico de
Copenhague e, no ano seguinte, doutora-
va-se em filologia com a tese Estudos
Bálticos. Em 1938, juntamente com
seu compatriota Viggo Brôndal
(1887-1942), Hjelmslev fundou as Acta
Lingúistica, sub-intituladas Revista In-
ternacional de Linguística. Essa publica-
ção representou, nas palavras do lin-
guista Mounin, “o ato de batismo oficial
do estruturalismo como tendência na
Europa” . O artigo de abertura do pri-
meiro número, assinado por Brôndal,
ntitulava-se Lingiística Estrutural.
Um ano antes da fundação das Acta,
Hjelmslev completava com um segundo
volume a obra 4 Categoria dos Casos,
Estudos de Gramática Geral, cujo pri-
meiro volume fora publicado em 1935.
Nesse ano, na cidade dinamarquesa de
Aarhus, Hjelmslev apresentou, junta-
mente com H. J. Uldall, o esboço de uma
nova teoria lingúística: a Glossemática.
Com o título de Prolegômenosa uma Teo-.
ria da Linguagem, surgiu, em 1943, uma
versão da Glossemática devida exclusi-
vamente a Hjelmslev. Vinte anos depois,
975
OS PENSADORES
O chamado formalismo russo representou um dos principais momentos na ferunedo
da crítica literária do século XX, defendendo uma perspectiva centralizada
nos aspectos estéticos, específicos da literatura como arte. Os formalistas
congregavam-se em Moscou na segunda e terceira décadas do século XX; Jakobson
foi uma de suas figuras de primeiro plano. (Vista do Kremlin, em Moscou.)
Hjelmslev publicou 4 Linguagem, onde
se encontra uma tentativa de reinter-
pretar a gramática, sob a ótica dos câno-
nes estruturalistas da hinguagem.
O centro de gravidade das investiga-
ções de Hjelmslev é constituído por seus
trabalhos sobre os pressupostos metodo-
lógicos que devem fundamentar a teoria
cientifica das linguas. À maneira dos ló-
gicos, o linguista dinamarquês procurou
construir uma teoria lingúística na base
de uma axiomatização completa, ou
seja, sobre a explicitação 1 inequívoca de
todos os princípios e definições, a partir
dos quais sua teoria seria derivada.
Nesse sentido, Hjelmslev estabeleceu
três exigências metodológicas, a cujo
conjunto ele propõe o nome de “princípio
do empirismo” (empiriprincip). Essas
exigências são a não-contradição, a
exaustividade e a simplicidade absoluta,
que devem se articular entre si, de forma
ue a primeira predomine sobre a segun-
a, e esta sobre a terceira.
O emprego da palavra “empirismo”
para designar seu princípio metodoló-
916
gico poderia fazer pensar que suas inves-
tigações implicam a utilização de méto-
dos indutivos. O próprio Hjelmslev
admite correr um certo risco ao utilizar
aquela expressão, mas afirma sua dispo-
sição em abandoná- la, desde que a epis-
temologia a declare imprópria. Às ope-
rações de síntese, características do
método indutivo, o linguista dinamar-
quês opõe a análise dos verdadeiros
dados da experiência, ou seja, o texto em
sua totalidade. Tal análise permitiria
isolar unidades cada vez menos gerais,
até que se pudesse chegar às indisso-
ciáveis unidades de base. Para designar
esse procedimento, Hjelmslev não hesita
em propor o termo dedução, com uma
significação que se afasta sensivelmente
da que é atribuída, geralmente, a essa
palavra.
Nesse sentido, uma vez constituida e
considerada em si mesma, a teoria de
Hjelmslev é perfeitamente independente
de toda a experiência, pois não comporta
qualquer postulado de existência e
forma um sistema fechado que permite
Fabbri
HJELMSLEV
No período compreendido entre as duas grandes guerras mundiais, a cidade de Praga
foi palco de intensa atividade intelectual e artística. Com o advento
do nazismo, esse panorama alterou-se e, como consequência, desagregou-se a
Escola Fonológica de Praga e Jakobson transferiu-se para a Escandinávia.
(Cartaz tchecoslovaco anti-nazista; Museu Imperial da Guerra, Londres.)
977
OS PENSADORES
determinar, por operação puramente
dedutiva, as possibilidades resultantes
de proposições previamente estabele-
cidas. Por outro lado, tais proposições
seriam estabelecidas pelo teórico a par-
tir de sua experiência anterior, de modo
a satisfazer as condições que permitirão
a aphcação da teoria a certos dados. A
teoria é, portanto, arbitrária, no sentido
de que os dados da experiência não
poderiam confirmá-la ou invalidá-la, e
dentre esses dados, só poderão ser esco-
lhidos aqueles aos quais se possa aplicar
a teoria.
Além disso, visando ao estudo dos tex-
tos sob a forma de cadeias faladas, a teo-
ria lingiística, segundo Hjelmslev, deve
ser tão pouco metafísica quanto possível,
ou seja, ela deverá conter um minimo de
proposições implícitas. Deve definir os
conceitos que utiliza e as definições,
enquanto possível, não devem fazer
intervir senão conceitos Já definidos.
Dentro dos princípios metodológicos
defendidos por Hjelmslev, e na medida
em que a análise do texto é o fim pri-
meiro da teoria linguistica, importa
determinar as relações entre as partes e
o todo. Surgem, então, três tipos de rela-
ções (tanto no texto, como no sistema):
as interdependências (dependências mú-
tuas); as determinações (dependências
unilaterais, onde, embora um termo
pressuponha pas a reciproca não é
verdadeira); e as constelações (depen-
dências mais ses nas quais os ter-
mos não se excluem, nem se repelem,
nem mesmo pressupõem uns aos outros).
Tais relações podem ser expressas atra-
vês do termo função. Este, para Hjelms-
lev, adquire um valor que, conquanto
recorde aquele que essa palavra possui
em matemática, não chega a identificar-
se totalmente com ele. Assim, uma fun-
ção é uma relação entre dois termos, de
tal sorte que uma interdependência é
uma função entre duas constantes, uma
determinação é uma função entre uma
constante e uma variável, e uma conste-
lação é uma função entre duas variáveis.
Os dois termos da função são ditos
fonctifs.
Além disso, Hjelmslev desdobra sua
análise do texto em dois planos: um
plano da expressão, outro do conteúdo.
Esse desdobramento tem como ponto de
978
partida a dicotomia significante /sig-
nificado, que constitui o signo. Reto-
mando essa dualidade, o hngúista dina-
marquês afirmará a existência de uma
função significante (relação entre signifi-
cante e significado), Guias oncido serão
a expressão e o conteúdo. Por outro
lado, o conteúdo lingúístico apresenta
uma certa forma, forma essa que é inde-
pendente do sentido do conteúdo: é a
forma do conteúdo. Além disso, as rela-
ções desta última com o sentido são arbi-
trárias, e o sentido ordenado por essa
forma torna-se a substância do conteúdo.
Isso se evidencia na seguinte cadeia: ich
weiss es nicht (alemão), I do not know
(inglês) e je ne sais pas (francês). O que
essas três frases possuem em comum é
um sentido, que em português se expres-
saria pela proposição “eu não sei”. Pro-
cedendo analogamente para o outro
termo da função significante (a expres-
são), constata-se a existência de uma
substância da expressão e de uma forma
da expressão.
Assim, para Hjelmslev, o signo é, ao
mesmo tempo, o signo de uma subs-
tância de conteúdo e o signo de uma
substância de expressão. Em suas obras
a palavra signo designa, portanto, a uni-
dade resultante da função significante,
que compreende a forma do conteúdo e a
da expressão. Por outro lado, Hjelmslev
considera que o signo é formado por um
número limitado de não-signos, aos
quais chama “figuras”. Tal constituição
seria um dos traços fundamentais da
estrutura lingúística.
Em suma, ele entende a Lingúística
como uma espécie de álgebra (Glossemá-
tica) que opera com grandezas designa-
das arbitrariamente. Dentro dessas coor-
denadas teóricas, “lingua” se define
como “uma hierarquia, onde qualquer
uma das seções permite divisão ulterior
em classes definidas por relação mútua,
de tal modo que qualquer uma dessas
classes permite uma divisão em deriva-
dos definidos por mutação mútua”
Um lingiiista engajado
Hjelmslev conduziu a Lingúistica ao
mais alto grau de abstração e, como a
maioria dos linguistas, não demonstrou
preocupações de natureza mais ampla e
EEE, E
HJELMSLEV
O e“ uu a
= ementilido
[
Além de Saussure, Jakobson, Hjelmslev e Chomsky, a Lingúística do século XX
apresenta outros investigadores que realizaram estudos igualmente importantes.
O francês Emile Benveniste (acima) notabilizou-se por trabalhos sobre
gramática comparada e, sobretudo, por suas análises dos pronomes pessoais,
enquanto categorias constantes e independentes de toda determinação cultural.
979
Marcel Amson
OS PENSADORES
Louis Hjelmslev dedicou-se sobretudo aos aspectos metodológicos da
Lingúística, procurando fazer da ciência da língua uma disciplina despida de
quaisquer pressupostos metafisicos. Para ele, a Linguística deve conter o
mínimo possível de proposições implícitas, e o pesquisador deve definir
rigorosamente todos os conceitos que utiliza. (Foto de Hjelmslev, em 1959.)
980
Keystone
CHOMSKY
mais próxima de problemas concretos do
homem. Perfil intelectual diferente en-
contra-se em Noam Chomsky
(1928- ) que, além de notável teórico
da Linguística, é um dos principais pole-
mistas da esquerda norte-americana.
Natural de Filadéfia, Avram Noam
Chomsky frequentou a Universidade de
Pensilvânia, onde estudou Lingúística
Matemática e Filosofia. Depois de dou-
torar-se, Chomsky, a partir de 1955, tor-
nou-se titular da cadeira de Linguística e
de Linguas Modernas do Instituto de
Tecnologia de Massachusetts, onde par-
ticipou, sob a liderança de vários estu-
dantes, de uma companha contra a tenta-
tiva de utilização dessa universidade por
parte do Pentágono e da NASA. Nessa
ocasião, declarou em entrevista à im-
pressa que não via motivos legítimos
para justificar a utilização de subsídios
públicos em uma tecnologia destrutiva,
acrescentando ser necessário opor a uma
tal tecnologia pressões políticas e sociais,
que, utópicas na aparência, poder-se-
iam converter em realidade. Conquanto
não tenha desenvolvido um pensa-
mento propriamente político, Sn
um dos intelectuais mais ativos dos
Estados Unidos no que toca à participa-
ção política. Seus artigos, como polemis-
ta, sobre a guerra do Vietnã, por exem-
plo, ficaram famosos pelas incisivas,
irônicas e devastadoras criticas às mi-
ciativas norte-americanas no sudeste
asiático. Por outro lado, embora de ori-
gem judaica, desde a juventude Jgou-se
a grupos que se opunham à criação do
Estado de Israel, tendo trabalhado nclu-
sive pela cooperação árabe-judaica em
bases socialistas. Ainda a propósito da
politica externa americana, escreveu A
América e Seus Novos Mandarins, dedi-
cado “aos corajosos Jovens que recusam
servir numa guerra criminosa”. Além
desse livro, escreveu também Por Ra-
zôes de Estado, e Violência Contra- Revo -
lucionária.
Lingiiística e Gramática
para Chomsky
Adversário virulento do estrutura-
lismo e do behaviorismo, Chomsky lan-
çou violento ataque a esta última cor-
rente em 1950, num comentário sobre
Comportamento Verbal, livro escrito
pelo psicólogo B. JF. Skinner
(1904- ). Embora se tenha formado
dentro da escola do estruturalismo ame-
ricano, sobretudo a representada por
Bloomfield, Chomsky viria a rejeitar a
maioria dessas idéias.
O objetivo da Lingiiística é a constru-
ção de uma gramática geral que permita
a descrição de todas as linguas. No
entanto, na medida em que a teoria
Inguística também tenha como aspira-
ção a comparação entre gramáticas dife-
rentes, é sua tarefa explicitar e formular
os Ri erais que permitem optar
pela melhor delas. Ou, no caso de lin-
guas que não possuem sequer uma gra-
mática parcial, a teoria linguistic a dev e
ser capaz de decidir entre as possibili-
dades oferecidas pelas regras gramati-
cais (parciais, também) que o linguista
elabora acerca dessas linguas.
As regras gramaticais, para Chomsky,
devem ser especificadas e formalizadas
com tanta precisao quanto as regras que
governam a aritmética. Evidencia-se ai a
influência exercida por seus estudos
matemáticos, que virão a manifestar-se
no rigor que permeia sua obra. Por outro
lado, se para Chomsky o conjunto de fra-
ses que uma gramática engendra é é defi-
nido como língua, tal gramática deve
engendrar todas as frases dessa lingua, e
apenas elas.
A linguagem humana, para ele, tem
como propriedade geral o carater aberto
ea criatividade, ou seja. a ca acidade de
todo “locutor autótone” produzir e com-
preender um número indefinidamente
grande de frases, jamais ouvidas ante-
riormente e, talvez, jamais pronuncia-
das. Esse emprego criador da lingua
materna, diz Chomsky, é, normalmente,
inconsciente e espontâneo no locutor.
Na evolução de seu pensamento bin-
gúístico, Chomsky criou, sucessiva-
mente, uma Gramática Gerativa, uma
Gramática Sintagmática (expostas em
Estruturas Sintáticas, publicado em
1957) e uma Gramática Transforma-
cional, apresentada em Aspectos da Teo-
ria da Sintaxe (1965).
A gramática gerativa visa a descrever
todas as frases É e uma língua, através de
um número finito de regras que possibi-
litam engendrar ou explicitar um núme-
981
OS PENSADORES
ro infinito de frases. Estas podem ser
representadas em dois níveis: sintático,
como sequências de palavras, e fonoló-
gico, como sequências de fonemas. Toda
sequência de palavras diferente constitui
uma frase diferente, desde que essa
sequência seja, naturalmente, bem for-
mada. Além disso, do ponto de vista
estritamente sintático, a estrutura fono-
lógica das palavras não desempenha
qualquer papel.
Por outro lado, embora apresente
grande simplicidade formal, a gramática
gerativa exibe um modelo inadequado,
incapaz de dar conta de uma série de
processos normais para a formação de
frases. Mais potente que a ramática
gerativa, pois é capaz de realizar com
vantagem tudo o que a última faz, a gra-
mática sintagmática é o segundo dos
“três modelos para a descrição da
linguagem” + elaborados por Chomsky.
Na gramática sintagmática, as palavras
que compõem a frase são denominadas
seus constituintes últimos; e a ordem
ocupada por estes, uns em relação aos
outros, é designada pela expressão es-
trutura linear da frase. Tal estrutura em
constituintes ou estrutura sintagmática
assemelha-se à noção da realização das
operações em matemática, com a utiliza-
ção de parênteses. Se, por exemplo, é
necessário solucionar a equação (x + y)
xz, a operação de adição tem prioridade
sobre a de multiplicação. Um sintagma
do gênero os homens e as mulheres do
sul admite duas interpretações: os ho-
mens e (as mulheres do sul), ou seja, x
+ (yz), e (os homens e as mulheres) do
sul, isto é, (x + y)xz. Esta segunda inter-
pretação equivale a (os homens do sul) e
(as mulheres do sul), vale dizer: (x +)
xz = (xz) + (yz). Assim, duas sequências
de elementos podem ter a mesma estru-
tura linear, mas estruturas sintagmá-
ticas diferentes.
O mérito da gramática sintagmática
elaborada por Chomsky reside na possi-
bilidade de formalizar um modelo de
estrutura sintática, através da análise
das frases em seus constituintes últimos.
Contudo, também essa gramática apre-
senta limitações. Embora não tenha pro-
vado a existência de frases que essa gra-
mática não fosse capaz de engendrar,
Chomsky afirmou que existem frases que
982
tal gramática não é capaz de descrever
senão de maneira “desajeitada”. Ele jus-
tifica a escolha de seu “terceiro mode-
lo”, a gramática transformacional, di-
zendo que esta última é mais simples
que a sintagmática.
Nota-se que, na gramática sintagmá-
tica, parte-se de uma dada frase (se-
quência inicial) que, após a utilização de
certas regras (análogas, num certo senti-
do, à utilização dos parênteses em mate-
mática), engendra uma outra sequência
(sequência terminal). A colocação dos
parênteses que acompanham uma se-
quência terminal (engendrada, natural-
mente, por uma gramática sintagmática)
é definida como indicador sintagmático.
A propriedade definitiva das regras
transformacionais é constituida pela
regra que converte um indicador sintag-
mático em outro. A sequência derivada,
dada pela aplicação de uma regra trans-
formacional, pode servir de sequência
subjacente à qual se aplica uma segunda
regra transformacional e será necessá-
rio, portanto, atribuir-lhe o indicador
sintagmático derivado apropriado.
Na gramática transformacional, a sin-
taxe se desdobra em dois componentes.
Um deles diz respeito à base da gramá-
tica, a qual define as estruturas funda-
mentais. O outro, caracterizado pelo
componente transformacional, é consti-
tuído pelas transformações graças às
quai é possível chegar às estruturas das
ases, tal como se apresentam na língua.
Estas últimas, ditas estruturas de super-
ficie, são atingidas a partir de estruturas
pensas cuja definição é dada pela
ase. A passagem das estruturas profun-
das às de superficie obedece às regras
das transformações. Nessa ordem de
idéias, cabe salientar que o sentido de
cada frase é derivado, em grande parte,
senao totalmente, de sua estrutura pro-
funda, por meio de regras de interpre-
tação semântica; por outro lado, a inter-
pretação fonética de cada frase (sua
descrição fisica enquanto sinal acústico)
é derivada de sua estrutura de superficie,
por meio de regras fonológicas.
Apesar da fecundidade de sua análise,
Chomsky não chegou a considerá-la
esgotada. Suas idéias, discutidas, por
vezes combatidas, não podem ser ignora-
das no terreno da Linguística moderna.
CHOMSKY
Magnum-zoom
Conhecido também como um dos principais representantes
da esquerda norte-americana, Avram Noam Chomsky realizou importante
renovação teórica nos domínios da Lingúística. Combatendo as tendências
behaviorista e estruturalista, abriu novo caminho para o estudo
dos fatos da língua, desde sua tese de doutoramento, escrita em 1957.
983
1857 — Em Genebra, nasce
Ferdinand de Saussure.
1858 — Nasce Emile Durk-
heim.
1879 — Saussure publica o
Trabalho sobre o Sistema
Primitivo das Vogais Indo-
Européias.
I880 — Apresenta sua tese
de doutoramento Sobre o
Emprego do Genitivo Abso-
luto em Sanscrito.
1887 — Nascem Leonard
Bloomfield e Viggo Brôndal.
1890 — Nasce Nicolas Ser-
gueivitch Troubetzkoi.
1896 — Nasce Roman Ja-
kobson.
1899 — Nasce Louis Trólle
Hjelmslev.
1902 — Nascimento de
Émile Benveniste.
1913 — Morre Saussure.
1916 — Charles Bally e Al-
bert Séchehaye publicam o
Curso de Linguística Geral,
de Saussure.
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
1917 — Morre Durkheim.
1928 — Juntamente com
Troubetzkoi e Karcevski,
Jakobson apresenta a Pro-
posição 22. Publicação dos
Princípios de Gramática
Geral, de Hjelmslev. Na Fi-
ladélfia, nasce Avram Noam
Chomsky.
1929 — Jakobson publica
suas Notas sobre a Evolu-
ção Fonológica do Russo
Comparada à das Outras
Linguas Eslavas. Morre Jan
Baudouin de Courtenay.
1931 — Hjelmslev funda o
Círculo Lingúístico de Co-
penhague. Publicam-se os
Princípios de Fonologia
Histórica, de Jakobson.
1932 — Hjelmslev doutora-
se em filologia com a tese
Estudos Bálticos.
1935 — Publica o primeiro
volume de A Categoria dos
Casos, Estudos de Gramáti-
ca Geral.
BIBLIOGRAFIA
1937 — Publica o segundo
volume da mesma obra.
1938 — Juntamente com
Brôndal, funda a Acta Lin-
guistica. Morre Troubetz-
koi. Jakobson publica Sobre
a Teoria das Afinidades Fo-
nológicas entre as Linguas.
1939 — Publicação de O
Desenvolvimento Fonológi-
co da Linguagem Infantil e
as Coerências Correspon-
dentes nas Linguas do Mun-
do, de Jakobson.
1943 — Hjelmslev publica
A Resposta dos Fundamen-
tos de uma Teoria da Lin-
guagem.
1949 — Morre Bloomfield.
1957 — Editam-se as Estru-
turas Sintáticas, de
Chomsky.
1963 — Publicação de A
Linguagem, de Hjelmslev.
1965 — Chomsky publica
os Aspectos da Teoria da
Sintaxe. Morre Hjelmslev.
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Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1968.
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Mounin, G.: La Linguistique du Siecle, Presses Universitaires de France, Paris, 1972.
Marroso CAMARA JUNIOR, J.: Roman Jakobson e a Linguística, in Linguística. Poética. Cine-
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RuweT, N.: Prefácio aos Essais de Linguistique Générale, de Jakobson, Les Éditions de
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vS4
CANDALH A ODACII
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ams mae aa
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OS PENSADORES
les (384 a.€.-332 a.C.), o termo
“estrutura” manifesta os mais va-
riados significados no curso da história,
mas só modernamente assumiu destaque
especial, tornando-se a noção central de
várias correntes de pensamento, que
abrangem desde a lingiiística e a antro-
pologia até a psicanálise e a história. O
denominador comum a todas essas cor-
rentes de pensamentos é o chamado “es-
truturalismo”.
Traçando-se a gênese do vocábulo
“estrutura”, encontra-se em sua raiz eti-
mológica um primeiro sentido que, de
certa forma, está presente em todas as
correntes estruturalistas do século XX.
A palavra latina structura deriva do
verbo Struere, que significa construir, no
sentido de “construir edificios”. A partir
do século XVII, o termo, já nas línguas
modernas, passou a ser empregado em
outros sentidos, além do significado ar-
quitetônico. Essa ampliação verificou-se
na biologia, quando se passou a compa-
rar o corpo do homem a uma construção:
Fontenelle (1657-1757), por exemplo,
fez esse tipo de comparação, quando es-
creveu sobre a disposição dos órgãos. O
termo “estrutura” estendeu-se também
aos domínios da linngúística, quando,
entre outros, Vaugelas (1585-1650) em-
pregou o vocábulo ao tratar da distribui-
ção das palavras na oração e da compo-
sição dos estilos poéticos. Esses
anatomistas e gramáticos empregaram o
termo “estrutura” pelo fato de ele poder
designar, simultaneamente, um con-
Junto, as partes desse conjunto e as rela-
ções dessas partes entre si; a esses senti-
dos se poderia acrescentar ainda as
relações das partes com o conjunto. A
mesma riqueza de significados explica
também a atenção despertada pela pala-
vra, a partir do século XIX, em todos os
interessados pelas ciências exatas, pelas
ciências da natureza e pelas ciências do
homem. As investigações de Galois
(1821-1832), por exemplo, ao elaborar
a teoria dos grupos, apresenta uma pri-
meira vinculação entre a noção de estru-
tura e a matemática.
Todos esses dados históricos permi-
P resente na filosofia desde Aristóte-
Na pág. anterior: Foto do antropólogo
Claude Lévi-Strauss (M. P. Guéna).
986
tem esboçar uma primeira delimitação
do termo, tal como ele é empregado pe-
las correntes estruturalistas. Em um pri-
meiro sentido, de natureza biológica,
“estrutura” seria um conjunto, cujos ele-
mentos manifestam solidariedade entre
si e dependência mútua. A totalidade de
tal conjunto não consistiria simples-
mente na soma de suas partes, mas re-
sultaria das relações internas existentes
entre as partes, relações essas que são
necessárias e funcionais. No sentido ma-
temático, “estrutura” significa um sis-
tema de relações ou leis que descrevem
o funcionamento de um fenômeno repre-
sentado por um modelo. Nesse sentido,
“estrutura” reduz-se a um sistema de
operações abstratas, e seu significado é
o de uma combinatória geral, que as-
sume aspecto particular ou concreto,
quando preenchida por um modelo, isto
é, pela representação de um fenômeno
determinado. “Estrutura” seria, assim,
uma forma vazia, cuja matéria é variá-
vel, visto depender do modelo particular
que venha a se encaixar nela.
Esses dois sentidos (biológico e mate-
mático) não são, contudo, suficientes
para se compreender o emprego da pala-
vra pelas correntes Soma: o sê-
culo XX.
Nesse sentido, impõe-se lembrar o pa-
pel desempenhado por Ferdinando
Saussure (1857-1913), criador da lin-
guística modema e precursor do estru-
turalismo. Embora não tenha usado a
palavra “estrutura” | explicitamente,
Saussure elaborou toda a essência da
concepção estrutural, mediante a noção
de “sistema”. Para Saussure, a língua é
um sistema, cujos termos são todos soli-
dários, e no qual o valor de um termo re-
sulta da presença simultânea de outros.
Além disso, as partes do sistema podem
e devem ser todas consideradas em sua
solidariedade sincrônica, isto é, em um
dado momento do tempo, e não em sua
evolução histórica.
Suas bases conceituais assim estabe-
lecidas, o estruturalismo pôde desenvol-
ver-se, e estendeu-se a todos os domínios
das ciências humanas. Papel especial-
mente importante nesse sentido foi de-
sempenhado pelo antropólogo Claude
Lévi-Strauss, nascido na Bélgica, em
1908.
LEVI-STRAUSS
V
A
e
Rs E Er nes Po adia:
Os primeiros resultados indiscutíveis da perspectiva estruturalista
apresentaram-se no terreno da Linguística. Adaptado às investigações
antropológicas, o estruturalismo renovou e fecundou essa área das ciências
humanas, sobretudo com os trabalhos de Claude Lévi-Strauss (acuna, em
seu gabinete no Laboratório de Antropologia Social do Collége de France.)
98%
GUÉNA P. M.
OS PENSADORES
GUÉNA P.M.
A carreira científica de Lévi-Strauss iniciou-se em 1934, na Universidade
de São Paulo. Depois disso, o antropólogo lecionou na New School
for Social Research, em New York, de onde passou para a École Pratique des
Hautes Études da Universidade de Paris. Desde 1968 ocupa a cátedra de
Antropologia Social do Collêge de France, cujo pátio interno é visto acima.
988
LÉVI-STRAUSS
Nos Tristes Trópicos
Lévi-Strauss miciou sua vida profis-
sional como antropólogo, quando fez
parte da missão francesa que auxiliou o
governo de São Paulo (Brasil) a fundar
sua universidade, em 1934. Formado em
filosofia pela École Normale Supérieure,
de Paris, Lévi-Strauss, em seus cursos
na Universidade de São Paulo, já discu-
tia temas e problemas, como o tote-
mismo e os sistemas de classificação de
povos primitivos. Nessa época, Lévi-
Strauss realizou estudos de campo entre
os índios brasileiros dos grupos bororo,
cadiueu, nhambiquara e tupi-caraíba.
Em sua obra Tristes Trópicos, publicada
em 1955, encontra-se uma análise dos
Frupos indigenas e da sociedade paulista
a época, em linguagem acessível ao pú-
blico não especializado.
Pouco antes da eclosão da Segunda
Guerra Mundial, Lévi-Strauss E ps à
França, onde serviu ao exército nos dois
primeiros anos da guerra. Em 1941, via-
jou para a Martinica, na América Cen-
tral, e daí conseguiu chegar aos Estados
Unidos, onde passou a lecionar na New
School for Social Research. Nos Estados
Unidos, Lévi-Strauss entrou em contato
com a escola norte-americana de antro-
ologia, profundamente influenciada pe-
as investigações de Franz Boas
(1858-1942), e com o grupo dos lingúuis-
tas liderados por Roman Jakobson
(1896-...). Em 1945, veio à luz, na re-
vista dirigida por Jakobson, o artigo 4
Análise Estrutural em Lingúística e An-
tropologia, no qual se encontram os pri-
meiros passos no sentido de constituição
de uma antropologia estruturalista.
Nesse artigo, Lévi-Strauss procura em-
pregar o método desenvolvido pela lin-
guística fonológica na análise de fenô-
menos culturais.
De volta à França em 1948,
Lévi-Strauss passou a dirigir uma seção
da École Pratique des Hautes Études, da
universidade de Paris. O ano seguinte
seria marcado pela publicação de Estru-
turas Elementares do Parentesco, na
qual Lévi-Strauss fez uma primeira ten-
tativa de aplicação integral do método
estruturalista aos problemas antropoló-
gicos. A idéia central é a de que todos
os sistemas atravês dos quais as socie-
dades se organizam refletem processos
de comunicação. Os mais importantes
dentre eles são o de parentesco, como
forma de circulação de mulheres, o eco-
nômico, de circulação de bens, e a lin-
gua, sistema de troca de palavras.
Em 1958, Lévi-Strauss publicou a co-
letânea Antropologia Estrutural. Em
1962, vieram à luz O Totemismo Hoje
e O Pensamento Selvagem. Nessas
obras, Lévi-Strauss procura mostrar o
processo lógico que opera com as cate-
gorias do sensível e como esse tipo de
pensamento não se encontra apenas en-
tre os povos primitivos, fazendo-se tam-
bém presente na vida cotidiana do ho-
mem civilizado. Suas obras posteriores
ocupam-se do funcionamento dessa es-
trutura de pensamento, através da aná-
lise comparativa dos mitos: O Cru e o
Cozido (1964), Do Mel às Cinzas
(1966), As Origens da Etiqueta à Mesa
(1968), e O Homem Nu (1971).
Que é estrutura?
Em Antropologia Estrutural Lévi-
Strauss afirma que, para merecer o nome
de “estrutura”, um modelo científico
deve satisfazer, exclusivamente, a qua-
tro condições. Em primeiro lugar, o mo-
delo deve oferecer um caráter de sis-
tema, isto é, consistir de elementos
tais que uma modificação qualquer de
um dos elementos acarrete modificação
em todos os outros. Em segundo lugar,
. todo modelo deve pertencer a um grupo
de transformações, cada uma das quais
corresponda a um modelo da mesma
família, de modo que o conjunto dessas
transformações constitua um grupo de
modelos. Em terceiro lugar, as proprie-
dades exigidas por essas duas condições
devem permitir prever de que modo rea-
irá o modelo, em caso de modificação
de um dos elementos. Finalmente, é ne-
cessário que o modelo seja construído de
tal modo que seu funcionamento possa
explicar todos os fatos observados. A
primeira dessas condições revela a opo-
sição, não só de Lévi-Strauss mas do es-
truturalismo em geral contra o empi-
rismo. Na medida em que o empirismo
concebe a realidade como singular e
como revelada graças à experiência
sensível, o objeto passa a ser o que é,
989
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OS PENSADORES
CLAUDE LÉVESTRAUSS |
LA PENSEE
SAUVAGE
Em Tristes Trópicos encontram-se as análises estruturais que Lévi-Strauss
fez, a partir de suas investigações junto aos índios brasileiros dos rapos
bororo, cadiueu, nhambiguara e tupi-caraíba. Em O Pensamento Selvagem,
Lévi-Strauss mostra o processo lógico que opera com as categorias do sensível
e constrói explicações do mundo tal como ele é vivido imediatamente.
dado, o fato. Para o estruturalismo, ao
contrário, um fato isolado, enquanto tal,
jamais possui significado. Lévi-Strauss
exemplifica com os nr a
cheese e queijo. Quando isolados da es-
trutura alimentar que os determina, es-
ses vocábulos, aparentemente, se refe-
rem à mesma realidade; o mesmo,
contudo, não ocorre quando são conside-
rados no interior das distintas estruturas
alimentares a que pertencem, como por
exemplo a cozinha francesa, inglesa ou
brasileira, nas quais se revelam comple-
tamente diferentes. Para o francês, fro-
mage conota um gosto picante, enquanto
que, para o inglês, cheese quase não pos-
sui gosto e, para o brasileiro, queijo de-
nota um gosto salgado. Salienta-se as-
sim o caráter relativo dos elementos da
estrutura: o sentido e o valor de cada
elemento advêm, exclusivamente. da po-
sição que ocupem em relação aos de-
mais. Para Lévi-Strauss, uma estrutura
990
se constrói tendo como base oposições
binárias pertinentes. A pertinência ou
oposição pertinente por sua vez é defi-
nida por ele como uma operação que
pressupõe: a) que cada unidade da estru-
tura é uma simples relação, insignifi-
cante em si mesma; b) que a descrição
das unidades relativas deve cobrir a to-
talidade dos fenômenos de um campo as-
sim estruturado; c) que os elementos não
pertinentes devem ser eliminados; d) que
a estrutura deve ser construida a partir
das menores unidades significativas do
domínio estudado, Além disso, as oposi-
ções binárias pertinentes conferem valor
aos elementos constituintes do sistema.
valor esse que é exclusivamente de posi-
ção. Desse modo, a estrutura, segundo
Lévi-Strauss, é um sistema de relações,
e é de sistemas desse gênero que a socie-
dade é feita: sistema de parentesco e de
filiação, sistema de comunicação lin-
gúística, sistema de troca econômica, da
LÉVI-STRAUSS
CLAUDE LEVI-STRAUSS
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Ê CLAUDE |
LEVI-STRAUSS ,
MYTHOLOGIQUES :
La Cru
CUIT,
PMN
ED
Para Lévi-Strauss, a lógica concreta pe po “primitivos”
não é um fenômeno exclusivo desses povos. Pe
o contrário, está também
resente em todos os momentos da vida do homem “civilizado”.
Em O Cru e o Cozido e Do Mel às Cinzas, através da análise comparativa
dos mitos, Lévi-Strauss mostra o funcionamento dessa “ciência do concreto”.
arte, do mito e do ritual. Essa concepção
acarreta como consequência que, para
Lévi-Strauss, a noção de estrutura social
não se refere propriamente à realidade
empírica, mas aos modelos construídos
segundo essa realidade. Os modelos,
para Lévi-Strauss, podem ser conscien-
tes ou inconscientes, de acordo com o
nível onde funcionam, e essa condição
não afeta sua natureza. Os modelos
conscientes (que se chamam comumente
normas) incluem-se entre os mais pobres
que existem, em razão de sua função,
que é a de perpetuar as crenças e os
usos, mais do que lhes expor as causas.
Assim, a análise estrutural choca-se
com a seguinte situação paradoxal, bem
conhecida pelo linguista: quanto mais
nítida é a estrutura aparente, tanto mais
dificil torna-se apreender a estrutura
profunda, por causa dos modelos cons-
cientes e deformados que se interpõem,
como obstáculos, entre o observador e o
seu objeto. Na investigação etnológica,
tais obstáculos estabelecem uma distân-
cia entre o observador e a sociedade es-
tudada; essa distância constitui uma ga-
rantia de objetividade, pois, impedindo
que observador e objeto venham a se
identificar, impede também que este úl-
timo seja reduzido às pré-concepções do
primeiro. Mas, ao mesmo tempo, essa
distância não tem apenas um caráter li-
mitativo, pois constitui o terreno de uma
possível comunicação. Se a estranheza
entre o observador e o seu objeto é total,
se eles não dispõem de nada em comum,
então o objeto se fecha na sua opacidade
e permanece refratário à investigação.
Alem disso, a própria divergência entre
a cultura do observador e a do obser-
vado, mediante o qual o outro se consti-
tui como tal, torna-se ininteligível. O
conceito de objetividade assume então
um valor problemático, não significando
apenas uma cisão, uma distância, mas
991
OS PENSADORES
também uma reciprocidade, uma solida-
riedade entre o observador e o obser-
vado. O conceito de objetividade dá lu-
gar ao paradoxo de um objeto, ao
mesmo tempo, objetivamente muito
afastado e sSubjetivamente muito con-
creto; em outros termos, dá lugar ao pa-
radoxo de uma verdade que se situa na
intersecção de duas subjetividades. Na
realidade, o que caracteriza a investiga-
ção etnológica é a recusa da antinomia
entre sujeito e objeto. A apreensão do
fato social é concreta na medida em que
é totalizante e envolve, em um único mo-
vimento, as propriedades objetivas e a
experiência subjetiva. Tal apreensão
concreta não se refere à existência Ime-
diata do objeto dado, mas ao objeto real
que, para o estruturalismo, é constituido
pela totalidade de suas manifestações
empíricas visíveis, acrescidas de sua ra-
zão invisível, teoricamente estabelecida.
Explica-se, assim, por que Lévi-Strauss
trata, não das relações sociais visíveis,
mas das estruturas sociais invisíveis.
Um novo idealismo?
Em sua Antropologia Estrutural,
quando estabelece um paralelo entre a
lingua e a cultura, e em O Cru e o Co-
zido, quando examina o sistema das
transformações dos mitos, a partir de
um mito de referência qualquer, Lévi-
Strauss encontra sempre um sistema de
invariantes estruturais, ou de leis estru-
turais, que o levam a postular uma iden-
tidade entre as leis do mundo e as do
pensamento. Em consequência, concebe
a estrutura como real; não como subs-
tância, mas como sistema de leis cons-
tantes do espírito. “Nossa problemática”
- reconhece Lévi-Strauss - “reúne-se à do
kantismo”. Procurando as condições nas
quais os sistemas de verdade se tornam
mutuamente conversíveis e podem, por-
tanto, ser simultaneamente recebidos
por vários sujeitos, o autor de O Cru e
o Cozido mostra como o conjunto dessas
condições adquire o caráter de objeto
dotado de realidade própria e indepen-
dente de todo sujeito. Com os mitos
ocorreria o mesmo que com a lingua-
gem: o sujeito que aplicasse consciente-
mente no discurso as leis fonológicas e
gramaticais, afinal acabaria perdendo o
992
fio de suas idéias. Do mesmo modo, o
exercício e o uso do pensamento mítico
exigem que suas propriedades permane-
cam escondidas. À análise dos mitos, as-
sim, não tem, nem pode ter, como objeto,
mostrar como os homens pensam, mas
como os mitos se pensam nos homens.
Lévi-Strauss vai ainda mais longe, ao
admitir que se deva fazer abstração de
todo sujeito para considerar que, de
certa maneira, os próprios mitos se pen-
sam entre si.
Por outro lado, a problemática sujei-
to-objeto, envolvida na conceituação de
estrutura, vincula-se ao problema for-
ma/conteúdo. Para Lévi-Strauss, existe
“uma atividade inconsciente do es-
pirito”, que consiste em “impor formas
a um conteúdo”. Embora afirmando que
forma e conteúdo possam ser definidos
como pontos de vista complementares,
Lévi-Strauss insiste no fato de que só as
formas, e não os conteúdos, podem ser
comuns. Além disso, à constância das
formas se contrapõe a variabilidade dos
conteúdos. Isso não implica, contudo,
que haja uma antinomia entre forma e
conteúdo, pois este último nas palavras
de Lévi-Strauss “deriva sua realidade de
sua estrutura, e o que se define como
forma é a estruturação das estruturas lo-
cais nas quais consiste o conteúdo”. A
complementaridade forma / conteúdo
traduz a recusa a opor o abstrato ao con-
creeto. Lévi-Strauss declara que “o es-
truturalismo se recusa a opor o concreto
ao abstrato e a atribuir valor privile-
giado ao segundo. A forma é definida
por oposição à matéria que lhe é estra-
nha, mas a estrutura não possui um con-
teúdo dela mesma. A estrutura é o pró-
prio conteúdo apreendido numa
organização lógica, concebida como
propriedade do real”. Desse modo, longe
de constituir uma antinomia, forma e
conteúdo são ambos da mesma análise
estrutural, já que a não-arbitrariedade
dos conteúdos é ressaltada por sua
transformação recíproca, através de per-
mutações que respeitam as condições
postas pela estrutura do conjunto. Se-
Ronco Lévi-Strauss, isso permite passar
a observação etnográfica, que é con-
creta e individualizada, às pesquisas es-
truturais, cujo caráter abstrato e formal
parece opor-se aos dados gráficos.
LEVI-STRAUSS
Lévi-Strauss conseguiu dar maior amplitude ao estudo das relações de
parentesco, dele afastando qualquer conotação biológica. O autor de Tristes
Trópicos mostrou que o parentesco é uma forma de comunicação:
as mulheres circulam entre as ear Ate gr criando laços
sociais de aliança. (Adolescentes da tribo dos índios brasileiros utacá.)
993
OS PENSADORES
Coisas e relações
A contradição entre o caráter abstrato
das esquisas estruturais e o caráter in-
dividualizado da observação etnográfica
desaparece quando, segundo Lévi-
Strauss, se compreende que esses carac-
teres antitéticos dependem de dois níveis
diferentes, ou, mais exatamente, corres-
pondem a duas etapas da pesquisa. No
nível da observação, a regra principal
estabelece que todos os fatos devem ser
exatamente observados e descritos, sem
permitir que os preconceitos teóricos al-
terem sua natureza e sua importância.
Essa regra implica outra, se ndo a
qual os fatos devem ser estudados em si
mesmos (que processos concretos os le-
varam à existência?) e também em rela-
ção com o conjunto; em outros termos,
toda mudança em um ponto deve ser re-
lacionada com as circunstâncias globais
de sua aplicação.
Por outro lado, a investigação estru-
turalista, tal como a concebe Lévi-
Strauss, apresenta a imprescindível exi-
gência metodológica do estudo imanente
das conexões essenciais das estruturas,
independentemente do problema de sua
gênese ou de suas relações com o que é
exterior a elas. O estudo imanente de um
objeto implica a descrição do sistema
em termos estritamente relacionais;
onde a experiência comum só reconhece
coisas, a análise estrutural descreverá
redes de relações nas quais estas têm
prioridade dig O próprio
objeto e suas es diferentes aparece-
rão como intersecções de feixes de rela-
ções. No sentido do sistema de pa-
rentesco, por exemplo, deve-se,
inicialmente, realizar uma aproximação
a partir do interior daquele sistema,
aproximação que define suas estruturas
lógicas internas, sem tratar das relações
desse sistema com a organização social
e econômica, com outras esferas de
crença, etc. É verdade que a análise dos
distintos níveis do conjunto social mos-
tra que cada um deles constitui um sis-
A maioria das obras de Lévi-Strauss
foi escrita paralelamente ao seu
trabalho na cadeira de Antropologia
Social do College de France, em cuja
biblioteca aparece na foto ao lado.
994
LÉVI-STRAUSS
OS PENSADORES
Wolfgang Kohler (na foto acima) foi
um dos fundadores da Gestalt. Essa
escola de psicologia constitui uma
das expressões das correntes de
pensamento estruturalista do séc. XX.
tema e, portanto, podem ser estudados
or meio de modelos ideais, mas é tam-
Rem verdade que todo sistema nasce de
uma práxis inter-humana e que a reali-
dade social é um conjunto articulado,
cujos diferentes níveis se acham numa
relação de interação. Se o fato social
constitui um todo, sua apreensão não
pode ser parcelada; pelo contrário, deve
sempre determinar os nexos essenciais
que relacionam os diversoss estratos en-
tre si. Desse modo, a totalidade do fato
social, enquanto objeto de apreensão
concreta, não recusa a utilização do mo-
delo (inclusive matemático), já que ele é
essencial à compreensão da realidade et-
nográfica.
Os modelos
No entanto, a totalidade social impõe
a exigência de que o próprio modelo
possa fundar-se naquela realidade. Por
exemplo: no caso de uma multiplicidade
de fenômenos totêmicos, a Investigação
antropológica não esgota a realidade
996
FAB8BAI
concreta, quando evidencia relações de
homologia, de oposição e de correlação
entre os referidos fenômenos.
No que diz respeito aos modelos, de-
ve-se salientar uma última distinção in-
troduzida por Lévi-Strauss. Tal distin-
ção relaciona-se com a escala do
modelo, comparada à dos fenômenos.
Um modelo cujós elementos constituti-
vos estão na escala dos fenômenos será
chamado “modelo mecânico”, e aquele
cujos elementos estão numa escala dife-
rente, “modelo estatístico”. Tanto um
quanto o outro não representam as úni-
cas alternativas possíveis; entre os dois
existem, segundo Lévi-Strauss, formas
intermediárias. A distinção encontra sua
explicação no valor posicional e diferen-
cial que é atribuído a cada elemento da
estrutura, destitumndo-a, assim das ca-
racterísticas intrínsecas fornecidas pela
experiência sensível. Nesse sentido, a es-
trutura não consiste num conjunto de
propriedades ou de elementos: é apenas
um sistema de relações. Em decorrência
disso, a investigação antropológica já
não se apóia nos elementos em si, mas
nas relações recíprocas que eles man-
têm, pois apenas as relações são cons-
tantes, ao passo que os elementos podem
variar. Evidenciando a mesma constân-
cia, a estrutura apresenta um caráter
abstrato sustentado pelas propriedades
formais do modelo. Devido precisamente
a esse caráter abstrato, o modelo tor-
na-se aplicável a qualquer ordem ou es-
cala de fenômenos, mesmo que seus ele-
mentos constitutivos difiram dessa
ordem. Nesse sentido, a estrutura passa
a se caracterizar por sua transponibili-
dade, ou tradutibilidade, de fenômeno
para fenômeno e de uma ordem de fenô-
menos para outra. “As pesquisas estru-
turais” - assinala Lévi-Strauss — “não
ofereceriam interesse algum se as estru-
turas não fossem traduzíveis em mode-
los cujas propriedades formais são com-
paráveis, independentemente dos
elementos que as compõem”. Baseado na
idéia de tradutibilidade encontra-se o
pressuposto de que, segundo uma pers-
pectiva abstrata, as estruturas têm a
mesma forma, ou seja, elas obedecem ao
princípio do isomorfismo. Este último
garante, do ponto de vista metodológico,
a possibilidade de uma relação inter-dis-
LÉVI-STRAUSS
ciplinar entre as ciências. As relações
entre a história e a etnologia podem ser
tomadas como ilustração, não só da
possível colaboração entre as ciências,
mas como aplicação da distinção entre
modelo mecânico e modelo estatístico.
Para explicitar a diferença entre história
e etnologia, é preciso, segundo Lévi-
Strauss, inseri-las no interior das outras
ciências sociais. Para ele, “a etnografia
e a história diferem, antes de tudo, da et-
nologia e da sociologia, visto que as
duas primeiras estão fundadas sobre a
coleta e a organização de documentos,
enquanto as ERR outras estudam antes
os modelos construídos a partir e por
meio desses documentos”. Além disso, a
etnografia ea Fuolena correspondem
respectivamente uas etapas da
mesma pesquisa, que termina, enfim, em
modelos mecânicos, enquanto a história
(e todas as outras disciplinas geralmente
classificadas como suas dunadnes) ter-
mina em modelos estatísticos. As rela-
ções entre essas quatro disciplinas po-
dem, pois, ser reduzidas a duas
oposições: uma, entre observação em-
pirica e construção de modelos (como
caracterizando o passo inicial); outra,
entre o caráter estatístico ou mecânico
dos modelos, vistos segundo a perspec-
tiva do ponto de chegada.
O mecesto
Grande parte da reflexão teórica de
Lévi-Strauss encoritra seu ponto de par-
tida em situações concretas vividas por
grupos primitivos. Desse modo, ao exa-
minar, por exem lo, certas caracteristi-
cas de grupos culturais da América tro-
ical, Lévi-Strauss busca elucidar um
Fa to crucial para a teoria antropológica:
a proibição do incesto, única regra cul-
tural que apresenta caráter de universa-
lidade. Para o autor de Estruturas Ele-
mentares de Parentesco, a proibição do
incesto, arrancando o individuo de sua
mera constituição biológica, torna-o ca-
paz de coexistir com outros; passando
da consanguinidade à aliança, o indivi-
duo não se situa mais apenas em relação
com a familia biológica, mas em relação
com o grupo. À regra exogâmica tem a
função de assegurar a permanência do
grupo, que seria, ao contrário, compro-
Michel Foucault, considerado um
estruturalista, tem rejeitado
essa classificação. Penetrando em
domínios pouco explorados, Foucault
elabora uma arqueologia do saber.
9974
DEDOC
OS PENSADORES
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As corr entes estruturalistas têm proposto várias definições para a palavra
“estrutura” + noção central de suas investigações. Levi-Strauss ensina a seus
alunos que “uma estrutura oferece um caráter de sistema, consistindo em
elementos combinados de tal forma que qualquer modificação em um deles
implica uma modificação de todos os outros”
metida, se a família biológica se voltasse
sobre si mesma e subtraíisse os indivi-
duos de participação no seio do próprio
grupo. Por trás de sua conotação nega-
tiva, a proibição do incesto encobre, na
realidade, uma norma positiva, Já que a
renúncia a tomar uma parceira no âm-
bito da própria família bioló pe signi-
fica, para o sujeito, o direito de pe
car uma outra mulher do grupo. Are
exogâmica constituiria assim, o núcleo
originário, ainda indeterminado, de to-
das as formas de intercâmbio. Lévi-
Strauss mostra que, devido à sua univer-
salidade, a proibição do incesto
apresenta-se ligada à natureza, mas, na
medida em que se instaura como regra,
essa proibição manifesta seu caráter de
fenômeno social e, nesse sentido, repor-
ta-se ao universo das regras, isto é, da
cultura. Desse modo, a origem da proi-
bição não se situa, exclusivamente, nem
na natureza, nem na cultura. Para Lévi-
Strauss, ela “constitui o movimento fun-
damental, graças ao qual, através do
qual, mas sobretudo no qual, se realiza
a passagem da natureza à cultura”. Vale
salientar ainda que, substancialmente,
não existe diferença entre a proibição do
incesto e a exogamia. Para Lévi-Strauss,
998
. (Lévi-Strauss e colaboradores).
elas diferem apenas por um caráter se-
cundário, pois, embora ambas sejam re-
gras de reciprocidade, esta última, na
proibição do incesto, se apresenta sem
organização, ao passo que, na exoga-
mia, está organizada. A reciprocidade
que caracteriza ambas as regras eviden-
cia-se na renúncia que elas acarretam,
pois só se renuncia à a filha ou à
irmã, desde que o outro faça o mesmo.
Além disso, o intercâmbio, distinguin-
do-se da exogamia, não é necessaria-
mente explicito ou imediato — o que não
impede a presença da reciprocidade, já
que, em última instância, a obtenção de
uma mulher está condicionada ao fato de
que um pai ou um irmão já renunciaram
a ela. No entanto, adverte Lévi-Strauss,
a regra não diz em proveito de quem se
renuncia; o beneficiário ou, seja como
for, a classe beneficiada, no caso da exo-
gamia, está, ao contrário, delimitada.
Desse modo, a única diferença é que, na
exogamia, se expressa a crença de que
é necessário defânir as classes para que
seja possível estabelecer uma relação en-
tre Ejs enquanto que, na proibição do
incesto, a relação é é suficiente para defi-
nir, em cada instante da vida social, uma
completa e incessantemente renovada
LÉVI-STRAUSS
Por ocasião do Ano Internacional da Luta Contra o Racismo ea Discriminação
Racial, organizado pela UNESCO em março de 1971, inúmeras per sonalidades de
relevo mundial contribuíram com trabalhos diversos, todas condenando
preconceitos raciais de qualquer espécie. Na foto acima, vê-se
Lévi-Strauss, no dia de sua intervenção, ao lado
multiplicidade de termos, direta ou indi-
retamente solidários.
A reciprocidade representa também o
denominador comum entre a antropolo-
gia estrutural e a linguística, pois em
ambos os casos ela é a estrutura funda-
dora. O objetivo do sistema do paren-
tesco, como o da linguagem, é instituir
um campo aberto da comunicação, no
qual cada sujeito só se define por sua co-
locação em relação ao outro. Por outro
lado, se na linguagem os elementos cons-
titutivos não valem tanto por suas pro-
priedades intrínsecas, mas pelas rela-
ções que os enlaçam em um sistema de
separações diferenciais, nos sistemas de
parentesco as mulheres configuram-se
como valores num conjunto de relações
de reciprocidade, regido por princípios
de oposição e correlação análogas as
que são subentendidas pela comunicação
linguística.
Lévi-Strauss distingue três níveis da
comunicação social: comunicação de
mensagens (correspondente aos produ-
tos simbólicos que operam sobre a base
da linguagem ou de algum sistema codi-
ficado de signos): comunicação de mu-
lheres (formas de Forpanitação de paren-
tesco e de intercâmbio matrimonial); e
o diretor da UNESCO.
comunicação de bens (a economia). De-
ve-se ter presente que esses três níveis de
comunicação social são definidos por
sistemas de regras inconscientes. Por
outro lado, ressalte-se que o conjunto
das aquisições inter-humanas (o com-
lexo na necessidades, das solicitações
hioló aos das pulsões, etc.) insere-se
em um nível onde a subjetividade as-
sume caráter operante graças a seu rela-
cionamento com o outro. Essa relação se
instaura, sobretudo, no plano do incons-
ciente. À união entre as diversas subjeti-
vidades não aparece somente nas insti-
tuições conscientemente elaboradas para
um fim intersubjetivo mas ao contrário
tem sua gênese na pertinência a uma es-
trutura comum — e universalmente vá-
lda — da atividade. Segundo Lévi-
Strauss, o objetivo da etnologia consiste
em delmear traços essenciais, trazendo
à luz as leis universais que formam uma
ponte entre sujeito e sujeito e entre so-
ciedade e sociedade. Através do incons-
ciente realiza-se o paradoxo, próprio da
etnologia: o de ser, ao mesmo tempo,
uma ciência objetiva e subjetiva. Esse
paradoxo revela-se no fato de que as leis
do inconsciente transcendem a dimensão
subjetiva e são, por assim dizer, exterio-
999
GUÉNA P.M
OS PENSADORES
Lévi-Strauss sempre procurou a maior
Eee em suas
investigações, afirmando: “É preciso
compreender o ser em relação a ele
próprio e não em relação a mim”.
1000
GUÉNA P. M.
res a ela, ainda que não possam ser cap-
tadas, a não ser mediante as operações
efetivas da subjetividade. Sob um
grande número de formas nas quais, de
cultura a cultura, sobressai a atividade
dos sujeitos, a etnologia individualiza as
categorias recorrentes que constituem o
fator primário de cada estruturação, ou
seja, o substrato comum sobre o qual po-
derá depois se articular uma série de ex-
periências diferenciadas. Ainda nesse
caso, é no exemplo da linglística — e em
particular da fonologia — que se baseia
a antropologia estrutural. A fonologia,
recorda Lévi-Strauss citando Troubetz-
koi (1890-1938), colocou em relevo a
necessidade de se passar do estudo dos
fenômenos conscientes da linguagem ao
dos fenômenos inconscientes, como tam-
bém ressaltou a necessidade de desco-
brir o conjunto de leis elementares e uni-
versais que permanecem latentes na
comunicação lngúiística.
Tendo em vista essas considerações,
pode-se afirmar que, na tematização de
uma ordem da realidade intersubjetiva
(como a do sistema de parentesco), além
da estruturação efetivar-se (sobretudo
em um nível inconsciente), o fim essen-
cial é o da comunicação. Essa mesma
idéia está presente no fato de que, no uso
da linguagem, o sujeito não tematiza ex-
plicitamente princípios (como os de opo-
sição e de correlação) que atuam sobre
o continuo fônico. A razão disso está no
fato de que os princípios operam em
nível muito mais profundo, represen-
tando a estrutura básica mais elementar,
presente em todos aqueles que falam e
na qual se corporifica a complexidade
dos fenômenos linguísticos.
O pensamento prim itivo
Em 1955, seis anos após a publicação
de Estruturas Elementares do Paren-
tesco, Lévi-Strauss publicou Tristes Tró-
picos, onde relata os contatos entre o an-
tropólogo, representante da “sociedade
ocidental”, e as sociedades primitivas,
cujas características trazem à tona a
enorme distância social que constitui um
abismo entre o investigador e essas so-
ciedades. Para tentar eliminar essa dis-
tância, Lévi-Strauss considera a tarefa
do antropólogo como sendo exatamente
O —o—oeoeeaoA“NN JH TH |
LEVI-STRAUSS
GUÉNA P.M.
Marcadas por extremo rigor e precisão, as obras de Lévi-Strauss tarmbém revelam
sensibilidade artística; seus títulos são quase sempre ps Ao lado
o
disso, seus trabalhos são permeados de espírito filosófico pois a
confrontação que estabelecem entre as culturas primitivas e o Ocidente
civilizado cria novas perspectivas de questionamento do homem e seu futuro.
1001
E | L Ee
OS PENSADORES
a de elaborar transformações, a fim de
explicar com os mesmos modelos os
mais diferentes fenômenos. Essa trans-
formação consiste em reduzir a socie-
dade primitiva e a civilizada a um mo-
delo único. Contudo essa é uma operação
de laboratório, uma construção da inte-
hgência investigativa: à falta de uma
verdade de fato, constróôi-se uma verdade
de razão. Tais transformações, trans-
pondo modelos de um sistema para o ou-
tro, exigem uma garantia para a opera-
ção; essa garantia reside na elaboração
de um sistema dos sistemas. Em outras
palavras, se existe um sistema de regras
que permite a articulação de uma língua
(código lingiiístico) e um sistema de re-
gras que permite a articulação das tro-
cas de parentesco como modos de comu-
nicação (códigos do parentesco), deve
existir um sistema de regras que pres-
crevem a equivalência entre o signo lin-
edad e o signo parental. Esse sistema
everia ser chamado ““metacódigo”,
visto ser um código que permite defini
e nomear outros códigos a ele subordina-
dos. A esse respeito, Lévi-Strauss afirma
em O Cru e o Cozido: “Já que os pró-
prios mitos repousam sobre códigos de
segundo grau (os códigos de primeiro
grau são os da linguagem corrente), en-
tão este livro delinearia um código de
terceiro grau, destinado a assegurar a
tradutibilidade reciproca dos vários mi-
tos.” Isso equivale a dizer que, ao pro-
gredir a indagação estrutural, o sistema
estudado tende cada vez mais a manifes-
tar sua unidade interna, sua coesão e sua
exaustividade em relação aos fenômenos
examinados. As estruturas que vão sur-
gindo escapam progressivamente à par-
ticularidade inicial e tendem a generali-
zar-se; por trás da multiplicidade dos
dados empíricos, vislumbram-se rela-
ções cada vez mais simples que por sua
recorrência cobrem uma gama muito
ampla de fenômenos e garantem sua in-
teligibilidade; delineia-se, como terme
ideal, a existência de uma meta-estru-
tura. Para Lévi-Strauss, a unidade do
sistema, assim explicitada, não constitui
uma forma fechada em si; pelo contrá-
rio, caracteriza-se pela constante aber-
tura em direção ao acontecimento.
Exemplo claro dessa maneira de ver
encontra-se na obra de Lévi-Strauss O
1002
Pensamento Selvagem e em uma confe-
rência pronunciada no Collêge de
France, em 1960. Nessas obras, Lévi-
Strauss afirma que, em uma sociedade
primitiva, as várias técnicas — que to-
madas isoladamente podem aparecer
como um dado bruto — surgem como o
equivalente de uma série de escolhas
significativas, quando situadas no inven-
tário geral das sociedades. Nesse sen-
tido, para Lévi-Strauss, um machado de
pedra toma-se signo porque toma o lu-
gar, no contexto em que se insere, do
utensílio diferente que outra sociedade
empregaria para o mesmo fim. Estabele-
cida a natureza simbólica de seu objeto,
a Antropologia conclui que deve descre-
ver sistemas de signos segundo modelos
estruturais. Ela encontra suas experiên-
cias já dadas e prontas e, por ISSO
mesmo, ingovernáveis, devendo, por-
tanto, substituí-las por modelos. Assim,
a Antropologia conclui que o pensa-
mento selvagem, operando através de
um conjunto de separações diferenciais,
institui, no interior da totalidade em-
pírica, um sistema de oposições que pos-
sibilitará o início da estruturação dessa
totalidade, a qual, por sua vez, torna-se
disponivel para uma atividade de signifi-
cação. Nesse passo, é importante salien-
tar que, segundo Lévi-Strauss, “o pensa-
mento selvagem é lógico no mesmo
sentido e da mesma maneira em que o é
nosso pensamento, mas só quando o
nosso se aplica ao conhecimento de um
universo ao qual se reconhecem, ao
mesmo tempo, propriedades fisicas e
propriedades semânticas”. Dessa forma,
ao antropólogo convém, antes de mais
nada, afastar o fantasma de uma pre-
tensa mentalidade primitiva, já que o
pensamento “selvagem” não se revela
como uma forma distorcida ou arcaica
do nosso, mas como uma experiência do-
tada de lógica interna, que é tão ou mais
exigente e rigorosa quanto a elaborada
pelo pensamento civilizado ocidental.
Quando, por exemplo, um indígena usa,
para o seu sistema de classificação, cer-
tas categorias representadas pelas espé-
cies animais, não se deve ver nisso uma
exigência. animista, mas, ao contrário,
uma exigência lógica: a subdivisão das
espécies animais ou vegetais institui
para ele um primeiro esboço de articula-
LÉVI-STRAUSS
A antropologia estruturalista pretende mostrar que as diferenças existentes
entre as culturas podem ser reduzidas a alguns tipos de estruturas
semelhantes, que se encontram camufladas sob a diversidade aparente.
Manifestações dessas estruturas neuem ser encontradas em qualquer produto
cultural. (Desenho em couro de boi, dos índios brasileiros do grupo cadiueu.)
1003
OS PENSADORES
ções do real. Por outro lado, a significa-
ção pressupõe sempre um trabalho
diacrítico, pois a atividade simbólica se
expressa inserindo os dados naturais em
um sistema de traços diferenciais. Exa-
tamente nessa liberdade da cultura so-
bre a natureza funda-se a arbitrariedade
(não naturalidade) do signo. A cultura
submete os dados naturais e passa a dis-
por de um campo de autonomia no qual
pode aprofundar-se, embora sem romper
os vínculos que a unem à natureza. Ti-
rando da experiência sensível e percep-
tiva as categorias das quais se serve
para exprimir certas concatenações con-
ceituais, o pensamento dos povos primi-
tivos oferece a imagem de um pensa-
mento concreto que não produziu ainda
as distinções entre objetivo e subjetivo e
entre qualidades primárias e secundá-
rias — o que revela sua inerência a um
mundo primordial. O pensamento dos
povos primitivos, nas palavras do pró-
prio Lévi-Strauss, não é “o pensamento
dos selvagens, nem o da humanidade
primitiva ou arcaica, mas o pensamento
em estado selvagem, distinto do pensa-
mento cultivado ou dómesticado”. Seria
o próprio pensamento civilizado em seu
caráter originário.
1908 - Nasce Claude Lévi-
Strauss, na Bélgica.
1912 - Max Wertheimer
publica um artigo sobre per-
cepção visual do movi-
mento, com o qual funda-se
a escola psicológica da Ges-
talt.
1916 - Vem à luz o Curso
de Linguística Geral, de
Ferdinand de Saussure, que
dá início ao estruturalismo.
1934 - Lévi Strauss chega
ao Brasil, para lecionar na
Universidade de São Paulo.
1938 - Publica-se Sobre a
Teoria das Afinidades Fo-
nológicas entre as Linguas,
de Roman Jakobson.
1939 - Inicia-se a IH
Guerra Mundial. Lévi
Strauss é convocado para
servir o exército.
CRONOLOGIA
1941 - Lévi-Strauss deixa a
França, com destino à Mar-
tinica, de onde seguiria para
os Estados Unidos.
1943 - Jean Paul Sartre pu-
blica O Ser e o Nada, e vêm
a luz os Prolegômenos a
uma Teoria da Linguagem,
de Louis Hjelmslev.
1945 - Lévi-Strauss pu-
blica o artigo A Análise Es-
trutural em Lingúística e
Antropologia, na revista di-
rigida por Roman Jakobson.
1947 - Lévi-Strauss deixa
os Estados Unidos.
1948 - Lévi-Strauss passa
a lecionar na École des
Hautes Études, da Universi-
dade de Paris.
1949 - Publica-se Estrutu-
ras Elementares do. Paren-
tesco, de Lévi-Strauss.
BIBLIOGRAFIA
1955 - Publica Tristes
Trópicos, onde estuda os
índios brasileiros.
1957 - Chomsky publica
Estruturas Sintáticas.
1958 - Lévi-Strauss passa
a trabalhar na cadeira de
Antropologia Social do Col-
lêge de France, e publica
Antropologia Estrutural.
1960 - Sartre publica Crí-
tica da Razão Dialética.
1962 - Vêm à luz O Tote-
mismo Hoje e O Pensa-
mento Selvagem.
1968 - Recebe medalha de
ouro do Centre National de
Recherche Scientifique, e
publica As Origens da Eti-
queta à Mesa. Jean Piaget
publica O Estruturalismo.
1971 - Lévi-Strauss | pu-
blica O Homem Nu.
MeERLEAU- PonTI, M.: De Mauss à Claude Lévi-Strauss, in Signes, Gallimard, Paris, 1960.
BENVENISTE, EMILE: Problêmes de Linguistique Générale, Gallimard, Paris, 1965.
LACAN, JACQUES: Écrits, Seuil, Paris, 1966.
Lfvi-STRAUSS C.: Antropologia Estrutural, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1967.
DivERSOS AUTORES: Estruturalismo, Portugália, Barcelos, 1968.
GRANGER G. G.: Pour une Philosophie du Style, Armand Colin, Paris, 1969.
DivEerSOS AUTORES: Estruturalismo (15 volumes), Nueva Vision, Buenos Aires, 1968.
DivERSOS AUTORES: Cahiers pour Analyse, n.º 9, École Normale St. Claud, França, 1969.
BouDoN, RAYMOND: 4 Quoi Sert la Notion de Structure, Vrin, Paris, 1970.
BASTIDE, R. e OUTROS: Usos e Sentidos do Termo “Estrutura”, Herder e Editora da Universi-
dade de São Paulo, São Paulo, 1971.
Eco UMBERTO: 4 Estrutura Ausente, Perspectiva, São Paulo, 1973.
1004
OS PENSADORES
m 1955, foi fundado em Genebra
É um centro de altos estudos, sob
os auspícios da Fundação Rocke-
feller. Nele, reúnem-se pesquisadores de
todo o mundo que tratam dos mais diver-
sos assuntos, desde fatos aparentemente
simples, como as primeiras palavras
pronunciadas pelos bebês, até os compli-
cados problemas teóricos de cibernética.
Trata-se de uma instituição dedicada a
assuntos interdisciplinares, estudando
inclusive a teoria da informação, a for-
mação dos raciocínios recorrenciais, a
teoria das ligações analíticas e sintéti-
cas, a epistemologia do tempo e do espa-
ço, a aPrenajcantm das estruturas lógi-
cas e a teoria das probabilidades. Tão
ampla variedade de assuntos, no entanto,
não dá como resultado uma simples
somatória de investigações; pelo contrá-
rio, existe um denominador comum que
unifica todas as contribuições em torno
de uma disciplina só: a Epistemologia
Genética, criada por Jean Piaget.
Piaget definiu a si mesmo como um
“antigo-futuro-filósofo que se trans-
formou em psicólogo e investigador da
gênese do conhecimento”. Essa definição
e as razões da transformação são apre-
sentadas por ele no livro Sabedoria e Ilu-
sões da Filosofia publicado em 1965.
Nesse livro, Piaget desenvolve a tese de
que a filosofia é uma “sabedoria” indis-
pensável aos seres racionais, mas que
não atinge um “saber” propriamente
dito, provido das garantias e dos mêto-
dos de controle, característicos do que se
denomina “conhecimento”
As razões dessa ausência de controle
poderiam. ser encontradas no divórcio
entre as ciências e a filosofia, cujas liga-
ções caracterizaram os grandes sistemas
do passado. Não é desprovido de senso,
diz Piaget, “pensar que foi a orientação
biológica de Aristóteles e a orientação
matemática de Platão que Jusnhcara sa
diferenças essenciais em seus sistemas”
Assim, o pensamento cartesiano não
pode ser compreendido sem a matemá-
tica, e o criticismo kantiano, sem a física
newtoniana. Na filosofia dos séculos XIX
e XX, entretanto, essas ligações foram
rompidas pela maior parte dos filósofos
Na página anterior: retrato do
pensador Jean Piaget (Abril Press).
1006
e surgiram conflitos que retardaram o
desenvolvimento das disciplinas que pre-
tendem ser científicas. Piaget chegou à
conclusão de que, sob o conjunto extre-
mamente complexo de fatores que inter-
vêm nesses conflitos, reencontra-se sem-
pre o mesmo problema: “em ue
condições pode-se ter o direito de falar
de conhecimento e como salvaguardá-lo
contra os perigos interiores e exteriores
que não cessam de ameaçá-lo?”. E acres-
centa: “... quer se trate de tentações
interiores ou de coações sociais de toda
espécie, esses perigos perfilam-se em
torno de uma mesma fronteira, surpreen-
dentemente móvel ao longo das idades e
das gerações, mas não menos essencial
ao futuro do saber: aquela que separa a
verificação da especulação”
Por essas razões, Piaget diz que se
“desconverteu”, transformando-se de um
“antigo-futuro-filósofo” em psicólogo e,
sobretudo, em investigador das estrutu-
ras e da gênese do conhecimento. Em Ló-
gica e Conhecimento Científico (1966), o
próprio ca di de maneira ampla, define
a epistemologia genética como o “Es-
tudo da passagem dos estados inferiores
do conhecimento aos estados mais com-
plexos ou rigorosos”. Em outras pala-
vras, Piaget propõe o retorno às fontes e
à gênese propriamente dita do conheci-
mento, do qual a epistemologia tradi-
cional conhecia apenas os estados supe-
riores, isto é, certas resultantes finais de
um complexo processo de formação. Tal
projeto situa-se em dois planos distintos,
que se interpenetram e se explicam
mutuamente: de um lado, a história do
pensamento científico, de outro, o estudo
experimental do desenvolvimento da
inteligência, desde o nascimento até a
adolescência. Piaget demonstrou que se
pode traçar um paralelo entre esses dois
planos distintos, que se interpenetram e
se explicam mutuamente: de um lado, a
história do pensamento científico, de
outro, o estudo experimental do desen-
volvimento da inteligência, desde o nas-
cimento até a adolescência. Piaget de-
monstrou que se pode traçar um paralelo
entre esses dois planos. O conceito de
causalidade, por exemplo, teria sofrido
um processo de transformação, desde a
teoria aristotélica atê a fisica probabi-
lística do século XX, e as etapas dessa
PIAGET
Jean Piaget nasceu na Suíça, em Neuchátel, onde precocemente revelou suas
qualidades de investigador da natureza, dedicando-se ao estudo dos moluscos
da região. Seguindo um itinerário rigorosamente coerente, Piaget passou
por quase todos os domínios do conhecimento, até chegar à lógica formal e à
teoria da ciência. (Paisagem típica de Neuchátel; ao fundo o conhecido lago.)
transformação seriam fundamentalmente
as mesmas que as encontradas no desen-
volvimento EE pensamento infantil.
A epistemologia genética criada por
Piaget não é, assim, uma disciplina filo-
sófica, como a epistemologia tradicio-
nal. Em primeiro lugar, porque se afasta
de toda especulação, estudando a gênese
das estruturas e dos conceitos cientifi-
cos, tal como de fato se constituíram em
cada uma das ciências; em segundo
lugar, porque procura desvendar através
da experimentação, os processos funda-
mentais de formação do conhecimento na
criança. A epistemologia genética tam-
bém não é uma ciência entre outras, mas
uma matéria interdisciplinar que se
ocupa com todas as ciências.
Essa unificação realizada por Pia
e, sobretudo, esse processo « de gênese ni
conhecimentos — que vai da simples
constatação de fatos concretos até as
mais altas abstrações — até certo ponto.
identificou-se com sua própria vida.
1007
Fabbri
OS PENSADORES
Dos moluscos à
lógica formal
Nascido em Neuchátel, Suiça, a 9 de
agosto de 1896, Piaget, desde muito
cedo se interessou pelas ciências. Seu
primeiro trabalho científico surgiu quan-
do tinha dez anos de idade: era uma nota
sobre um pardal totalmente albino que
observara num parque público. Pouco
depois, ofereceu-se como voluntário para
trabalhar como assistente do diretor do
Museu de Ciências Naturais de Neuchá-
tel. Durante os quatro anos seguintes,
publicou aproximadamente vinte artigos
sobre moluscos e temas zoológicos afins.
Seu interesse, entretanto, não se limitava
aos moluscos, estendendo-se ao campo
da religião, da biologia, da sociologia e
da filosofia; adolescente ainda, começou
a ler Bergson (1859-1941).
Na universidade de Neuchâtel, Piaget
licenciou-se em 1915, doutorando-se
três anos depois com uma tese sobre os
moluscos de Valois. Os estudos de biolo-
gia fizeram-no suspeitar de que os pro-
cessos de conhecimento poderiam depen-
der dos mecanismos de equilíbrio
orgânico; por outro lado, Piaget conven-
ceu-se de que tanto as ações externas
quanto os processos de pensamento
admitem uma organização lógica. Ela-
borou, então, um ensaio sobre o equili-
brio do todo e suas partes, sem entre-
tanto conhecer a teoria da Gestalt, que se
ocupava do mesmo problema e já havia
alcançado celebridade na Alemanha.
De Neuchâtel, Piaget foi para Zuri-
ue, onde passou alguns meses estu-
dado psicologia nos laboratórios de G.
E. Lipps e Wreschner e na clínica
psiquiátrica de Bleuler (1857- 1939).
Esses estudos firmaram-lhe a convicção
de que a psicologia experimental pode-
ria ser útil bastante para sua vocação de
epistemólogo. Dirigiu- se então a Paris,
onde estudou filosofia com André Lalan-
de (1867-1936) e trabalhou com a
padronização do teste de raciocinio de
Burt, no laboratório criado por Alfred
Binet (1875-1911). Lalande interessou-
se por seus estudos, cujos resultados
foram publicados numa série de quatro
artigos, entre 1921 e 1922. Nessa época,
Piaget convenceu-se de que o caminho
para conciliar a filosofia e a psicologia
1008
deveria ser buscado na experimentação.
Um de seus trabalhos desse período foi
publicado nos Arquivos de Psicologia de
Genebra e Claparêde (1873- 1940), seu
editor, impressionado pela originalidade
do escrito, propôs-lhe o ingresso no Ins-
tituto Jean-Jacques Rousseau de Gene-
bra, em 1921. Aí Piaget encontrou
tempo e liberdade suficientes para de-
senvolver seus estudos sobre a criança,
iniciando uma série de trabalhos que lhe
deram fama mundial.
Em 1925, Piaget foi nomeado titular
de Filosofia em Neuchâtel, onde lecionou
até 1929, dando também aulas de psico-
logia e sociologia, sem deixar a investi-
gação experimental sobre a lógica e
ontologia infantis, no laboratório de
Genebra. Além disso, continuou seus tra-
balhos com moluscos, publicando impor-
tantes artigos sobre o assunto.
Em 1929, voltou a ocupar um cargo
de dedicação exclusiva na Universidade
de Genebra, primeiro como Diretor
Assistente e depois como co-diretor do
Instituto Jean-Jacques Rousseau. De
1929 a 1939, além de desempenhar fun-
ções administrativas, Piaget foi profes-
sor de história do pensamento científico,
intensificando seus estudos sobre histó-
ria das matemáticas, da fisica e da biolo-
gia e redigindo seus primeiros trabalhos
sobre epistemologia genética. Também
foi nomeado, em 1929, diretor do Depar-
tamento Internacional de Educação,
cargo que lhe deu oportunidade de tentar
introduzir suas descobertas sobre o
desenvolvimento das crianças nas práti-
cas educativas. Com esse fim, nas déca-
das posteriores, Piaget e seus colabora-
dores escreveram inúmeros livros.
Em 1936 a Universidade de Harvard
concedeu-lhe o título de Doutor Honoris
Causa. Durante o periodo da guerra,
desenvolveu suas idéias sobre as estrutu-
ras lógicas relativas à fisica elementar.
De 1939 a 1952, foi professor de socio-
logia da Faculdade de Ciências Econô-
micas da Universidade de Genebra. Em
1940, tornou-se diretor do Laboratório
de Psicologia Experimental dessa Uni-
versidade, como sucessor de Claparéde,
e continuou também como editor dos
Arquivos de Psicologia junto com André
Rey e Lambercier. Foi também eleito
presidente da Sociedade Suiça de Psico-
PIAGET
A Suíça de Piaget é uma das nações de mais rica tradição cultural do
mundo. Alí surgiram algumas das mais expressivas figuras dos movimentos de
vanguarda da primeira metade do século XX. Entre outros, nasceram na
Suíça o arquiteto Le Corbusier, o escultor Giacometti e o pintor
Paul Klee, autor da tela “Noite de Lua”. (Coleção particular, Milão. )
1009
Es ad EEE |
OS PENSADORES
logia e co-diretor da Revista Suíça de
Psicologia. Após a guerra, a Universi-
dade de Paris designou-o para suceder a
Merleau-Ponty (1908-1961). Em 1950,
além de diversos livros sobre psicologia
e psicologia da criança, sozinho ou com
colaboradores, Piaget já havia publi-
cado a Introdução à Epistemologia Ge-
nética em três volumes e o Tratado de
Lógica. Seu projeto de elaborar uma
epistemologia baseada nas ciências posi-
tivas concretizou-se em 1955 quando foi
inaugurado o Centro Internacional de
Epistemologia Genética, sobre os auspi-
cios da Fundação Rockfeller.
O egocentrismo
As obras À Linguagem e o Pensamento
da Criança (1923), O Juízo e o Racio-
cínio da Criança (1924), 4 Represen-
tação do Mundo na Criança (1924), 4
Causalidade Física na Criança (1927), O
Juízo Moral na Criança (1932), já mos-
tram a preocupação de Piaget com a teo-
ria do conhecimento, embora repre-
sentem muito mais a constatação das
características do pensamento infantil.
Desses estudos surgiu a noção de “ego-
centrismo”, que desempenha papel es-
sencial na epistemologia genética de
Piaget, porque implica a noção de cen-
tração e descentração, isto é, a capaci-
dade da criança de considerar a reali-
dade externa e os objetos como
diferentes de si mesma e de um ponto de
vista diverso do seu. O egocentrismo na
linguagem infantil implica a ausência da
necessidade, por parte da criança, de
explicar aquilo que úiz, por ter certeza
de estar sendo compreendida. Da mesma
forma, o egocentrismo é responsável por
um pensamento pré-lógico, pré-causal,
mágico, animista e artificialista. O ra-
ciocínio não é nem dedutivo nem induti-
vo, mas transdutivo, indo do particular
ao particular; o juízo não é lógico por-
que centrado no sujeito, em suas expe-
riências passadas e nas relações subjeti-
vas que ele estabelece em função das
mesmas. Os desejos, as motivações e
todas as características conscientes, mo-
rais e afetivas são atribuídas às coisas
(animismo). A criança pensa, por exem-
plo, que o cão late porque está com sau-
dades da mãe. Por outro lado, para as
1010
crianças até os sete ou cinco anos de
idade, os processos psicológicos internos
têm realidade fisica: ela acha que os
pensamentos estão na boca ou os sonhos
estão no quarto. Dessa confusão entre o
real e o irreal surge a explicação artifi-
cialista, segundo a qual, se as coisas
existem é porque alguém as fez.
Notando as semelhanças entre os pro-
cessos que condicionam a evolução da
lógica e a idéia de realidade plasmada
pela criança, Piaget conclui que a cons-
trução do mundo objetivo e a elaboração
do raciocínio lógico consistem na redu-
ção gradual do egocentrismo, em favor
de uma socialização progressiva do
pensamento; somente com essa descen-
tração das noções, a criança pode chegar
ao estágio da lógica operacional.
Do ponto de vista do juízo moral
observa-se que, a princípio, a moral é
totalmente heterônoma, passando a au-
tônoma na medida em que a criança co-
meça a sair do seu egocentrismo e
compreender a necessidade da justiça
equânime e da responsabilidade indivi-
dual e coletiva, independentes da autori-
dade ou da sanção imposta.
Inteligência e adaptação
Em uma segunda etapa de seu cami-
nho no sentido de constituir uma episte-
mologia genética, Piaget abordou os
problemas relativos à formação da inte-
ligência infantil. Os resultados de suas
investigações encontram-se em várias
obras, nas quais mostra como se désen-
volve o pensamento lógico da criança,
base de sua epistemologia genética: O
Nascimento da Inteligência (1936), 4
Construção do Real na Criança (1937), A
Gênese da Noção de Número, em colabo-
ração com Szeminska e Inhelder (1941),
O Desenvolvimento das Quantidades Fí-
sicas na Criança (1941), Classes, Rela-
ções e Números (1942) e Formação do
Símbolo na Criança (1945).
Para Piaget, inteligência é adaptação
e sua função é estruturar o universo, da
mesma forma que o organismo estrutura
o meio ambiente, não havendo diferenças
essenciais entre os seres vivos, mas
somente tipos específicos de problemas
que implicam em níveis diversos de
organização. As estruturas da inteli-
PIAGET
Para Piaget, “a filosofia tem sua razão de ser e deve-se mesmo reconhecer que
todo homem que não passou po ela é incuravelmente incompleto”. Mas,
descontente com o rumo especu
tivo tomado pela maioria dos filósofos de seu
tempo, Piaget dedicou-se à investigação científica da formação das funções
intelectuais na criança, criando a epistemologia genética.
gência mudam através da adaptação a
situações novas e têm dois componentes:
a assimilação e a acomodação. Piaget
entende o termo assimilação com a acep-
ção ampla de uma integração de elemen-
tos novos em estruturas ou esquemas já
existentes. A noção de assimilação, por
um lado, implica a noção de significação
e por outro expressa o fato fundamental
de que todo conhecimento está ligado a
uma ação e de que conhecer um objeto ou
um acontecimento é assimilá-lo a esque-
mas de ação. Em outros termos, conhe-
cer, para Piaget, consiste em operar
sobre o real e transformá-lo, a fim de
compreendê-lo, em função do sistema de
transformação a que estão ligadas todas
as ações. Piaget denomina esquema de
ação aquilo que numa ação é transpo-
Es SE (|
nível, generalizável ou diferenciável de
urna situação para a seguinte, ou seja, o
que há de comum nas diversas repetições
ou aplicações da mesma ação. Se alguns
esquemas são simples (talvez inatos e de
natureza reflexa), a maioria deles não
corresponde a uma montagem hereditária
acabada; pelo contrário, são construídos
pouco a pouco pelo indivíduo, dando
lugar a diferenciações através de acomo-
dações a situações novas.
A acomodação define-se como toda
modificação dos esquemas de assimila-
ção, por influência de situações exterio-
res. Toda vez que um esquema não for
suficiente para responder a uma situação
e resolver um problema, surge a necessi-
dade do esquema modificar-se em função
da situação. Exemplo: para o bebê
1011
Ea.
OS PENSADORES
aprender a chupar um canudinho dife-
rente da mamadeira, deve haver um
acomodação do esquema de chupar.
Assimilação e acomodação são, por-
tanto, mecanismos complementares, não
havendo assimilação sem acomodação, e
vice-versa. A adaptação do sujeito ocor-
re através da equilibração entre esses
dois mecanismos, não se tratando,
porém, de um equilibrio estátito, mas
sim essencialmente ativo e dinâmico. Em
termos mais precisos, trata-se de suces-
sões de equilibração cada vez mais
amplas, que possibilitam as modifica-
ções dos esquemas existentes, a fim de
atender à ruptura de equilíbrio, repre-
sentada pelas situações novas, para as
quais não exista um esquema próprio.
O nascimento da inteligência
Em toda a análise do processo de for-
mação das estruturas intelectuais, ou
seja, da inteligência, desempenha papel
fundamental a noção piagetiana de está-
gio. O estágio foi definido por Piaget
como forma de organização da atividade
mental, sob seu duplo aspecto: por um
lado, motor ou intelectual, por outro,
afetivo.
Do nascimento até a adolescência,
Piaget distingue três estágios do desen-
volvimento. O primeiro ê o estágio
sensório-motor (do nascimento até dois
anos), O segundo divide-se em dois sub-
estágios: o de preparação para as opera-
ções lógico-concretas (2a7 anos)eo de
operações lógico-concretas (de 7 anos
até a adolescência). A partir da adoles-
cência e até a idade adulta, configura-se
o estágio da lógica formal, quando o
pensamento lógico alcança seu nível de
maior equilibração, ou seja, de operati-
vidade, adquirindo a forma de uma lógi-
ca proposicional, que seria o auge do
desenvolvimento.
No início do desenvolvimento da inte-
ligência sensório-motora (até 1 mês de
idade), os comportamentos globais da
criança estão determinados hereditaria-
mente e apresentam-se sob a forma de
esquemas reflexos. De 1 a 4 meses (2.º
sub-estágio), começam a aparecer as pri-
meiras adaptações adquiridas e a assi-
milação distingue-se da acomodação,
através das reações circulares primárias,
1012
ou seja, de repetições sucessivas nas
quais os resultados são assimilados aos
esquemas, modificando-os para permitir
melhor adaptação às situações externas.
No terceiro sub- -estágio (4 a 8 meses)
aparecem as repetições de gestos que
casualmente chegaram a produzir uma
ação interessante sobre as coisas. No
quarto sub-estágio (8 a 12 meses), há
aplicação de meios já conhecidos para
resolver situações novas. No quinto sub-
estágio (12 a 18 meses), a criança faz
experiências com os objetos do meio
externo e descobre novos meios para
resolver certas situações. No sexto sub-
estágio (18 meses aos 2 anos), aparece a
possibilidade da invenção de novos
meios por combinação mental ou por
combinação de ações. Esse estágio já
prevê | uma mudança qualitativa na orga-
nização da inteligência, que passa de
sensível e motora a mental, isto é, repre-
sentativa e interiorizada.
Paralelamente à construção da inteli-
gência, ou do pensamento lógico, Piaget
analisa a construção do universo, pela
criança no estágio sensório-motor, em
função das categorias do objeto ou subs-
tância, espaço, causalidade e tempo.
Quanto ao objeto, as investigações de
Piaget mostram que, durante as primei-
ras fases do desenvolvimento, a criança
não percebe o universo em seu redor
como se fosse constituído por objetos
substanciais, permanentes e de dimen-
ções constantes; pelo contrário, ela se
comporta como se estivesse frente a um
mundo sem objetos e no qual o próprio
espaço constituísse um meio sólido. Tra-
ta-se de um mundo de quadros percepti-
vos, cuja única realidade é a própria
criança e suas ações. O sujeito funciona
como um sistema organizador do univer-
so, evoluindo de acordo com o aumento
da complexidade das atividades de assi-
milação. Partindo da não- -distinção entre
ela mesma e os objetos, a criança passa a
distinguir progressivamente os objetos
que estão em sua presença e, depois, co-
meça a relacionar entre si os vários obje-
tos que aparecem em espaços já diferen-
ciados, ora presentes, ora ausentes. No
final do estágio sensório-motor, pela
separação entre ação e percepção, a
criança torna-se capaz da noção de obje-
to permanente e idêntico a si mesmo,
PIAGET
Fabbri
Na epistemologia genética de Piaget, os desenhos e pinturas infantis
desempenham papel particularmente importante para a investigação da
formação das estruturas intelectuais. A criação plástica, ao lado da
linguagem e das atividades lúdicas, constitui uma das formas de representação,
através das quais se revela o mundo interior da criança.
1013
OS PENSADORES
ainda que ele não esteja mais presente e
sendo manipulado por ela.
Do ponto de vista do espaço, a coorde-
nação sucessiva das ações leva a criança,
progressivamente, a conceber aqueles
espaços individuais e separados do início
do seu desenvolvimento como um único
espaço, no qual ela se desloca como os
objetos, considerando a si mesma como
um objeto, embora diferente dos demais.
Quanto à causalidade, Piaget mostra
como essa noção fundamental para a
ciência liga-se; no estágio sensório-
motor, às relações temporais. Durante os
dois primeiros sub-estágios, tudo sucede
como se o tempo se reduzisse exclusiva-
mente às impressões de espera, de dese-
Jo, de êxito ou de fracasso, existindo um
princípio de sucessão, ligado ao desen-
volvimento das diferentes fases de um
mesmo ato. São as séries temporais prá-
ticas: os atos de criança sucedem-se uns
aos outros, mas nada lhe permite recons-
truir sua própria história. Durante os
sub-estágios seguintes, estabeleceram-se
modificações nessa concepção, surgindo
as séries temporais subjetivas: a criança
não percebe ainda a ordem dos fenôme-
nos a não ser quando ela mesma é a
causa desses fenômenos, de modo que
ainda continua sendo incapaz de conce-
ber a história de seu universo, indepen-
dentemente da própria ação, e não
havendo, portanto, um tempo objetivo
para ela. Só a partir do quarto sub-es-
tágio é que começa a progredir uma
visão mais objetiva do mundo, apare-
cendo já no quinto sub-estágio uma orde-
nação do tempo, não aplicável somente
às ações, mas, em princípio, a todo o
campo perceptivo (séries temporais obje-
tivas). No último sub-estágio aparecem
as séries representativas, quando a
criança é capaz de recordar fatos não
lhgados à percepção direta, mas aconte-
cidos no passado. Isso não significa que
esses fatos sejam corretamente seriados,
nem que a avaliação da duração seja
exata, mas sim que essas operações tor-
nam-se possíveis porque desse momento
“Em que condições se tem o direito de
falar de conhecimento e como
salvaguardá-lo contra os perigos
interiores que não cessam de
ameaçá-lo?” (palavras de Piaget).
1014
PIAGET
SS3Hd ViIWVO
1015
OS PENSADORES
em diante a duração subjetiva vai cada
vez mais situar-se em relação com a
duração das coisas, possibilitando, por
sua vez, a ordenação dos movimentos no
tempo e sua medida em relação com pon-
tos de referência, exteriores.
O pensamento simbólico
No segundo estágio do desenvolvi-
mento das estruturas da inteligência
podem ser distinguidos dois sub-está-
gios. O primeiro (dois aos sete anos)
caracteriza-se pela função simbólica e
pelo aparecimento da intuição das ope
rações; o segundo (sete aos onze anos) é
marcado pelas operações lógico-con-
cretas. As atividades de representação (o
Jogo, o desenho e sobretudo a lingua-
gem) têm três consequências essenciais
para o desenvolvimento mental: início da
socialização da ação; interiorização da
palavra, isto é, aparição do pensamento
propriamente dito, que Já tem como
suporte a linguagem interior e um siste-
ma de signos; e, sobretudo, interiori-
zação da ação como tal, que passa do
plano perceptivo e motor para se recons-
tituir no plano das imagens e das expe-
riências mentais. Os primeiros esquemas
verbais constituem uma continuação dos
esquemas sensório-motores, transpostos
para um plano superior, implicando
portanto uma modificação qualitativa na
estrutura. À isso Piaget chama “déca-
lage vertical”, conceito particularmente
importante em sua obra. Para o criador
da epistemologia genética, cada fase do
desenvolvimento deve ser considerada
como formada por estruturas diferentes
em quantidade e qualidade. Essa dife-
renciação entre um momento e outro do
desenvolvimento só é possível porque as
equilibrações sucessivas, que permitem
a passagem de um estágio a outro e mar-
cam a mobilidade das estruturas, são
acompanhadas de determinadas funções
constantes, que garantem a continuidade
entre um estágio e outro. Piaget designa
essas funções (entre as quais incluem-se
a compreensão ea explicação) pela
expressão “invariantes”, afirmando,
contudo, que seu nível pode variar em
função do grau de organização das
estruturas. É por essa razão que, com o
advento das funções simbólicas, começa
1016
toda uma mobilidade das estruturas
sensóro-motoras. Numa etapa do desen-
volvimento, o egocentrismo ainda pre-
sente manifesta-se, não mais em nível de
confusão sujeito-objeto do ponto de vista
fisico, como anteriormente, mas no nível
da linguagem e do pensamento, através
do animismo, do artificialismo e do rea-
lismo nominal. Embora já haja uma
modificação de esquemas para uma nova
estrutura, ao nível de interiorização da
ação, os aspectos perceptivos e subjeti-
vos continuam sendo predominantes em
relação à concepção do mundo, da
causalidade fisica e dos conceitos espa-
ço-temporais. Por isso esse sub-estágio
simbólico é chamado pré-operatório, não
havendo noção de conservação fisica nem
reversibilidade nas operações. A criança
começa simplesmente a distinguir o
significante do significado, isto é, os
objetos que apresentam determinadas
alavras, e a usar essas palavras em
Iê ugar do objeto. No entanto nota-se
erfeitamente a generalização de signifi-
cados indevidos, quando, por exemplo, a
criança diz “au-au” para todos os ani-
mais ou “titio” para todas as pessoas do
sexo masculino. Essa irreversibilidade
pré-lógica mantém-se até por volta dos
sete anos, pois, embora a partir dos qua-
tro anos e meio ou cinco anos começa a
haver uma descentração maior do pensa-
mento e a criança já comece a apresentar
certas noções de classificação e de seria-
ção dos objetos, essas noções são intuí-
das, isto é, não são realmente compreen-
didas porque não há uma operação
verdadeiramente lógica.
O pensamento lógico
As operações lógicas surgem somente
quando o pensamento da criança torna-
se reversível, ou seja, quando ela é capaz
de admitir a possibilidade de se efetuar a
operação contrária, ou voltar ao Início
da operação. Admitindo, por exemplo,
que À é iguala B, a criança deve admitir
que B é igual a A. Essa ida e volta do
pensamento não acontece no período
ré-lógico porque não existe sequência
ló ógica nas ações da criança.
Quando o pensamento infantil torna-se
reversível, por volta dos 7 ou 8 anos, in1-
cia-se o be -estágio das operações lógi-
PIAGET
Piaget ocupou inúmeros cargos
universitários, entre os quais o de
pnejessor catedrático de psicologia e
e sociologia da universidade de
Lausanne. (Vista aérea de Lausanne.)
Fabbri
co-concretas. Segue-se a ele, a partir dos
onze ou doze anos, o estágio das opera-
ções lógico-formais. A operatividade
marca a possibilidade da criança agir,
consistente e logicamente, em função das
implicações de suas idéias. A organiza-
ção das ações mentais em pensamento
operatório pode ser descrita em termos
de grupos matemáticos e agrupamentos
lógicos e, mais tarde (no estágio formal),
em termos de agrupamentos de relações,
ou seja, relações de segunda ordem ou
relações de relações. Os agrupamentos
lógicos baseiam-se na noção matemática
de classe. No sub-estágio das operações
concretas, as relações entre as classes
somente podem ser compreendidas quan-
do apresentarem evidência concreta, isto
é, estejam presentes no campo percep-
tivo. Mas no período das operações for-
mais a criança pode realizar as relações
possíveis, de modo a prever as situações
necessárias para provar uma hipótese.
Essa é, precisamente a característica do
método experimental na ciência.
A lógica das proposições, possíveis
combinações de classe, bem como o
grupo de transformações INRC (opera-
ção Inversa, Negativa, Reciproca e Con-
trária) são a parte final da epistemologia
genética de Piaget. A partir da experi-
mentação com as operações lógicas, com
a noção de Re biudade com os gru-
pos matemáticos e os agrupamentos de
classe, e com as transformações lógicas
INRC, Piaget incursiona no campo da
formalização lógico-matemática.
A partir da fundação do Centro Inter-
nacional de Epistemologia Genética, em
Genebra, cientistas e lógicos de todo o
mundo têm-se ocupado da pormenori-
zação e aperfeiçoamento do processo
genético, descrito por Piaget, e de suas
relações com os principais conceitos da
ciência contemporânea. Com isso, tor-
nou-se realidade seu desejo de criação
dos “métodos de controle”, indispen-
sáveis para legitimar a verdade, e
como dar uma nova dimensão ao pro-
blema das relações entre a ciência
propriamente dita e a filosofia. Piaget
procurou, assim, evitar que a filosofia,
através da pura especulação, mantenha o
status de dona absoluta da verdade, já
que deve haver uma correlação epistê-
mica entre teorias e fatos.
1017
1896 — Em Neuchátel, Suí-
ça, a 9 de agosto, nasce Jean
Piaget.
1915 — Licencia-se pela
Universidade de Neuchátel.
1925 — Torna-se professor
titular de filosofia na mesma
universidade.
1929 — É nomeado diretor
do Departamento Interna-
cional de Educação.
1932 — Publica Le Juge-
ment Moral Chez "Enfant.
1936 — Publica La Nais-
sance de [Intelligence chez
PEnfant. No mesmo ano, re-
cebe o título de Doutor Ho-
noris Causa pela Universi-
dade de Harvard.
1937 — Piaget publica La
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
Construction du Réel chez
PEnfant.
1939 - 1952 — Leciona so-
ciologia na Faculdade de
Ciências Económicas da
Universidade de Genebra.
1941 — Publica, em cola-
boração com Szeminska, La
Genese du Nombre chez
PEnfant.
1946 — Publica La Forma-
ton du Symbole chez
PEnfant.
1947 — Publica La Psycho-
logie de "Intelligence.
1948 — Publica La Repre-
sentation de [Espace chez
PEnfant.
1949 — É editado seu Trai-
té de Logique. Essai de Lo-
BIBLIOGRAFIA
gistique Opératoire.
1950 — Editam-se os três
tomos da Introduction à
PEpistemologie Génétique,
de Piaget.
1952 - 1963 — Leciona psi-
cologia da criança na Sor-
bonne.
1955 — Piaget publica De
la Logique de "Enfant à la
Logique de 1" Adolescent.
1957 - 1973 — Publica os
30 volumes dos Études
d'Epistémologie Génétique.
1959 — Publica La Genese
des Structures Logiques Elé-
mentaires.
1964 — Publicação dos Six
Etudes de Psychologie, de
Piaget.
CELLERIER, G.: Piaget, Presses Universitaires de France, Paris, 1973.
BATTRO, A. M.: El Pensamiento de Jean Piaget, Emecé Editores, Buenos Aires, 1969.
GRIZE, HATWELL, WOLFF E OUTROS: Psychologie et Epistémologie Génétiques, Dunod, Paris,
1966.
FurTH, H. G.: Piaget for Teachers, Prentice-Hall, Englewood Cliffs, 1970.
Droz, R. E RaHMY,M.: Lire Piaget, Dessart, Bruxelas, 1972.
FLAVELL, J. H.: The Developmental Psychology of Jean Piaget, Van Nostrand, Princeton,
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GINSBURG, H. E OPPER, S.: Piaget 's Theory of Intellectual Development, Prentice-Hall, Engle-
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ALMy, M.: Young Children's Thinking: Studies of Some Aspects of Piaget 's Theory, Teachers
College Press, Nova York, 1966.
ELKIND, D.: Children and Adolescents: Interpretatives Essays on Jean Piaget, Oxford Univer-
sity Press, Nova York, 1970.
BALDWIN, A. L.: The Theory of Jean Piaget in Theories of Child Development, do mesmo
autor, John Wiley & Sons, Nova York, 1968.
1018
annmma mn pnceo
OS PENSADORES
tê meados do século XIX, não
havia uma verdadeira ciência da
conduta humana, no sentido mais
rigoroso da palavra “ciência”. Desde os
antigos filósofos gregos, a psicologia era
uma disciplina de caráter metafísico,
ocupando-se com uma suposta essência
do homem, sua natureza mais profunda,
sua destinação última; em outras pala-
vras, a psicologia tinha como objeto a
alma e não fatos objetivos, passíveis de
observação e estudo sistemático.
No século XIX, sob influência dos
resultados alcançados pelas ciências
naturais, surgiram as primeiras tentati-
vas de investigação dos fatos psicoló-
gicos, seguindo-se os mesmos peca
mentos da metodologia aquelas
ciências, isto é, a experimentação. Nessa
erspectiva, as investigações de Weber
(1795-1878), Fechner (1801-1887),
Helmholtz (1821-1894), Wundt
(1832-1920) e outros, foram os funda-
mentos da psicologia científica.
Somente no século XX, entretanto, a
orientação da metodologia científico-
natural produziria seus resultados mais
acabados e sistemáticos, anulando as
fronteiras entre o humano e o animal, e
considerando a psicologia como o estudo
do observável externamente no compor-
tamento dos organismos, sem preocupa-
ção com uma suposta vida “interior”.
Especialmente importante dentro
dessa orientação é o chamado “behavio-
rismo”, fundado por John B. Watson
(1878-1958) e ao qual se vinculam as
idéias de Burrhus Frederic Skinner, nas-
cido a 20 de março de 1904, em Susque-
hanne, Pennsylvania, EUA.
A Teoria do Reforço
O ponto de partida do pensamento de
Skinner (Comportamento dos Organis-
mos, publicado em 1938, e Esquemas de
Reforço) encontra-se na teoria pavlo-
viana dos reflexos condicionados, à qual
ele acrescentou o conceito de condiciona-
mento operante. O comportamento res-
pondente (denominação usada por Skin-
ner para os reflexos pavlovianos) está
essencialmente associado à fisiologia
Na página anterior: retrato de B. F.
Skinner (Associated Press Photo).
1020 ;
interna do organismo e age sobre respos-
tas matas que podem ser condicionadas,
de modo a se repetirem diante de outros
estímulos. Exemplo clássico de condicio-
namento respondente é o do comporta-
mento do cão, que é levado a salivar ao
ouvir o toque de uma campainha ou o
acender de uma lâmpada. Diferente-
mente do respondente, o condiciona-
mento operante, investigado por Skin-
ner, é uma relação de ações do
organismo sobre o meio que o cerca.
Assim, um rato faminto colocado em
uma caixa, executa uma série de ações,
como andar ou tentar subir nas paredes,
e uma delas (tocar em uma alavanca, por
exemplo) é recompensada pelo pesqui-
sador com uma porção de alimento ou
um pouco de água; depois de certo nú-
mero de vezes em que isso ocorra, o rato
ficará condicionado a acionar a alavan-
ca, toda vez que sentir fome ou sede. Em
outras palavras, o rato ficará condicio-
nado ao resultado de sua própria ação, e
não a um certo estímulo, como no caso
do condicionamento pavloviano. Neste, o
organismo aprende a repetir certo com-
portamento, normalmente inato, diante
de novo estimulo, enquanto o condicio-
namento operante é um mecanismo de
aprendizagem de novo comportamento.
Este pode ser apenas uma ação que se
tornou mais frequente em determinada
situação, ou que só ocorre após uma
série de aproximações sucessivas. Esse
processo, que Skinner chama '“'modela-
gem” ., seria responsável por tudo que os
organismos aprendem a fazer.
São vários os fatos envolvidos no pro-
cesso de modelagem. Entre outros, po-
de-se salientar a discriminação (pro-
cesso de responder a estímulos cada vez
mais sutis) e o reforço generalizado (re-
forços, como o dinheiro ou a aprovação
social, que atuam sobre o organismo
independentemente de qualquer privação
específica). Todos esses fatos formam
um tecido de relações entre o comporta-
mento e as consequências dele advindas,
e essas relações podem apresentar diver-
sas alternativas. Em geral, quanto mais
imediata for certa consequência, tanto
maior será seu efeito sobre o comporta-
mento, mas muitas vezes as conse-
quências (positivas ou negativas) somen-
te surgem a intervalos regulares ou
SKINNER
Para investigar experimentalmente o comportamento dos organismos animais,
sobretudo os processos de aprendizagem, Skinner projetou e construiu um
aparelho especial, conhecido como “Skinner-Box”. No que se vê acima
(Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo), o
elemento principal é a alavanca que o rato aciona e lhe proporciona alimento.
irregulares de tempo. A essas relações
variáveis, Skinner deu o nome de esque-
mas de reforço.
Os esquemas de reforço só começaram
a se evidenciar quando Skinner consta-
tou que o dado fundamental a ser consi-
derado nos processos de mudança do
comportamento deveria ser sua fregiiên-
cia. Dentro dessa perspectiva, Skinner
identificou relações muito parecidas
entre os comportamentos de um orga-
nismo e as circunstâncias em que eles
ocorrem, possibilitando sua precisão,
seu controle e, portanto, sua explicação.
Os primeiros organismos estudados
por Skinner foram ratos albinos, mas os
princípios do condicionamento operante
pareceram- lhe aplicáveis a todos os ou-
tros animais, inclusive o homem. Em
Ciência e Comportamento (1953), Com-
1021
OS PENSADORES
portamento Verbal (1957), Além da
Liberdade e da Dignidade (1971) e ou-
tros escritos, Skinner critica o senso
comum, que costuma explicar as ações
do homem atribuindo-as a um agente
mobservável (alma, psique, mente). Essa
tese, diz Skinner, deriva exclusivamente
das dificuldades para se identificar as
circunstâncias que produzem e mantêm
a maioria dos comportamentos humanos.
Estes formam cadeias muito complexas e
a constatação das inúmeras relações do
condicionamento operante não está sufi-
cientemente à mostra para a observação
comum. É muito dificil identificar a com-
plexa rede de acontecimentos gratifi-
cantes (reforço positivo) ou indesejáveis
(reforço negativo) presentes em todos os
momentos da vida de uma pessoa. Tais
acontecimentos e relações ocorrem no
tempo e sua complexidade aumenta por-
que, quase sempre, o indivíduo está na
presença de vários estímulos, e estes
podem proporcionar o aparecimento de
diferentes comportamentos, muitos in-
compatíveis entre si, outros convergentes
ou coincidentes. Essas dificuldades, no
entanto, não autorizam, segundo Skin-
ner, a suposição da existência de um
misterioso “eu” ou de uma alma que
seria responsável pelos comportamentos
das pessoas, com suas intenções, vonta-
des, atitudes, impulsos, motivos, deci-
sões. Tal suposição, como também a de
que o homem possui livre arbítrio, não
são mais do que a confissão de igno-
rância das causas do comportamento.
Para conhecer essas causas, é necessá-
rio, segundo Skinner, extrapolar a pers-
pectiva das ciências fisicas e biólógicas
para o estudo do comportamento huma-
no, e eliminar da psicologia todos os
conceitos que não possam tornar-se
operacionais pela mensuração e quantifi-
cação, como as noções de “atitude”,
“inteligência”, “emoção”, “estado de
espírito”, “memória”, “traço de persona-
lidade”, “inconsciente” e muitos outros.
Psicologia e Sociedade
Skinner não se limitou à investigação
experimental do condicionamento ope-
rante e à metodologia da psicologia.
Abrindo novas perspectivas para muitas
questões normalmente abordadas na fi-
1022
losofia da mente, da linguagem, do conhe-
cimento e da percepção, assim como nos
terrenos da ética e da ontologia, seus
estudos orientaram-se no sentido de apli-
cações práticas, que ele mesmo conside-
rou como o principal interesse de seu
trabalho. A mais importante dessas apli-
cações encontra-se no terreno da educa-
ção. Em Tecnologia do Ensino (1967),
Skinner critica as práticas escolares
tradicionais e explica as vantagens do
ensino programado e das máquinas de
ensinar, por ele desenvolvidas. Reali-
zada por máquinas de ensinar, a progra-
mação do ensino consiste em meticulosa
divisão dos assuntos, em pequenos pas-
sos que cada aluno deve percorrer indivi-
dualmente e que são reforçados, toda vez
que acerta. Assim, a aprendizagem tor-
na-se rápida, eficiente e livre de notas
baixas, reprovações ou qualquer outra
forma de punição ou coerção. Para Skin-
ner, de acordo com os princípios da teo-
ria do reforço, é possivel programar o
ensino de qualquer disciplina, tanto
quanto o de qualquer comportamento,
como o pensamento crítico ou a criativi-
dade, desde que se possa definir previa-
mente o repertório final desejado.
Opondo-se a todas as formas de puni-
ção ou repressão na vida social, Skinner
rejeita a estigmatização de “doentes
mentais” para as pessoas que adquiri-
ram condutas meficientes ou socialmente
reprovadas, e procura mostrar como
esses comportamentos podem ser altera-
dos. No romance Walden II, Skinner
retrata uma sociedade ideal, regida
pelas técnicas comportamentais. Walden
II é o nome de uma comunidade onde não
existem violência, autoridade, privilé-
gios, classes sociais, propriedade priva-
da, bandidos ou heróis; o trabalho é
agradável e o lazer é frequente e produti-
vo; as relações sociais são diversificadas
e compensadoras, tendo cada indivíduo a
possibilidade de se desenvolver a seu
gosto. Em suma, Walden If defende a
tese de que a vida do homem pode ser
boa e gratificante, na medida em que a
cadeia de tradições do status quo da
sociedade seja rompida e substituida por
um planejamento amplo, que vise ao
maior bem para o maior número de pes-
soas, aplicando-se os princípios da teo-
ria do reforço.
SKINNER
Associated Press
Considerado um dos mais influentes psicólogos do século XX, Skinner
notabilizou-se por aplicar de maneira rigorosa à psicologia os métodos
empregados ne ciências naturais. Isso o conduziu a uma concepção segundo a
quala liberdade e a dignidade são palavras vazias de sentido e a vida dos
indivíduos poderia ser planejada e dirigida de forma absolutamente racional.
1023
| | Ro
1904 — Em Susquehanna,
Pennsylvania, a 20 de mar-
ço, nasce Burrhus Frederic
Skinner. Pavlov recebe o
Prêmio Nobel de Medicina.
1910 - 1913 — Publicação
dos Principia Mathematica,
de Russell e Whitehead.
1912 — Wertheimer publi-
ca seus Estudos Experimen-
tais sobre a Visão dos Movi-
mentos, onde expõe, pela
primeira vez, a psicologia da
forma (Gestalt).
1914 — Watson publica Be-
havior: an Introduction to
Comparative Psychology,
primeira sistematização do
behaviorismo. Publicação
da Psicologia Educacional,
de Thorndike.
1921 — Edita-se 4 Evolu-
ção Psíquica da Infância, de
Koffka.
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
1923 — Conwy Lloyd Mor-
gan publica Evolução Emer-
gente.
1931 — Skinner se doutora
em psicologia pela Universi-
dade de Harvard.
1932 — Tolman publica o
Comportamento Intencional
em Homens e Animais.
1936 — Skinner começa a
lecionar na Universidade de
Minnesota. Morre Pavlov.
1937 — A Psychological
Review publica Mente, Me-
canismo e Comportamento
Adaptativo, de Hull.
1938 — Publicação de O
comportamento dos Orga-
nismos, de Skinner.
1939 — Eclode a Segunda
Guerra Mundial.
1948 — Skinner publica
Walden II.
1951 — Publica, no Psy-
BIBLIOGRAFIA
chological Bulletin, o Uso
Humano de Seres Humanos.
1953 — Publica Ciência e
Comportamento Humano.
1957 — Publica Comporta-
mento Verbal e, juntamente
com C. B. Fester, Esquemas
de Reforço.
1961 — Em colaboração
com J. G. Holland, publica
um texto programado com o
título de Análise do Com-
portamento.
1967 — Publica, no The
Listener, sua Utopia Graças
ao Controle do Comporta-
mento Humano.
1968 — Publica A Tecnolo-
gia do Ensino.
1969 — Publica Contingên-
cias de Reforço: Uma Aná-
lise Teórica.
1971 — Publica Além da
Liberdade e da Dignidade.
BorING, E. G.: 4 History of Experimental Psychology, 2.º edição, Appleton-Century-Crofts,
Nova York, 1950.
HILGARD, E.R.: Theories of Learning, 2.º edição, Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1956.
WOoLMAN, B.B.: Contemporary Theories and Sistems in Psychology, Harper, Nova York,
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KELLER, F. S. e SCHOENFELD, W. N.: Principles of Psychology, Appleton-Century-Crofts,
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VERPLANK, W. S.: Burrhus Frederic Skinner, in Modem Learning Theories, de vários autores,
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CHoMsky, N.: Review of Verbal Behavior, by Skinner, in Language, n.º 35, 1959, páginas
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OsGoop, €. E.: Verbal Behavior, by Skinner, in Contemporary Psychology, n.º 3, 1958.
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Appleton-Century-Crofts, Nova York, 1970.
1024
1
IN.
N
e
O
=
au
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QÚ
ET”
OS PENSADORES
eferindo-se aos cursos proferidos
Re Wittgenstein (1889-1951) en-
tre 1930 e 33, G. E. Moore
(1873-1958) assinala que aquilo que
mais o surpreendera nessas aulas fora a
convicção expressa pelo filósofo, de que
nesses anos de Cambridge a filosofia se
transformara em algo absolutamente
novo: uma atividade sem praticamente
nada em comum com a forma de cultura
tradicionalmente denominada ““filoso-
fia”. Para Moore, o que Wittgenstein es-
tava fazendo não era apenas um estádio
do desenvolvimento contínuo da filoso-
fia: existiria agora um desvio no desen-
volvimento do pensamento humano,
comparável ao que ocorreu quando Gali-
leu e seus contemporâneos inventaram a
dinâmica, e um novo método, como acon-
tecera no tempo em que a quimica saira
da alquimia.
Esse novo método, centrado sobretudo
na análise do funcionamento da lingua-
em corrente, exigiria um novo tipo de
Filósofo. dotado de “habilidade” técnica
diferente da encontrada nos construtores
de sistemas filosóficos do passado. Para
se desenvolver tal habilidade, só haveria
um caminho, dizia Wittgenstein: o da
discussão. De momento, pouco importa-
riam os resultados dessa nova disci-
plina: o verdadeiramente importante re-
sidiria no fato de se ter encontrado um
novo método “para deixar as coisas
como estão, e pôr em ordem as nossas
noções quanto aquilo que pode ser dito
do mundo”.
Essas afirmações indicam que Witt-
enstein sabia que a sua contribuição à
EN da filosofia não consistia apenas
numa nova doutrina articulada dentro do
campo conceitual da tradição, mas no
surgimento de um novo paradigma filo-
sófico. A história deu-lhe razao, na me-
dida em que a atividade filosófica, a par-
tir da década de trinta, na Inglaterra,
parte dos EEUU, Suécia e Finlândia pas-
sou a ter muito pouco em comum com a
filosofia tradicional. Essas novas cor-
rentes são conhecidas pela expressão
“filosofia analítica”, entendendo-se por
“analítica” a especial atenção dispen-
sada à linguagem, sobretudo à lingua-
Na página anterior: Foto de Willard
van Orman Quine. (Associated Press).
1026
gem corrente. Dentro da orientação
analítica, existem pelo menos duas ten-
dências diferentes. A primeira é repre-
sentada pelo positivismo terapêutico do
Grupo de Cambridge e se inspira, com
exclusividade, em certas características
socráticas do pensamento de Wittgens-
tein; seu representante mais conhecido é
John Wisdom (1904). A segunda tendên-
cia encontra-se no Grupo de Oxford, que
é decididamente linguístico, excluindo
qualquer outro interesse teórico. Os pen-
sadores do Grupo de Oxford têm em co-
mum a crença de que o exame do funcio-
namento da linguagem corrente
(preliminar a toda reforma DEI da lin-
guagem ou teorização filosófica) possa
inspirar a solução (ou esvaziamento) dos
chamados “problemas” filosóficos. A
seu modo, trata-se de uma crítica acerba
a qualquer metafísica, feita, contudo,
dentro do parcimonioso universo de dis-
curso do senso-comum britânico. Entre
os pensadores do Grupo de Oxford, sa-
lientam-se Gilbert Ryle, John Langshaw
Austin e Peter Frederick Strawson, dos
quais se poderia aproximar o trabalho
realizado pelo norte-americano Willard
van Orman Que.
Da metafísica à lógica
Gilbert Ryle (1900- ) foi educado
dentro da tradição das humanidades
clássicas, em Oxford. Mais tarde tor-
nou-se catedrático de filosofia metafísica
e, de 1947 a 1972, foi editor da revista
Mind. A trajetória.de seu pensamento as-
sinala a própria transformação da filoso-
fia inglesa do século XX, evoluindo da
metafísica hegeliana e outras correntes
idealistas até chegar ao positivismo lin-
guístico. Desde cedo, Ryle problemati-
zou o conteúdo da filosofia, procurando
responder precisamente à questão: que
vem a ser dae filosofia? Sua convicção
pioneira é que o que os filósofos real-
mente fazem é examinar o sentido dos
enunciados. No ambiente algo estratifi-
cado da Universidade de Oxford nos
anos vinte, tal preocupação era nova,
embora em Cambridge, sob influência
dos trabalhos lógicos de Russell
(1872-1970) e Wittgenstein, a reflexão
filosófica caminhasse nessa direção. Os
únicos temas dos filósofos oxfordianos
RYLE
Desde os últimos séculos da Idade Média, a universidade de Oxford tem
desempenhado papel fundamental no desenvolvimento da cultura inglesa.
No século XX, a velha universidade abriga um grupo aEinas os que têm em
comum a tese de que o exame da linguagem corrente pode orientar
a solução dos chamados e orotlemaE RO cost (Vista aérea de Oxford).
eram a teoria da percepção e a ética, ha-
vendo total desinteresse pela lógica.
Ryle foi o responsável pela ponte entre
o tradicionalismo de Oxford e o logi-
cismo de Cambridge. O artigo “Systema-
tic Misleading Expressions”(1932) pode
ser considerado como a primeira mani-
festação verdadeiramente original de
suas posições. Nesse artigo, Ryle afirma
que a atividade da filosofia consiste na
remoção das confusões conceituais, re-
sultantes da enganadora semelhança en-
tre construções gramaticais e constru-
ções lógicas. Assim, por exemplo, tanto
o impontual Smith como a impontuali-
dade são dignos de censura, e por isso,
com certa frequência, os filósofos são le-
vados a achar que coisas semelhantes
são afirmadas dos dois objetos (Smith e
a impontualidade), daí passando à con-
clusão de que o universo comporta obje-
tos particulares e objetos gerais. Da
mesma forma, nas expressões “Baldwin
é um estadista” e “Pickwick é uma fic-
ção”, a similaridade gramatical leva os
filósofos a pensar que existem, efetiva-
mente, “ficções” e “estadistas”. Nesse
artigo, o pensamento de Ryle ainda não
estava suficientemente burilado para se
desligar dos preconceitos semânticos da
1027
HS PD Sa sd Ident s fd à 2 Mi fic SD AEE ===
OS PENSADORES
Gilbert Ryle, o mais velho representante do Grupo de Oxford, tomou
para tema fundamental de suas reflexões, desde seus primeiros trabalhos,
a indagação: o que é fazer filosofia? Procurando resposta para esse
problema, Ryle reproduziu toda a trajetória da filosofia mglesa do
séc. XX, ndo do idealismo hegeliano até o positivismo linguístico.
1028
«ikus, Rondon
RYLE
época, especialmente da tese da adequa-
ção termo-a-termo entre a proposição ló-
gica e a estrutura do fato real. Nos en-
saios recolhidos em Dilemmas (1954),
Ryle sustenta que a maior parte dos pro-
blemas filosóficos surgem sob a forma
de dilemas, mantidos sem que se seja ca-
paz de repudiar duas ou mais opiniões
incompatíveis como, por exemplo, “o ho-
mem € responsável por seus atos” e “o
comportamento individual é resultado
da influência do meio e das bases fisioló-
gicas”. Tais dilemas, segundo Ryle, de-
veriam ser superados, mostrando-se que
o aparente conflito é devido à confusão
conceitual e, ao mesmo tempo, não se
aceitando as alternativas propostas pe-
los mesmos.
Ryle sempre considerou que o seu es-
tilo de análise consistiria menos em res-
ponder à pergunta: “Que significa esta
expressão?”, do que em levantar a ques-
tão: “O que é que faz com que esta ex-
pressão seja sem-sentido? e que espécie
de sem-sentido?”. Essa a razão pela qual
se encontram nos primeiros ensaios de
Ryle referências à idéia de uma gramá-
tica lógica, que se aproxima da IV Inves-
tigação Lógica, de Husserl (1859-1938).
Que são o corpo e a alma?
Em Philosophical Arguments (aula
inaugural de 1945), Ryle sintetizou o
programa de uma nova filosofia, afir-
mando que é possível conseguir uma me-
lhor escoa lógica” determinando-se
o que pode e o que não pode ser dito sem
absurdo, quais as inferências válidas e
as que não o são, e quais os paralelismos
lógicos suscetíveis de causar confusão.
Esse tipo de critica filosófica encontra
aplicação prática em The concept of
mind (1949) — a obra mais famosa de
Ryle —, um trabalho sistemático sobre
os “conceitos mentalistas” normalmente
utilizados pela filosofia do espírito. Para
tornar mais eficaz sua polêmica nessa
obra Ryle cunhou o epi a do “fan-
tasma dentro da máquina”, referindo-se
à concepção cartesiana sobre a origem
da mente; concepção que, diz Ryle, do-
mina a quase totalidade da epistemolo-
gia moderna. Resumindo ironicamente
esse ponto da filosofia cartesiana, Ryle
escreve; “com as exceções duvidosas
dos idiotas e das crianças de colo, todo
ser humano tem um corpo e um es-
irito”. Dessa posição inicial teriam
Escdo as menarráveis dificuldades ter-
minológicas dos dualismos filosóficos,
com todo o seu cortejo mistificador de
erros teóricos quanto à “relação” entre
corpo e espírito. Um tal dualismo que
obrigaria as pessoas a viver em dois
mundos: o do corpo, governado por leis
mecânicas; e o do espirito, que se desen-
rolaria num meio não sujeito a tais leis.
É costume expressar a bifurcação dessas
duas vidas e desses dois mundos, dizen-
do-se que as coisas e acontecimentos
pertencentes ao mundo fisico, incluindo
o próprio corpo, são exteriores, en-
quanto o trabalho do espírito é interior.
Esse dualismo do interno /externo é ape-
nas uma metáfora, diz Ryle, pois como
verificar que o espirito é interno? ou que
porventura tenha qualquer outra conota-
ção espacial? Ao conjunto de erros sobre
a natureza e o lugar dos espíritos, Ryle
denomina o “dogma do fantasma na má-
quina”. Levando ainda mais longe sua
crítica, Ryle caracteriza esse dogma
como “erro-categoria” absolutamente
global, e não apenas “uma reunião de er-
ros particulares”. O erro categoria “ima-
gina os fatos da vida mental como se per-
tencessem a um tipo ou categoria lógicos
(ou classe de tipos ou categorias),
quando efetivamente pertencem a outra
categoria”. Assim, por exemplo, um fo-
rasteiro que chega à Universidade de
Oxford e ouve falar de suas numerosas
faculdades, bibliotecas, campos de jogos
e assim por diante, poderá perguntar:
“Mas onde está a Universidade?” Seria
então necessário explicar-lhe que a Uni-
versidade não é uma instituição colate-
ral, sendo, precisamente, a maneira
como tudo o que ele viu está organizado.
Segundo Ryle, o forasteiro erra ao situar
a Universidade na mesma categoria a
que pertencem as outras instituições. Er-
rando da mesma forma, o dualista vai ao
ponto de postular a existência de uma
entidade “pessoa” oculta dentro de um
maquinismo.
Ryle crê que boa parte do erro-catego-
ria em questão deriva do fato de Descar-
tes ter transportado para a teorização
dos fenômenos mentais um modelo me-
cânico. “Aderindo, — escreve Ryle —
1029
OS PENSADORES
ainda que involuntariamente, à gramá-
tica da mecânica, Descartes tentou evi-
tar o desastre, descrevendo os espíritos
com um vocabulário meramente simé-
trico. As operações. do espírito deviam
ser descritas por meio dos simples nega-
tivos das descrições específicas feitas
para o corpo: não existem no ESRASO» não
são movimentos, não são mo ificações
da matéria, não são acessíveis à observa-
ção pública. (...) Assim representados,
os espíritos não são simplesmente fan-
tasmas acorrentados a máquinas: são
eles próprios máquinas fantasmas”. A
descrição alternativa proposta por Ryle,
a fim de evitar as dicotomias cartesia-
nas, enfatiza o aspecto executivo do
comportamento inteligente e salienta
como o homem faz tal e tal coisa (ou
sabe como fazê-la), sem preconceber
uma consciência reflexiva ou um corpo
fisicista por detrás de cada uma das
ações humanas. Ryle faz uma distinção
clássica entre saber como e saber que, a
fim de mostrar que saber como fazer tal
e tal coisa, ser capaz de executá-la de
modo inteligente, é logicamente indepen-
dente de qualquer teorização intelectual
do “fantasma na máquina”. Ryle acres-
centa: “há muitas duvidades que reve-
lam diretamente qualidades do espírito,
se bem que não sejam em si próprias
operações intelectuais, nem sequer efei-
tos de operações intelectuais”. Dessa
maneira, tudo o que está “implícito” nos
enunciados referentes a uma pessoa que
sabe inglês, sabe andar de bicicleta, ou
é capaz de compor uma sinfonia, ou de
caçar perdizes sem cachorro, é que a
pessoa leva a cabo tais ações de modo
satisfatório, “sabe como” realizá-las e,
além disso, também é capaz de eventual-
mente analisar: corrigir e aperfeiçoar
suas técnicas linguística, ciclística, mu-
sical ou cinegética.
Ao lado de sua contribuição
fundamental à filosofia do espírito, Ryle
também se interessou pela teoria da sig-
nificação. Os ensaios The Theory of
Meaning (1957) e Use, Usage and Mea-
ning (1961) constituem uma crítica con-
tundente da concepção semântica, se-
gundo a qual as palavras isoladas (tendo
por modelo os nomes próprios) são as
unidades significadoras, por excelência,
e não as frases. Ironicamente, Ryle
1030
chama a concepção semântica de “teoria
Fido-Fido”, dizendo que, nela, uma pa-
lavra sempre encontrará uma coisa cor-
respondente, da mesma forma como ao
nome “Fido” corresponde o cachorro
Fido. Ryle, por sua parte, e enfatiza o uso
das frases para realizar ações concretas,
como o aspecto realmente importante
para a descrição filosófica. Tal coloca-
ção é, no fundo, idêntica à que Wittgen-
stein apresenta nas Investigações Filosó-
ficas e salienta-se apenas pela “verve”
de Ryle. Sem dúvida, uma das maiores
virtudes da obra de Ryle reside na força
de sua prosa filosófica, desprovida de
academicismo, fluente e polêmica, diri-
gida ao leitor de bom senso, de um modo
que faz lembrar Hume. O que levou seu
contemporâneo Austin a dizer: “Le style,
c'est Ryle”.
Dizer ou fazer?
John Langshaw Austin (1911-1960) nas-
ceu em Lancaster, filho de um funcioná-
rio da Universidade escocesa de St. Leo-
nard. A partir de 1933, através de uma
bolsa de estudo, veio para Oxford, onde,
como aluno e professor, viveu a maior
parte, de sua vida. Austin é considerado
o maior representante da chamada es-
cola “analítica” de Oxford e, embora
seus contemporâneos reconheçam nele
verdadeiro gênio filosófico, a influência
que exerce na filosofia inglesa é conside-
rada por amplos setores como perni-
ciosa, por conduzir a um academismo
excessivo, por afastar a filosofia da ciên-
cia e da epistemologia, e por não adotar
nenhum valor. Embora ainda seja cedo
para uma avaliação histórica da “escola
analítica”, a verdade é que as críticas
que lhe são endereçadas na defesa da
maneira tradicional de fazer filosofia,
nada mais fazem que pôr em relevo a
crise da filosofia do século XX, problema
de que Austin estava plenamente cons-
ciente. Alguns intérpretes da obra de
Austin chegam mesmo a pôr em dúvida
que seu trabalho possa ser chamado de
“filosofia” e perguntam se não seria me-
lhor falar de “ciência” da linguagem, ou
lingúística, ou lexicografia. Seus dois
discípulos e colegas, Warnock e Urmson,
responsáveis pela publicação e recons-
trução da maior parte de sua obra, afir-
RYLE-AUSTIN
1
Thame Studis
4
À
Entre os membros do Grupo de Oxford,
Peter Frederick Strawson tornou-se
conhecido, sobretudo, por estudos de
filosofia da lógica e por tentativas
de reconstrução da metafísica.
mam não querer propor nenhuma res-
posta conclusiva para essas questões.
A formação básica de Austin foi de
tipo clássico: latim, grego, literatura, fi-
losofia e história. Para seu trabalho pos-
terior foi particularmente relevante o co-
nhecimento adquirido da obra de
Aristóteles. Até o início da Segunda
Guerra Mundial, além de Aristóteles, o
campo de interesse de Austin envolvia
também Leibniz (1646-1716). Antes de
1939, redigiu um ensaio sobre a Ética a
Nicómaco e, a partir da poblemática
leibniziana, publicou em 1939 Existem
Conceitos a Priori? Só depois da guerra
seu pensamento ganhou E RR pró-
pria e Austin encontrou o método ade-
quado para desenvolvê-lo.
Em Other minds (1946), Austin estuda
minuciosamente o uso de expressões ver-
bais como “prometo”, “sei” e “acre-
dito”, mostrando que um inventário am-
plo dos empregos que a linguagem
corrente faz desses verbos pode ajudar
na obtenção de distinções epistêmicas
significativas. Assim procedendo o ana-
lista (ou o filósofo) não precisaria, em
muitos casos, inventar uma terminologia
complicada para a teoria do conheci-
mento; bastar-lhe-ia verificar que a teo-
ria do conhecimento, com suas distin-
ções mais sutis, já está incorporada ao
funcionamento habitual da linguagem
corrente. O verbo to know, por exemplo,
através da análise de Austin mostra-se
surpreendentemente semelhante ao
SEO to promise; “quando digo “pro-
meto”... não anuncio tão-somente a mi-
nha intenção, mas, usando essa forma
(fazendo esse ritual), liguei-me a ou-
trem, arrisquei a reputação . Da
mesma forma, ao dizer “sei”, vou ainda
mais longe; o que não qn dizer que
com isso eu esteja dizendo que realizei
um feito notável de conhecimento, supe-
rior na mesma escala ao acreditar e ao
estar certo, pois em tal escala não há
nada superior ao estar inteiramente
certo. Da mesma forma que, na mesma
escala, prometer não é nada superior a
esperar e tencionar, nem mesmo é supe-
rior à intenção plena, uma vez que nada
há, nessa escala, superior à intenção
plena. Quando digo “sei”, dou aos outros
a minha palavra: dou-lhes a minha auto-
ridade para que digam 'S é P'”.:Boa
1031
OS PENSADORES
parte da obra de Austin está centrada no
estudo desses verbos e em seu peculiar
comportamento linguístico. Numa longa
série de cursos proferidos em Oxford,
sob o título Word and Deads, Austin
torna mais explicita aquela que é, sem
dúvida, a sua grande descoberta: de que
ao lado do trabalho meramente descri-
tivo das expressões verbais, existe uma
dimensão executiva, (“performatória”)
que faz com que a realidade verbal e a
não-verbal da linguagem em funciona-
mento estejam indissociavelmente liga-
das. Mais tarde, Austin resumiu essa
concepção de maneira sistemática, em
uma série de conferências em Harvard
no ano de 1955; as notas dessas confe-
rências constituem o volume póstumo,
How to do things with words (1962).
A análise Imgúística proporcionada
pelo positivismo lógico, e que dominou
a filosofia até a década de 40, centra-
va-se nas proposições descritivas que,
sendo redutíveis ao controle do cálculo
lógico, poderiam ser integradas no edifi-
cio da linguagem cientifica. Já a se-
gunda fase do pensamento wittgenstei-
niano pode ser considerada como uma
reação implícita a esse modo de conside-
rar a linguagem; Wittgenstein, com sua
concepção dos “Jogos de linguagem”,
não foi muito explícito na análise das di-
versas funções desempenhadas pelas fra-
ses. Assim, contrariando a tradição filo-
sófica que apenas empresta importância
epistemológica às expressões que “infor-
mam acerca de fatos ou descrevem situa-
ções de modo verdadeiro ou falso”, rele-
gando todas as demais para a categoria
do sem-sentido, Austin começa por per-
guntar se estas são, efetivamente, “pro-
posições”. Acreditar que todas as propo-
sições significativas devem ter
características descritivas é incorrer,
talvez, na “falácia descritiva”. Supo-
nha-se, por exemplo, que no decorrer de
uma cerimônia de casamento um homem
diga, como é costume, “aceito”, que-
rendo com isso responder à pergunta ri-
tual do sacerdote, se aceita tal mulher
como sua legitima esposa; ou, então, su-
ponha-se que alguém, ao atirar uma gar-
rafa de champagne no casco de um na-
vio, diga: “Dou-lhe o nome de
TITANIC”. Observando esses dois casos,
diz Austin, é provavelmente mais correto
1032
afirmar que o locutor esteja fazendo algo
do que apenas dizendo algo. Austin
chama de performatórias (performative
utterances) essas expressões caracteri-
zadas pela primeira pessoa do singular
do indicativo presente de determinados
verbos. Sua característica epistemoló-
gica mais saliente é a de não serem ver-
dadeiras nem falsas e poderem sofrer
certos defeitos de execução que Austin
chama mfelicities. Não adianta nada,
E exemplo, afirmar “Aposto”, se não
ouver um ceiro para aceitar minha
aposta. Poder-se-ia assim dizer que as
expressões “infehzes” são as que não
cumprem suas funções especificas.
Posteriormente, Austin desenvolveu a
noção de “performatório” e incluiu-a
dentro de uma teoria da pragmática dos
atos da fala, em geral. Passou, então, a
distinguir três realidades linguísticas es-
tratificadas, no ato de falar: A) um ato
locutório, B) um ato ilocutório e C) um
ato perlocutório. Assim, na expressão
“dispare nela” existe sucessivamente um
ato locutório: disse-me “dispare nela”,
referindo-se a palavra “dispare” a dis-
e a palavra “nela”, a nela; um ato
ilocutório: instigou-me (ou aconse-
lhou-me, ordenou-me, etc.) que dispa-
rasse nela; e, finalmente, um ato perlo-
cutório: persuadiu-me a disparar nela
(ou que disparasse nela). A designação
per-locutório alude ao fato de que o novo
tipo de ato é frequentemente levado a
efeito não em um ato locutório mas atra-
vés (em latim, per) de um ato locutório.
É evidente que no primeiro ato, Austin se
refere tão-somentt ao emprego de sons
para referir determinados significados;
no segundo caso, o locutor usa a sen-
tença para obter diretamente certos efei-
tos sobre os sentimentos, os pensamen-
tos, ou o agir daquele que o escuta (nesse
sentido, expressar a sentença está indis-
soluvelmente ligado àquilo que se Jaz
com ela); no terceiro caso, Austin enfa-
tiza o fato de que o ato locutório serve
apenas de veículo instrumental para o lo-
cutor obter um efeito derivado. Embora
a distinção entre o segundo e o terceiro
casos não seja fácil de ser mantida, Aus-
tin tentou fornecer alguns critérios lin-
guísticos de construção sintática, crité-
rios esses que serviriam de teste para
efetuá-la.
AUSTIN
o dee peidar *
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ANA
.. st
1 he
ts H :
Embora não pertencente propriamente ao Grupo de Ep fd o pensador americano
Willard van Orman Quine pode ser aproxi dele pela temática de suas obras e
pela semelhança de soluções que encontrou para o mesmo tipo de problema.
Quine doutorou-se na universidade de Harvard, onde passou a maior parte de
sua vida, lecionando e escrtvendo inúmeras obras. (Universidade de Harvard).
1033
Photo Researchers
OS PENSADORES
Uma ciência da linguagem
Do ponto de vista dos resultados al-
cançados, a obra de Austin dificilmente
pode distinguir-se da pesquisa que um
hipotético lexicógrafo levasse a cabo so-
bre a língua inglesa atual. O que Austin
fornece é um conjunto de inquéritos inde-
pendentes sobre o uso dos verbos perfor-
mativos, dos verbos que podem servir
para a execução de atos ilocutórios e
perlocutórios, e uma série de outras pe-
quenas análises, dentre as quais se des-
taca a análise semântica dos verbos per-
ceptivos look, appear, seem, no ciclo de
conferências reunidas sob o título de
Sense and Sensibilia (1960). Mas de-
ve-se ressaltar que é praticamente im-
possível reuni-las sob uma teoria filosó-
fica unificante. Recentemente, linguistas
como Chomsky (1929- ) afirmaram
que o método de investigação no estilo
de Austin (no que toca à semântica dos
verbos) poderia ser incorporado com
muita utilidade à teoria transformacio-
nal. Parece não haver dúvida de que Aus-
tin acreditava na possibilidade da cola-
boração de um grupo de filósofos
analíticos, no sentido de determinar, por
comum acordo, qual o uso dos principais
termos das várias áreas de discurso. Só
assim a filosofia da linguagem poderia
estar certa de obter resultados palpá-
veis, segundo um método declarada-
mente empírico e científico. Ao que tudo
indica, Austin estava convencido de que,
mais cedo ou mais tarde, emergeria das
pesquisas dos filósofos analíticos uma
“nova ciência da linguagem”, com isso,
o campo vital da filosofia se libertaria
do peso da linguagem: “Na história da
investigação humana — escreve Austin —
a filosofia ocupa o lugar do sol inicial
central, seminal e tumultuoso; de tempos
em tempos, abandona uma parte de si
próprio a fim de que assuma o estádio
de ciência, como planeta, frio e perfeita-
mente regularizado, progredindo rapi-
damente para um distante estágio final.
Isso aconteceu há muito tempo, no nasci-
Quine tornou-se bastante conhecido no
Brasil, onde foi o introdutor da
lógica matemática. Uma de suas obras
foi publicada originalmente em
português: O Sentido da Nova Lógica.
1034
PRTORATE ss sa:
DP POUR CO é
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Ri
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AUSTIN
1035
OS PENSADORES
A partir de 1950, Strawson passou a dedicar-se ao que ele mesmo chamou de
“metafísica descritiva”. Com isso, o filósofo ampliou os limites de suas
reflexões para além dos objetivos da filosofia analítica do Grupo de Oxford.
A “metafísica descritiva” examina as características estruturais dos sistemas
de conceitos, aplicando as técnicas analíticas ao estudo das categorias.
1036
Thame Studio
STRAWSON
mento da matemática, e repetiu-se
quando nasceu a fisica; no último século
testemunhamos o mesmo processo lenta-
mente e de modo quase imperceptível, no
nascimento da lógica matemática, atra-
vês dos esforços conjuntos de filósofos e
matemáticos. Não será possível que o
próximo século possa assistir ao nasci-
mento, através dos esforços conjuntos de
filósofos, gramáticos e outros estudiosos
da linguagem, de uma verdadeira e com-
preensiva ciência da linguagem?”.
Verdade e falsidade
Peter Frederick Strawson (1919- ),
um dos mais conhecidos filósofos britã-
nicos do Grupo de Oxford, preocupou-se
principalmente com a filosofia da lógica
e a reconstrução da metafísica. Seu tra-
balho mais conhecido, e que exerceu
grande influência nos demais filósofos
analíticos, é o artigo On Referring publi-
cado na revista Mind em 1950, e que
pode ser tomado como uma ruptura com
a geração anterior, por constituir uma
crítica à teoria das descrições definidas
de Bertrand Russell. No paradigma pro-
posto por Russell, qualquer sentença do
tipo “o f é g” (por exemplo, “o rei da
França é calvo”) é efetivamente decom-
posta em três outras proposições: “há
um rei da a “só existe um rei de
França”, e “não há nada que seja rei de
França e nao seja calvo”. Strawson pro-
cura mostrar que nessa análise confun-
de-se o referir-se (referring) a uma enti-
dade com o afirmar a existência dessa
entidade. Ao referir-se a uma entidade,
o locutor pressupõe a existência da
mesma, mas não afirma que exista, nem
aquilo que afirma implica que exista.
Deve-se fazer, portanto, uma distinção
entre pressuposição e implicação (entail-
ment). Ao enunciar uma frase “o (atual)
rei de França é é calvo” o locutor procura
referir-se à entidade que funciona como
sujeito na sentença e, portanto, pressu-
põe que ela existe, mas não está afir-
mando que exista uma tal entidade.
Strawson põe em relevo a necessidade de
se levar em consideração a diferença
existente entre a expressão (a sentença)
e o fato de seu uso efetivo. Uma expres-
são (sentença) pode ser significativa ou
desprovida de sentido, mas a verdade ou
falsidade que a ela se atribui é função do
uso que lhe for dado. A sentença “o rei
de França é calvo” é perfeitamente signi-
ficativa, mas a afirmação efetuada com
ela não pode ser considerada como ver-
dadeira ou falsa, em virtude de a França
ser uma república e não haver rei de
França; não há, portanto, como atribuir
à sentença uma referência efetiva. De
acordo com a terminologia de Strawson,
a sentença é significativa, mas a afirma-
ção correspondente não é nem verda-
deira nem falsa, pois uma de suas pres-
suposições (a de que há um rei de
França) é falsa.
Em outro artigo, intitulado Truth, e
publicado em Analysis (1949), Strawson
critica a teoria semântica da verdade e
propõe uma análise alternativa, refe-
rente à função desempenhada pela pala-
vra “verdade”. O filósofo argumenta que
“verdade” e “falsidade” não devem ser
consideradas palavras “descritivas”; se-
riam antes “performatórias” (no sentido
de Austin), como em “prometo”. Straw-
son afirma que dizer que um enunciado
é verdadeiro não é efetuar um enunciado
sobre um outro enunciado (função meta-
linguística da verdade), mas realizar o
ato de aceitar, de concordar, de conce-
der, etc. Quando se declara: “é verdade
que está chovendo” não se diz (informa)
algo mais além do que se informa atra-
vês de “está chovendo”. Nesse ponto
Strawson faz uso de uma idéia exposta
anteriormente por Ramsey: a redundán-
cia-da-verdade. Ramsey afirmou que di-
zer que uma proposição é verdadeira não
significa mais do que asseverar a pró-
pria proposição. Assim, dizer: “é falso
que César foi assassinado”, é o mesmo
que declarar: “César não foi assassi-
nado”. De acordo com esse ponto de
vista, a “verdade” não tem “significado”
independente. Com suas análises, Straw-
son se opõe à teoria metalingiistica da
verdade. Ao lado do uso performatório
de “verdade”, Strawson salienta ainda
seu uso expressivo. Em frases que come-
cam por “Então, é verdade que”, “É ver-
dade ?, “Se for verdade que”, “Se for
verdade o que dizem”, a palavra “ver-
dade” funciona como o advérbio “real-
mente”, isto é, serve para expressar sur-
presa, dúvida, espanto ou descrença.
Em seu primeiro livro, Introduction to
1037
OS PENSADORES
PER d :
asa aa
erp, «ms ...
ER)
; . .. DA na ee
Depois de doutorar-se na universidade de Harvard, Quine procurou
aperfeiçoar-se em lógica, seu principal interesse. Com esse objetivo, entrou
em contato com os membros do Circulo de Viena e com Carnap, em Praga. Voltando
aos EUA, tornou-se professor em Harvard, de onde se ausentou algumas vezes
para lecionar em São Paulo, Adelaide e Tokio. (Biblioteca de Harvard).
1038
Photo Researchers
STRAWSON
Logical Theory (1952), Strawson desen-
volveu de maneira sistemática o pro-
blema da relação entre a linguagem cor-
rente e a lógica formal. O livro tem dois
objetivos complementares: comparar e
constatar o comportamento das palavras
costumeiras com o comportamento dos
simbolos lógicos, e pôr em relevo a natu-
reza da lógica formal. O autor tenta
mostrar que o cálculo proposicional e de
predicados não esgota todos os traços ló-
gicos do funcionamento da linguagem
corrente, argumentando que os conceitos
lógicos, especialrnente “v”, “5”, e “=”,
são muito menos semelhantes a “ou”,
“se. . então”, e “se e somente se” do que
se possa su upor. Na discussão da lógica
de predica os, Strawson sustenta que
certas críticas à silogística aristotélica
não são válidas por não levarem em
conta que enunciados com a forma pro-
posicional “Todos os f são g” pressu-
põem a existência de membros da classe
que desempenham o papel de sujeito. As-
sim, por exemplo, a questão de saber se
é verdade que todos os filhos de João es-
tão acordados, nem se coloca se João
não tiver filhos. Admitindo-se que os
enunciados da forma “Todos os f são g”
possuem pressuposições existenciais,
torna-se possível apresentar uma inter-
retação consistente do sistema aristoté-
es tradicional. Para Strawson, a inca-
pacidade de reconhecer esse ponto, e de
perceber a relação correta existente en-
tre o cálculo de predicados e a lingua-
gem corrente, deve-se aos mesmos erros
subjacentes à teoria das descrições, isto
é, ao não reconhecimento da distinção
entre sentença e enunciado (statement),
à “tricotomia fictícia” (verdadeiro,
falso, ou sem-sentido), e à confusão entre
pressuposições e implicação.
A partir de 1950, Strawson passou a
se preocupar com aquilo a que deu o
nome de metafísica escritiva. Trata-se
de um empreendimento mais geral que o
objetivo declarado da filosofia analítica,
uma vez que se passa, como diz Ayer, “a
examinar as características estruturais
de nosso sistema conceitual, ou a aplicar
as técnicas analíticas à investigação das
categorias”. Essa fase do pensamento de
Strawson encontra-se no livro Indivi-
duals (1959), que, em sua primeira
parte, Particulars, trata da natureza e
pré-requisitos para a identificação de
particulares na linguagem; a segunda
parte concentra-se nas relações entre
universais e particulares, e nas distin-
ções entre referência e predicação, sujei-
tos e predicados. Strawson defende a
tese de que, do ponto de vista da identifi-
cação particular, os objetos materiais
constituem os particulares básicos. Isso
significa que as condições gerais para a
identificação particular exigem um sis-
tema de entidades espaço-temporais ob-
serváveis publicamente. O universo ma-
terial forma tal sistema e os objetos
materiais podem, portanto, ser identifi-
cados independentemente da identifica-
ção de particulares em outras catego-
rias; mas a recíproca não é verdadeira.
Assim, admite-se que os objetos mate-
riais são particulares básicos para a
identificação particular. Uma segunda
tese de Strawson envolve o problema do
dualismo corpo-mente. Em Persons
Strawson ataca tanto a concepção carte-
siana — segundo a qual os estados de
consciência são atribuídos a um Cogito
ligado mas distinto de um corpo —
quanto a teoria moderna, para a qual os
estados de consciência não são atribui-
dos a nada. Em última instância, ambas
as posições seriam incoerentes. Por isso,
Strawson propõe como conceito primi-
tivo o de “pessoa”, que deve ser distin-
guido do conceito de “corpo”, entendido
como algo meramente material que con-
trasta coisas e pessoas.
Para Strawson uma coisa ou corpo
material é um particular básico, no sen-
tido de que é possível identificar e rei-
dentificar corpos materiais, sem necessi-
dade de referência a qualquer espécie de
particular, além de corpos materiais. Es-
ses particulares seriam básicos nos es-
quemas de identificação do mundo.
Como surgiria, então, a idéia de um de
nós distinto dos particulares? A resposta
tradicional consiste em sustentar que
nós não somos corpos materiais, e que a
nossa-idéia-de-nós-próprios não é a
idéia de um corpo material. Mas Straw-
son não vai ao ponto de afirmar que o ho-
mem seja entidade imaterial, enfati-
zando o fato de muitos dos termos
corretamente aplicáveis aos corpos ma-
teriais serem também aplicados segundo
o mesmo critério, ao homem como pes-
1039
OS PENSADORES
soa. Para Strawson, há duas classes de
termos (predicados-M e predicados-P)
aplicáveis, respectivamente, a corpos
materiais e a pessoas; mas existe al-
guma coincidência no fato de EE pre-
dicados-M (talvez a sua totalidade) se-
rem aplicáveis a pessoas, embora
existam alguns predicados-P não aplicá-
veis a corpos materiais (por exemplo:
não se pode atribuir estados de consciên-
cia aos corpos materiais).
É essencial na análise feita por, Straw-
son que os predicados-P sejam do
mesmo tipo lógico, independentemente
de serem aplicados a “nós” próprios, ou
“ele”, “ela”, “eles”, ou ainda à pessoa
propriamente dita. O critério para apli-
cação dos predicados a mim mesmo é
sem dúvida o eu estar consciente disso,
mas para os outros tal atribuição é logi-
camente impossível. (Não posso, por
exemplo, sentir a dor alheia). Devo, en-
tão, ter algum critério logicamente ra-
zoável para ser capaz de fazê-lo; prova-
velmente poderei basear-me na
observação de comportamento. Strawson
tenta superar a posição cética, segundo
a qual nada se pode dizer da dor alheia
a menos que ela seja experimentada.
Para isso é necessário aceitar plena-
mente o seu conceito de “pessoa”, o
qual, afastando-se do dualismo carte-
siano, refere- se a uma entidade sui gene-
ris, para cuja aparência podem ser usa-
das expressões de duas linguagens
diferentes.
O sentido da nova lógica
Willard van Orman Quime (1908- )foi
educado no Oberlain College (EUA), e
obteve o título de Doutor em Harvard,
sob orientação de Whitehead (1861 -
1947). Desde o início, seu principal inte-
resse foi a lógica, e, para se aperfeiçoar
nesse campo. visitou Viena, estudou em
Varsóvia e encontrou-se com Carnap em
Praga. Em 1936, Quine tornou-se pro-
fessor em Harvard. Depois visitou vários
países, proferindo cursos em São Paulo,
Adelaide, Tokio e Oxford. Sua perma-
nência por vários anos em São Paulo, em
seguida a um tratamento de saúde na
ha da Madeira, foi particularmente i im-
portante, pois, pela primeira vez, reali-
zou-se um curso de lógica matemática
1040
numa universidade brasileira. Disso re-
sultou o livro O sentido da nova lógica,
publicado originalmente em língua por-
tuguesa, em 1944.
A obra de Quine liga-se à filosofia da
lógica, à epistemologia e à filosofia da
linguagem. No campo da lógica propria-
mente dita, Quine introduziu algumas
soluções técnicas na demonstração de
teoremas da teoria dos conjuntos, carac-
terizadas por grande elegância (Set
Theory and its logic, 1963). No campo
da filosofia da lógica, um dos argumen-
tos mais famosos de Quine está centrado
em sua recusa da distinção entre “anali-
tico” e “sintético”, (Two dogmas of em-
piricism, publicado em 1951). Partindo
da distinção tradicional de Leibniz entre
“verdade de razão” e “verdade de fato”
Quine não vê qualquer possibilidade de
manutenção de tais conceitos. Um enun-
ciado como “nenhum homem não casado
é casado” pode, na terminologia de
Quine, ser considerado como analítico /
logicamente verdadeiro. Isso decorre de
sua teoria, segundo a qual, fornecida
uma lista de partículas lógicas (não,
se... então, e), diz-se que uma “verdade
lógica” é um enunciado que continua
verdadeiro com substituição de qualquer
de suas partes constituintes, desde que
não sejam as partículas lógicas. Outro
tipo de enunciado analítico aparece em
“nenhum solteiro é casado”, que pode
transformar-se em enunciado “logica-
mente verdadeiro” por substituição, co-
locando-se o sinônimo “homem não ca-
sado” no lugar dé “solteiro”. Mas nesse
ponto (como em outros momentos de seu
argumento), Quine Chega à à conclusão de
que não existe critério para definir a
analiticidade, como também não há para
a sinonímia. Segundo Quine, um exame
da analiticidade que depender da noção
de sinonímia será insatisfatório. Se a si-
nonímia das formas Imguúísticas consistir
na possibilidade de sua cambialidade em
todos os contextos, mantendo-se os valo-
res-de-verdade do enunciado, pode-se
chegar a falsidades. Isso ocorre, por
exemplo, na substituição de “solteiro”
por “homem” na proposição “ solteiro
tem menos de dez lesar . É necessário
explicar, diz Quine, a sinonímia cogni-
tiva, que se anuncia na possibilidade de
transformar qualquer enunciado anali-
STRAWSON-QUINE
ELEMENTARY
LOGIC
Revised Edition
LARD VAN ORMAN QUINE
|
As obras de Quine estendem-se por amplos setores da filosofia da lógica, da
epistemologia e da filosofia da tnguagem. No campo da lógica propriamente
dita, Quine introduziu algumas soluções técnicas caracterizadas por grande
elegância. No campo dafeloro ia da lógica, ficou famosa sua recusa da
distinção entre analítico e sintético. (Frontispício de uma obra de Quine).
1041
OS PENSADORES
tico numa verdade lógica por substitui-
ção de sinônimos. Dizer que “solteiro” e
“homem não casado” são cognitiva-
mente sinônimos, é o mesmo que dizer:
“Todos e só os solteiros são homens não
casados”. Podemos transformar essa
proposição em uma outra: “(Necessaria-
mente) todos e só os solteiros são soltei-
ros/são homens não casados”. Mas,
nesse caso, também supõe-se mais uma
vez a analiticidade.
O argumento de Quine, em linhas ge-
rais, tem entretanto consequências filo-
sóficas extraordinariamente amplas. O
abandono da distinção entre analítico e
sintético desfaz a “fronteira que se crê
separar a metafísica especulativa da
ciência natural”, e reforça a concepção
pragmatista, característica do pensa-
mento de Pierce (1839 - 1914). Na con-
cepção de ciência e de conhecimento de-
lineada por Quine, todos os níveis estão
ligados entre si e não há verdades estan-
ques, de tal forma que uma alteração no
quadro geral provoca redisposições que
repercutem no discurso de todas as ciên-
cias. Referindo-se ao seu repúdio da
fronteira entre o sintético e o analítico,
Quine declara: “exponho um pragma-
tismo radical: Todo homem recebe uma
herança científica juntamente com uma
continua e detalhada estimulação senso-
rial, e as considerações que o levam a re-
formular a sua herança científica para
recolher os estimulos contínuos são, com
racionais, pragmáticas”. Essa posição
acha-se ampliada no capítulo 2 de Word
and Object (1960), onde Quine pretende
mostrar a impossibilidade de uma tradu-
ção “radical”. Qualquer tentativa de tra-
duzir um texto de uma língua para outra
envolve, diz o autor, a adoção de um es-
quema, o qual implica necessariamente
em alteração do original. Quine compara
esse problema com a tradução da teoria
numérica para a teoria dos conjuntos,
que é feita de várias maneiras, e cujo cri-
tério de preferência é apenas a sua maior
ou menor adequação ao contexto. Da
mesma forma, um linguista-antropólogo
que se depare com o problema de tradu-
zir uma lingua indígena não começará
por investigar “palavras”, mas unidades
sentenciais ligadas a certas condições
bastante explícitas de estimulação sobre
os próprios locutores indígenas. O esti-
1042
mulo significativo para o indígena é defi-
nido através da classe de estimulos que
o conduzem a concordar com o decla-
rado na sentença. O estimulo de sinoni-
mia intersubjetiva constitui a identidade
do estimulo significativo para o indi-
gena, e diz-se que duas sentenças são so-
cialmente simônimas-no-estimulo se são
ntersubjetivamente | sinônimas-no-esti-
mulo para quase todos os locutores.
Uma sentença é, analitica-em-estimulo
para o indígena se ele assentir a ela,
após cada estimulação; uma sentença
será analítica-socialmente-em-estímulo,
se acontecer o mesmo com a maior parte
dos locutores indígenas.
A fim de marcar a diferença entre essa
descrição e as noções tradicionais de si-
nonimia e analiticidade, Quine distingue
entre sentenças “ocasionais” e sentenças
“estabelecidas”. Se alguém for instado
(após cada estímulo) a assentir à sen-
tença “Joaquim está corado”, só poderá
fazê-lo observando o rosto de Joaquim
cada vez que o pedido for feito. Ao con-
trário, para assentir à sentença “O sal é
solúvel na água”, não é necessário repe-
tir a observação do processo fisico em
questão. No caso de sentenças ocasio-
nais, a sinonímia intersubjetiva no esti-
mulo equivale à identidade de sentido;
no caso das sentenças “estabelecidas”,
os estímulos que levam o locutor a as-
sentir variam de indivíduo. Em alguns
casos, falar de sinonimia e analiticidade
não passa de estratégia descritiva mera-
mente pragmática; a tradução só é possi-
vel para algumas sentenças ocasionais,
mas, na totalidade de uma lingua, o lin-
a tem que deixar como
hipotéticos largos segmentos do origi-
nal. Quine chega assim à sua tese da m-
determinância da tradução, tese que au-
toriza posteriormente, para toda a
epistemologia, uma posição convencio-
nalista. Só em instâncias privilegiadas
pode-se falar do “significado” (em-
pírico) de uma sentença; quando os
enunciados se chocam com a experiên-
cia, o erro não deve ser localizado em
“enunciados individuais”, mas atribuído
a todo o esquema conceitual, implicando
uma eventual retificação global do sis-
tema lingiístico de crenças. Ora, tal exi-
ência é uma reafirmação da impossibi-
lidade do corte analítico / sintético.
QUINE
EMVNVIURI RUA RIU
NANARARANTINAANDNANANA
M
..—. A — . aaa
| aê
My
UT
Ea
curso
moderno de
filosofia
Piaf W.V. Quine
da Universidade de Harvard
Embora situando-se nos domínios da pura lógica formal, algumas das reflexões
de Quine têm For Reqnendins OR Ico extremamente amplas. Entre outras, o
abandono da clássica distinção entre analítico e sintético desfaz as
fronteiras entre a metafísica especulativa ea filosofia natural.
(Frontispício de uma das várias edições brasileiras de obras de Quine.)
1043
1900 - Nasce Gilbert Ryle.
1908 - Nasce Willard van
Orman Quine, em Akron,
Ohio.
1911 - Nasce John Lang-
shaw Austin.
1919 - Nasce Peter Frederik
Strawson. Ryle inicia seus
estudos em Oxford.
1921 - Vem à luz a edição
alemã do Tratactus Logico-
Philosophicus de Wittgens-
tein.
1924 - Ryle estuda Croce,
Gentile e Hegel, e começa a
lecionar em Christ Church.
1930 - Ryle estuda a fenome-
nologia de Husserl, além de
Bolzano e Meinong. Quine
doutora-se em Harvard.
1932 - Ryle publica a obra
Systematically Misleading
Expressions.
1934 - Quine publica A Sys-
tem of Logistic.
1935 - Austin torna-se assis-
tente no Magdalen College.
OS PENSADORES
CRONOLOGIA
1937 - Quine publica New
Foundations for Mathemati-
cal Logic.
1942 - Austin trabalha no
Intelligence Corps.
1943 - Austin redige um In-
vade Mecun para servir às
forças aliadas na invasão da
Normandia.
1946 - Austin publica Other
minds. Wittgenstein deixa a
universidade de Cambridge.
1948 - Quine publica On
What Tere is.
1949 - Ryle publica The
Concept of Mind.
1950 - Strawson publica On
Refering, e Austin traduz Os
Fundamentos da Aritmética,
de Gottlob Frege.
1951 - Falecimento de Witt-
genstein. Quine publica Two
Dogmas of Empiricism.
1952 - Strawson publica In-
troduction to Logical Theory.
1953 - Ryle publica Ordi-
nary Language, e Quine,
BIBLIOGRAFIA
From a Logical Point of view.
1954 - Ryle publica o livro
Dilemmas.
1955 - Chomsky publica The
Logical Structure of Linguis-
tic Theory.
1957 - Chomsky publica
Syntatic Structures.
1958 - Austin torna-se pro-
fessor em Berkeley (E.U.A).
1960 - Austin falece em Ox-
ford. Quine publica Carnap
and Logical Truth.
1961 - São publicados os
Philosophical Papers de
Austin.
1964 - Strawson publica
Identifying Reference and
Truth Values.
1966 - Ryle publica Plato's
Progress, e Quine, The Ways
of Paradox.
1972 - Quine apóia publica-
mente a política do governo
norte-americano no Vietnã.
1973 - Quine publica The
Roots of Reference.
RANSEY, F. P.: Facts and Propositions, in The Foundations of Mathematics, Kegan Paul,
1931.
NAESs, A.: Interpretation and Preciseness, Oslo, 1953.
PASSMORE, J.: 4 Hundred Years of Philosophy, Duckworth, Londres, 1957.
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FuRrBERG, M.: Saving and Meaning, Basil Blackwell, 1971.
BERLIN, I.: Essays on J. L. Austin, Oxford, 1973.
1044
+
ng .
e— - a A a
me meteram — e — e ne amp im) ro E oc E
|
4
ÍNDICE GERAL
“as
da DO e RE A RPE ei
a 4 dr SR
tido E EAN E pi
REAR RA gere 2 rã Dimas DE PE PR ty E 1.
bel: (1) 122
Abelardo, Pedro: (1) a fi-
losofia do séc, XII na França
136, dados biográficos 136,
Heloisa 137, obras 138, a
questão dos universais 140,
razãoefe 142 a ética 143
Abraão: (1) 122: (11) 446:
: ([11) 62 1,622
absolutismo: (TI) 278
absoluto: (11) 521
absurdo: (IV) 891
Academia: (1) 52
Adams, John: (LD 57 1,574
Adão: (1) 122: (11) 310
Addison, Joseph: (17) 430
Adeodato: (1) 108, 116
Adler, AMred: (MD 776
Adorno, Theodor Wiesen-
grund: (IV) dados biográ-
ficos 950, obras 950, a in-
dústria cultural 954, arte e
práxis 958, 947.948
Agassiz. Louis: (IV) 787
Agostinho, Santo: (1) dados bio-
gráficos 106, a conversão
10, obras 112, a patrística
112, a filosofia cristã, fé e
razão - o problema do conhe-
cimento 115, corpo e alma
115, a iuminação divina
116, Deus 116, a criação do
mundo 118. o mal 120, o
voluntarismo 120, o pecado e
a graça 120, hberdade e
predestinação 120, filosofia
da história 122, 69. 143.
146: (TD) 299,310, 316.351.
352,417
Agricola. Rodolfo: (1) 248
Agripina: (1) 101
Alain. Emile de Chartier. dito:
(IV) 887
Alarico: (1) 123
Alcibiades: (D) 37
Aleméon: (1) 20
alegoria da caverna: (1) 62
ÍNDICE GERAL
Alembert, Jean de Rond D': (It)
415, 437, 449, 456 a 458,
471: (11) 526,530,534
aletheia: (D) 18
Alexandre, o Grande: (1) 68. 86
Alexandre VI: (1) 171, 172: (11)
312
Alheri, Vittorio: (1) 224
Al Ghazah: (1) 146
alienação: (II) 601, 693, 694
Alípio: (T) 108, 110
alma (psyche): (1) XV, 115:(11)
339; (11) 753
altruísmo: (II) 276
Ambrósio, Santo: (1) 110
Amintas II: (1) 67
Amipsia: (T) 32
Amor (Eros): (1) XV
Amor e Ódio: (1) 18
analítica, filosofia: (IV) 1026
analítico. método: (IV) 842
analogia do ser: (T) BO
Anaxágoras: (T) 20 22, 28. 33.
35, 37,597, 74: (11) 450
Anaximandro: (1) 8, 10, 16. 57.
80
Anaximenes: (1) 8, 43
Andilly, Arnaud d”: (E) 310
Andrelinus, Faustus: (1) 191
angústia: (I11) 622: (IV) 901
animismo: (1) 232
Anitos: (1) 27
Anandalle, Marquês
435
Anschutz: (II) 676
Anselmo. Santo: (1) dados bio-
gráficos 127, a existência de
Deus, 128,0 argumento onto-
lógico 128, obras 128 e 129,
roblemas olíticos 131,
140:(TT) 300, 351. 496
Antropologia: (IV) 850, 999
Aosta, Anselmo de: (1) 146
apercepção: (II) 380
ápeiron: (1) 8, 10
apolíneo: (TIT) 627
Apolônio: (1) 86
de: (TI)
aponia: (1) 92
aporias: (ID 12, 14,22
a posteriori: (LI) 489
a priori: (IT) 489, 292, 498,
501, 502: (II) 610; (IV)
807, 808, 809
Aquiles: (1) 14
Aragão, Catarina de: (1) 166.
204
Arcesilau: (1) 115.214
arché: (1) 8,58
Argenson, Mare René de Voyer.
dito Marquês d': (1) 113
argumento ontológico: (|) 128:
(ID) 496
Ariano: (D) 102
Aristófanes: (1) 32, 33, 34.37
Ariston: (1) 49
Aristóteles: (1) dados biográ-
ficos 66, o Liceu 68, obras
68,0 historicismo 72, da dia-
lética à lógica 72, 0 Organon
75, Juízos e proposições 76,0
silogismo 76, axiomas 78,
hipóteses 78, definições 78,
conhecimento sensivel e co-
nhecimento inteligivel 79,0
conceito 79,0 ser 80, unalo-
gia do ser 80, substância e
acidente 80, 0 ato e a potên-
cia 80, o movimento 80, as
quatro causas 82,0 finalismo
82, 0s motores 82.0 primeiro
motor 83, a ética e política
SI NE Go lo bo dio 22
33, 50, 60. 108. 140, 1483,
146. 148. 149, 152. 175.
195, 201. 228. 236, 248,
254. 256, 261: (11) 277. 288.
293. 330. 376. 415. 491:
(HD) 573. 746: (IV) 986.
1006, 1031
aritmética: (TI) 720
Arnauld. Antoine: (11) 294, 310
312.375
Arnold. Thomas: (TI) 391
Aron. Raymond: (IV) 888
1019
arqueologia: (1)
arquétipo: (11) 516
Arquimedes: (1) 86
Arquitas: (1) 51, 54
arte: (II) 520: (LI1) 610; (IV)
952, 958
ascese erótica: (1) 63
Asclépio: (1) 31
Aspásia: (1) 37
assimilação: (IV) 1012
associacionismo: (ID 537,
678
atenção: (LIT) 537
Atlas: (TI1) 762
ato e potência: (1) 80
atomismo: (T) 22,91; (11) 460
átomos: (1) 22
ataraxia: (1) 92
Aurélio Antonino: (T) 102
Aurelius Augustinus: (1) 106
Austin, John Langshaw: (IV)
dados biográficos 1030, aná-
lise da linguagem 1031, as
proposições 1032
tipos de autoridade: (TILT) 742
Avempace: (1) 146
Averróis: (1) 146, 156
Avicebrom: (|) 146
Avicena: (I) 146, 156
Ayer, Alfred Jules: (IV) 1039
achelard, Gaston: (HI)
AP dados biográficos 756,
obras 756, o novo espírito
científico 758, o materia-
lismo racional 758, o racio-
nalismo setorial 760, surra-
cionalismo 760, racionalismo
aplicado 762, a imaginação
material 762
Bacon, Francis: (II) época e
dados biográficos 246, a car-
retira política 248, obras 248,
a classificação das ciências
251, o utilitarismo 255, o
combate aos idolos 255, o
método científico 258, indu-
ção 258, a experiência 258,
as tábuas de investigação
238, a noção de forma 260, a
Nova Atlântida 261; (1) 203;
([1) 266, 268, 270, 289, 314,
366. 374, 407, 443, 476;
1050
(11) 651,666, 726
Bacon, Roger: (1) 160
Bakunin, Mikhail: (LIL) 700
Bally, Charles: (IV) 966
“Balzo, Antonio dal: (387)
Barcos: (II) 312
Barreto, Luiz Pereira: (III) 656
Baudelaire, Charles Pierre: (IV)
948
Baudouin, Charles: (LI) 776
Bauer, Bruno: (II) 602, 689,
694
Bauer, Edgard: (LI) 694
Bauer, Egbert: (III) 694
Bayle, Pierre: (11) 450
Beatriz: (1) 156; (III) 648
Beauvoir, Simone de: (III) 887
Beccaria, Cesare: (II) 453; (TI)
668
Becket, Thomas: (1) 133
Beeckman, Isaac: (II) 293
belo: (IH) 502: (HIT) 633
bem: (1) 62; (III) 633, 639
Benjamin, Walter: (IV) a escola
de Frankfurt 946, dados bio-
gráficos 948, obras 948
Bentham, Jeremy: (III) dados
biográficos 666, obras 666, o
utilitarmmo 668, crítica ao
direito natural 668, o cálculo
dos prazeres 668, crítica às
instituições 668, individuo e
sociedade 670, o utilitarismo
aplicado à conduta 670. mo-
tivos bons e maus 670, apli-
cação do utilitarismo 670,
influências 670; (Il) 443;
(LIT) 533, 557, 674,675
Bentham, Samuel: (III) 674
Benveniste, Emile: (IV) 967
Béranger, Pierre Jean de: (1)
136, 224
Berg, Alban: (IV) 950
Bergson, Henri: ([1) dados bio-
gráficos 746, obras 746, o
ctentificismo 748, determi-
nismo e materialismo 748,
reação bergsoniana: um novo
espiritualismo 748, os dados
imediatos 749, inteligência e
conceitos 750, o eu profundo
e a intuição 751, a metafísica
751, as formas de memória
752, corpo e alma 753, o
inconsciente 753, funções do
cérebro 753,a liberdade 754,
745: (IV) 816, 1008
Berkeley, George: (II) dados
biográficos 426, obras 426, 0
empirismo 427, a percepção
429, o imaterialismo 430,
Deus 430, outras obras 430,
448; (III) 566, 666, 749
Bérulle, Pierre de (II) 293
Bervick, Jacques Stuart, duque
de: (11) 413
binarismo: (IV) 970
Binet, Alfred: (IV) 1008
Biringuccio: (1) 248
Blackstone, William” (III) 666
Blainville, Henri-Marie de:
(UI) 647
Blake, William: (I[) 516
Blauler, Eugen: (II) 768: (IV)
1008
Bloomfield, Leonard: (IV) 970
Boas, Franz: (IV) 849, 989
Boaventura, São: (II) 300
Bodin, Jean: (1) 220
Boétie, Etienne de la: (1) 208
Bóhm-Bawerk, Eugen: (1) 927
Bôhme, Jakob: (1) 227, 255
Bolena, Ana: (1) 204
Bolingbroke, Henri Saint-John.
dito visconde: (11) 413
Boole, George: (LI) 714
Borelh, Giovanni: (TI) 386
Bórgia, Cesar: (D 171, 172,
174, 178
Bornstein, Emmrich: (LIT) 694
Bossuet, Jacques Bénigne: (II)
278, 417, 453,467
Boswell, James: (II) 437, 450
Bourgeois, Bernard: (III) 589,
592
Boutroux, Emile: (III) 749
Bouille, Charles: ([) 186
Boyle, Robert: (II) 331, 347
Bracciolini, Poggio: (1) 186
Bradley, Francis Herbert: (IV)
826, 828
Brahe, Tycho: (1) 228
Bramhall, John: (E) 267
Brahms, Johannes: (IV) 906
Breuer, Joseph: (III) 766, 768
Broca, Pierre Paul: (III) 748
Brôndal, Viggo: (1V) 975
Bruni, Leonardo: (1) 186, 188
Bruno, Giordano: (1) caracteris-
ticas do Renascimento 226,
dados biográficos 228, obras
228, a divindade da natureza
230, o panteismo e o ani-
mismo 232, o homem 233,
255: (III) 304
Brunschvicg, Léon: (1) 260
Buchanan, George: (1) 208
Biicher, Karl: (IV) 846
Buffon. George Louis Leclerc,
dito conde de: (IT) 437
Bukharin, Nikolay Ivanovich:
(1V) 928
Burckhardt, Jacob: (II 641
Byron, George Gordon. dito
Lorde: (TD 626
GC aim: (1) 122 Cairns,
Huntington: (IV) 863
Calígula: (1) 101
Calas, Jean: (II) 449,453
Calipos: (1) 54
Calvino, João: (ID) 120. 212,
220,227
Campanella, Tommaso: (1)
dados biográficos 242,
obras 242: a Cidade do Sol
243, 203
Canabis: (II) 540, 542, 646
Cantor, Georg: (III) 714; (IV)
736
Caos: (D XV
capital: (1IT) 700; (14) 9314
Capua, Leonardo da: (II) 386
Carlos 1: (IT) 267
Carlo II: (Principe de Gales):
(11) 248, 348
Carlos V: (1) 174
Carlos IX: (T) 208
Carlos X: (III) 582
Cármides: (1) 49,50
Carnap, Rudolf: (IV) dados bio-
gráficos 872, obras 872,
enunciados protocolares 873,
a linguagem científica 873,a
linguagem fisicalista 874, a
consciência da verdade 876,
as funções da filosofia 877,a
lógica da linguagem 877,
sentenças-objeto e sentenças
sintáticas 879, verificabi-
lidade e confirmabilidade
879, 1040
Carnéades: (1) 115.214
Carnot, Sadi: (TE) 646
Casa, Francisco della: (1) 171
Cassirer. Emst: (II) 366
Castelli, Benedetto: (1) 237
Catarina IE, a Grande: (II) 458.
460
Castro, Oróbio de: (11) 3214. 328
categorias: (I[) 491
Caterus: (IT) 294
causa errante: (T) 60
causalidade: (11) 338, 440; (LI)
532: (IV) 1014
Cavendish, William: (Il) 266,
268
Cebes: (1) 55
Cecil, William: (1) 247
certeza: (IV) 882
César, Júlio: (11) 330
ceticismo: (II) 288, 450
Chamberlin, E. H.: (1V) 929
Chambers, Ephraim: (IT) 457
Champeaux, Guilherme de: (1)
136, 137,140
Channing, William Ellery: (TV)
786
Charcot, Jean: (IN) 766
Charron, Pierre: (I) 186, 212;
(11) 289
Chateaubriand, François René,
dito visconde de: (1) 223
Cháteuneuf, abade de: (II) 447
Cháãteuneuf. marquês de: (II)
447
Chátelet, Emile de Bretenil. dito
marquês de: ([1) 418
Chomsky, Avram Noam: (IV)
dados biográficos 981, obras
981,a gramática 981, a gra-
mática sintagmática 982
Cicero, Marco Túlio: (T) o ecle-
tismo 96, o estoicismo 97, o
estoicismo grego 97, o logos
universal 98, a fisica 98, a
teoria do conhecimento 98,
os exprimíveis 100, o estoi-
cismo romano 100, 69, 87,
93. 107, 187, 207; (11) 290,
330, 434
ciência: (1) 62, 251; (11) 393.
407, 509: (II 547, 652.
661,726:(1V) 809
científica, previsibilidade: (LIT)
652
científicas, leis: (IV) 880
cientificismo: (TED 748
científico, novo espírito: (TIL)
758
Ciro: (1) 178
Clairvaux. Bernardo de: (1)
138, 140, 146
Claparede, Edouard: (IV) 1008
Clarke, Samuel: (II) 448
classes, lutas de: (TIT) 692
classes, paradoxos das: (IV)
836
classificação dos Estados: (II)
420
Cláudio César Germânico: (1)
I01
Cleanto: (1) 97, 101, 102,219
Clemente II: (1) 132
Clemente VIH: (D 174.181
Clemente XT: (1) 133
Clemente de Alexandria: (1) 112
Cleópatra: (1) 96
clinamen: (1) 24,91
Clistenes: (1) 47
cogito: (11) 299, 391. 393: (IV)
8B12a8l4
coisa em si: (11) 492
Cobe, Edivard: (1) 250
Coleridge, Samuel Taylor: (II)
391; (III) 674,675
Colet, John: (1) 192, 201
Collingwood, Robin
(11) 391
compreensão (verstehern): (II)
726
Comte, Auguste: (III) dados
biográficos 616, Comte e
Saint-Simon 646, primeiras
obras 674, Clotilde de Vaux
648, a religião da humani-
dade 648, a reforma intelec-
tual 649, a lei dos três esta-
dos 649, a mentalidade
teológica 649, divisões do es-
tado teológico 650, o estado
metafísico 650, o estado po-
sitivo 651, a unidade do
conhecimento 652, previsibi-
lidade científica 652, classi-
ficação das ciências 652, a
sociologia 653, a reorgani-
zação da sociedade 654,
Comte e Marx 654, 0 conser-
vadorismo 654, positivismo
no Brasil 655, a Sociedade
Posiuvista do Brasil 656, o
movimento republicano 658;
(11) 443; (III) 661, 674. 675.
726
conatus: (IT) 275, 340 a 343
conceito: (1) 79: (III) 750: (IV)
812
condicionados, reflexos: (EI)
780a 782
Condillac, Etienne Bonnot de:
(II) dados biográficos 534,
obras 536, o conhecimento
536, a atenção 536, a memó-
ria 537, associacionismo
537, os sentidos 537, a tn-
George:
1051
guagem 538, o espiritualis-
mo 538. influências 5339, 05
ide 'ologos 510: (11) 150: (10)
130.526.59532.0512.05483.517%
Ea Marte Jean À, N. de
Caritat. dito marquês de:
(IN) 616
condottieri: (1) 166
confirmabilidade: (IV) 879
Congreve. Richar: (TI1) 655
conhecimento: ([) 22, 79. 90.
99: (11) 489, 492: (UI) ) 536,
652: (IV) 866, 882
consciência: (TE) 393; (IV) BOT.
892
consciência, fluxo da: (IV) 788
consciência trágica: (II) 316.
317
conservadorismo: (III) 654
Constant. Benjamin: (IT) 656
Constantino: (D) 112
constituição norte-americana:
(HH) 570
Cooper. Anthony Ashley: (TI)
437
Copérnico, Nicolau: (1) 228,
239, 232, 233. 237.238:(11)
386, 489
Cornelio. Tommaso: (II) 386
Corneille, Pierre: (11) 447
corpo: (1) 115. (II) 339: (HE)
753: (IV) 820, 892, 1039
córtex cerebral, unidade funcio-
val do: (HI) 782
cosmogônico, processo:
60
Costa, Uriel da: (11) 327
Courtenay, Jan Nieceslaw B. de:
(IV) 970
Cousin, Victor:
Crátilo: (1) 50
crença: (1) 679
Crescam. Chasdai: (1) 326
criação do mundo: ([D) 118
Crisipo: (1) 97. 102.219
Cristina da Suécia: (IN) 295
Cristo: (ID) 309. 319. 321.323.
334: (UND) 594 )
Critias: (T) 49,50
Croce. Benedetto: (TI) 391: (III)
603
Cromwell, Oliver: (II) 268
Crónos: (1) XV
Cudworth, Ralph: (EH) 350
cultural. indústria: (IV) 951
Cuoco. Vincenzo: (LN) 388
Cushing. Harvey: (TV) 849
Cúrcio: (TE) 330
(DID,
(IL) 539, 603
1052
Cusano: (|) 228
Cyon, Elie: (HIT) 780
D “Ardrea, Francesco: (II)
. 386
Dante Alighieri: (1) Dante co
tomismo 156, a Divina Co-
média 156, Vida Nova 156,
Monarquia 156, estudo
sobre a linguagem 155, 174;
(II) 648, 655
Davenant, Willham: (TD) 266
Dedekind: (IV) 836
Deffand. Maria: (11) 415, 457
Defoe, Danscl: (1) 263
Degérando, Joseph-Marie: (III)
ados biográ áficos 540, os
signos 540,a linguagem 540,
526
deismo: (HI) 452
demiurgo: (1) 60
democracia: (III) 574. 582
democracia ateniense: (1) 27
Demócrito: (1) 22 a 24. 80, 88,
90. 234, 237, 240, 242. 261:
(TD) 460; (LIT) 690
demônio (daimon): (1) 40.41
demos: (1) 47
De Morgan, Augustus: (III) 714
denotativas, expressões: (IV)
828
Descartes, René: (Il) situação
histórico-cultural 287,0 ceti-
cismo 288, a exigência do
método 289, dados biográ-
ficos 290, as humanidades
290, as matemáticas 293,
obras 293, a dúvida 295, 0
gênio maligno 297, a evidên-
cia 298,0 cogito 299, a exis-
tência de Deus 300, o mundo
fisico 302, a física 303, a
moral 302; (1) 243; (II) 267.
268. 271. 272. 314, 315,
321, 330, 334, 346, 351,
352. 366. 374, 376. 379.
381, 386. 391, 393. 407.
409, 410, 427. 428, 434,
442, 461. 486, 496: (ID)
527, 539, 559, 590. 651.
655: (IV) 813, Bata 1029
desespero: (111) 62
determinismo: Re 749
Deus: (1) 82. 117: (11) 301.
309, 314, 317, 318, 322,
323. 328, 332, 333. 334,
341, 376. 383, 391, 3993,
396. 397. 402, 404, 427,
430. 452, 460, 498, 501.
506: (ID) 597, 621, 623,
688, 689, 740, T41;, (IV)
822.892
Deus provas da existência de:
(1) 128.129
Deus e seus atributos: (1) 148
Dewey, John: (IV) dados bio-
gráficos 796, obras 796, ins-
trumentalismo ou funciona-
lismo 797, a idêa do bem
198: (111) 706
diacronia: (IV) 968
dialética: (1) 12, 75: (LH) 598
didnora: (1) 62
Diderot, Denis: (II) dados bio-
gráficos 456, a Encyclopédie
457, obras 458, materia-
lismo e atomismo 460, o sis-
tema da natureza 461, a evo-
lução 463, a justiça 463, o
erro 463: (D 182, 234. 246
(AD ATI: (TI) 526. 528,534
Diels: (1) 14.20
Dilthey. Wilhelm: (ID) 374,
376:(!HI) 726.734
Diofante: (ID) 330
Diógenes. Laércio: (1) 1.18. 33,
92,93:(11) 474
Dion: (1) 51.53. 54.67
Dionisio. o Areopagita: (1) 138:
(HH) 674
Dionisio [:(1) 53.54.67
Dionisio 11: (1) 53.54
Dioniso: (1) 51; (HT) 627, 633.
640
Diotima: (|) 37. 63
direito político: (IF) 481
direitos naturais: (E) 360
dogmático. conhecimento: (IV)
882
Dollard. John: (HI) 776
Dostoievski, Fiódor Mikháilo-
vich: (III) 776
dora:(N) 43
Dumarsai: (II) 457
Dumont. Etienne: (LD 671
Duns Scot, John: (|) dados
biográficos 160; (Il) 387:
(IV) 899
Durkheim, Emile: (IIt) dados
biográficos 660, obras 66L,a
ciência sociológica 661, me-
todologia da sociologia 661,
os fatos sociais 662, as repre-
sentações coletivas 662, a
pesquisa estatística 662, teo-
rias pedagógicas 662, a soli-
dariedade social 662, norma-
lidade e patologia social 662,
as formas elementares da
vida religiosa 726; (IV) 849,
968
dúvida (Descartes): (II) 295
cletismo: (1) 96
áipo, complexo de: (III)
768. 770, 776
educação progressiva: (11) 477
Edwards, Jonatham: (IIT) 566
ego: (HI) 770, 772, 776
egocentrismo: (IV) 1010
egoismo: (11) 276; (II) 572
eidética, região: (IV) 810
eidos: (1) 57
Einstein, Albert: (III) 747, 758
Ekklesia: (1) 27, 47
Elizabeth 1: (1) 246, 248; (IT)
346
Elizabeth da Boêmia: (IT) 295
Emerson, Ralph Waldo: (1)
224; (IV) 786
Empédocles: (1) 18, 19, 20, 22,
46, 80, 83: (111) 762
empirismo: (IT) 268. 352, 427,
450: (111) 532, 594,678
Enesidemo: (1) 214
Engels, Friedrich: (III) 603,
686. 693, 694, 696, 698,
699, 702: (IV) 927, 954
empírica, refutabilidade: (IV)
880
empirismo: (IV) 838
entendimento: (II) 491
enumeração: (II) 298
Epicteto: (1) 102, (IT) 330
epicurismo cristão: (T) 201
Epicuro: (1) características 87,
dados biográficos 88, divisões
da filosofia 88, a teoria
do conhecimento 90, o ato-
mismo 90, o clinamen 90, a
sabedoria 91, o prazer 92, a
ataraxia 92, Lucrécio 93, 22,
24, 234; (TIN) 690
Epimênides: (IV) 836
Epimeteu: (1) XV
episteme: (1) 43
epistemologia: (IV) 826
epopéia: (1) VI
Erasmo de Roterdam: (1) o
humanismo 186, dados bio-
gráficos 188, obras 191, o
Elogio da Loucura 193, Eras-
mo e Lutero 195, a questão
do livre arbítrio 197, 175,
201, 220, 227
Eratóstenes: (1) 86
Érebo: (1) XV
erro: (ID) 337, 463
Esopo: (III) 674
espaço: (II) 370, 490; (IV)
1014
Espeusipo: (1) 67
Espinas, Alfred: (II) 660
Espinosa (ou Spinoza), Baruch
de: (III) dados biográficos
326, obras 331, a critica da
superstição 332, o raciena-
lismo absoluto 333, a análise
histórico-crítica 333. o método
genético 334, a verdade 334,
a Etica 336, o erro 337, a
essência de Deus 338, a
substância 338, causalidade
338, pensamento e extensão
338, os modos 338, corpo e
alma 339, o conatus 340,
ação e paixão 340, a liber-
dade 341, os valores 341, a
virtude 342, o Estado 342;
(1) 234; (II) 302, 314, 374,
376, 418, 516; (III) 527,
539, 590
Espírito Santo: (II) 689
espiritualismo: (III) 539
Ésquilo: (1) 37; (11) 626
Ésquines: (1) 32
Esquirol, Jean-Etienne: (III)
647
essência e existência: (1) 148
essência de Deus: (II) 338
Essex, Robert Devereux, dito
Conde de: (1) 248, 250
Estado: (1) 178; (II) 242, 258,
276, 480; (HI) 600, 742
estado civil: (TI) 276
estado metafísico: (IIT) 650
estado positivo: (111) 651
estado teológico, divisão do:
(HT) 650
estatística, pesquisa: (TIT) 662
estético, modo de vida: (II)
620
estoicismo: (|) 97, 100, 202
estrutura: (IV) 967, 986
ética: (1) 23, 83, 87, 143; (IN)
452; (IN) 527, 613, 622;
(IV) 844,919
ético, fator: (TIT) 738
ético, modo de vida: (III) 620
etnografia: (IV) 997
etnologia: (IV) 997, 999
eu: (II) 508; (LI) 751
Euclides: (1) 5], 52, 86, 146;
(11) 267, 306, 330
Eudemo: (1) 72
Eudóxio: (1) 146
Eudoxo: (1) 67
Eugênio de Savóia: (II) 376.
414
Eupolis: (1) 32
Euripedes: (1) 36, 37
Eutiques: (1) 152
Eva: (1) 122
evidência: (II) 298
evolução: (II) 463
evolucionismo: (TIF) 710
Evremond, Saint-: (II) 470
existência: (IV) 892
existência de Deus: (1) 128; (II)
351
existência humana: (TV) 900
existencialidade: (IV) 900
existencialismo: (IV) 887, 892,
894, 895
existencial, escolha: (LI) 620
experiência: (III) 679
experiência interna: (II) 611
experimental, psicologia: (IV)
785, 1020
explicação (erklaren): (111) 726
exprimíveis: (1) 100
Exra, Abraão Ibn: (IT) 326
alhos, atos: (HI) 774
Farabi, Abu Al: (1) 146
Farrington: (1) 8
Favônio Eugólio: (1) 108
fé: (1) 113, 142, 146; (HI) 623
Fechner, Gustav Theodor: (LEI)
748; (IV) 1020
Federalistas: (LI) 569, a cons-
tituição norte-americana
570, egoismo e liberdade
570, a ordem natural 573, os
mecanismos de representação
1053
573, aristocracia e democra-
cia 574, obras 574
Feigl, Herbert: (IV) 868
felicidade: (LIT) 530
Fenareta: ([) 35, 40
fenomenologia: (HI) 710; (IV)
807
fenomenológica, ontologia: (IV)
889
fenomenológica, redução: (IV)
811
Ferdinando (imperador): (U)
286
Ferney: (UI) 449
Feuerbach, Ludwig: (II) 518;
(II) 602, 603, 689, 691, 694
Fichte, Johann Gottlieb: (II) a
revolução francesa e a Ale-
manha 506, o eu 508, a dou-
trina da ciência 509, o princi-
pio de identidade 509, o não-
eu 510, a liberdade 5ll,
dados biográficos 512, 516 a
519; (III) 586, 606, 608,
626,689
Ficino, Marcílio: (1) 233; (II)
396
Fidias: (1) 35
Filangieri, Gaetano: (II) 388
Filipe da Macedônia: (T) 49, 67,
68, 86
Filmer, Robert: (II) 358
Filolau: (1) 9
filosofia: (IV) 818
filosofia, começo histórico da:
(DI
filosofia cristã: (1) 113
filosofia do espírito: (IV) 1029
filosofia, estatuto da: (IV) 868
filosofia, funções da: (IV) 877
filosofia da história: (I) 122
filosofia, natureza da: (IV) 922
filosofia, papel da: (IV) 922
filosofia, tarefa da: (II) 598
filosofia norte-americana: (IV)
786
filosofia do século XVII: (II)
407
filosifia do século XII na Fran-
ça: (1) 136
finalismo: (1) 82: (II) 378
Firt, Raymond: (IV) 861
Fischer, John: (1) 192
física: (1) 98; (I1) 302, 368
fisiopatologia: (III) 782
Fiske, John: ([V) 791
Fleury, André Hercule, dito
cardeal: (11) 414
1054
Fludd, Robert: (1) 256
fogo: (1) 17
fonema: ([V) 970
Fontenelle, Bernard de Bovier
de: (II) 467; (IV) 986
forma: (1) 58; (1V) 992
Forton, Jacques: (II) 308
fortuna: (1) 177, 178
Fortune, Reo: (IV) 861
Foscolo, Ugo: (1) 224 |
Fourier, Charles: (III) 649, 693
Franco, Francisco Bahalmond:
(Iv) 892
Frankfurt, Escola de: (IV) 946
Frank, Philipp: (IV) 866, 868,
782
Franklin, Benjamin: (II) 547,
566, 738
Frazer, James: (IV) 846
Frederico II: (1) 182; (II) 448,
472; (LI) 526, 530
Frederico Guilherme [I: (LU)
587
Frederico Guilherme IV: (ll)
518:(111)688, 689
Frege, Gottlob: (HI) antece-
dentes da lógica moderna
714, dados biográficos 714,
obras 714, anova lógica 715,
o simbolismo lógico 716, teo-
ria do conceito 716, lógica e
aritmética 720, as extensões
dos conceitos 720, concepção
de número 720, sentido e
significação, 722; (IV) 827,
832, 836,872
Freud, Ana: (ID 776
Freud, Sigmund: (IH) dados
biográficos 766, a histeria
766, a associação livre e
psicanálise 766, obras 768,
repressão e libido 768, a evo-
lução da libido 769%: complexo
de Édipo 770, inconsciente e
neurologia 770, a censura
770, o id, o ego e o superego
770, instintos: de vida e de
morte 770, o inconsciente
774, atos falhos 774, os so-
nhos 774, transferência e su-
blimação 774, a sexualidade
feminina 775, desenvolvi-
mento da psicanálise 776;
(TI) 463: (IN) 612, 763: (IV)
849,947
Frobenius, Leo: (D) 195, 197
Fromm, Erich: (IV) 947
Fulbert de Chartres: (1) 137
função. conceito de: (IV) 850.
978
funcionalismo: (IV) 850
aleno, Cláudio: (1) 146;
JF (11)347
Galilei, Galileu: (Il!) desco-
bertas e obras 237, a física
moderna 238, 228, 242, 243;
(11) 267, 268, 294, 304, 366,
368, 374, 386, 397, 476: (11)
651, 726;(IV) 1026
Gassendi, Pierre: (I) 243: (ID
295, 387, 450, 460
Gauguin, Robert: (1) 190
Gaunilo: (1) 128
Gebhardt. Carl: (II) 3265
gênio maligno: (IH) 297, 299
Genovesi, Antonio: (TT) 386
Gentile, Giovanni: (II) 603
Gentz, Friedrich von: (TD) 506
Geoffrin, Marie-Thérese Rodet,
dita madame: (11) 415
Gersonides, Levi ben Gerson,
dito: (II) 326
Giannone, Pietro: (II) 414
Gigon, Olof: (1) 7
Gilson, Étienne: (1) 157
Gladisch: (1) I
glossemática: (IV) 978
gnomon: (T) 10
Gôdel, Kurt: (IV) 868. 872
Goethe, Johann Wolfgang: (1)
156; (II) 374, 388, 506, 513,
516: (LIT) 606
Goldenweiser, A.: (IV) 858
Goldmann, Lucien: (ID) 312,
316
CGórgias: (1) 11,36
Gournay, Marie le Jars de: (1)
212
governo despótico: (11) 421
governos representativos: (III)
566
graça: (1) 120
gramática: (IV) 981
gramática lógica: (IV) 1029
gramática sintagmática: (IV)
982
Gramsci, Antonio: (1) 182
Gregório Vil: (1) 131
Gregório IX: (1) 148
Groeyn, Wilhara: (T) 192. 201
Grosseteste, Robert de: (1) 160
Grossmann, Vasilij) Semêno-
vich: (TV) 947
Grotius, Hugo de Groot, dito:
(11) 398
Grunberg, Carl: (IV) 946
Guilherme E: (1) 131: (FIN) 741
Guilherme [: (HU 741
Guilherme II, o Ruivo: (1) 131,
132,133
Guilherme de Orange: (II) 346.
348
Guillin: (IV) 849
Guizot. François Pierre Guilau-
me: (TIT) 694
É abernas, Jiirgen: (IV) da-
É dos biográficos 951,
obras 951, as técnicas de
reprodução e arte 952, 947,
962
Hamann, Johann: (II) 388
Hamilton, Alexandre: (LIT) 570,
572.576,578
Hahn. Hans: (IV) 868,872,966
harmonia: (D) 9.17
harmonia preestabelecida: (IT)
382
Hauranne, Jean Duvergier: (IT)
316
Hecateu: (1) 14
Hebreu, Leon: (IN) 326
hedonismo: (LIT) 533
Hegel, Georg Wilhelm Frie-
drich: (II) situação histórica
586, dados biográficos 586,
obras 588, antecedentes filo-
sóficos 589, política e filoso-
fia 592, um ideal: a polis
grega 593, crítica EE
experiência 594, empirismo e
idealismo 594, o saber ime-
diato 596, a idéia 597, a ta-
refa da filosofia 598, a dialé-
tica 598, a racionalidade do
real 598, a razão da história
600, o ardil da razão 600, o
Estado 600, a alienação 601,
a herança hegeliana 602; (11)
342, 516: (III) 608, 609,
611, 616, 618, 687, 688,
691 a 693, 726: (IV) 792,
826, 884
hegeliana. esquerda: (HIT) 689
Hegius, Alexander: (1) 190
Heidegger, Martin: (IV) dados
biográficos 898, obras 898, 0
ser 899, a metafísica tradi-
cional 899, o método fenome-
nológico 900, a existência
humana 900, a faticidade
900, a existencialidade 900,
a ruína 901, a angústia 901,
a morte 902, a temporalidade
902, 0 universo da linguagem
903
Heidenhein, Rudolph: (II) 780
Heine, Heinrich: (IT) 693
helenístico. periodo: (1) 86
Helmholtz, Hermann von: (IV)
1020
Heloisa: (1) 137, 138
Helvetius, Claude-Adrien: (UI)
dados biográficos 528, a feli-
cidade 530, as sensações
530, combate ao inatismo
532, a causalidade 532, em-
pirismo 532, influências 533;
(11) 437, 476: (II) 526, 534
Henrique I: (1) 133
Henrique IV: (II) 290, 292.
346, 447
Henrique VII: (1) 200: (II) 346
Henrique VIII: (1) 166, 192,
195, 201, 204, 246
Heráclio: (1) 112
Heráclito: (1) XIII, 11, 14 a
17, 19, 30, 43, 50, 80, 98,
117, 230, 233: (LN) 461, 463;
(1V) 898
Herder, Johann Gottfried: (LL)
391
Hérmias: (1) 67,68
Heródoto: (1) 1, 46. 86; (II)
674
Herpilis: (1) 68
Herschel, John Frederick W.:
(III) 675
Hesíodo: (1) XIV, XV, 6, 7, 15,
42; (UN) 626
Hess, Moses: (III) 689, 691,
692
Hilferding, Rucolf: (IV) 927 a
929
Hipias: (1) 37
Hipócrates: (1) 146; (1H) 330
hipótese: (1) 78; (1H) 732
histeria: (III) 765
história. teoria da: (IV) 946
história, valor da: (11) 397
históricas, ciências: (TI) 398
historicismo: (1) 72: (IV) B84
Hitler, Adolf: (IV) 898
Hjelmslev, Louis Tróle: (IV)
dados biográficos 975, obras
975, princípios metodoló-
gicos 976, conceito de função
978, a glossemática 978
Hobbes, Thomas: (II) dados
biográficos 266. primeiras
obras 266, ligações intelec-
tuais 267, obras principais
267, empirismo e raciona-
lismo 268, oposição a Des-
cartes 271, o mecanismo
272, o nominalismo 273, o
conatus 275, egoísmo e al-
truismo 276, o estado natural
e o estado civil 276,0 absolu-
tismo 278, pacto social 278,
Hobbes e Rousseau 280,
294, 358, 361, 374, 398,
413, 418, 427, 460; (II)
572, 590, 666
Hôffding, Harald: (II) 670
Hofmannsthal, Hugo von: (IV)
948
Holbach, Paul Heinrich Thiry
(ou Dietrich), dito barão de:
(II) dados biográficos 527,
obras 528, materialismo
528, 456, 458, 460. 476:
(IT) 526, 534
Holbein, Hans: (1) 195
Hôlderlin, Friedrich: (UI) 516,
587. 588; (TIN 626
Homero: (D VEL VI XENI 15,
42, 61: (11) 330: (1H) 626
Hooke, Robert: (III) 674
Hopfener, Theodor: (1) 1
Horácio: (II) 406, 434
Horkheimer, Max: (IV) dados
biográficos 951, obras 951,a
teoria crítica 958, a teoria
tradicional 959, crítica do
positivismo 960, razão polê-
mica e razão instrumental
962, crítica ao tecnicismo
idades da evolução:
(LI) 402
humanismo: (T) 186: (IV) 818,
894
Hume, David: (II) dados bio-
gráficos, 434, obras 436,
ligações intelectuais 437,
empirismo 438, impressões e
idéias 438, a causalidade
440, a moral 442, utilita-
rismo 442, idéias políticas
1055
443, 450, 472, 486: (III)
547, 646, 726: (IV) 802
Husserl, Edmund: (IV) dados
biográficos 806, obras 806,
combate ao psicologismo
806, o fisico e o psíquico
806, a consciência 807, a
fenomenologia 807, a inten-
cionalidade 808, noesis e
noemas 808, a ciência 809, a
ontologia regional 810, a
redução fenomenológica 811,
a imaginação transcendental
812, a idéia 812, 0 eu trans-
cendental 812, o cogito 813,
816, 887, 889, 898, 900,
1029, 1037
Hutcheson, Francis: (III) 546
Huygens. Christiaan: (ID 294,
375
Huygens, Constantin: (11) 293
I ctino: (T) 35
“id: (11) 770
idealismo: (IIT) 594
idealismo, oposição ao: (IV)
826
idéia: (1) 56, 58; (IE) 352: (MIT)
597; (Iv) 812
idéia do bem: (IV) 798
idéia de justiça: (1) XVIII
idéia de poder: (11) 355
idéia de trabalho: (1) XVI
identidade, princípio de: (II)
509
ideólogos: (III) 540
idolos, combate aos: (1) 255
iluminação divina: (1) 116
imaginação material: (III) 762
imanência: (IV) 807, 812
imaterialismo: (IT) 430
imperativo categórico: (II) 498,
500
imitação: (1) 60
in absentia, relações: (IV) 969
Inácio de Loyola, Santo: (1) 189
inato, comportamento: (IIT) 781
inato, reflexo: (LI) 781
incesto, proibição do: (IV) 997
incondicionada, resposta: (III)
782
inconsciente: (ID) 381; (III)
753, 770, T74
indivíduo: (III) 670
1056
indução: (1) 258: (III) 680
infinitesimal: (T) 20
infinito: (II) 355
informação, teoria da: (IV) 974
Inhelder, Bãrdel: (IV) 1010
instrumentalismo: (IV) 797
inteligência: (LIL) 750: (IV)
101
ironia: (1) 40
irracionais: (1) 11
irracional: (LI) 611,732
Isaac: (TIT) 621
isegoria: (1) 47
Isócrates: (1) 52, 66, 67
isonomia: ([) 18, 20
Israeli: (1) 146
J ackson, Andrew: (II) 582
Jaeger, Werner: (1) 12
Jaime 1: (1) 250; (II) 278
Jakobson, Roman: (IV) dados
biográficos 970, o forma-
lismo russo 970, obras 970, o
fonema 970, o binarismo
970, a afasia 970, a teoria da
informação 974, 989
James, Henri (pai): (IV) 786
James, Henri: (IV) 787
James, William: (IV) a filosofia
norte-americana 786, dados
biográficos 786, a psicologia
experimental 787, o fluxo da
consciência 788, idéias filo-
sóficas 788, o pragmatismo
791,a verdade 791,0 método
das hipóteses 792, a verifica-
bilidade 793, obras 794;
(LI) 746, 770; (IV) 794
Jansênio, Cornélio: (II) 309,
310
Jansenistas de Port-Royal: (II)
314
Jaspers, Karl: (IV) 887
Jay, John: (TI) 570
Jefferson, Thomas: (III) a de-
claração dos direitos 574,
dados biográficos 576, o
papel do povo 576, a base
agricola 577, o futuro da
América 577, o laissez-faire
econômico 578, obras 578
Jelles, Jarig: (11) 331, 332
Jerônimo, São: (1) 194, 195
Jesus: (I) 31, 32, 106, 112,
123, 152, 161: (IV) 688, 689
Jimenez, Max: (IV) 958
João, São: (1) 109
Johnson, Samuel: (III) 56, 66
Jolivet, Rêgis: (III) 616
Jones, Ernest: (LI) 776
Jordan, Camille: (TIT) 540
Juízos estéticos: (II) 502
Juízos e proposições: (T) 76
Juízos teológicos: (II) 502
Julia, Didier: (II) 513
Júlia Livila: (1) 101
Júlio UH: (D 171,195
Júlio César: (1) 96
Jung, Carl Gustav: (III) 768,
776
Justiça: (IT) 453, 463
Justino, São: ([) 112
K aberry, Phyllis M.: (IV)
863
Kalecki, Michael: (IV) dados
biográficos 932, análise do
capitalismo 934
Kant, Immanuel: (II) dados bio-
gráficos 486, situação cultu-
ral 486, obras 487, conheci-
mento a priori e a posteriori
489; juízo analítico e juizo
sintético 489, a sensibilidade
489, o espaço e o tempo 490,
o entendimento 491, as cate-
gorias 491, a dedução trans-
cendental 491, objeto do co-
nhecimento 492, o
esquematismo trancendental
492, metafísica e coisa em si
494, as antinomias da razão
496, crítica ao argumento
ontológico 496, a razão prá-
tica 498, a lei moral 498, o
imperativo categórico 500,
vontade moral 500, Deus
501, a faculdade de julgar
501, juízos teológicos e esté-
ticos 502, o belo 502; (1)
128; (1) 366, 443, 506, 509,
520: (III) 586, 590, 594,
606, 609, 610, 706; (IV)
796, 802, 826, 868
Karcevski, (IV) 970
Kardiner, Abraham: (III) 776
Kepler, Johannes: (1) 228: (II)
366, 368
keynes. John Maynard: (IV)
marginalistas e marxistas
926, a revolução keynesiana
930, renda e consumo 932
keynesiana. política: (IN) 936
Kierkegaard, Sóren Aabye: (TIL)
dados biográficos 616, polê-
micas religiosas 618, obras
618, oposição a Hegel 618,a
escolha existencial 620, o
modo de vida estético 620, o
modo de vida ético 620, a
conduta religiosa 621, deses-
pero e angústia 622,a repeti-
ção 622, fe e paradoxo 623,
602: (IV) 887
Klein. Melanie: (1H) 776
Kothe, Herman: (IV) 968
Koyre. A (ID 313
Kracauer, Siegfried: (IV) 947
Kraft. Victor: (IV) 868
Kurtz. Paul: (IV) 786
L, a Bruvére. Jean de: (IH)
To
Lachelier. Jules: (HH) 749
Laffite. Pierre: (11) 655. 656
Lagrange. Joseph Louis: (LH)
646
laissez-faire: (HI) 578: (11)
927.936
Lalande. André: (II) 746: (IV)
1008
Lambercier: (TI) 468: (IV) 1010
La Mettrie, Julien Oflroy de:
(HI) o século XVIIL 526,
obras 526, dados hiográficos
526, a ética 527; 460: (III)
534
Lanfranco: (1) 127.131]
Lange. Carl: (IV) 788
Lanzby. Paul: (III) 632
Laplace, Pierre Simon de: (IT)
646
Lassalle. Ferdinand: (II) 699
Latimer. Hugh.(1) 19º
Latimer. Robert: (IT) 266
Leão X:(D 174
Leclerc, Jean: (11) 348
Lefort, Claude: (IV) 818
lei: (11) 481
les moral: (11) 498
lei dos três estados: (THU) 649
leis sociológicas: (111) 683
Leibniz, Gotifried Wilhelm:
(111) dados biográficos 374,
obras 376, o matematismo
376, Deus 376, racionalismo
e finalismo 378, o princípio
da razão 378,0 princípio do
melhor 378, o princípio da
continuidade 378,0 princípio
dos indiscerníveis 378, as
mônadas 379, as percepções
380, a mathesis universalis
381, a noção de ordem 381,a
harmonia preestabelecida
382, o mal 382; (|) 234: (11)
302, 307. 314, 367, ITA à
376, 378 a 383. 408, 448
452, 461, 486: (II) 527
590, 594. 714:(14) 1031
Le Maitre. Antoine: (ID) 310.
470
Lemos. Miguel: (TH) 6056
Lenclos. Ninou de: (1) 115
Lenin (Ulyanov. Vladimir
Hyeh): (1V) 928.929
Leon: (1 38,50
Leontinos, Górgias de: (1) 213
Leopoldo da Bélgica: (1H) 698
Leopard:. Giacomo: (T) 224
Lessing. Gottold Ephraim: (ti)
506
Leszezynska. Maria: (II) 447:
UT 528
Leucipo: (1) 22. 80. 90: (TH) 4160
Levasseur, Thérese: (ID) 4T0.
472
Lévi-Strauss, Claude: (IV) a
noção de estrutura 986,
dados biográficos 989, obras
989, estrutura e oposição
binária 990, forma-conteúdo
992, os modelos 996, etnolo-
gia e etnografia 997, a proi-
bição do incesto 997, antro-
pologia e linguística 999,
pensamento selvagem 1002;
(11) 401: (1V) 846
Lewes. G. EL: (IT) 665
hberalismo: (1) 551. 566.
268.683. 687
liberdade: (1) 120: (11) 341.
453. 479, 5llt: (HI) 572,
754: (IV) 892
libido: (UI) 768. 769.773. 774
Licão: (1) 27
Liceu: (1) 68
liderança: (TD) 742
Lieébault. Ambroise-Auguste:
(111) 766
Liebknecht. Wilhelm: (III): 699
Linacre. Thomas: (1) 192
língua: (1V) 967
linguagem: (D) 157: (11) 398.
400: (III) 538. 542: (IN)
821. 842. 866. 873. 877
920, 969, 1031.1037
linguistica: (IV) 966 a 968.
970. 973, 975. 958. 981.
982. 999. 1000
linha dividida: (1) 6]
Lipps. G. E.: (1V) 1008
Liszt. Franz: (III) 626
Littrê. Emile: (II) 648. 655.
656
Jivre-cambismo: (II) 562
Lobatchevski. Nicolai
vitch: (II) 758
Locke, John: (TI) situação histo-
rica 346, dados biográficos
346, obras 348. crítica do
inatismo 350, a existência de
Deus 351, 0 empirismo 352,
as idéias 353, qualidades pri-
márias e secundárias 354,
modos e substâncias 354, o
infinito 355, à idéia de poder
355, natureza da substância
356, a verdade 357, a exis-
tência real 357, Upos de cer-
teza 358. idéias politicas
258, o estado natural 358,
direitos naturais 360, pro-
priedades 360,0 pacto social
361, os três poderes 362: (1)
260: (11) 2814. 378. 379. 386.
426 a 430. 438, 440. 413.
448. 450, 476. 459: (1H)
330. 532. 534. 536. 542.
247.666
Loedwjk. Meijer: (11) 331. 332
lógica: DD 75: (HD 680. FIA.
715.719.720:(11) 830,832.
1040
lógicas. operações: (IN) 1016
lógico. atomismo: (IN) 839
lógico. empirismo: (IV) 868
lógico. simbolismo: (III) 716:
(IV) 834
logos: (1) 15, 16. 18:(111) 625
fogos cultural: (IV) 821
logos do mundo estético: (IV)
821
fogos universal: (1) 98
Lombardo. Pedro: (1) 146
loucura: (TI1) 642
Lourenço II: (1) 166
Ivano-
105%
Lourenço, o Magnífico: (1) 169
Lówenthal, Leo: (IV) 947%
Luciano: (D) 200; (TD) 330
Lucrécio: (1) 22, 93, 96, 156,
233, 234; (III) 746
Ludwig. Karl F. W.: (III) 780
Luís XII: (D 171, 243: (1)
292, 447
Luis XIV: (11) 375
Luís XV: (Il) 448, 458: (1)
528
Luís XVI: (LI) 458
Luis da Baviera: (1) 162
Luís Filipe: (UI) 582, 596
Lukács, Gyôrgy: (II) 589, 592,
616: (IV) 816
Lúlio. Raimundo: (1) 228, 229
Lutero, Martinho: (1) 195, 196,
[975 203, 21252207 227:
(III) 738
Luxemburg: (IV) 928. 934
M ach, Ernst: (IV) 866
Macintire. Alasdair:
(HI) 620 a 622: (Iv) 898
Mac Taggart: (IV) 842
Madison. James: (IH) 571,573
Magno, Alberto: (1) 146
maiêutica: (T) 40
Maimônides, Moses ben: (LI)
326
Maistre, Xavier de: (III) 655
mai: (1) 120
Malcom, Norman: (IV) 906
Malebranche, Nicolas de: (II)
314, 426, 450: (III) 527
Malinowski, Kaspar Bronislaw:
(IV) dados biográficos 846, a
antiga e a nova antropologia
849, o funcionalismo 850, a
observação participante 853,
conceito de -cultura 856, as
instituições 856, obras 858,
análise da vida sexual e da
famiha 858, últimas obras
861, publicações póstumas
862: (III) 776
Mallet: (II) 457
Malthus, Thomas Robert: (HI)
5947, 998, 960
Mannetti, Gianozzo: ([) 186,
188
Manunzio, Aldo: (1) 192
Maquiavel, Nicolau: ([) a Itália
1058
renascentista 166, os condot-
'tieri 166, dados biográficos
169, a política como ciência
175, o conceito de fortuna
177,a virtu 177,a organiza-
ção do Estado 178, os he-
róis e o povo 180, difusão do
maquiavelismo 181, Maquia-
vel na atualidade 182, 220,
227; (III) 726; (IV) 816
Marcial: (II) 330
Marco Aurélio Antonino: (1)
dados biográficos 102, obras
103
Marcus Terentius Varro: (l)
113
Marcuse, Herbert: (II) 586,
590: (11) 947
marginalistas: (EV) 926, 930
Marmontel, Jean François: (II)
437, 456, 458
Marshall, Alfred: (1V) 930
Martensen, Hans Larsen: (III)
618
Martineau, Harriet: (ILE) 655
marxismo: (III) 702: (IV) 895,
928, 940
Marx, Karl: (III) dados biográ-
ficos 686, o legado hegeliano
687, o liberalismo alemão
687, a esquerda hegeliana
689, primeiros escritos 689,
a crítica à teoria do Estado de
Hegel 692, a luta de classes
692, a ahenação 693, o en-
contro com Engels 693, pro-
priedade-trabalho-alienação
694, a nova orientação da
economia política 697, Marx
em Londres 698, O Capiial
699, participação nas lutas
operárias 699, a Interna-
cional 699, a teoria do valor
700, dinheiro como mercado-
ria 700, a natureza do capital
700,0 trabalho 701, o traha-
lho explorado 701, dificul-
dades da leitura de O Capital
702, o marxismo 702; (T1)
318, 391%: (MD 547, 552,
554, 399, 589,603..654,734,
736; (IV) 802. 884, 895,
927, 929, 934, 938, 940,
942,959
Mascham. Francis: (11) 348
Massin, Caroline: (LH) 647.
648
matemática (Pitágoras): (|)
9: (11) 293: (1V) 832
matematismo: (ED) 376
materialismo: (LD) 460: (TLD)
228.749
materialismo
758
mathesis universalis: (IT) 315,
381
Maupertius, Pierre Louis Mou-
reau de: (AD 416.449
Mauss, Marcel: (II) 401
Maximiliano (Duque da Bavie-
ra): (11) 286
Mazarin. Jules: (LI) 311
Mead, Margaret: ([[1) 776
mecânica, leis da: (TD) 368
mecanicismo: (ID 272: (LI)
527%
Médici. Cosimo ll de: (1) 237
Medicis, Catarina de: ([) 166.
212
Médicis, Júlio de: (1) 169
Medicis. Lourenço de: (1) 174
Meinong, Alexius: (IV) 828
Meleto: (1) 27, 28, 29,30
Melisso: (1) 11
memória: (II) 537: (II) 752
Mendes, Raimundo Teixeira:
(HT) 656
Menger, Karl: (IV) 868, 872
mentalidade: (1) I
mentalidade teológica: (II)
649
mente: (TV) 1039
mercantilismo: (II) 547
Merleau-Ponty, Maurice: (IV)
dados biográficos 816, obras
816, filosofia e política 817,
crítica ao humanismo 818,
subjetivismo e objetivismo
818,0 corpo 820, o logos do
mundo estético 821, o logos
cultural 821, a linguagem
821,a pintura 821, a ontolo-
gia selvagem 822, 814, 888,
1010
Mersenne, Marin: (1) 243. 267,
268, 271
Messalina: (1) 10]
metafísica: (II) 494; (HT) 632.
635. 751; (IV) 826.
866, 899,919,1039
metempsicose: (T) 8
metodo: (II) 319, 416
método das ciências sociais:
(UT) 728
método cientifico: ([) 258
método compreensivo: (TIT) 728
racional: (LI)
método fenomenológico: (IV)
900
método das hipóteses: (IV) 792
método indutivo: (II) 680
metodologia: (TII) 368
metodologia da sociologia: (III)
661
Michelet, Jules: (II) 391
Michelet, Karl Ludwig: (LI)
602
Mileto: (1) XIILE, 6
Mill, James: (II1) 670, 674
Mill, John Stuart: (III) dados
biográficos 675 artigos e li-
vros 675, obras principais
675, os escritos da última
fase 678, o empirismo 678,
os fatos psíquicos e suas leis
678, associacionismo 678, a
crença 679, saber e expe-
riência 679, a indução 680, o
sistema da lógica 680, osmé-
todos indutivos 680, a lógica
das ciências humanas 680, as
leis sociais 683, o libera-
lismo 683; (II) 443; (III)
557, 558, 646, 648, 655,
670: (Iv) 829, 842
mimesis: (1) 10, 60
Minotauro: (T) 30
Mirandola, Pico della: (1) 186,
188, 200, 233
Misselden: (HI) 547
mitologia, filosofia da: (IT) 522
mito das idades: (D) XVI
Mocenigo, João: (1) 229, 230
modelos: (IV) 996
modos: (IT) 338. 354
moeda: (III) 557
Moisés: (1) 117, 122, 178 (11)
283, 334, 446
Moliére, Jean-Baptiste Poque-
lin, dito: (IN) 467
mônada: (11) 379, 380
monarquia: (1) 157; (1) 420
Montaigne, Michel de: (1) dados
biográficos 206, a família e a
educação 207, os Ensaios
208, a época de Montaigne
212, o ceticismo 213, o
homen e a natureza 216, os
limites do conhecimento 218,
o relativismo moral 219, o
estoicismo 219, o indivíduo e
a religião 219, idéias politi-
cas 220, 186. 227: (II) 288,
289, 292, 293, 296, 322,
450
Montesquieu, Charles Louis de
Secondat, dito: (TI) a filosofia
do século XVII 407, a ciência
407, o século das luzes 408,
o otimismo 408, raciona-
lismo do século XVIII 409,
dados biográficos 411, obras
412, a ciência dos fatos hu-
manos 416, o método 416, a
lei, 418, o Estado 418, clas-
sificação dos Estados 420, a
república 420, a monarquia
420, o governo despótico
421, os três poderes 423,
364, 456, 458, 482; (NI)
526
Moore, George Edward: (IV) a
tradição filosófica inglesa
842, obras 842, a linguagem
corrente 842, o método anali-
tico, a ética 842, 826, 909,
910, 922. 1026
moral: (I[) 302, 442
moral, genealogia da: (LIT) 636
Mordente, Fabricio: (1) 228
More, Henry: (II) 370
More, Thomas: (I) dados bio-
gráficos 200, o humanismo
cristão 201, o humanismo
renascentista 201, a Utopia
201, platonismo e estoicismo
202, a organização política
da Utopia 203, 175, 188,
192 a 195, 220, 227, 243
Morgan, Lewis Henry: (IV) 846
morte: (IV) 902
morte, instintos de: (HI) 773,
qu74
Morton, John: (1) 200, 201
Mounin: (1V) 975
Mountjoy. William Bount
barão: ([) 192
movimento: (1) 14, 80
Mun, Thomas: (LI) 547
Muret, M. A. de: (1) 208
Mussolini, Benito: (1) 182
Myrdal, Gunnar: (IV) 928, 933
N ada: (IV) 891
não-eu: (1) 5101
Napoleão HI: (III) 588, 698
Nassau, Maurício de: (LI) 293
naturais, ciências: (II) 398
natureza: (II) 461, 472, 474,
518
Nausifanes: (|) 88
Navarra. Henrique de: (1) 211,
212
Nebrídio: (1) 110
Neikos: (1) 19
Nemours, Du Pont de: (III) 536
Nero: ([) 101
Nettesheim, Agrippa von: ([)
227; (11) 288
Neurath, Otto: (IV) 866, 868,
872,874,876
neurofisiologia: (III) 770
Newton, Isaac: (II) dados bio-
gráficos 366, obras 366, a fi-
sica moderna 368, as leis da
mecânica 368, a metodologia
368, o espaço e o tempo
absolutos 370; (1) 228: (II)
307, 348, 375, 410, 426,
427, 430, 448, 450, 476,
486: (111) 532,534
Nicole, Pierre: (II) 312
Nicômano: (1) 67, 68
Nietzsche, Friedrich Wilhelm:
(IT) dados biográficos 626, 0
apolíneo e o dionisiaco 627,
obras 628, revisão dos gre-
gos, 632, a tragédia 633,
combate à metafísica e ao
cristianismo 635, a genealo-
gia da moral 636, a vontade
de potência 639, o eterno
retorno 640, o super homem
641, deformação do pensa-
mento nietzscheano 641, a
loucura 642, 603. 608. 758:
(1) 38
Nizan, Paul: (IV) 818
Noé: (1) 122
noema: (IV) 808
nóesis: (1) 62; (IV) 808
nominalismo: (TI) 273
noumenon: (II) 494, 498; (II)
609
Nous: (1) 20,21
número: (LID 720:(1N) 834
bjetivismo: (IV) 818
Ockham, William de: (1)
dados biográficos 161, 164
ontologia: (IV) 810. 822
opinião: ([) 12. 62
1059
oráculo: (1) 38
Orfeu: (1) 8
orfismo: (1) 8
Orígenes: (1) 112
Orléans. Philippe. Duque de:(TT)
447
Orsim, Marieta: (|) 174
Osber: (1.127.128
Ostwald, Wilhelm: (IV) 909
otimismo: (TI) 408
Ousiannikov: (ID) 780
Ovídio: (TT) 330
Owen, John: (11) 346
Oxenford, J.: (TI) 609
Oxford. Grupo de: (IN) 1026
P acto social: (11) 278. 361,
362
Pagano. Mario: ([1) 388
Paine, Thomas: (II) a ação so-
cial 366, os governos repres-
sivos 566, liberalismo 566, o
senso comum 568, o falso
liberalismo 568, 0 destino da
América 568, os federalistas
569
Palissy, Bernard: (1) 248
Palmier. Matteo: (1) 187
Panécio: (1) 97
Pandora: (1) XV
Pânfilo: (1) 88
panteismo: (1) 232
Paracelso: (!) 227
paradigmático. eixo: (IV) 969
paradoxo: (IH) 623
Parker. Theodore: (IV) 786
Parmênides: (1) 11, 12, 14.18,
54,80, 117:(IV) 898
Pascal, Blaise: (IT) dados bio-
gráficos 306, a experiência
no vácuo 307, primeiras
obras 307, Port-Royal 308,0
jansenismo 309, panorama
político 310, os Pensamentos
312, 0 racionalismo do sécu-
lo XVII 312, o problema do
método 312, regra e ordem
314, a mathesis universalis
315, a consciência trágica
316, os métodos 319, 0 Deus
escondido 322: (1) 223; (II)
450
Pascal, Jacqueline: (II) 308,
312
1060
Patrística: (D) 112
Paulet. Amyas: (1) 248
Paulo IV: (1) 181
Paulo de Tarso (São Paulo): (1)
106. 109, 110. 113.115.
138: (11) 316
Pausânias: (1) 18
Pavlov, Ivan Petrovich: (IH)
dados biográficos 780, refle-
xos condicionados 781, a
unidade funcional do córtex
cerebral 782,a fisiopatologia
782 63
Peano, Giuseppe: (HIT)
714: (IV) 827
pecado: (1) 120
pedagogia: (111) 533
Pedro, o Grande (ezar): (II)
376
Peirce, Benjamin: (TU) 706
Peirce, Charles Sanders: (HI)
dados biográficos 706, obras
708. o pragmatismo 708,
teoria dos signos 709, feno-
menologia e evolucionismo
710;(1V) 791, 797. 1042
Peixoto. Luis Pereira: (LIT) 656
Pelágio: (1) 120. 122
Penelope: (1) X
pensamento concreto: (IV) 1004
pensamento e extensão: (11) 338
pensamento infantil: (IV) 1010
péras:(D)
percepção: (II) 380, 429
Péricles: (1) 20, 32,35
Péricles, século de: (1) 35
Perictione: (1) 49
Perrier. Gilbert: (11) 306. 308,
312
pessimismo: (TH) 612
Petrônio: (ID) 330
Petty. Wilham: (II) 548
phulia (amor): (1) 19
physis: (1) 7.8. 11,23,41,213
Piaget, Jean: (IV) da filosofia à
psicologia 1006, dados bio-
gráficos 1008, obras 1010, 0
pensamento infantil 1010, o
egocentrismo 1010, inteli-
gência e adaptação 1011, o
esquema de ação 1011, assi-
milação e a acomodação
1012, os estágios da forma-
ção intelectual 1012, o está-
gio sensório-motor 1012, es-
paço-tempo-causalidade
1014, as séries temporais
1014, séries representativas
1016, as funções simbólicas
1016, as operações lógicas
1016
Pinsent, David: (IV) 906. 909
Pirilampo: (1) 49
Pirro: (1) 87.96, 214
pistis: (1) 62
Pitágoras: (1) 8. 1,
60
Pitias: (1) 68
Planck. Max: (IV) 866
Platão: (1) a polis democrática
46,a isegoria 47,0s oradores
47, dados biográficos 49, Só-
crates e os socráticos 50, as
viagens 51, Siracusa 51, os
diálogos 51. a Academia 52,
retórica ou ciência 52, volta à
Siracusa 52, projeto político
33. diálogos da maturidade
54, últimos diálogos 55, dou-
trina das idéias 55, a remi-
niscência 58, A imitação 60,
a cosmogonia do Timeu 60, a
República 61, o problema do
conhecimento 61, a linha di-
vidida 61, opinião e ciência
62,0 bem 62, a alegoria da
caverna 62,0 Banquete 63.
ascese erótica 63, |. XII 11,
21, 22. 28,29,32 a 35. 37,
38. 41, 66. 70. 72. 75. 76.
80. 86. 87. 115 a I1B. 146.
175, 201. 202. 212, 220.
243. 252, 256, 261: (11) 352,
374. 387, 388; (HI) 625,
674: (IV) 884
platonismo: (1) 202
Plauto: (II) 330
Plinio: (11) 330
Plotino: (1) 108,114,115.117
Plutarco: (1) 210, 219: (11) 267
pnreuma ápeiron: (1) 8. 10
Poincaré. Henri: (IV) 866
Políbio: (III) 573
polimatia: (1) 15
polis: (1) 6, 11. 20. 27, 46.47;
(TH) 593
política: (1) 83. 175. 203; (Ut)
592: (IV) 818
Pollock. F.: (1V) 947
Pompadour. madame: (IH) 448
Pompeu: (1) 96
Pope. Alexander: (TI) 414. 430,
434. 448,452
Popper, Karl: (IV) dados bio-
gráficos 880, as leis cient-
ficas 880, a refutabilidade
15, 18,
empírica 880. crítica ao prin-
cípio da verificabilidade 882,
conhecimento científico e
dogmático 882, certeza e ver-
dade 882, crítica ao histori-
cismo 884
Porfirio: (1) 108. 141
Posídio. São: (1) 112
positivismo no Brasil: (IH) 655
positivismo. crítica ao: (IV)
260. 962
positivismo terapêutico: (IV)
1026
Possidônio: (1) 97
potência. vontade de: (LIT) 639
a64l
Prado. Juan del: (II) 328
pragmatismo: (HI) 708: (IV)
791
praxis: (1V) 958, 960 a 962
prazer: (1) 92: (111) 668
preços: (111) 55%
predestinação: (1) 120
Pré-socráticos: (D) 5 a 24: (1H)
632
primeiro motor: (1) 83
Próclo: (1) 138
Pródicos: (1) 37
programado, ensino: (IV) 10:12
prolepsis: (1) 90
Prometeu: (1) XV
proposicional. função: (IV) 833
proposições: (IV) 912. 1032
proposições, análise lógica das:
(IV) 827
proposições elementares: (IV)
833
Protágoras: (1) 23. 33. 35. 36.
37,54.213
protestantismo: (HIT) 734
protocolares. enunciados: (IV)
873
Proudhon. Pierre Joseph: (UID
693
Proust. Marcel: ([V) 950
psicanálise: (LI) 766
psicologismo. combate ao: (IV)
806
psique: (1) 42, 43: (UN) GT%A
psíquico: (IN) 806
psíquicos. fatos: (LH) 678
Ptolomeu: (1) 146. 214. 230.
238
Puffendorf. Samuel: (IH) 390.
470
O ualidades primárias e se-
cundárias: (IN) 354
Quesnay. François: (IT) 456,
458: (II) 536
Quine, Willard Van Orman: (IV)
dados biográficos 1040, filo-
sofia da lógica 1040, sinté-
tico e analítico 1042, tipos de
sentenças 1042
Quinto: (1) 93
R acine, Jean-Baptiste: (TD
447
racionalismo: (Il) 268, 312,
316, 378,409
racionalismo absoluto: (TI) 333
racionalismo aplicado: (II)
762
racionalismo setorial: ([11)760
Radcliffe-Brown, Alfred Regi-
nald: (IV) 850, 861
Rameau: (IT) 470
Ramsey. Frank: (1V) 909, 1037
Rank. Otto: (III) 776
Rashdall. Hastings: (IV) 842
Rawley. William: (1) 248. 250,
261
Raymond, Frocimond: (F) 208
razão: (1) 113. 142, 146: (ID
521: (LH) 600
razão, antinomias da: (11) 496
razão instrumental: (IV) 962
razão polêmica: (IV) 962
razão prática: (11) 498
reforço. esquemas de: (IV) 1021
reforço negativo: (IV) 1022
reforço positivo: (IV) 1022
Reichenbach. Hans: (IV) 872
Reinhold. Karl: (11) 512
relativismo moral: (1) 219
religião civil: (HIT) 482
religião da humanidade: (1H)
648
religião. sociologia da: (II)
734
reminiscência: (1) 58
Renascimento: (|) 166. 226
renda e consumo: (IV) 932
renda da terra: (UI) 552
representação, mundo como:
(HI) 610
representações coletivas: (III)
662
representativas, séries: (IV)
1016
reprodução. tecnica de: (IV)
952
república: (LH) 420
responsabilidade: (IV) 892
retórica: (1) 52
Rey, André: (D) 14 (IN) TOTO
Ricardo, David: (III) dados bio-
gráficos 556, a moeda 557,
os preços 557, teoria da
repartição 557, interesses
burgueses 558. atividades
políticas 558, a lei do valor
559, o valor trabalho 559,
crescimento populacional
560, o livre cambismo 562,
547. 552, 676. 693. 697;
(IV) 940
Ricci, Giuseppe: (TI) 387
Richards, Audrey: ([V) 86]
Richelieu, (Armand Jean du
Plessis). dito cardeal: (I)
243: (11) 292,310.311
Rickert. Heinrich: (ID) 726:
(IV) 898
Rienwertz., Johannes: (ED) 331.
332
Ritschl: (III) 626
Rivers. William Halse Rivers:
(IV) 849
Robespierre. Maximilien de:
(11) 482: (IN) 588
Robertson, Willham: (II) 646
Robinson. E. A. G.: (1) 929
Robinson, Joan: (IV) 938, uma
teoria da história 940, obras
940, à produção de mercado-
rias 940, a mercadoria-
padrão 942, o valor trabalho
942
Rogeim. Géza: (ID 776
Romagnosi, Gian Domenico:
(11) 388
romanismo: (|) 107
romantismo: (11) 516
Rômulo: (1) 178, 180
Roscelino: ([) 136. 140
Roth: (DI
Rousseau, Jean-Jacques: (11)
dados biográficos 466, pri-
meiras obras 470, natureza e
civilização 473, o homem
primitivo 473, o retorno à
natureza 474, o sentimento
475, a educação progressiva
477, a liberdade 478,0 con-
trato social 480, o individuo
e o Estado 480,0 direito poli-
1061
tico 481,a lei 481, a religião
civil 482, a herança de Rous-
seau 482; (1) 182: (II) 280,
388, 437, 438, 449, 456 a
458, 484: (ID 526, 529,
534: (IV) 1008
Roy, Edouard Le: (II) 747
Royce, Josiah: (IE) 604, 706
Ruge, Arnold: (III) 602, 689
Ryle;Gilbert: (IV) dados biográ-
ficos 1026, a gramática lópgi-
ca 1029, a filosofia do espi-
rito 1029, critica ao
dualismo 1029
Rusconi, Gian Eurico: (IV) 946
Russell, Bertrand: (IV) episte-
mologia e metafísica 826, a
oposição ao idealismo 826,
análise lógica das proposi-
ções 827, o realismo radical
827, o significado em con-
texto 828, expressões deno-
tativas 828, os simbolos in-
completos 828, a construção
lógica 830, matemática e ló-
gica 832, a função proposi-
cional 833, proposições ele-
mentares 833, o simbolismo
lógico 834, números e classes
834, o paradoxo das classes
836, a hierarquia dos tipos
838, o empirismo 838, ato-
mismo lógico 839; (II) 268,
374, 376; (IH) 714, 715,
720: (IV) 796, 842, 872,
873, 906, 909
S abedoria: (1) 91
saber: (HI) 679
saber imediato: (HI) 598
Sacchi. Bartolomeo: ([) 187
Salomé, Lou Andreas: (IT) 628
Saint-Claire: (LI) 435
Saint-Simon: (III) 646, 647,
649,674,693
Salústio: (TT) 330
Salutatt, Coluccio: (1) 186
Sá, Manuel Joaquim Pereira:
(LIT) 656
Sánchez, Francisco: (1) 186;
(IN) 288
Santayana, George: (1) 156
Santos. Lúcio Alberto Pinheiro:
(111) 757
Sartre, Jean-Paul: (IV) dados
biográficos 886, obras 887,
1062
idéias filosóficas 889, a onto-
logia fenomenológica 889, o
ser-em-si 890, o absurdo
891, o nada 891, o tempo,
891, a consciência 892, o
corpo 892,a liberdade 892,a
existência 892, a responsabi-
lidade 892, obras literárias
892, humanismo existencia-
lista 894, o marxismo 895;
(HI) 616, 618, 622, 763;
(IV) 818
Saujon, Hypolite de: (TI) 438
Saussurre, Ferdinand: (IV) a
linguistica 966, obras 966, o
conceito de estrutura 967, a
lingua enquanto sistema 967,
linguagem, lingua e fala 967,
sincronia e diacronia 968,
significante e significado
968, o eixo paradigmático
969, o eixo sintagmático
969, 920, 986
Savonarola, Girolamo: (1) 171
Say, Jean-Baptiste: (ID) 557,
646
Sayão, Joaquim Pedro Manso:
(LD) 656
Scheller, Mase: (IV) 887
Schelling, Friedrich Wilhelm:
(I1) o Romantismo 516, sim-
bolo e arquétipo 516, dados
biográficos 516, obras 518,a
natureza 518, a obra de arte
520, a razão 521,0 absoluto
521, últimas obras 522, a
filosofia da mitologia 522:
(IT) 586 a 588: (1V) 951
Schiller, Friedrich von: (II)
626
Schlegel, August: (IT) 506. 513.
517
Schlegel, Fritz: (III) 617
Schleiermacher, Friedrich: (UI)
606, 726
Schlick, Moritz: (IV) dados bio-
gráficos 866, o conhecimento
866, metafísica e linguagem
866, o estatuto da filosofia
868, a reflexão critica 868, 0
circulo de Viena 868, empi-
rismo lógico 868, o princípio
da verificabilhdade 871
Schmidt, Alfred: (IV) 946
Schneider, Herbert W.: (IV)
786
Scholem. Gerschom: (IV) 948
Schopenhauer, Arthur: (III)
dados biográficos 606, obras
606. o mundo como represen-
tação 610, a vontade 611, a
experiência interna 611, o
irracional 611, o sofrimento
612, o pessimismo 612, a
arte 612. aética 613, 626
Schubert, Franz: (IV) 906
Schuhl, Pierre-Maxime: (1)
246
Sechehaya, Albert: (IV) 966
século das luzes: (II) 408
Seligman, Charles Gabriel: (IV)
849, 850
Sêneca, Annaeus: (1) dadas bio-
gráficos 100, obras 102,
210,219; (11) 330
sensações: (II) 530
sensório-motor. estágio: (IV)
1012
sentenças-objeto: (IV) 879
sentenças sintáticas: (IV) 879
sentenças, tipos de: (IV) 1042
sentido: (HI) 722: (IV) 812
sentidos: (TLD) 537
sentimento: (IT) 475
ser: (1) 12, 80: (IV) 890, 899
Serres. Michel: (ID 516
Sexto Empirico: (1) 214
Shakespeare, William: (1) 224;
(LIT) 655
Shelburne, William Petty, dito
lorde: (III) 666
Shiller, F.C. S.: (IV) 842
Sidegwick, Henry: (IV) 842
significado: (HT) 722: (IV) 828
significante: (TV) 968
signos: (TI) 540, 709
silogismo: (1) 76
silloi: (1) 12
simbólica, função: (IV) 1016
símbolo: (11)516, (IV) 828
sincronia: (IV) 968
sintagmático, eixo: (IV) 969
síntese: (TI) 298
Sintheim, Johannes: (1) 190
sintético: (IV) 1042
Sirven, Pierre Paul: (LI) 449
Skinner, Burrhus Frederic: (IV)
a.- psicologia experimental
1020, o condicionamento
operante 1020, esquemas de
reforço 1021, obras 1022,
reforço positivo e negativo
1022, o ensino programado
1022. reforço e a vida social
1022.981
Smart, J. J. C.: (11) 370
Smith, Adam: (III) dados bio-
gráficos 546, surgimento da
ciência econômica 546, o
mercantilismo 547, os valo-
res de uso 550, valor traba-
lho 550, a divisão do traba-
lho 550,0 liberalismo 551,a
mão invisível 551, a renda da
terra 551: (11) 435. 438; (EI)
558, 560, 562, 646, 655,
667, 693: (1V) 940
Smith, G. Elhot: (IV) 858
sociais, fatos: (TIN) 662
social, ação: (T[1), 566, 732
social, contrato: (II) 480
social, normalidade: (TIT) 662
social, patologia: (III) 662
social, reforço: (IV) 1022
social, solidariedade: (III) 662
social, vida: (IV) 1022
sociedade: (TIT) 670
Sociedade Positivista do Brasil:
(IT) 656
sociedade, reorganização da:
(HT) 654
sociologia: (TH) 653
Sócrates: (1) a democracia ate-
niense 27, o Julgamento 27,
depoimentos sobre Sócrates
32, Aristófanes - Platão -
Xenofonte 32, Aristóteles -
Diógenes Laércio 33, dados
biográficos 35, os sofistas
36,0 oráculo 38,0 diálogo
38, a ironia, 40, o demônio
40, a maiêutica 40, a virtude
42,a alma 42,202 23,50 a
52,54 a 58, 63, 77, 79.92,
140; (11) 475: (TI) 626. 627,
632. 633,635
socráticos menores: (1) 35
Soderini. Francesco: (1) 172
Soderini, Piero: (1) 172
sofistas: (1) 36
Sófocles: (1) 36,37
sofrimento: (II) 612
Sólon: (1) 49
Sombart, Werner: (III) 734
sonhos: (III) 774
Sorley, Willham Richtie: (III)
666
Spalatinus: (1) 195
Spencer, Gerbert: (III) 660;
(Iv) 802, 849
Spinden. H.S.: (IV) 858
Sraffa, Piero: (IV) Sraffa e sua
obra 940, a produção de mer-
cadoria 940, a mercadoria-
padrão 942, o valor trabalho
942
stalinismo: (IV) 928
status: (NI) 742
Steele, Richard: (LI) 430
Stekel, Wilhelm: (HIT) 776
Sterling. John: (HI) 674
Sitner, Max: (HI) 602, 689
Strauss, David Friedrich: (II)
518: (II) 602, 689
Strawson, Peter Frederick: (IV)
1037, linguagem e realidade
1037, a verdade 1037, a
metafísica descritiva 1039,
corpo-mente 1039
Stuart, James: (1) 346
subjetivismo: (IV) 818
sublimação: (HI) 774, 776
substância: (1) 80: (II) 332.
354
Sully, Maximilien de Béthune.
dito duque de: (IT) 448
superego: (III) 770, 774
surracionalismo: (III) 760
Swift, Jonathan: (D) 263; (ID)
414, 426. 430, 434, 436
Sydenham, Thomas: (IE) 347
Szeminska, A.: (IV) 1010
T ábuas de investigação: (1)
258
Tácito: (11) 330
Tales: (1) 46,57
Tannery. Paul: (1) 7
Tarski, Alfred: (IV) 876
tautologia: (IV) 914
Taylor, A. E.: (1) 31
Taylor, Harriet Hardy: (IT)
676
tecnicismo, critica ao: (IV) 962
tecnocracia: (IV) 804
Telesio. Bernardino: ([) 242;
(TD) 386
tempo: (IV) 891. 1014
temporais, séries: (IV) 1014
temporalidade: (IV) 902
Tencin, Claudine A. Guérinde:
(11) 415
Teodoro: (1) 51
teoria do conceito: (TIT) 716
teoria dos conjuntos: (TID) 719
teoria critica: (IV) 958
teoria econômica: (IV) 802
Terêncio: (II) 330
Terra: (D) XV
Tertuliano: (1) 113
Teseu: (1) 30. 178
Thoreau. Henri David: (III) 786
Tieck, Ludwig: (11) 51%
tipos, hierarquia dos: (IV) 838
tipos ideais (Weber): (IT) 730
Tito Caio: (1) 93
Tito Lívio: (11) 330: (III) 674
Tocqueville, Alexis Charles
Henri de: ([1) dados biográ-
ficos 582, a democracia 582,
obras 583
Toland, John: (II) 46]
Tomás de Aquino, Santo: (1)
dados biográficos 1146, obras
146, fé e razão 146, difusão
do aristotelismo 148, essên-
cia e existência 1148, Deus e
seus atributos 148, provas da
existência de Deus 148, as
criaturas: anjos e homens
150, combate às heresias
152, idéias políticas 152,
143. 156. 160.175: (11) 300,
452
tomismo: (1) 156
Torricelh, Evangelista (II) 306
trabalho: (LI) 550. 694. 70]
Tracy. Destutt de: (III) 526.
539, 540, 542,646
tradutibilidade: (TV) 996
tragédia: (1H) 633
transcendência: (IV) 812
transcendental. dedução: (IE)
491
transcendental, esquematismo:
(11) 492
transcendental. cu: (IV) 813
transcendental. unaginação:
(Iv) 812
transferência: (II 775
transponibilidade: (TV) 996
Traversari, Ambrogio: (1) 201
Troeltsch, Ernst: (TIN) 734
Tronchim, J. B.: (1) 472
Trotsky. Leon: (IV) 796, 816
Troubetzkoi, Nicolas Serguei-
vitch: (IV) 970, 1000
Tucidides: (11) 266
Turgot. Anne Robert Jacques:
(11) 437, 456
Tyndale, Willham: (1) 203
Tzars. Tristan: (HT) 760
Ida. H.J.: (1V) 975
Ulisses (Odisseu): (1) VIL.
X.XIH
universais, questão dos: (1) 140
1063
Urbano IE: (1) 132
Urmson: (IV) 1030
utilitarismo: (|) 255: (11) 442:
(1H) 668.670
À 7 alério: (D LO
Valéry. Paul: (11) 516
Valla, Lorenzo: (1) 186. 188.
207,
valor, lei do: (HIT) 559
valor-trabalho: (TIL) 550, 559
valores: (ID 341; (IV) 918
valor de uso: (HI) 550
Vaugelas, Claude Favre Péro-
ges. dito: (IV) 986
Vaux, Clotilde de: (HI) 648
vazio: (1) 22
Veblen, Thorstein Bunde: (IV)
dados biográficos 802, obras
802, teoria econômica 802, a
tecnocracia 804
verdade: (1) 12: (11) 334, 357:
(UN) 639: (IV) 791. 882,
876.912,1037
verificabilidade: (IV) 793. 871.
882, 897
Vico, Giambattista: (1!) am-
hiente cultural 386, dados
biográficos 386, obras 387,
influências 388, oposição 20
cartesianismo 391, o veros-
simil 391, o verdadeiro e o
feito 393, 0 valor da história
397. ciências naturais e ciên-
cias históricas 398, a lingua-
gem 398, linguagem mítica e
linguagem silogistica 400, as
idades da evolução humana
402, a providência divina
402,44
vida, instintos de: (HI) 773
Viena, círculo de: (IV) 866 a
B68B.871a 873
Vinci, Leonardo da: (1) 1%:
227; (111) 776
Virgílio: (TD) 330. 374.0 434,
470
vertes (0) 177. 180: (11) 34]:
(UT 640
virtude (areté): (O) NT NNE,
42,43
Vitelh. Paolo: (D) 171
Vitória J: (UI) 554
Volland. Sophie: (TT) 458, 1460
Voltaire, François Marie
”
1061
Aroquet, dito: (IT) dados bio-
gráficos 446, obras 446, evo-
lução intelectual 450, o em-
pirismo 450, o ceticismo
450, o deismo 452, a ética
452, justiça e liberdade 452;
(D) 182: (11) 408. 156 à 158.
470:(111)526,529
voluntarismo: (1) 120
vontade: (HD) 611:(14)917%
W agner. Richard: (II)
626 a 628. 630
Wahl. Jean: (TI) 617. 622
Waismann, Friedrich: (IV) 868
Waldegrave. Lorde: (1) 414
Walpole, Horace: (TT) 414, 448.
472
Ward, James: (IV) 842
Warens. Louise Eléonore. Se-
nhora: (IT) 469, 470
Warnock: (1V) 1030
Washington, George: (IT) 570.
576.578
Watson. John B.: (HT) 674: (IV)
1020
Weber. Ernst Heinrich: (UI)
TAB: (IV) BL6, 1020
Weber, Max: (III) antecedentes
culturais 726, o estatuto das
ciências humanas 726, expli-
cação e compreensão 726,
dados biográficos 726, o mé-
todo das ciências sociais 728,
o método compreensivo 728.
os tipos ideais 730, a con-
irastação conceitual 722. as
hipóteses 732,0 racionale o
irracional 732, tipos de ação
social 733, a correta inter-
pretação causal 734, a socio-
logia da religião 734, capi-
talismo e protestantismo
734, o fator ético 734, a
vocação 738, teorias politi-
cas 741, tipos de autoridade
42
Werner. Jaeger: (1) 72
Whewell. Willham: (HI) 675
Whitehead. Alfred North: (IV)
1040
Wigel, Ehrard: (ID 274
Windelband, Wilhelm: (1) 246:
(1) 266, 375. 526: 41H) 726
Wisdom. John: (IV) a filosofia
analítica 1026, 0 positivismo
terapêutico 1026. o grupo de
Oxford 1026
Witt, Cornelius: (ID) 331
Wittfogel: (IV) 947
Wittgenstein, Ludwig Josef Jo-
hann: (IV) dados biográficos.
906, obras 909, as proposi-
ções do Tractatus 911, a lin-
guagem como figuração 911,
o nome 912, as proposições
912, as funções de verdade
912, tautologia e contradição
914, o mundo e a vontade
917, os valores 918, a ética
918, a metafísica 919, o “se-
gundo” Wittgenstein 920, o
feitiço da linguagem 920, os
Jogos de linguagem 920. na-
tureza e papel da filosofia
922, 0 legado de Wiugen-
stem 922. Wittgenstem e o
Positivismo Lógico 922, 839.
842, 868. 871, 877. 1026.
1032
Witt. Johannes de: (1) 330
Wolff, Christian: (ID) 486 (IT)
594
Wolsey. Thomas: (D) 201
Wordsworth. Willham: (11D 671
Wreschner: (TV) 1008
Wright. Chauncey: (TV) 791
Wundt. Wilhelm: (II) 660:
(IV) 846. 1020
X7 antipa:(D3]
Z 4 Xenócrates: (1) 68
Xenófanes: (D) 11. 12, 15. 16.
213
Xenofonte: (1) 32, 34, 37. 38.
51: (II) 674
Y oung. Edward: (1) 448
Z afiropulo: (|) 14
4d Leller: (|
Zenão: de Eléia (D) 11. 12. 14.
17. 22, 95, 98. 101. 102.
219
Zeus: (DX. XV.98
PLANO DA OBRA
Os Pensadores é uma coleção composta por cinquenta e dois livros, acompa-
nhados por fascículos e publicados quinzenalmente. Os fascículos apresentam a vida
e as idéias dos maiores pensadores de todos os tempos, desde a Grécia antiga até os
nossos dias. Os livros contêm as principais obras escritas por esses construtores das
grandes correntes do pensamento filosófico e científico do Ocidente.
Encadernados, os fascículos constituirão quatro volumes de uma História das
Grandes Idéias do Mundo Ocidental, abrangendo a Antiguidade greco-romana, a
Idade Média, a Renascença, a Idade Moderna e a Contemporânea. Cada fascículo
tem vinte páginas e todas elas deverão ser encadernadas, seguindo-se a ordem dos
números de capítulos. As capas duras para encadernação dos fascículos serão acom-
panhadas de um fascículo grátis, que servirá de introdução aos diferentes periodos
históricos. Desse modo, cada volume da História das Grandes Idéias do Mundo Oci-
dental será formado por grupos de treze fascículos, mais um fascículo introdutório.
O índice geral sairá juntamente com a capa dura do quarto volume.
Ao final da série, portanto, o leitor terá uma coleção de cingienta e seis volumes,
cinquenta e dois contendo obras dos grandes pensadores e mais os quatro volumes
compostos pelos fascículos encadernados.
ORIENTAÇÃO PARA ENCADERNAÇÃO DOS FASCÍCULOS
A sequência correta para encadernação dos fascículos de OS PENSADO-
RES é determinada pelos númgros dos capítulos e, consequentemente, pelos
números das páginas. Alguns fascículos contêm mais de um capítulo. Isso con-
fere ao primeiro volume — formado por 13 fascículos, mais a Introdução — a
seguinte constituição:
Introdução
Capítulo 1
Capítulo 2
Capitulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capitulo 11
Capitulo 12
Capitulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capitulo 16
Capítulo 17
Capitulo 18
Capítulo 19
Capitulo 20
DO MITO À FILOSOFIA
PRÊÉ-SOCRÁTICOS
SOCRATES
PLATÃO
ARISTÓTELES
EPICURO
CÍCERO, SÉNECA, MARCO AURÉLIO
Cesesecesesesoso.
da pág. Ia XVIII
da pág. 9 à 24
ERR ágio —« da pág. 25 344
da pág. 45 à 64
da pág. 65 a 84
da pág. 85 à 94
da pág. 95 à 104
STO. AGOSTINHO . nn ccreceemceemseemeeceneeneoa da pág. 105 à 124
SPO ANSELMO asa co cae sda atacrscadaça da pág. 1254 134
ABELARDO comcecenceneccencerce da pág. 135 à 144
STO. TOMÁS DE AQUINO da pág. 145 a 154
DANTE da pág. 155 a 158
DUNS SCOT E OCKHAM da pág. 159 a 164
MAQUIAVEL pda da pág. 165 à 184
ERASMO da pág. 185 à 198
THOMAS MORE da pág. 199 à 204
MONTAIGNE ca eneramnça da pág. 205 à 224
BRUNO da pág. 225 à 234
GALILEU da pág. 235 à 240
CAMPANELLA «da pág. 241 à 244
BACON aid si acaso rara ecoa canoa «da pág. 245 à 264
..
Goi
em ato mm 14
ORIENTAÇÃO PARA ENCADERNAÇÃO DOS FASCÍCULOS
A sequência correta para encadernação dos fascículos de Os Pensadores é
determinada pelos números dos capítulos e, consequentemente, pelos núme-
ros das páginas. Alguns fascículos contêm mais de um capítulo. Isso confere
ao quarto volume — formado por 13 fascículos — a seguinte constituição:
Capítulo 59 WILLIAM JAMES ..........ccccc.. da pág. 785 à 794
Capítulo 60 DEWEY ......ccciciiiciii da pág. 795 à 800
Capitúlo-6l VEBLEN Sera E an da pág. 801 à 804
Caprulo-62. HUSSERL, sra sa AE O ER REG da pág. 805 à 814
Capitulo 63 MERLEAU-PONTY ........c.cc. da pág. 815 à 824
Capítulo 64 RUSSELL umas oracao ra da pág. 825 à 840
Capitulo-65 MOORE essas Dc opisri ori son ge ad da pág. 841 à 844
Capítulo 66 MALINOWSKI ........ccos ss. da pág. 845 à 864
Capítulo 67 SCHLICK, CARNAP, POPPER ......... da pág. 865 à 884
Capitulo 69:SANIHE sa ssa ami cal sida End E da pág. 885 à 896
Capítulo 69 HEIDEGGER ............cccc. da pág. 897 à 904
Capítulo 70 WITTGENSTEIN .......ccccccc. da pág. 905 à 924
Capítulo 71 KEYNES, KALECKI, SRAFFA, ROBIN-
SONS Ee idade RR Re o ANNA nte RR REED - da pág. 925 à 944
Capítulo 72 BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO,
HABERMAS. sussa RT AS - da pág. 945 à 961
Capítulo 73 SAUSSURE, JAKOBSON, HJELMSLEV,
CHOMSKY DER RE code RE Ro SR PAD RD - da pág. 965 à 984
Capítulo 74 LEVI-STRAUSS ........cccc.c... da pág. 985 à 1004
Capitulo 75 PIAGET. ssa ada a na a da pág. 1005 à 1018
Capítulo 76 SKINNER 2 canas tuas eua as da pág. 1019 à 1024
Capítulo 77 QUINE, STRAWSON, RYLE, AUSTIN .. da pág. 1025 à 1044
INDICE GERA Ds tos dica ca ERR L E Ce da pág. 1047 à 1064
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